4 de fevereiro de 2009

S. João de Brito - A sua esperança estava cheia de imortalidade



As almas dos justos estão nas mãos de Deus

e nenhum tormento os atingirá.

Aos olhos dos insensatos parece­ram morrer,

a sua saída deste mundo foi tida como uma desgraça,

a sua morte, como uma derrota.

Mas eles estão em paz.

Se aos olhos dos homens foram castigados,

a sua esperança estava cheia de imortalidade.

Sab 3, 1-4


Ao golpe da espada, cai na terra o sangue, a vida toda em testemunho. Mártir como o Mestre, aos olhos da Índia está o sinal de contradição. A uns parece morrer na desgraça. Para outros está em paz, cheio de imortalidade.

Como outros antes e depois dele, sobressai em S. João de Brito a generosidade de quem está atento ao bem mais necessário, não necessariamente o mais evidente para si mesmo, mas o que sente ser-lhe dito por Aquele a Quem escuta atentamente.

Em Coimbra, já em formação na Companhia de Jesus, ouve as cartas de Francisco Xavier, as notícias dos missionários do Oriente, como apelo do que era mais necessário fazer por Cristo, a Quem escutava. Na Índia, dá um dos exemplos mais impressionantes de inculturação na história da Igreja, adaptando-se aos costumes e hábitos daquele povo. Aprende as suas línguas, veste-se e come como eles, penetra no interior da terra e da cultura, cativando o afecto de quantos o conhecem ao adoptar os hábitos austeros dos brâmanes gentios, capaz de se abrir ao sentir e pensar de uma outra cultura e nela anunciar Deus, não para a anular, mas para a realizar plenamente. Está atento e escuta as comunidades cristãs que vê nascer à sua frente, dando o seu sangue na fidelidade e dedicação com que percorre matos densos e atravessa rios a nado, para socorrer ao necessário, para acompanhar os que estão ao seu cuidado.

O que hoje é mais extraordinário porque nos causa maior estranheza, é o modo como desejava morrer em martírio. Não que procurasse deliberadamente a prisão e a morte, mas também sem delas fugir fosse por que boa razão fosse. O próprio diz: “ Agora espero padecer pelo meu Deus e meu Senhor a morte buscada duas vezes na Índia, na missão do Maravá, na verdade com grande trabalho, mas com prémio incomparável”. Anseia morrer como mártir, dar a vida pelo seu Senhor. Porquê, se vivo poderia fazer tanto que ainda havia por fazer? Porquê entregar-se assim louco nas mãos da morte? João sabia que a sua morte era inevitável, como a de tantos missionários antes dele, mas não era uma derrota, nem uma fatalidade.

Cheio de imortalidade, perdera o medo da morte. Esta era a consumação do sinal, o mesmo sinal de contradição que acompanhou a vida e culminou na morte do Eterno. Escutara a vida do Mestre até ao último momento, quando o sangue e a vida caem na terra.


João de Brito nasce a 1 de Março de 1647. Em 1662, com 15 anos, pede para entrar no Noviciado da Companhia de Jesus, em Coimbra, onde vai aprender o modo de proceder de um jesuíta. Durante o noviciado cresce em si o desejo de ir para a Índia, face aos apelos constantes dos missionários que de lá mandavam notícias, que tocavam grandemente o coração do jovem. Chegando a Goa, interessa-se por aprender as línguas faladas na Costa da Pescaria, onde vivera São Francisco Xavier. Procura conhecer e adaptar-se aos costumes e às ideias daqueles povos. No Madure, aprende a língua tamil. As dificuldades com que se depara são inúmeras. Vem a Portugal em 1687, enviado pelos seus companheiros do Maduré, depois de 14 anos de intensa vida missionária na Índia, com frutos abundantes em baptismos e conversões, mas ao lado de muitos dissabores. De novo na missão, Os brâmanes desencadeiam, em várias povoações, violentas perseguições contra os cristãos e, principalmente, contra o missionário, tendo conseguido obter licença do rei para os prenderem e maltratarem. O Padre João de Brito não se cansa de encorajar e animar os fiéis. Mas ele próprio é sujeito a injúrias e castigos corporais, é torturado, sofre a fome, a sede e o cansaço, a ponto de os próprios sacerdotes hindus dessas povoações se compadecerem dele. Em 1693, acontece o que se previa pelo facto de ele continuar a fazer cristãos e a proibir alguns costumes hindus aos que se baptizavam. Preso nos primeiros dias do ano, os insultos, a fome e a sede são as constantes da sua vida, nas comunidades e no cárcere, onde confessa a sua fé cristã. Todos os companheiros jesuítas e os cristãos imploram a Deus para que não lhe falte a fortaleza necessária nos momentos tão difíceis que está a viver. O rei entrega-o nas mãos dos algozes que o levaram a um lugar não longe da fortaleza, em Oriyur. O missionário pede algum tempo para rezar. Em seguida, abraça os algozes, faz o sinal da cruz, e de mãos postas inclina a cabeça esperando o golpe mortal.