5 de fevereiro de 2009

São Paulo Miki e companheiros mártires

Texto de Francisco Machado, sj - jesuíta português em formação na China

Do pouco que conheço da vida de São Paulo Miki partilho dois aspectos que me chamam a atenção, especialmente agora que também me encontro em terras de missão onde os cristãos são uma minoria.
Impressiona-me, em primeiro lugar, o zelo com que estes cristãos vivem a fé que receberam de Deus através dos missionários. Às vezes penso que a nossa cultura Ocidental, na qual o Cristianismo está fortemente enraizado (ainda que hoje não pareça), se tornou um obstáculo a uma vivência profunda e concreta da fé. Todos nós, sejamos mais ou menos crentes, mais ou menos praticantes, contactámos desde sempre com a Igreja, com a figura de Jesus, com alguma noção de Deus, com figuras de santos e santas, com tradições, com os sacramentos, … Em princípio, julgo que isto deveria ser um estímulo à fé, ao desejo de conhecer e aprofundar a importância que a religião teve para grande parte dos nossos antepassados, ao interesse pela figura de Cristo a que chamamos Salvador. Mas, talvez por falta de zelo, coerência e autenticidade de nós crentes, e por uma certa inércia e cómodo desinteresse dos não crentes, o Cristianismo vai perdendo espaço na vida de cada vez mais pessoas.
Paulo Miki, pelo contrário, vivia num mundo em que Deus, Jesus, ou a Igreja não significavam grande coisa. Nada nas suas raízes culturais os faria em princípio aderir à fé cristã mas, talvez nas suas raízes mais profundas (aquelas comuns a todo o ser humano), souberam encontrar um desejo de Sentido e de Encontro mais forte que todas as culturas e tradições. Mais do que isso, não só receberam o conhecimento e o dom da fé, como souberam agarrá-lo com as suas vidas. Por isso deram muito fruto.
Outro aspecto que me chamou a atenção é o modo como este(s) santo(s) souberam aliar todos os esforços humanos de que eram capazes, à eficácia e graça divina que não controlamos mas da qual dependemos inteiramente. Para não me alongar muito, lembro apenas o detalhe da vida destes mártires que, ao serem conduzidos para as cruzes onde iriam morrer, não deixaram de recorrer ao seu Senhor rezando um Te Deum pelos seus perseguidores. Se passaram a vida a servir os outros, com as obras de caridade mais variadas, souberam sempre recorrer a Deus que é a única e verdadeira fonte de eficácia e de salvação em tudo o que fazemos de bem. Não lhes bastou realizar o gesto mais concreto de amor que pode haver – dar a própria vida – eles quiseram pedir a Deus por todos os seus irmãos japoneses.
Todos nós, seja no “Ocidente Cristão”, seja nos lugares mais remotos de missão, podemos aprender muito com estes santos – Paulo Miki e companheiros. Sejamos mais ou menos crentes, todos temos um lado ainda não convertido que precisa aprender a valorizar e aprofundar mais a fé, saber olhá-la como o maior tesouro e não como algo banal e simplesmente adquirido. Por outro lado todos, mais ou menos crentes, precisamos de aprender a ser mais coerentes com aquilo em que acreditamos, com os valores profundos que realmente dão sentido à vida e fazem do mundo um lugar melhor.
Nós que somos cristão vivemos hoje num mundo, cuja cultura já não reconhece a fé como algo essencial à felicidade. Tal como Paulo Miki, a nossa vida deve falar mais alto do que as nossas palavras (ele que era um grande pregador) e o amor que nos esforçamos por pôr em cada gesto deve vir acompanhado de uma confiança inabalável na acção de Deus que acontece sempre que amamos verdadeiramente.
Acabei por alongar-me, e termino partilhando as palavras de um padre da comunidade onde vivo. Trata-se de um jovem com os seus oitenta e muitos anos, que trabalha pala fé no Oriente há mais de 50 anos. “Sabes, Francisco, a coisa mais importante que podemos fazer por estas pessoas é rezar por elas no nosso coração, pedir a Deus que lhes chegue ao coração. Temos que ser uma presença visível de Deus num mundo em que Ele é cada vez mais invisível.” Passou a vida a trabalhar e a servir esta gente, e ao mesmo tempo está convencido que nada transforma tanto os corações como uma prece de intercessão ou uma missa bem celebrada.