23 de fevereiro de 2009

O horror do vazio

O jornalista Mário Crespo publicou no passado sábado no Jornal de Notícias a seguinte opinião sobre dois dos temas actualmente mais polémicos na sociedade portuguesa:


"Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido.Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia. Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte. No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica "a morte do sentido de tudo" dos Niilistas de Nitezsche. A discussão entre uma unidade matrimonial que não contempla a continuidade da vida e uma prática de morte, é um enunciar de vários nadas descritos entre um casamento amputado da sua consequência natural e o fim opcional da vida legalmente encomendado. Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência, que o presidente e o secretário-geral do Partido Socialista querem pôr à consideração de Portugal. Um sombrio universo em que se destrói a identidade específica do único mecanismo na sociedade organizada que protege a procriação, e se institui a legalidade da destruição da vida. O resultado das duas dinâmicas, um "casamento" nunca reprodutivo e o facilitismo da morte-na-hora, é o fim absoluto que começa por negar a possibilidade de existência e acaba recusando a continuação da existência. Que soturno pesadelo este com que Almeida Santos e José Sócrates sonham onde não se nasce e se legisla para morrer. Já escrevi nesta coluna que a ampliação do casamento às uniões homossexuais é um conceito que se vai anulando à medida que se discute porque cai nas suas incongruências e paradoxos. O casamento é o mais milenar dos institutos, concebido e defendido em todas as sociedades para ter os dois géneros da espécie em presença (até Francisco Louçã na sua bucólica metáfora congressional falou do "casal" de coelhinhos como a entidade capaz de se reproduzir). E saiu-lhe isso (contrariando a retórica partidária) porque é um facto insofismável que o casamento é o mecanismo continuador das sociedades e só pode ser encarado como tal com a presença dos dois géneros da espécie. Sem isso não faz sentido. Tudo o mais pode ser devidamente contratualizado para dar todos os garantismos necessários e justos a outros tipos de uniões que não podem ser um "casamento" porque não são o "acasalamento" tão apropriadamente descrito por Louçã. E claro que há ainda o gritante oportunismo político destas opções pelo "liberalismo moral" como lhe chamou Medina Carreira no seu Dever da Verdade. São, como ele disse, a escapatória tradicional quando se constata o "fracasso político-económico" do regime. O regime que Sócrates e Almeida Santos protagonizam chegou a essa fase. Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos."

10 comentários:

Nuno disse...

Mário Crespo surpreendeu-me!

Ainda me lembro dum debate entre Mário Soares e Basílio Horta para as presidenciais... Aquilo, moderado por Mário Crespo, acabou numa sensacional peixeirada...
Passaram-se vários anos e Mário Crespo tem marcado pontos pela sua opinião certeira, correcta e construtiva! Ainda bem.

n disse...

Viva P.Alfredo! Antes de mais obrigado pelos seus textos que vou lendo e que gosto muito.
Já tinha lido este artigo. Está muito bom.
Ao reler lembrei-me de um outro texto, de Bento XVI, recente e que também gostei muito. Aqui fica:
http://www.zenit.org/article-20895?l=portuguese
Não tem directamente a ver, mas indirectamente acho que tem imenso.
Abraços

alfredo dinis disse...

Caro Nuno,

Muitas vezes reduz-se uma discussão, sobretudo se é de natureza ética, a um confronto entre a posição da Igreja Católica e a do resto do mundo. O que de facto acontece é que há em todos os debates pessoas que defendem posições semelhantes às da Igreja sem que sejam elas mesmas crentes. Penso que é possível defender as posições éticas da Igreja sem recurso ao argumento das autoridades bíblica ou eclesiástica. O texto de Mário Crespo é um exemplo disso, por essa razão o coloquei aqui.

Um abraço,

Alfredo Dinis,sj

alfredo dinis disse...

Caro Nicolau,

Obrigado pela indicação do texto relativo à intervenção de Bento XVI sobre a liberdade. Este é um dos termos mais utilizados hoje em dia e também dos mais erradamente compreendidos. Concordo com a posição do Papa.

Um abraço,

Alfredo Dinis,sj

Duarte Meira disse...

"Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos."

A "incapacidade" - demasiado continuada e sistemática para ser meramente incompetência - vem desde 11 de Maio de 1984 e concluiu-se com o aluimento do Estado de Direito em Portugal no dia 11 de Fevereiro de 2007.

Pena, muita pena que a Igreja Católica institucional portuguesa pareça publicamente mais empenhada com questões de registos civis de divórcios e de casamentos...

alfredo dinis disse...

Caro Duarte,

Nem todos os leitores deste blog têm presente os factos a que se refere. Quer explicitá-los?
Obrigado.

Alfredo Dinis,sj

Duarte Meira disse...

Caro Alfredo Dinis:

Um olvido significativo?!

Lembrava eu a legalização do abortamento em Portugal, isto é (em 2007): o homicídio - "a pedido" - dos seres humanos nas primeiras dez semanas de existência!

Como é possível terdes esquecido um tal terramoto moral?

E será que também não reparais nas sequelas dele na informação quotidiana que os jornais dão do gangrenado estado mental e social da nossa "justiça"?...

Repito: erradicada o princípio de todo o Direito - a protecção dos mais fracos -, finou-se o Estado de Direito no nosso país!

PPV disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
PPV disse...

caros filósofos,

Vamos seguindo como podemos o vosso filosofar e aproveitamos o ensejo do último comentário do Duarte Meira para vos deixarmos um desafio a participar na "1ª Convenção Portugal pro Vida". Mesmo os que eventualmente não possam participar daparte de tarde (sabemos que há um encontro em Braga no dia 14 pelas 15h) podem enviar-nos as suas propostas políticas para "Cuidar dos Vivos", curiosamente uma expressão do Sr. marquês por quem até Pedro Arrupe rezou um dia...

Luis Botelho

PS - p.f. enviai-nos os vossos endereços email para portugalprovida@gmail.com e ajudai-nos a "levantar hoje de novo" um... Portugal pro Vida!

freefun0616 disse...

酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店經紀,
酒店打工經紀,
制服酒店工作,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
酒店經紀,

,酒店,