19 de março de 2009

Novo tsunami sobre declarações do Papa


Durante a recente viagem de avião para África, o Papa respondeu a várias perguntas dos jornalistas. A única coisa que correu mundo foi a ideia de que o Papa afirmou que o preservativo não resolve o problema da Sida. Logo se levantaram vozes por toda a comunicação social a condenar as palavras do Papa: um verdadeiro tsunami. Não sei quantas pessoas se deram ao trabalho de ler a declaração do Papa. Ele não se referiu ao uso do preservativo de um ponto de vista ‘técnico’, nem sequer médico, mas sim de um ponto de vista ético e espiritual. Deste ponto de vista, o Papa refere-se à solução do problema da Sida não numa perspectiva avulsa mas sim como uma proposta enquadrada num projecto de vida, num esforço de transformação do estilo de vida das pessoas, de uma humanização da sexualidade e não de uma sua mera instrumentalização, como sucede cada vez mais. Neste sentido, confiar que, só por si, o preservativo vai erradicar a Sida da África ou de outro continente qualquer, é de facto um engano, uma vez que pode dar às pessoas uma falsa segurança, bem como a ideia de que não é necessário mudar o estilo de vida nem humanizar a sexualidade. O Jornal Público de hoje, quarta-feira, informava que em Washington entre 3 e 5 por cento da população está infectada com o vírus da Sida. Não creio que isso seja devido à proibição do uso do preservativo mas sim a um estilo de vida desresponsabilizante no que se refere às relações interpessoais em geral e à sexualidade em particular.

80 comentários:

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«o Papa refere-se à solução do problema da Sida não numa perspectiva avulsa mas sim como uma proposta enquadrada num projecto de vida, num esforço de transformação do estilo de vida das pessoas,»

Mesmo que seja essa uma função legítima do Papa, mudar o estilo de vida das pessoas, e mesmo que a visão católica do sexo seja a única que é correcta, o que me parece ser algo ao qual dás mais crédito do que devias, mesmo assim seria razoável primeiro salvar a vida das pessoas acabando com a epidemia da forma mais rápida (que é com os preservativos) e depois logo ver quem quer mudar o seu estilo de vida.

Pregar moralismos acerca do sexo dos outros enquanto as pessoas morrem parece-me claramente condenável.

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

É indiscutível que o preservativo não RESOLVE o problema da SIDA, assim como é indiscutível que foi isso que o Papa afirmou.

Em sentido literal isto tem tanto valor como eu afirmar que o preservativo não resolve o problema das dores de cabeça, ou seja, nenhum.

Acontece porém, que o preservativo ajuda a PREVENIR o problema, enquanto que as palavras do Papa, apesar de bonitas como habitualmente, não passam de isso mesmo.

Mas enquanto a ciência não resolver este problema, o preservativo é ao única forma exequível para ajudar a minorar os seus efeitos. Mesmo não o resolvendo o problema creio que ainda é muito mais eficaz que a solução proposta pelo Papa, esta, sim irrealista, impraticável e especialmente grave no contexto em que foi proferida.

Renovados cumprimentos do Xiquinho

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,
É muito mais fácil dizer que o stress se resolve com uns comprimidos sempre que a pessoa se sente mais cansada. Mas esta é uma solução avulsa. A solução do stress resolve-se com uma mudança no estilo de vida das pessoas. O que é bem mais difícil de realizar. Deveremos então deixar de falar nessa solução?

Alfredo

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

A questão do preservativo não tem a ver apenas com o problema da prevenção da sida. Tem a ver fundamentalmente com o estilo de vida de muitas pessoas. No Público de ontem vem a informação de que de 3 a 5% dos habitantes de Washington está infectado pelo vírus da sida. Em parte por não usarem o preservativo. Mas quem os proíbe? O problema aqui não está no preservativo, embora pareça que sim. Está na instrumentalização da sexualidade e na sua desumanização. É sobre isto que o Papa fala.

Alfredo

Ludwig Krippahl disse...

Caro Alfredo,

O stress e a transmissão de doenças infecto-contagiosas devem ser tratados de formas diferentes porque o mesmo tratamento não é igualmente eficaz em ambos os casos.

Seja como for, mesmo como uma má analogia, se o stress for um problema grave (e milhões de vidas em risco é um problema grave) então deve-se controlar com medicação e, uma vez controlado, procurar a solução a longo prazo pela mudança do estilo de vida.

Mas quando o problema é urgente e grave deve-se atacá-lo com os meios mais eficazes a curto prazo para que se possa implementar, com tempo, outras soluções. Se deixamos o paciente morrer é que não lhe podemos melhorar o estilo de vida...

Além disso há aqui a premissa implicita que o estilo de vida que o Papa prefere é melhor que qualquer estilo de vida que os africanos possam ter usando preservativos. Essa premissa requer uma justificação porque, à partida, não faz sentido.

Quando alguém tem sexo com preservativo, quem é prejudicado e porquê?

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

O pressuposto de que partes é o que é hoje mais comum: a pessoa é um ser individual e livre, e a sua liberdade consiste em fazer ou não fazer o que quiser sem a isso ser obrigado ou disso ser impedido. "Faço o que muito bem me apetece e ninguém tem nada a ver com isso!" é a afirmação que melhor exprime este individualismo. Embora tal pressuposto esteja muito generalizado, não é o único. Há um segundo pressuposto que vê a pessoa como elemento de uma rede de interacções interpessoais que não lhe são exteriores mas que a constituem como tal. Isto não é a conhecida afirmação de que o homem é um ser social, mas sim a afirmação de que são as relações interpessoais que fazem o ser humano ser quem é. Nesta perspectiva, o que faço ou deixo de fazer não me afecta apenas a mim, mas a muitos outros, ainda que isso nem sempre seja evidente.

Acresce ainda que os nossos actos e opções podem ser vistos numa perspectiva atomística, como se cada um deles tivesse uma existência autónoma e independente do contexto existencial da minha vida. Mas há outra perspectiva. Usar ou não usar o preservativo tem a ver não apenas com quem o usa, e não é um acto isolado do resto das escolhas que a pessoa faz. Por isso, a questão dos contraceptivos em geral e dos preservativos em particular não pode ser tratada de um modo simplista como é habitualmente.

Saudações,

Alfredo

Nuno disse...

A SIDA apareceu porquê?
Parece consensual que o problema apareceu em São Francisco, nos Estados Unidos, no meio da comunidade homossexual e nos ginásios por eles frequentados. É também indicada uma "actividade sexual" desregrada e que envolve muitas pessoas.

Ora, o uso do preservativo é um factor inibidor da "actividade sexual" ou um desinibidor?

A sexualidade é uma das mais importantes características humanas, mas não deixa de ter a responsabilidade em conta. Responsabilidade quanto ao seu corpo e ao corpo do outro.

A distribuição - à toa - dos preservativos, como acontece hoje, não tem nada a ver com responsabilidade (e muito menos com amor!).

zé disse...

Caro Afredo,

Obrigado pelo "post" que parece mais esclarecedor que a comunicação social. No entanto, fiquei com algumas dúvidas.

Poderia explicar melhor o que quer dizer com esta afirmação:
"Usar ou não usar o preservativo tem a ver não apenas com quem o usa, e não é um acto isolado do resto das escolhas que a pessoa faz. Por isso, a questão dos contraceptivos em geral e dos preservativos em particular não pode ser tratada de um modo simplista como é habitualmente".

Se uma pessoa viver realmente "como elemento de uma rede de interacções interpessoais que não lhe são exteriores mas que a constituem como tal", então, não poderá utilizar preservativo?

Toda e qualquer relação verdadeira e autêntica de amor (caridade-comunhão) exclui o preservativo?

Porque é que a Igreja "parece" proibir os métodos chamados artificiais? Será que estes são um "mal" em si mesmos? Mas, se existir uma relação de amor (caridade-comunhão) não poderá até constituir um bem estes mesmos contraceptivos?

Até que ponto se pode absolutizar um único método (os chamados [indevidamente?] naturais) como a igreja o faz?

Qual é o problema de um casal que se ama mutuamente em amor-caridade-comunhão utilizar, por exemplo, o preservativo?

Cumprimentos

Teófilo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Não deveríamos começar por tentar aceitar que a sexualidade é parte do ADN do ser humano?
O sexo não pode ser encarado apenas como uma necessidade racional da procriação e garantia de preservação das espécies ou como um exercício animalesco, entre dois seres. O amor e carinho trocado entre duas pessoas é essencial para a sua auto-estima e bem estar social.
Acho que a igreja devia utilizar o seu potencial poder para influenciar as pessoas não só a seguir a visão católica como a adquirirem hábitos de higiene e saúde sexual, onde a utilização do preservativo é de capital importância.
É necessário humildade para reconhecer que é utópico impedir a sexualidade fora dos cânones que a igreja católica advoga.
Salvar vidas em primeiro lugar e só depois salvar as almas!
José Farinha

alfredo dinis disse...

Caro Zé,

Parece-me um equívoco partir do pressuposto que a posição da Igreja Católica em matéria de sexualidade é um exclusivo seu, e que a sociedade vai por outros caminhos. Há pessoas que não se reconhecem em nenhuma religião e que tem posições semelhantes às dos católicos.

A Igreja Católica - e não só ela! - considera que as relações sexuais são a expressão do amor que existe entre duas pessoas que assumiram esse amor de forma madura. É por esta razão que às relações antes e fora do casamento falta este elemento fundamental: serem a expressão de um amor maduro.

O amor maduro tem entre outras características a de não ser fechado mas aberto. Duas pessoas que se amam mas se fecham em si mesmas vivem um amor limitado. O amor abre-se à transmissão da vida, embora esse não seja o seu único fundamento. Mesmo quando o casal não pode ter filhos, ou durante o período de infertilidade da mulher, o amor entre marido e mulher deve permanecer intencionalmente aberto à vida. O uso do preservativo e todos os métodos artificiais contradizem essa abertura à vida.

O amor leva também à união entre as pessoas que se amam. O preservativo ustilizado entre duas pessoas fora do casamento apenas por diversão e para evitarem 'complicações', ou, como se diz com frequência, para se 'protegerem', contradiz a característica do amor humano que é a de uma entrega recíproca. É difícil entender que duas pessoas 'façam amor' protegendo-se cautelosamente uma da outra. Não será isto uma caricatura do amor?

Quando se fala do preservativo não se pode falar apenas em algumas circunstâncias em que é usado. Se o Papa Bento XVI tivesse afirmado que para combater a sida em África se deveria recorrer ao preservativo, pode crer que o discurso não ficaria por aqui.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

O ser humano é um só, corpo-alma. Não é possível tocar no corpo sem tocar na alma. E vice-versa.

A sexualidade humana é uma realidade extremamente complexa. Será possível resolver as questões que levanta com a simples 'solução' do preservativo? Não será uma 'solução' demasiado fácil, mais aparente que real?

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

A Sida afecta cerca de trinta milhões de pessoas nos países sub-saharianos (números pela OnuSida). De acordo com este organismo, no ano passado morreram 2,2 milhões de africanos, com esta doença. O número de crianças infectadas é elevado, o número de órfãos é elevado e a pobreza e falta de meios dispensa referências. Assim, será legítimo a Igreja opor-se ao uso do preservativo nestas circunstâncias? Em minha opinião, não. De facto, trata-se de uma epidemia muito grave, que deverá ser combatida com todos os meios ao alcance da ciência, do mesmo modo com que se enfrentam todas as outras epidemias. Porque deverá, esta, ser olhada de modo diverso? Não me parece razoável colocar de parte qualquer instrumento, neste caso o preservativo, que sabemos ser um modo bastante eficaz e simples.
A quem irá a Igreja transmitir a “ proposta enquadrada num projecto de vida, num esforço de transformação do estilo de vida das pessoas, de uma humanização da sexualidade e não de uma sua mera instrumentalização, como sucede cada vez mais.” Se as pessoas estiverem mortas? Não é pecado maior deixar morrer populações inteiras, inocentes cuja “culpa” é terem sido infectados por uma doença que não provocaram?
Sou crente, defendo a vida, nunca a inflexibilidade cega que deixa morrer.

Conceição Oliveira

alfredo dinis disse...

Conceição,

Pergunto-me se os governos africanos têm feito tudo o que deviam, nomeadamente em investimento para o tratamento dos doentes de sida e a educação das populações. Não tenho evidência de que o tenham feito. Eles têm uma parte substancial da responsabilidade da situação actual. Mas ninguém parece criticá-los. A comunicação social não fala disso.

Pode crer que se o Papa Bento XVI tivesse dito que aprovava o uso do preservativo, isso não iria modificar substancialmente a situação. Não se esqueça que a África não é toda católica. Há muitos muçulmanos, evangélicos, animistas, etc. que não se deixam impressionar pelas palavras do Papa, quaisquer que elas sejam. Não atribuamos ao Papa mais responsabilidade do que a que efectivamente tem.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Dtr. Alfredo Dinis,

A comunicação social no presente - estou bem consciente desse facto - vive essencialmente e infelizmente de notícias geradoras de polémica. Assim, ao questionar procura atingir os seus objectivos. Estou certa que o Papa tem noção de tal realidade.
Tenho algum conhecimento acerca da diversidade religiosa em África. Sou de opinião que a deslocação do Papa a esse continente é de importância relevante. Ir ao encontro de católicos e de não católicos, procurar “espalhar” a fé em Cristo, a esperança e todos os valores da Igreja só poderá ser louvado. Julgo não contribuir para atribuir ao Papa “mais responsabilidade do que a que efectivamente tem”, ao dar a minha opinião. Contudo, é responsabilidade da Igreja, e do Papa enquanto seu máximo representante, ponderar seriamente cada situação em particular, não generalizando. Neste caso, seria bom olhar para a especificidade desta epidemia, da razoabilidade acerca do que é, de facto, o acto sexual na vida destas populações, fazendo prevalecer um critério cuja primeira acção vá no sentido da salvação da vida humana. Cuidar para que o corpo viva são “corpo templo da alma”. Esta a minha opinião.

Cordiais cumprimentos,
Conceição Oliveira

zé disse...

Caro Alfredo,

Obrigado pelo seu comentário, revejo-me em quase tudo o que você disse.

No entanto, é preciso esclarecer alguns pormenores:

1 - Você diz que "relações antes e fora do casamento falta este elemento fundamental: serem a expressão de um amor maduro". O que entende neste contexto por casamento? Está a referir-se ao casamento como instituição formal ou como um modo de existir em total amor-caridade, compromisso e fidelidade?
Existe uma difença entre matrimonial e pré-matrimonial. No pré-matrimonial existe, podemos dizer numa linguagem de Gabriel Marcel, o Ter (o Ele), pois, não existe qualquer compromisso, fidelidade, amor... No matrimónio vive-se o Ser (o Tu, o Nós): o compromisso, a fidelidade, o amor.
Mas, vamos imaginar: estamos num contexto de crise financeira, um casal de namorados que se amam realmente com compromisso e fidelidade (num horizonte de Ser, e não de Ter) pretende casar em breve, mas infelizmente as más condições económicas não os permitem. Será que este casal de namorados se "criarem amor" (numa terminologia de Alfonso Lopez Quintás, pois, amor é sempre criativo, criação [isto é, o amor não se faz, cria-se]) através da sua união total (incluindo corporal) estarão eles a ter relações sexuais pré-matrimoniais? Será que não pode haver um casamento-compromisso_total antes do casamento-instituição_formal? Será que relações sexuais pré-cerimoniais é igual a relações pré-matrimoniais?

2 - Depois você refere muito bem que "O amor abre-se à transmissão da vida". Sem dúvida. Mas, será que cada acto sexual tem que gerar uma nova vida? Então, como conciliar isto com a paternidade responsável?
Penso que "o amor entre marido e mulher deve permanecer intencionalmente aberto à vida", mas isso não significa que cada acto sexual tenha que corresponder a um filho. É toda a vida de relação de amor que está aberta à vida e não cada acto sexual particular.

3 - Não percebi o que quer dizer com isto: "O uso do preservativo e todos os métodos artificiais contradizem essa abertura à vida". Como é que fundamenta racionalmente esta afirmação? Qual é a difenrença clara entre metodos artificiais e naturais? Natural e Artificial: Será mais um dualismo que será preciso combater?
Parece-me muito mais coerente e racional a proposta do grande professor Daniel Serrão: "No momento actual invocar a lei natural não faz sentido para mim, em matéria sexual. Não há métodos naturais.Toda a intromissão cultural na sexualidade é introduzir o artificial. Não é aceitável,na cultura moderna ,imaginar que a fertilidade pode ser entregue, no ser humano, ao simples jogo das leis naturais. A fertilidade passou a ser um acontecimento cultural e, como tal, artificial, porque é o homem que cria a cultura e a cultura é artificial. A seperação entre coito e fecundidade,tornada possível pelo uso de uma anti-ovulação, é tão anti-natural como escolher, para o coito não procriativo, os dias seguramente inférteis da mulher, que só são conhecidos pela investigação científica.Quando os cônjuges, seleccionam estes dias para o coito estão, de facto, a separar o carácter unitivo e procriativo da relação sexual.do meu ponto de vista, como médico". O que pensa desta opinião (parece-me formidável) do professor Daniel Serrão?

Parafraseando o sr. Alfredo posso dizer que o uso do preservativo e todos os outros métodos (sem ser abortivos ou irreversíveis) se houver uma vivência de amor maduro, amor pleno, num horizonte do Ser (e não do Ter ou ISSO), então, não contradiz a abertura à vida. Os métodos contraceptivos (qualquer que seja) contradiz a abertura à vida se for uma relação algo feita numa atitude de Ter, de possuir, de castrar, de objectualizar, etc...
Portanto, independetemente dos métodos contraceptivos, onde não existir verdadeiro amor-caridade-comunhão (Ser), então, não existe abertura à vida.

Abraço,

Jose Simoes disse...

O papa hoje assinou a sentença de morte de talvez um milhão de pessoas. Tudo o resto que se diga é irrelevante.

José Simões

alfredo dinis disse...

Caro Zé,

1. A vida pessoal vive-se em sociedade, em comunidade, em comunhão. O amadurecimento do amor realiza-se simultaneamente num contexto pessoal e comunitário, e é este o sentido que tem o casamento enquanto manifestação pública ou comunitária de uma experiência de amor amadurecido entre um homem e uma mulher. Na sociedade em que vivemos, os direitos individuais estão desligados da componente comunitária. Quando se diz 'eu faço o que quero e ninguém tem nada a ver com isso' - uma afirmação tão corrente - estamos em pleno individualismo que não suporta a dimensão institucional em geral, não apenas o casamento ou a Igreja, qualquer que ela seja, mas as instituições em geral porque são vistas como impositoras de normas. E hoje dispensam-se as normas com toda a naturalidade.

2. A Igreja Católica afirma - contra o que muitos pensam - que a relação sexual não tem apenas como objectivo a geração de filhos, mas também a realização afectiva do casal. Esta relação está intencionalmente aberta à vida, mesmo que de facto não haja geração de vida. Por isso não afirmei que cada acto sexual tem que gerar efectivamente a vida.

3. A posição do Prof. Daniel Serrão representa uma reflexão de um cristão perante a complexidade da sexualidade humana. Não sei se ele afirma que não há qualquer problema com qualquer método anticonceptivo. Não é claro para mim. De qualquer modo, nunca acreditei que questões complexas, como é a sexualidade humana, tenham soluções simples ou fáceis.

A abertura à vida não é apenas uma questão biológica mas uma atitude existencial de fundo. Os casais que não podem ter filhos poderão abrir-se à vida adoptando crianças, doando-se a pessoas da comunidade que carecem de afecto, etc. A abertura à vida é a atitude de quem vive descentrado de si. Quando o casal se descentra de si abre-se à vida.

Um abraço,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro José Simões,

Respeito a sua afirmação, embora discorde dela, sobretudo porque não sei em que se fundamenta, e não sou homem de tantas certezas. Mas pergunto-lhe: não lhe parece que há outros meios de combater a sida para além do preservativo? É que nunca oiço falar de alternativas ao preservativo. Porquê?

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Conceição,

O modo como no seu texto centra no preservativo o que de mais importante a Igreja pode fazer pela saúde dos africanos parece ignorar que a Igreja pode fazer muito mais e, de facto, já há séculos o faz. E hoje, a Igreja está próxima dos doentes, com sida e outros, velando por eles, procurando curá-los e ajudá-los a ter uma vida humana baseada na responsabilidade e num projecto humanizante. Seria muito fácil a bento XVI e à Igreja afirmar que o preservativo é a solução do problema da sida em África. Onde está a responsabilização dos Governos africanos? Quantos milhões não são desviados para os bolsos de tantos destes governantes, em vez de serem aplicados na investigação para combater as doenças e no investimento em cuidados de saúde? Não lhe parece que estes pecados estão permanentemente a impedir a solução do problema da sida e de outras doenças? Se não, porque não? Se sim, porque não há uma indignação mundial generalizada?

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Where have all the young girls gone?

Girls where are you?

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

É com surpresa que o vejo a defender o indefensável, atendendo que o tenho em conta como um dos católicos mais lúcidos que existem… (e em vez de lúcido quase que dizia ateu, mas não quero de forma nenhuma ofendê-lo;-)

O Papa não estava a viajar para Washington mas sim para África. Se as pessoas em Washington, não obstante toda a informação e meios que têm ao seu alcance continuam a ter comportamentos irresponsáveis, acho muito sinceramente que isso nos ultrapassa.

Agora a de realidade de África é completamente diferente da de Washington. E não se veja com isto qualquer ponta de racismo porque todos sabemos que é assim. Em Washington não morreram milhões de pessoas vítimas da SIDA e em África as pessoas não têm acesso à informação e educação como se tem em Washington.

Recorda-se do caso do bispo africano que recentemente afirmou que a Europa andava a exportar preservativos contaminados para África e depois se desdisse? Se vem agora o Papa afirmar que “… de facto agravam o problema”, o que fica na cabeça das pessoas, é que se é próprio o Papa o afirma, “Si non e vero, e ben trovato" …

Porque infelizmente, nem todas as pessoas têm a capacidade do Alfredo de saber distinguir quando é que o Papa fala no plano técnico ou se está a falar no plano espiritual/ético.

E eu não tenho qualquer dúvida que a maioria das pessoas entendeu o que ele disse como do ponto de vista técnico. Assim parece-me que ir pregar a castidade, mudanças do estilo de vida, desumanização da sexualidade, etc a caminho de África nos tempos actuais tem tanta utilidade como o sermão do Pe. António Vieira aos peixes.

Finalmente: se os governos africanos não fazem tudo o que deviam e o Papa tem consciência disso, (e seguramente que tem) então as suas afirmações ainda se tornam mais graves: sabendo que já estão particularmente desprotegidos, a condenação do preservativo só vai contribuir para ficarem ainda mais. Porque não condenou o papa os governos africanos em vez do preservativo? Estou certo que a CS também faria o devido eco das suas palavras.

Renovados cumprimentos do xiquinho

Anónimo disse...

Estimado Dtr. Alfredo Dinis,

Não ignoro a importância que a Igreja tem tido na intervenção directa, no terreno, ajudando os necessitados, os doentes, os órfãos … desde a sua fundação.
Salienta que “ seu texto centra no preservativo o que de mais importante a Igreja pode fazer pela saúde dos africanos parece ignorar que a Igreja pode fazer muito mais e, de facto, já há séculos o faz. E hoje, a Igreja está próxima dos doentes, com sida e outros, velando por eles, procurando curá-los e ajudá-los a ter uma vida humana baseada na responsabilidade e num projecto humanizante” .
Esclareço:
- O ideal seria que a comunicação social transmitisse as notícias com imparcialidade, o que não faz.
- Foquei-me no ponto central da polémica levantada pela referida comunicação social.
- Dei a minha opinião acerca do mesmo ponto central da polémica.
- Não afirmei que a alteração da posição da Igreja em relação ao uso do preservativo, no caso concreto da sida, é o que de mais importante a Igreja pode fazer pela saúde dos africanos. Considero esta observação pouco feliz, ofensiva. Não tenho formação teológica, contudo, considero a minha formação moral e intelectual satisfatória (esta última não terminada, porque adquirir conhecimento apenas deverá terminar com o acto de morrer).

Cordiais cumprimentos,
Conceição Oliveira

zé disse...

Caro Alfredo

Gostei muito desta sua afirmação: "A abertura à vida não é apenas uma questão biológica mas uma atitude existencial de fundo. Os casais que não podem ter filhos poderão abrir-se à vida adoptando crianças, doando-se a pessoas da comunidade que carecem de afecto, etc. A abertura à vida é a atitude de quem vive descentrado de si. Quando o casal se descentra de si abre-se à vida."

O Alfredo refere que "Não sei se ele afirma que não há qualquer problema com qualquer método anticonceptivo". É óbvio que todos os métodos têm os seus problemas,pois, quanto à questão dos métodos contraceptivos (caminho de regulação da natalidade - excluindo totalmente qualquer meio abortivo, e a esterilização directa) é importante analisando a sua eficácia, inocuidade, e aceitabilidade (psicológica, social, cultural). É de salientar que nenhum dos métodos realiza de forma optimal a eficácia, inocuidade, e aceitabilidade – por exemplo, os métodos de ritmo (chamados [indevidamente] “naturais”) têm o inconveniente de certa dificuldade de utilização, nomeadamente em pessoas de diminuto nível cultural, o que faz aumentar o número de falhas; do mesmo modo, este método pode não respeitar, nalguns momentos da vida em casal, a dinâmica do amor conjugal, com todas as consequências daí decorrentes para a harmonia dos esposos. Assim, não se pode absolutizar nenhum método; então, é só a quem vive a relação de amor (e só a eles) que cabe a decisão da escolha do método. (Cf. PINTO, J. R. Costa - Bioética para todos. Braga: Editorial A.O., 2006, pp. 59-62).

Deste modo, como se pode dizer sem mais que "O uso do preservativo e todos os métodos artificiais contradizem essa abertura à vida"? Parafraseando S. Agostinho, se houver amor, podemos fazer o que quisermos (Ama e faz o que quiseres) - ou como S. Paulo refere: posso fazer tudo desde que não me torne escravo de nada.

Abraço

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«Há um segundo pressuposto que vê a pessoa como elemento de uma rede de interacções interpessoais que não lhe são exteriores mas que a constituem como tal.»

Eu estou de acordo com este pressuposto, que considero até fundamental na ética. Toda a moral tem de assentar nas interacções dos individuos. Não no individuo isolado e nem sequer na relação do individuo com um outro, seja padre, papa ou deus, mas sim na rede de relações de todos os individuos com todos os outros.

É precisamente por isso que exijo, quando se defende algo como imoral, que se aponte quem é prejudicado por esse acto. E é isto que te volto a perguntar. Se eu tiver relações sexuais com uma mulher e se ambos decidirmos usar preservativo, qual é o efeito que o preservativo tem na nossa rede de relações que possa torná-lo pior que a transmissão de doenças venéreas?

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«A Igreja Católica afirma - contra o que muitos pensam - que a relação sexual não tem apenas como objectivo a geração de filhos, mas também a realização afectiva do casal.»

Uma crítica que oiço da Igreja Católica, e que tu também reiteraste, é a "instrumentalização" do acto sexual ao serviço de algum objectivo de quem o pratica.

Mas vejo que essa "instrumentalização" é inevitável porque a Igreja também o faz. A única diferença não está em tornar o sexo um instrumento para um fim mas sim no fim que se lhe quer dar. A Igreja considera legítimo usar o sexo para reprodução e para a realização afectiva do casal mas não considera legitimo usá-lo para a realização afectiva do casal excluindo a reprodução, para a realização estética ou sensual do casal, ou para a redução do stress ou pelo puro prazer do sexo.

A questão que isto me suscita é porquê considerar os objectivos pelos quais a Igreja instrumentaliza o sexo como os únicos legítimos em vez de permitir que cada um instrumentalize o seu sexo como entender, restringindo-se apenas por aquilo que possa prejudicar terceiros.

Alegar uma "humanização da sexualidade" é demasiado vago e pouco satisfatório como explicação. Principalmente para quem considera perfeitamente característico do ser humano ter sexo por puro prazer, sem o instrumentalizar a qualquer outro fim.

teófilo disse...

Ludwig,

Diz que "A Igreja considera legítimo usar o sexo para reprodução e para a realização afectiva do casal mas não considera legitimo usá-lo para a realização afectiva do casal excluindo a reprodução, para a realização estética ou sensual do casal, ou para a redução do stress ou pelo puro prazer do sexo." Bem, então, até que ponto é legitmo e moral reduzir um ser humano a uma "máquina masturbatória"? Se usas apenas e só a mulher como uma "máquina masturbatória" para satisfazer sem mais o teu puro prazer ou redução do stress, não será algo redutor? Será que uma mulher se reduz a uma "máquina masturbatória" para tu a manipulares como a quiseres, e para tirares dela um egótico puro prazer sem mais?

Nuno disse...

1.Penso que é preciso perceber o que o Papa diz e para quem é que fala. Fala sobre regras gerais e estruturantes do comportamento humano e fala para toda a humanidade (cerca de 6 biliões de pessoas).

2.Concordo com as opiniões expressas por Alfredo Dinis e acho que respondem às questões colocadas.
Agora, os comentários feitos às declarações de Bento XVI vão muitas vezes para contextos particulares que nos podem baralhar.

3.Lembro-me de ouvir o Bispo D: Abílio Ribas (minhoto) em S. Tomé e Princípe dizer, com uma clareza cristalina: "Claro que se uma pessoa tem SIDA não vai ter relações sexuais com outra sem preservativo! Não matar é um mandamento que se impõe (neste caso)". Mas, esta é uma situação particular. Não foi para os portadores de SIDA que o Papa falou, mas para as pessoas em geral (e, provavelmente, para os mais novos, para os que vão iniciar a sua vida sexual com outra pessoa, no contexto dum casamento).

4.O preservativo contradiz a abertura à vida, é evidente. A sua função principal é evitar a concepção (sem a qual não há vida).

5. A questão do casamento e do "sexo" antes e depois. Cada caso é um caso e há circunstâncias especiais (como guerras, crises, dificuldades...), mas que não nos devem fazer perder o sentido de exigência que estas delicadas questões têm.

Ontem li um comentário do Papa João Paulo II sobre São José. Escreveu ele:

"«José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa»; «O que Ela concebeu é obra do Espírito Santo». À vista de tais expressões, não se imporá porventura concluir que também o seu amor de homem tinha sido regenerado pelo Espírito Santo? Não se deverá pensar que o amor de Deus, que foi derramado no coração humano pelo Espírito Santo (cf. Rom 5, 5), forma do modo mais perfeito todo o amor humano? Este amor de Deus forma também - e de maneira absolutamente singular - o amor esponsal dos cônjuges, aprofundando nele tudo o que tem de humanamente digno e belo e as características da exclusiva entrega, da aliança das pessoas e da comunhão autêntica, a exemplo do Mistério trinitário".

Assim, antes do casamento e no casamento não são realidades iguais. Aliás Jesus foi convidado e esteve nas bodas de Caná. Se fôsse indiferente, Ele não teria lá estado, nem teria intervido na festa.

zé disse...

Olá Nuno,

dizes que "O preservativo contradiz a abertura à vida, é evidente. A sua função principal é evitar a concepção (sem a qual não há vida)".

1 - estás a entender aqui vida num sentido apenas biológico.

2 - Se seguir a tua argumentação, então os métodos naturais também contradizem a abertura à vida, pois, procura-se o períodos seguramente inferteis da mulher. Portanto, a função também dos métodos naturais "é evitar a concepção (sem a qual não há vida)".

3 - Mas, se não reduzirmos vida só e apenas ao biológico qualquer método (inclusive o preservativo) pode estar aberto à vida. Pois, não é cada acto sexual em particular que tem que ser procriativo, mas é toda a vida de amor-doação que é aberta à vida (num sentido muito mais amplo e existêncial; ou seja, morrer para mim [egoismos] para nascer para, com e no outro em vida e amor).

zé disse...

Nuno, também dizes que:
"Assim, antes do casamento e no casamento não são realidades iguais". Isso é óbvio... Mas, o problema está em saber quando se inicia ou não esta realidade ontológica de amor total (e não apenas de horizonte formal-institucional). Num horizonte ontológico de amor total, como uma forma de vida de oblação e abertura à vida, quais são as fronteiras para se dizer que uma pessoa está casada ou não?

É claro que aquilo que é bom tende a difundir-se. E como o amor conjugal é bom, então, tende a expressar-se de forma comunitária através de uma celebração.
Mas, a minha dúvida é se não pode existir uma casamento (no sentido vivêncial) antes do casamento (institucional)?
Quando um rapaz e uma rapariga dizem de forma madura e consciente: "sou sempre contigo e para ti", não está aqui a acontecer a realidade do casamente (a qual depois se expressará necessariamente através da forma comunitária e institucional)?

Nuno disse...

Considerei a vida biológica, sim. Com tudo o que essa realidade significa.
Não, não acho que os métodos naturais não evitam a concepção, pois ela não é possível (quando estes são praticados).

O casamento tem uma dimensão social e penso que é assim considerado desde a Mesoptâmia. Assim, considero que o casamento acontece quando duas pessoas (de sexo diferente!) o assumem publicamente, perante os outros e perante si próprios.
Não me parece que faça sentido separar as duas realidades ("particular" e "social").

zé disse...

O Nuno diz que "Não, não acho que os métodos naturais não evitam a concepção, pois ela não é possível (quando estes são praticados)"; então, logo os métodos naturais evitam a concepção, pois, faz-se uma "calendarização do amor" (o que me parece algo absurdo) dos dias em que se podem relacionar sexualmente para assim fugirem à concepção. Portanto, num sentido estreitamente biológico e redutor qualquer método não está aberto à vida.

Dizes que "Considerei a vida biológica"; pois, é abertura à vida se, e somente se, é vida biológica? Penso que estás a ser redutor se quiseres castrar a "abertura à vida" ao horizonte meramente biologico.

Dizes também que: "Não me parece que faça sentido separar as duas realidades ("particular" e "social")". Concordo perfeitamente, pois, uma implica a outra. No entanto, é casamento se, e somente se, "o assumem publicamente, perante os outros e perante si próprios"? É óbvio que isso é uma condição necessária, mas será uma condição suficiente? Ou até de que vale assumir algo publicamente se não existir previamente um matrimónio ontológico-vivêncial de doação e compromisso autêntico? Num casamento pode existir uma cerimónia publica excelente, pode haver uma banquete fabuloso, mas se não houver previamente uma doação mútua de si (um amor total), será que existirá casamento? volto a questionar: "Quando um rapaz e uma rapariga dizem de forma madura e consciente: "sou sempre contigo e para ti", não está aqui a acontecer a realidade do casamente (a qual depois se expressará necessariamente através da forma comunitária e institucional)?"

O Sousa da Ponte disse...

A impressão que me dá é que a Igreja Católica está a tentar uma posição mais a preto e baranco que as resultantes do Vaticano II.

As igrejas institucionais, como a Católica tinham garantido um lugar de monopólio, ou quase, da coisa espiritual. Com a liberdade religiosa e o progresso a Igreja pensou que o afastamento dos crentes se devia a fórmulas arcaicas: missa em latim , etc e etc.

Vai daí põe o padre com os cabelos mais compridos, dão-lhe uma viola e rezam a missa em vulgar e o pessoal volta. Não insistem muito nos dogmas e pretendem agradar a todos.

Erro crasso.

Nas religiões e na magia as pessoas querem certezas absolutas, tipo :

Se pagares o dizimo vais ficar rico, a ciência é obra do diabo, se cortares a cabeça a uma galinha preta numa encruzilhada ele separa-se da mulher....


As Testemunhas de Jeová, Adventistas,Evangélicos, Iurds e cia atacam o mercado e em menos dum fósforo apanham uma fatia de mercado impressionante.

Estes apresentam certezas absolutas, fórmulas simples de salvação e tudo a preto e branco.

A Igreja Católica Vê-se reduzida ao mercado das classes A e B e aos idosos recalcitrantes das outras.

Assim desata a tornar a Igreja mais cientifica, demarcando-se dos criacionismo da terra jovem, produto muito dificil de vender às classes A e B, e tenta apanhar neste mercado os mais conservadores.

São um nicho de mercado com bons rendimentos e que pode colmatar a falta dos outros.

É preciso é cativá-los com ideias fortes : preservativo nunca, divórcio jamais, etc.

Vamos lá a ver se a mudança do marketing resulta.

Queira Deus que sim.

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Afirma:

"É com surpresa que o vejo a defender o indefensável"

O que defendi é a perspectiva do Papa em apresentar uma proposta de vida que não passe pela banalização das relações interpessoais em geral e das relações sexuais em particular. Tenho bem consciência de que o problema da sida é um drama muito grande, mas isso não me leva a concordar com soluções rápidas para problemas complexos. A solução definitiva do stress, por exemplo, não está nos comprimidos que podem causar algum alívio temporário mas sim na mudança de estilo de vida. Creio que é esta a mensagem do Papa no que se refere à sida, mas esta mensagem aplica-se a outras doenças.

Afirma:

"parece-me que ir pregar a castidade, mudanças do estilo de vida, desumanização da sexualidade, etc a caminho de África nos tempos actuais tem tanta utilidade como o sermão do Pe. António Vieira aos peixes."

Só posso lamentar que assim seja. O discurso ético não pode ser na África diferente do que é na América ou na Europa.

Pergunta:

"Porque não condenou o papa os governos africanos...?"

Pergunto:

"Porque não condenaram os governos africanos os vários políticos que condenaram o Papa?"

Se queremos contribuir para o bem dos Africanos, não basta condenar o Papa. É preciso ir muito mais longe, não lhe parece?

Não quero concluir sem lhe agradecer as amáveis palavras que me expressou no início do seu comentário. Talvez a diferença entre os nossos pontos de vista seja apenas o grau de complexidade da situação e da solução do problema em análise.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Conceição,

Afirmou:

"seria bom olhar para a especificidade desta epidemia, da razoabilidade acerca do que é, de facto, o acto sexual na vida destas populações, fazendo prevalecer um critério cuja primeira acção vá no sentido da salvação da vida humana."

Interpretei estas palavras num sentido que não lhe deu. Obrigado pelo esclarecimento, que muito me satisfaz.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Zé,

As pessoas vivem em comunidades e sociedades. Actualmente, esta pertença torna-se cada vez menos significativa, a todos os níveis. As pessoas que habitam numa paróquia, por exmplo, preferem ir participar na eucaristia noutra paróquia onde podem praticamente não conhecer ninguém. Poderá haver excepções, é claro. Daqui emerge um conceito de autonomia e de liberdade que acentua a independ~encia das decisões do indivíduo em relação à comunidade em que (já não) se insere. Isto é o que me parece suceder hoje cada vez mais, porque dada a urbanização crescente da vida, e as cidades são um espaço privilegiado de anonimato.

A Igreja Católica sempre respeitou a liberdade de consciência dos cristãos, mas esta liberdade de consciência não consiste simplesmente em fazer o que me é mais fácil ou agradável. Há um discernimento a fazer sobre as decisões realmente significativas, e nestas decisões há que ter em conta os valores da comunidade em que a pessoa se insere.

Concluindo: as pessoas deverão tomar as suas decisões segundo a sua consciência, mas isto significa mais do que um simples direito de cada um fazer o que bem entender sem que ninguém tenha nada a ver com isso, uma definição de liberdade muito comum mas que me parece muito pobre.

Um abraço,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Perguntas:

"Se eu tiver relações sexuais com uma mulher e se ambos decidirmos usar preservativo, qual é o efeito que o preservativo tem na nossa rede de relações que possa torná-lo pior que a transmissão de doenças venéreas?"

A resposta a esta pergunta poderá ser dada por casais que escolhem não usar o preservativo por uma opção de vida e por uma concepção de sexualidade que se insere no contexto global da sua existência. Esta opção de vida repercute-se na qualidade das suas relações interpessoais. A forma como fazemos muitas coisas que, aparentemente só a nós dizem respeito (comer, beber, fumar, etc.) tem muitas vezes influência nas nossas relações interpesoais, embora nem sempre nos demos conta disso.

O recurso ao preservatico corresponde objectivamente a uma atitude de vida (outros dirão filosofia de vida) que não é a mesma atitude de quem escolhe não utilizar o preservativo.

As atitudes influenciam sempre a nossa vida em geral e a dos outros também, ainda que isso não nos pareça evidente.

Um abraço,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

O prazer sexual não é um prazer como outro qualquer, por exemplo como o prazer de beber uma cerveja numa tarde de calor. A sexualidade tem a ver com a pessoa toda, e o prazer sexual tem um significado bem mais complexo que o de beber uma cerveja. Por isso, decidir ter o prazer de beber uma cerveja ou de ter uma relação sexual é bem diferente. Isto talvez te pareça evidente e não probelmático, mas do teu comentário parece-me poder deduzir que cada um poderá instrumentalizar o acto sexual como bem lhe aprouver, uma vez que também se pode usar cerveja para cozinhar frango, por exemplo. Mas a diferença entre os dosi casos é abissal.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Pedro Morgado disse...

Este post é uma tentativa de legitimar as palavras do Papa o que, infelizmente, é impossível dada a gravidade das mesmas.

Está demonstrado que o uso do preservativo é a forma mais eficaz de controlar a transmissão do vírus da SIDA por via sexual. É mais eficaz que a promoção da abstinência sexual tão propalada pela Igreja Católica.

O esforço que várias pessoas e organizações têm feito, algumas das quais católicas, no sentido de promover o uso do preservativo cai por terra quando alguém bem contado nos sistemas de crenças de determinada sociedade lança a dúvida sobre a eficácia do meio mais eficaz.

Quanto ao comentário do Nuno, importa dizer: não, não é consensual que a SIDA tenha aparecido «em São Francisco, nos Estados Unidos, no meio da comunidade homossexual e nos ginásios por eles frequentados.» Uma afirmação destas revela uma enorme ignorância e um brutal preconceito que devíamos irradiar da nossa sociedade.

alfredo dinis disse...

Caro Pedro,

Como já disse em resposta a outros comentários que vão na linha do teu, prefiro ler as palavras do Papa na íntegra e não comentar apenas uma parte delas. O que os meios de comunicação e muitos comentários na blogosfera têm feito sistematicamente é ignorar o que o Papa disse na sua totalidade, retirando do seu contexto a afirmação de que o preservativo não vai resolver o problema da sida. Não sendo porta-voz do Papa, o que entendo que ele quer dizer é algo semelhante a isto: o recurso sistemático a tranquilizantes não resolverá o problema do stress, antes pelo contrário o poderá agravar. A pessoa que confia nos tranquilizantes poderá sentir-se dispensada de procurar resolver o seu stress por outros meios.

Não ignoro que o drama da sida nos coloca perante graves dilemas, mas pergunto se não estaremos a investir tudo no preservativo. Haverá mais algum meio de combater este flagelo?

Um abraço,

Alfredo Dinis

Pedro Morgado disse...

Caro Professor Alfredo Dinis,

No passado, já houve situações em que as palavras citadas não correspondiam às que o Papa tinha dito. Neste caso, contudo, não me parece legítimo culpar os órgãos de comunicação social. As palavras do Papa são verdadeiramente graves. Ele disse que o preservativo agrava o problema da SIDA, o que é grave.

Em resposta à pergunta lançada, entendo que, de facto, existem outros meios complementares. Um deles é a Educação Sexual nas escolas, um projecto ao qual a Igreja Católica se vem opondo desde há vários anos.

Por outro lado, é interessante que o Papa, depois de criticar duramente os países que pretendem instituir a igualdade no acesso ao casamento, visite África sem uma palavra de censura aos inúmeros países que continuam a criminalizar a homossexualidade... São coerências!

Um abraço,
Pedro Morgado

Ludwig Krippahl disse...

Teófilo,

« Bem, então, até que ponto é legitmo e moral reduzir um ser humano a uma "máquina masturbatória"? Se usas apenas e só a mulher como uma "máquina masturbatória" para satisfazer sem mais o teu puro prazer ou redução do stress, não será algo redutor?»

Claro que não. Se for jogar à bola com uns amigos só porque me apetece uma futebolada não os estou a reduzir a nada. Estamos a divertir-nos. Quando é algo em que todos participam voluntariamente e do qual todos beneficiam não há "redução" nenhuma nem se pode apontar como ilegítimo.

Ilegitimo, e redutor, é querer dizer aos meus amigos como, para que propósito, e de que forma podem jogar à bola. Isso é que é reduzir a expressão deles à minha forma de a viver. Redutor seria se eu quisesse restringir a sexualidade da minha mulher aos actos que eu julgo apropriados. Isso sim seria ilegítimo.

Mais ilegítimo ainda, se é que existe tal coisa, seria eu querer fazer isso com os outros casais. Mas isso, além de ilegítimo, já roça o ridículo.

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«A resposta a esta pergunta poderá ser dada por casais que escolhem não usar o preservativo por uma opção de vida e por uma concepção de sexualidade que se insere no contexto global da sua existência.»

Não é a mesma coisa. Aceito como perfeitamente legítimo que alguns casais não usem preservativo. Ou que outros tenham relações vestidos, ou prefiram ter sexo no duche, na cozinha ou o que for. Isso é algo que diz respeito a cada pessoa e cada um procurará aquilo que melhor se adequa à sua forma de viver a sexualidade. Se os parceiros forem compatíveis nisto corre tudo bem.

Mas isso não é igual para todos. Por isso quando recomendas "não usem o preservativo" estás a fazer uma generalização injustificada. Tal como quando dizes:

«O prazer sexual não é um prazer como outro qualquer, por exemplo como o prazer de beber uma cerveja numa tarde de calor. A sexualidade tem a ver com a pessoa toda, e o prazer sexual tem um significado bem mais complexo que o de beber uma cerveja.»

Depende da pessoa e da ocasião. Uma cerveja fresca quando se tem sede dá um prazer diferente de uma cerveja demorada à conversa com os amigos ou um copo de vinho num jantar romântico a dois. É errado (e redutor) querer determinar como é que estas coisas podem ou não podem dar prazer a alguém.

O mesmo se passa com o sexo. Uma rapidinha quando os miudos estão em casa da avó não é o mesmo que um fim de semana num hotel só para os dois. Mas é incorrecto (e até ofensivo) querer dizer a um casal qual é melhor para eles e qual devem evitar ou não.

A tua resposta foi simplesmente que o prazer é de certa forma. Não concordo porque o prazer depende de muitos factores e varia de pessoa para pessoa. E nada disto responde à minha pergunta: porque é que é errado fazer sexo com preservativo se as pessoas que o fazem sentem que isso é a melhor opção para si? Ou seja, de onde vem a tua legitimidade para apontares o dedo e dizeres-lhe que estão a fazer algo mau?

alfredo dinis disse...

Caro Pedro,

Os meios de comunicação não referiram TODAS as palavras do Papa. Isto corresponde aos factos. E quando se referem apenas parte das palavras, a mensagem pode ficar deformada. O Papa não disse simplesmente que não se deveria utilizar o preservativo, mas disse TAMBÉM que a solução radical e de longo prazo passa pela mudança de atitudes. Não me parece que isto seja contestável.

Aliás, a comunicação social já nos habituou a este procedimento. Quando há pouco tempo se discutiu o caso da menina brasileira de nove anos grávida de dois gémeos, nunca se disse que a menina esteve num hospital onde os médicos consideraram possível deixar a garvidez prosseguir até ao sexto mês e provocar depois um parto prematuro. Crianças nascidas com seis meses vivem hoje com boa saúde. Ouvi há pouco tempo um documentário na TSF sobre este assunto. Não estou a falar 'por hipótese'. Foi uma comissão governamental que obrigou à transferência da menina para outro hospital onde os médicos apenas consideraram a hipótese do aborto. Mas a primeira parte da notícia foi omitida intencionalmente pelos media. A posição da Igreja Católica foi ridicularizada de uma forma inaceitável, até mesmo pelo presidente Lula. Não considero que todas as pessoas têm que seguir as posições da Igreja Católica, mas considero que a obejctividade da informação é essencial num país livre e democrático.

A Igreja Católica nunca se opôs à educação sexual, muito pelo contrário. Poderás informar-te, por exemplo, como ela é feita em alguns colégios de Jesuitas. A Igreja só se opõe a um determinado tipo de educação sexual, a que reduz esta educação à informação sobre anticonceptivos, que é o que em Portugal se entende quando se fala em educação sexual nas escolas. Não se fala em educação para os afectos, para a fidelidade (uma atitude ridicularizada), para a não instrumentalização do sexo, etc. A uma tal concepção de educação sexual não é só a Igreja Católica que se opõe. Mais uma vez, não é correcto ignorar que muitos não crentes têm perspctivas semelhantes às da Igreja Católica. Acresce ainda que esta educação sexual não é sequer eficaz. Há estudos que mostram que muitos jovens nas escolas conhecem os meios anticonceptivos mas que não os utilizam. A taxa de gravidez das adolescentes portuguesas é a mais elevada da europa, mas está por provar que é devida à ignorância no que se refere à utilização do preservativo ou da pílula. Formação não coincide com informação.

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Sousa,

A tua tipologia dos católicos tem alguma base objectiva? Encontras todo o género de pessoas na Igreja Católica. Não sei o que significam os grupos A e B. Mas encontras jovens, adultos e idosos, cientistas e filósofos, crianças e donas de cada, intelectuais e iletrados, etc.

Saudações,

Alfredo Dinis

teófilo disse...

Caro Ludwig Krippahl,

De facto não percebi o seu argumento. Penso que é uma analogia mesmo muito má. O que é que uma relação sexual na sua excelência (como um fruto de uma dádiva de amor) tem algo a ver com um mero jogo de futebol?

Um jogo de futebol é uma mera forma de diversão, entretenimento, espectáculo...
Mas, o que é que um jogo de futebol poderá ter a ver com uma relação sexual (que é na sua excelência uma forma de comunicar e expressar o amor-doação humano)???

Um ser humano é uma "máquina masturbatória"? Ser humano é igual a uma boa de futebol ou uma caneta sobre a qual posso manipular, partir, estragar, deitar fora, usar como eu bem entender (em todo o egotismo e individualismo)???

Você diz que: "Quando é algo em que todos participam voluntariamente e do qual todos beneficiam não há "redução" nenhuma nem se pode apontar como ilegítimo."
1 - o que entende por redução?
2 - O que entende por benefício? será sinónimo de manipular, castrar, deitar fora, experimentar, estragar tal como se pode fazer a uma "máquina masturbatória"?

Diz que "Ilegitimo, e redutor, é querer dizer aos meus amigos como, para que propósito, e de que forma podem jogar à bola. Isso é que é reduzir a expressão deles à minha forma de a viver. " Mas, e então também não seria redutor e desumanizante o acto sexual da pedofilia?

O ridículo é dizer ser humano é uma mera máquina da qual eu posso manipular, castrar, deitar fora, usar um vez para testar, etc...

zé disse...

Opinião de um especialista em bioética:

http://blogs.periodistadigital.com/vivirypensarenlafrontera.php/2009/03/21/sida-y-preservativo

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Não pretendo de forma alguma dizer-te como deve ser o teu relacionamento com a tua esposa. São pessoas adultas e devem fazer as suas escolhas livremente e de acordo com a sua consciência.

Falo portanto em geral. Repito que considero que há uma diferença abissal entre uma 'rapidinha' feita de mútuo acordo entre marido e mulher e uma 'refeição rápida' a dois, à hora do almoço, uma sandes e uma bebida, por hipótese. Neste segundo caso, não vejo qualuqer problema especial. No primeiro, sim. Parto do pressuposto, que não aceitas,que uma relação sexual é sempre uma manifestação de amor, de um amor amadurecido tanto nas alegrias como nas tristezas e nas dificuldades vividas em comum. Uma demonstração de amor não é uma demonstração qualquer. É mais até do que uma demonstração de simpatia para com uma pessoa amiga. Tem uma densidade que precisa de tempo para se exprimir. Mesmo as demonstrações de amizade precisam de tempo. Por vezes deixo de visitar amigos e familiares porque sei que teria que ser uma visita a correr, e isso não me parece adequado para exprimir a minha amizade.

O facto de duas pessoas se porem de acordo para tirar apenas prazer de uma relação sexual 'rapidinha' acontece também em outros ambientes: de trabalho, de prostituição, etc. O mútuo acordo pode justificar coisas muito diferentes.

A questão do preservativo já foi explicada vezes sem conta. Refiro de novo esta explicação, mesmo sabendo que não a vais aceitar, porque não aceitas o pressuposto de partida. Uma relação de amor conjugal inclui três elementos que constituem uma unidade: o prazer, a realização afectiva e a abertura à vida. Ora, o preservativo fecha o casal em si mesmo, intencionalmente.

Não espero que aceites esta explicação, mas isso deve-se ao facto de não aceitares os pressupostos nos quais ela se baseia. Como já disse também noutras intervenções, não me parece que no campo da sexualidade, como em muitos outros, nos limitemos a produzir análises avulsas, isoladas, sem referência a um quadro de significado mais geral. No caso presente, o quadro de significado tem a ver com uma determinada concepção de sexualidade. Poderá ser considerada irrealista ou desactualida, mas é ela que permite compreender as posições institucionais e pessoais em questões concretas. Tenho consciência de que os quadros de significado já tiveram melhores dias, seja em que área for: economia, política, etc. O fim das chamadas grandes narrativas ou sistemas parece para muitas pessoas pertencer ao passado. Talvez por isso as pessoas façam afirmações que lhes parece serem evidentes em si mesmas. Esta é a cultura em que vivemos, uma cultura que não está acima de toda a crítica, ao contrário do que por vezes parece.


Um abraço,

Alfredo Dinis

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo e Teófilo,

O Alfredo escreveu:

«Não pretendo de forma alguma dizer-te como deve ser o teu relacionamento com a tua esposa. São pessoas adultas e devem fazer as suas escolhas livremente e de acordo com a sua consciência.»

Respondendo ao Teófilo, é este o paralelo que eu queria apontar entre o sexo e o futebol. O acto sexual e a partida de futebol podem ser vividos de formas diferentes conforme as pessoas e as circunstâncias. E em nenhum caso compete a uns dizer aos outros como fazê-lo. Este é o erro que o Alfredo comete logo a seguir:

«Falo portanto em geral.
[...]Uma relação de amor conjugal inclui três elementos que constituem uma unidade: o prazer, a realização afectiva e a abertura à vida. Ora, o preservativo fecha o casal em si mesmo, intencionalmente.»


Não se pode falar "em geral", desta forma, de uma relação de amor conjugal. Só é legítmo falar acerca dos elementos que a constituem e da sua unidade ou não no caso específico daquela relação de amor conjugal que o próprio está a viver. Falar assim das dos outros não faz qualquer sentido.

Por isso se vocês me disserem que esta é a relação conjugal que têm ou gostariam de ter, estamos de acordo.

Se me disserem que essa é a relação que eu devia ter digo-vos que isso só será da vossa conta se eu casar com um de vocês.

E se me disserem que é mais importante estipular aos outros como devem ser as suas relações do que distribuir-lhes preservativos para controlar uma epidemia, digo-vos que fico chocado com a imoralidade dessa posição.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

A posição que apresentei acerca da sexualidade é a da Igreja Católica. É uma proposta de vida que se enquadra numa perspectiva antropológica mais ampla. É por esta razão que as questões éticas (e outras) não são tratadas de modo avulso e circunstancial, mas enquadradas num quadro de referência mais amplo. Como já disse anteriormente, estes quadros de referência comuns estão a cair em desuso. Cada pessoa reclama o direito de fazer as suas opções sem ter que dar justificações a ninguém, e as justificações que uma ou outra vez são apresentadas parecem-me desligadas de qualquer perspectiva global. Na minha juventude nunca consegui compreender que os meus amigos achassem muito bem metêssemos com as meninas, desde que isso não incluisse as suas irmãs. Só para dar um exemplo.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Pedro Morgado disse...

Caro amigo,

O Papa disse o que aqui transcreve mas a verdade é que o Papa TAMBÉM DISSE que o uso do preservativo agravava o problema da SIDA. Claro que o disse num contexto, mas o contexto não reduz a gravidade desta afirmação que insiste em desvalorizar (e está no seu direito!).

Sobre a Educação Sexual:
Considero que a Igreja tem o direito de ter um projecto próprio para a Educação Sexual nas escolas. Contudo, entendo que o país não deve impor a todos os cidadãos o projecto defendido pela Igreja, mas antes um projecto que inclua o desenvolvimento sexual de todos, na perspectiva cientificamente mais consensual.

Um abraço,
Pedro Morgado

alfredo dinis disse...

Caro Pedro,

Invocar a ciência para legitimar uma determinada concepção de educação sexual não basta. Vêm-me à mente as palavras de L. Wittgenstein: "Sentimos que mesmo quando todas as questões da ciência fossem resolvidas os problemas da vida ficariam ainda por tocar. É claro que não haveria mais questões; e esta é a resposta" (Tractatus 6.52). Trata-se de uma afirmação que deve ser entendida no contexto do pensamento do autor. Muitas das questões que ele proprio abordou não são científicas nem resolúveis pela ciência.

Nem tudo o que se diz ou faz em nome da ciência está acima de toda a crítica. James Watson declarou que a raça negra é inferior à raça branca, e o irresponsável envio de antrax a diversas pessoas nos Estados Unidos foi feito por um cientista em nome das suas experiências científicas. Para não falar do Prémio Ignobel atribuido todos os anos a maus artigos publicados em revistas científicas. Isto não significa que se deva desvalorizar a ciência, mas apenas que o que os cientistas afirmam não é dogma. Antes pelo contrário. O que caracteriza a ciência é o seu carácter de revisibilidade. É possível que estejas de acordo com tudo isto, mas do teu comentário em que invocas a ciência para fundamentar um modelo de educação sexual que contrapões ao da Igreja Católica - não sei bem em que bases - parece que essa invocação da ciência põe um ponto final no assunto. A meu ver, não põe.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Nuno disse...

O casamento (a relação entre duas pessoas de sexos diferentes) é uma realidade que marca muito a nossa sociedade. Os ataques que lhe fazem são, regra geral, ataques à vida, feitos por ideias que reflectem uma mentalidade ocidental que caminha alegremente para o abismo.

n disse...

Obrigado. Muito interessante este debate. Sobre o mesmo assunto também considero muito interessante o texto de Pedro Vaz Pato que se pode encontrar no seguinte endereço.

http://o-povo.blogspot.com/2009/03/untitled_22.html

Abraços
Nicolau

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

Há coisas que se eu disser a uma rapariga na rua ela vai-se sentir incomodada. Concordo contigo que isso justifica considerar imoral tal comportamento da minha parte. No entanto, se disser a mesma coisa à minha mulher sabendo que ela se vai rir, deixa de ser imoral. A questão importante é a atitude do outro e a forma como recebe este acto.

É por isso que me parece injustificada a tua posição em relação ao preservativo. Concordo que obrigar alguém a usá-lo contra a sua vontade será imoral. Mas se duas pessoas adultas consentem e aprovam o seu uso na sua relação parece-me condescendente, e até imoral, que alguém de fora as critique por isso ou diga que não deviam viver assim a sua sexualidade.

Por isso concordo contigo quando dizes que não devemos fazer coisas aos outros quando esses outros não aprovam. Mas parece-me que a tua posição acerca do preservativo não passa de quereres projectar nos outros os teus preconceitos.

Essa coisa de definires a sexualidade de uma maneira, dizer que o preservativo vai contra a definição e por isso é mau tem a enorme fraqueza de assumir que os outros concordam com a tua definição. Para qualquer casal que discorde das tuas premissas o que tu dizes não faz qualquer sentido.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

O critério do mútuo acordo entre duas pessoas para a realização de determinadas acções não é necessariamente suficiente para julgar a bondade dessas acções. Quando se fala da sexualidade esquece-se ou ignora-se muitas vezes que não há um exercício da sexualidade em 'estado puro'. Concretamente, as relações sexuais são acções carregadas de carga simbólica, além dos aspectos físicos e afectivos. Nelas se eatebelecem, com feequência, nme sempre de forma conscîente, relações de poder, de domínio, de dependência afectiva e psicológica, de agressividade, de auto-afirmação, etc. Tudo isto não faz parte do teu discurso, não sei se conheces toda esta realidade que qualquer psicólogo conhece. Como já tenho afirmado noutras vezes, não há soluções simples para questões complexas.

As pessoas que têm concepções sobre o que deve ser a sexualidade e as manifestações sexuais não estão necessariamente a impô-las aos outros quando as manifestam. É certamente o meu caso. Posso não ter razão, mas tenho as minhas razões, e enquanto outros não me trouxerem razões mais fortes e convincentes que as minhas, não sinto que devo mudar. É o que se passa com as tuas razões e as de muitas outras pessoas que se têm manifestado aqui e no teu blog sobre estas questões. Longe de mim, porém, considerar que quem não concorda comigo deve ser considerado menos inteligente do que eu, ou deve necessariamente abandonar as suas concepções e seguir as minhas. Penso mesmo que não o deve fazer, se isso vais contra a sua consciência. E esta é também a concepção da Igreja Católica. Em questões menos complexas, como por exemplo, o fumar, não é por eu ser contra isso e o manifestar publicamente que estou a dizer a toda a gente que não devem fumar. Cada um deve ser livre e responsável ao assumir as suas posições. Deve ser uma responsabilidade não só livre mas também informada e suficientemente discernida, e é isto que me parece que muitas vezes não acontece.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Nuno disse...

A História da SIDA



Os primeiros registos de uma morte por SIDA remontam a 1976, quando uma médica dinamarquesa contraiu a doença no Zaire (hoje República Democrática do Congo). No entanto só começaram a aparecer em 1980 vários casos inexplicáveis de doenças oportunistas em homossexuais nos Estados Unidos, nas cidades de São Francisco, Los Angeles e Nova Iorque. A alta incidência dessas doenças em chamou a atenção do centro de controle de doenças dos Estados Unidos em 1981, quando publicaram o primeiro artigo que referenciava uma possível nova doença infecciosa, inicialmente vista como uma doença que afetava apenas os homossexuais. Devido à imunossupressão profunda que causava, comparável a alguns raros casos de imunossupressão de origem genética (e.g. Síndrome de DiGeorge), em contraste com aqueles casos hereditários. Inicialmente foi largamente ignorada pela sociedade americana, até que, com as proporções da epidemia sempre crescentes, apareceram os primeiros casos em tóxicodependentes e de transfusão de sangue em 1982.

Pedro Morgado disse...

Caro Professor Alfredo Dinis,

As declarações de Watson não são ciência, como não são as declarações de qualquer cientista.

Sobre a educação sexual, penso que o facto de olharmos para os estudos científicos independentes de forma a escolhermos as melhores opções em termos de educação sexual é razoável e desejável.

Um abraço,
Pedro Morgado

alfredo dinis disse...

Caro Pedro,

Os cientistas fazem muitas declarações que vão para lá dos limites da ciência, mas que são aplaudidas por muitas pessoas. Por exemplo, quando dizem que há incompatibilidade entre ciência e religião. Pergunto-me se não poderão fazer o mesmo quando se pronunciam sobre a educação sexual.

Não sei se estabeleces uma oposição entre uma educação sexual baseada nos dados da ciência e a educação proposta pela Igreja Católica. Não te esqueças que as posições da Igreja Católica são aceites por cientistas, e os documentos nos quais a mesma Igreja exprime as suas posições não são redigidos apenas por teólogos e filósofos.

Não creio que uma educação sexual seja automaticamente a melhor apenas por invocar os dados da ciência.

Um abraço,
Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro n,

Obrigado pela indicação do artigo do Pedro Vaz Pato. Li-o e estou de acordo com ele.

Saudações,

Alfredo Dinis

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«As pessoas que têm concepções sobre o que deve ser a sexualidade e as manifestações sexuais não estão necessariamente a impô-las aos outros quando as manifestam.»

De acordo. Eu não te imponho as minhas, tu não me impões as tuas e o Papa pode manifestar a sua oposição aos preservativos à vontade que por cá onde eu moro vai continuar a haver que chegue para todos, nas farmácias e supermercados.

Por isso, neste contexto, tanto as declarações do Papa como o tsunami a que te referes são expressões legítimas de opinião pessoal.

Mas em África a coisa é diferente. Lá, onde muita gente vive, nem supermercados ou farmácias têm e para que tenham acesso aos preservativos e possam decidir se vão proteger-se de doenças venéreas desta forma ou de outra precisam que alguém distribua os preservativos.

E lá as organizações religiosas têm muito poder e influência e podem impedir este acesso. Por exemplo, Francisco Chimoio, arcebispo de Maputo, defendeu que os preservativos enviados para Àfrica vêm contaminados com HIV para matar as pessoas. Isto é um exemplo extremo mas, nas circunstâncias, é mais que uma mera opinião. Tem consequências até para quem discorda.

E as palavras do Papa caiem nesta categoria. Por causa desta atitude dele há muita gente em África que vai ver os seus interesses pessoais subordinados aos preconceitos religiosos de quem tem poder para impedir ou dificultar a distribuição de preservativos.

Vê mais exemplos aqui.

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«James Watson declarou que a raça negra é inferior à raça branca, e o irresponsável envio de antrax a diversas pessoas nos Estados Unidos foi feito por um cientista em nome das suas experiências científicas.»

Qual seria a tua opinião de mim se eu, invocando algum principio arbitrário do qual tu não partilhas, defendesse estes actos como sendo louváveis?

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

No blog que indicas há uma lista de opositores e de defensores, bispos e cardeais, africanos e não africanos,do recurso ao preservativo como protecção contra a transmissão de doenças contagiosas, sobretudo no caso de casais dos quais um dos membros está infectado. Seguem a tese do mal menor. Isto revela, quanto a mim, duas coisas.
A primeira é que a liberdade de expressão no interior da Igreja Católica não é tão reduzida ou inexistente como se diz muitas vezes,
A segunda é que os bispos que se pronunciam pelo uso do preservativo não defendem tal uso como contraceptivo e parece-me que mantêm os princípios gerais da Igreja Católica no que se refere à persepctiva sobre a sexualidade humana, a mesma defendida pelo Papa. Não estou a dizer que opinião deles coincide exactamente com a do Papa.
A terceira conclusão é que esta pluralidade de opiniões garante também que as organizações católica no terreno não se sentirão tão bloqueadas no aocnselhamento das pessoas infectadas como têm afirmado os críticos do Papa. Alguém afirmava recentemente: 'O Papa assinou a sentença de morte de um milhão de doentes com sida em África'. Em questões desta natureza não ajuda nada produzir afirmações destas sem um suficiente fundamento.

Acresce ainda que nem todos os infectados com sida, no passado como no presente, como no futuro, devem a sua doença à recusa de instituições católicas em lhe facultarem preservativos. Parece por vezes que os críticos do Papa afirmam implicitamente que todo o doente com sida lhe deve a sua doença.

Creio que fora das posições dos bispos e cardeais que não se opõem, ao uso de preservativos em casos muito específicos, se mantêm dentro da posição central da Igreja Católica: o preservativo não deve conduzir a um seu uso generalizado como contraceptivo, uma vez que nenhum contraceptico, o preservativo ou outro, deverá dispensar as pessoas, mesmo os casais, de uma sexualidade responsável e humana.

Em resumo. A resposta à pergunta: 'preservativo, sim ou não?' não pode ser simplesmente: 'Sim, porque não'?

Repito o que já disse noutras ocasiões: as questões complexas não têm respostas fáceis.

Um abraço,

Alfredo

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Não entendo muito bem o sentido da tua pergunta acerca da posição de James Watson. O que eu quei significar não tem evidentemente nada a ver com alguma intuição de diminuir o valor da ciência. Tem a ver com o facto de muitas vezes se citarem bispos, padres e leigos católicos ou de outras religiões, quando eles se pronunciam sobre as mais diversas questões, como se as suas declarações, quando absurdas, implicassem automaticamente o carácter intrinsecamente absurdo da religião que professam. Isto acontece frequentemente com declarações de muçulmanos acerca da legitimidade dos bombistas suicidas, do apedrejamento de mulheres, etc. Estas pessoas podem dizer que se exprimem em nome da sua religião, mas eu não sou obrigado a aceitar as suas declarações sem mais, nem a retirar daí qualquer conclusão sobre a legitimidade ou não das religiões. Mas é isto precisamente o que fazem muitos não crentes. Não é o que eu faço a partir de declarações de cientistas quando estes se pronunciam de forma absurda ou não fundamentada sobre as mais variadas questões, como a superioirdade da raça branca. Nem tudo o que sai da boca dos cientistas é aceitável.

Incluindo o que possam dizer sobre educação sexual, que era o tema da discussão com o Pedro Morgado.

Um abraço,

Alfredo

Alexandre disse...

Caro Professor Alfredo Dinis,

Pelo que percebi professa uma perspectiva do Papa.

Apresenta uma proposta de vida que não passa pela banalização das relações interpessoais em geral e das relações sexuais em particular.

Neste mundo global, quantas sociedades temos?

Olhando para Portugal:

uma jovem de Monsaraz, no seu castelo, sem meio de transporte...

uma jovem no Porto, nas noites quentes do porto...

Podem ter apenas uma doutrina?

A exigência de relações interpessoais com 300 outras pessoas faz parte da natureza humana?

300, 500, 800, 1000...

E numa sociedade com 5 cinco famílias, não será adequado uma casamenteira para evitar cruzamentos eugénicos?

Como consegue uma proposta de vida que não passe pela banalização das relações interpessoais em geral?

Quando no metro logo pela manhã se cruza com milhares de pessoas...
Não é obrigado a banalizar as relações interpessoais?

Uma sociedade isolada, com ... 5 (cinco) famílias... em que nascem muitas mulheres e poucos homens...
não será a poligamia adequada, para sobrevivência da espécie?

Até Jesus ponderou numa parábola o casamento com 10 virgens... as que não estavam prontas a tempo ficaram à porta... as outras 5 (cinco)... tiveram a noite de nupcias...

Será esta fábula uma banalização?

Será que estamos a falar das mesmas sociedades?

Uma solução para uma tribo não será diferente de uma/várias solução/ões para um planeta?

Cordiais saudações,

Alexandre

alfredo dinis disse...

Caro Alexandre,

Obrigado pelas tuas considerações.
Não creio que a parábola das dez virgens tenha a ver com questões de sexualidade e casamento. Bastará consultares algum comentário bíblico.
Concordo contigo no que se refere à existência de culturas diferentes com tradições diferentes. Mas se nos limitamos a aceitar as diferenças culturais sem mais, teremos que aceitar tudo? Por exemplo, há tribos africanas, e até mesmo grupos étnicos chineses, que matam à nascença as crianças do sexo feminino só porque já há demasiadas meninas nascidas, e isso vai complicar depois os casamentos, e talvez casar uma filha fique mais caro que casar um filho. Teremos que aceitar todas estas práticas acriticamente? Teremos que renunciar a princípios éticos universais? Não me parece que seja a actual tendência globalizante. O que são os direitos humanos é entendido da mesma forma em todos os países. Já lá vai o tempo em que a Indonésia justificava a sua opressão dos timorenses com o facto de não se sentir obrigada a aceitar a compreensão ocidental dos direitos humanos. Nunguém lhe prestou atenção, e ainda bem. O mesmo argumento +e ainda invocado pela China. Os seres humanos são essencialmente os mesmos em toda a parte. A escravatura é igulamnente intolerável em Portugal como na Papua Nova Guiné.

Sim, é verdade que há diferenças entre os povos, as culutras, as situações sociais, económicas e políticas. Mas o que identifica um ser humano e uma sexualidade humanizadora não se distingue de cultura para cultura.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Nuno disse...

Preservativo não foi solução para AIDS na África do Sul

Um vídeo confirma as palavras do Papa

JOHANNESBURGO, quarta-feira, 25 de março de 2009 (ZENIT.org).- Um novo site oferece documentários nos quais se mostra como é possível lutar contra a AIDS desde uma perspectiva cristã e mostra como, a partir da experiência sul-africana, o preservativo não está detendo a epidemia.

A iniciativa, recém-lançada na rede, publica os documentários audiovisuais, produzidos por Metanoia Media, «Semear entre lágrimas», merecedor de vários prêmios, assim como «Chegou a mudança», no qual se apresentam imagens e testemunhos inéditos dos ativistas católicos na luta contra a AIDS, na África do Sul e na Uganda.

Norman Servais, diretor da companhia de produção sul-africana, explicou à Zenit que «meu país, como se sabe, é a capital mundial da AIDS, de maneira que podem falar-nos de preservativos, se quiserem, mas nós lhes responderemos que não são a solução».

O bispo Hugh Slattery, de Tzaneen, na África do Sul, promoveu a produção destes vídeos como parte de um programa para responder à AIDS a partir de uma perspectiva católica.

Em uma entrevista com Zenit, Dom Slattery explica que o objetivo do segundo documentário consiste em mostrar que «a abstinência antes do casamento e a fidelidade no casamento deterão rapidamente a difusão da AIDS».

Um terceiro documentário da série, «Chamados a prestar ajuda», enfrentará o tema da «assistência aos enfermos, aos que vão morrer, e aos órfãos da AIDS», explica o produtor.

O quarto vídeo, que será divulgado ao final deste ano, mostrará «o casamento e a família como a autêntica solução à pandemia da AIDS».

Mais informação em http://www.catholicportal.co.za/AIDS/The_Change_Is_On.htm

Nuno disse...

Cardeal Sarr: educação moral para lutar contra AIDS
O arcebispo de Dakar explica a experiência no Senegal

DAKAR, quarta-feira, 25 de março de 2009 (ZENIT.org).- Para combater a AIDS na África, é necessário sobretudo a educação em valores, considera o cardeal senegalês Théodore-Adrien Sarr.

O purpurado, arcebispo de Dakar, explicou como desde 1995, no Senegal, a pedido do então presidente Abdou Diouf, as comunidades religiosas cristã e muçulmana se comprometeram na luta contra a AIDS.

«Dissemos que poderíamos pregar e exortar em favor da abstinência e da fidelidade, e o fizemos, tanto cristãos como muçulmanos. E se hoje a taxa de contágio da AIDS no Senegal permanece baixa, creio que é graças às comunidades religiosas, que insistiram na moral e nos comportamentos morais», explicou nesta terça-feira aos microfones da Rádio Vaticano.

«Dado que não creio que o preservativo possa erradicar a AIDS, creio que continua sendo verdadeiramente válido nosso convite à abstinência e à fidelidade e, portanto, aos valores morais e à observância dos bons costumes sexuais.»

Ainda que reconheceu em alguns países do continente poderá haver dificuldades «porque há costumes diferentes», o purpurado sustenta que, «em todo caso, é necessário saber que a África é muito variada e que há sociedades africanas que conhecem muito bem o conceito da abstinência, da fidelidade, e que o cultivam» e que «é necessário ajudá-las a continuar cultivando-o».

Quanto ao Senegal, confessou temer que «se começarem a distribuir massivamente os preservativos aos nossos jovens, isso não os ajudará e será muito mais difícil controlar-se e permanecer fiéis até o casamento».

«Penso que ajudar as pessoas, através da educação, a aprender o esforço do controlar-se continua sendo uma contribuição válida para a prevenção da AIDS», comentou.

Segundo o cardeal Sarr, «é uma pena que, ao invés de refletir sobre como o Papa foi acolhido e sobre tudo aquilo que viveu com as populações dos Camarões e da Angola, alguns meios de comunicação tenham posto o acento quase exclusivamente na questão do preservativo e do aborto».

«Nesta viagem, houve coisas belas que é necessário transmitir, mas, no entanto, alguns não encontraram nada melhor a fazer que alimentar polêmicas», que por outro lado «foram aumentadas, exageradamente com relação ao resto do conteúdo» da visita papal.

A respeito disso, o cardeal declarou que «é cada vez mais necessário que o Ocidente e os ocidentais deixem de pensar que só eles são os depositários da verdade, que só o que eles concebem como forma de ver e de atuar é válido».

Quanto às suas próprias impressões sobre a viagem papal, o purpurado afirmou que «se o Papa pôs sobre a mesa estes dois problemas, do aborto e dos preservativos, talvez seja para recordar aos africanos, especialmente aos bispos da África, que é melhor pensar com nossa cabeça e por nós mesmos; viver o Evangelho e seus valores para promovê-los por nós mesmos, esses valores que nos parecem sempre nossos».

«Em qualquer caso, eu me comprometi a trabalhar para que possamos expressar-nos e demonstrar que temos formas de ver e atuar que são válidas, ainda que sejam diferentes das que alguns nos propõem», concluiu.

Nuno disse...

DN, 26.03.2009
Maria José Nogueira Pinto

O Papa é um chefe religioso. Quando fala para os milhões de católicos que, por todo o mundo, acorrem a escutar a sua palavra, estes não esperam que fale como um funcionário da Organização Mundial de Saúde ou como um qualquer ministro. Nem tão-pouco como um demagogo ou um profeta. Sucessor de Pedro, que foi mandatado por Cristo para fazer a Sua Igreja, o Papa quando vai itinerante pelo mundo, evangeliza na mais pura tradição do que foi e é essa Igreja.

O que significa o testemunho da verdade, do caminho e da luz, sem qualquer embuste fácil de correcção política. Foi o que Cristo fez, irritando os poderes políticos, económicos e sociais do seu tempo, que o julgaram, açoitaram e crucificaram.

Este incidente tão mediatizado revelou dois interessantes aspectos da forma mentis deste tempo em que vivemos. A primeira tem a ver com o comportamento dos que não têm fé, e por isso não acreditam em nada do que estou aqui a escrever.

Dúvida que me surge: se não acreditam porque é que se incomodam tanto com o que o Papa diz? Será porque, como alguns vaticinam, as religiões poderão substituir, no século XXI, as ideologias? E isso é, só por si, ameaçador? E quem deu cabo das ideologias? Foram as religiões? Não me parece. A segunda tem a ver com a religião à la carte, adoptada pelos que acreditam mas não concordam, e querem uma religião à medida das concessões que foram fazendo ao longo da sua vida e, de acordo com cada circunstância concreta, uma ementa de interpretações onde caiba tudo e eles próprios.

Em todos os discursos proferidos pelo Papa na sua visita aos Camarões, não há qualquer referência ao preservativo. Na resposta a um jornalista sobre esta questão, Bento XVI responde nos seguintes termos "(…) não se pode solucionar este flagelo apenas com a distribuição de profilácticos: pelo contrário, existe o risco de aumentar o problema." Quem lide de perto com a sida sabe que é mesmo assim (veja-se o caso português em que apesar da distribuição gratuita de preservativos e da troca de seringas não melhora os seus indicadores).

O combate a este flagelo passa hoje, graças ao progresso científico, por outras coisas, mais complexas, mais difíceis e mais caras e às quais os doentes africanos não têm acesso (nem muitos portugueses…).

Tão-pouco o Papa foi aos Camarões recomendar a abstinência sexual como solução para a sida. Exortou sim à humanização das relações interpessoais em geral, e da sexualidade em particular.

Para além disto - um ínfimo episódio no contexto da digressão africana - o Papa falou de tudo o que realmente interessa: a corrupção, o desperdício de recursos, o tribalismo, a lei do mais forte, a particular situação das mulheres, a fome, a doença, o imperativo da paz. Os milhões de africanos que caminharam ao encontro do Papa fizeram-no com o espírito de confiança que a Igreja cimentou nesses países onde está, não apenas na liturgia dos templos, mas no terreno, junto das populações, cuidando, tratando, acolhendo, provendo, como pode, à satisfação das suas necessidades mais básicas.

Neste Continente que tantos dão de barato como "perdido", a Igreja desenvolve diariamente mil e uma acções junto daqueles que a geografia privou de toda a dignidade.

Pode-se não acreditar, não ter fé, acreditar e discordar mas não se pode inventar uma outra religião mais conforme aos ditames intelectuais que hoje nos regem, com outra lógica, com outros fundamento. A Igreja que foi a África foi de visita aos seus filhos mais abandonados. Não foi cobrar impostos nem pedir votos, nem fazer campanha mediática. Foi levar a esperança e dizer a verdade. Por isso mesmo é que os africanos a receberam de coração aberto.

alfredo dinis disse...

Caro Nuno,
Muito obrigado por essas interessantes informações, que permitirão a crentes e a não crentes formularem juízos objectivos.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Madalena disse...

Alfredo,

Obrigada! fiquei muito mais esclarecida em relação á polémica que se gerou no mundo á cerca do que o Papa disse em África. Cá em casa sempre se partilhou esta ideia de os preservativos nao serem a solução de problemas tao graves como a Sida ou o aborto.Foi muito bom "ouvi-lo" . Com 18 anos torna-se cada vez mais difícil conseguir transmitir aos outros estas ideias ..espero assim conseguir saber argumentar sobre esta assunto da melhor forma,porque,considero que para se defender uma opinião hà que saber fundamentá-la,não é só não porque não.
Muito obrigada,

Madalena

Alexandre disse...

Caro professor Alfredo Dinis,

Antes de mais, muito obrigado pela sua resposta.

"Não creio que a parábola das dez virgens tenha a ver com questões de sexualidade e casamento."

A parábola penso que refere a preparação para a vinda de Deus... corrija se estou errado, por favor.

"Teremos que aceitar todas estas práticas acriticamente?"
Tem toda a rezão, o preservativo é uma resposta crítica para os problemas na nossa sociedade...

"Teremos que renunciar a princípios éticos universais?"
Defina o que são princípios éticos universais...
Concordo com a defesa da vida...
Porque na minha perspectiva as definições romanas não são naturais, diria que muitas situações são contra natura.
Contra natura no sentido de ter uma sociedade estruturada segundo regras que não as da natureza.

Quando se é simplista no lugar de simples corremos o risco de ter conclusões erradas. Frase genérica sem afirmar que alguém o é.
A lei mais simples, sem ser simplista, mais natural, ie, canónica, pode englobar a poligamia... defende a preservação da espécie...
Afirmação muito polémica... eu sei...

Em que situações? Quando?

Imagine Adão e Eva...

Ou Noé depois do dilúvio...

Ou Abraão...

Com a resposta fica claro que não concordo com o pensamento seguinte:

"Mas o que identifica um ser humano e uma sexualidade humanizadora não se distingue de cultura para cultura."

Espero que esteja claro agora do porquê da parábula das dez virgens...

Será que esta sociedade está preparada com o azeite?
Mais... será que esta sociedade não partiu os lampiões?

Cordiais saudações,

alfredo dinis disse...

Madalena,

Obrigado pelas suas palavras. Fico ocntente que tenha compreendido a minha argumentação e que esta a tenha esclarecido.

Cordiais saudações,


Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Alexandre,

Sim, a parábola das virgens prudentes e das insensatas tem a ver com a preparação do encontro com Deus.

Continuo a pensar que o preservativo não é uma resposta crítica mas sim acrítica. O preservativo é aconselhado não apenas para evitar a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis mas também para permitir o sexo despreocupado e irresponsável, o mesmo que provoca a gravidez indesejada nas adolescentes, e não só, gravidez que se 'resolve' com um aborto, etc. Não considero que haja aqui qualquer elemento crítico, mas sim uma liberalização acrítica.

Algumas normas éticas universais:
- ama o próximo como a ti mesmo, ou: não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti;
- reparte o teu pão e o teu abrigo com quem não tem;
- não escrevizes nem instrumentalizes ninguém; não submetas ninguém aos teus caprichos;
- não renuncies a uma vida feliz;
- não abdiques da tua liberdade.

Etc.

Como sabe a expressão 'contra a natureza' talvez esteja a ser utilizada de uma forma algo ambígua e pouco clara. Aliás, muitos dos nossos termos e expressões são menos claros do que parece, e nem sempre nos damos conta disso.

Saudações,

Alfredo Dinis

n disse...

Olá. Recebi este texto por mail.
Abraços.
Nicolau


Do Director do Projecto de Estudos sobre Prevenção do S.I.D.A. de Harvard: Afirmações do Papa acerca da distribuição do preservativo tornar a epidemia de S.I.D.A. pior estão correctas

Por John –Henry Westen
19 de Março de 2009 – Edward C. Green, Director do Projecto de Estudos sobre a Prevenção do S.I.D.A. do Centro de Estudos sobre População e Desenvolvimento de Harvard, afirmou que a evidência corrobora as afirmações do Papa ao declarar que a distribuição de preservativos piora o problema do S.I.D.A.
“O Papa está certo”, afirmou Green ao National Review Online na passada Quarta-feira,”ou, melhor dizendo, as nossas melhores conclusões vão ao encontro dos comentários do Papa.”
“Existe”, acrescentou Green, “ um paralelo consistente que mostram os nossos estudos, incluindo a “Demographic Health Surveys”, fundada pelos Estados Unidos, entre uma maior disponibilidade e uso de preservativos e uma maior – não menor – incidência de infecções pelo vírus HIV. Isto pode dar-se devido ao fenómeno conhecido por “compensação de risco”, significando que quando a população utiliza uma tecnologia de redução de risco como o preservativo, muitas vezes essa mesma população perde o benefício da redução desse risco ao “compensar”, arriscando-se mais do que faria sem essa tecnologia. Ver a entrevista completa com Green em http://article.nationalreview.com/?q=MTNlNDc1MmMwNDM0OTEzMjQ4NDc0ZGUyOWYxNmEzN2E=
A Pagina Electrónica do Projecto do S.I.D.A. sobre Green menciona o seu livro “Repensar a Prevenção do S.I.D.A.: Aprendendo com os Sucesso de Países em Desenvolvimento”. Nele Green revela que “ As soluções, na sua maioria médicas, fundadas pelos grandes doadores tiveram pouco impacto em África. Em compensação, mudanças de comportamento relativamente simples e de baixo custo – como insistindo numa crescente monogamia e no adiamento da actividade sexual para os mais novos – têm tido maior sucesso na luta contra a doença e na sua prevenção.”
O texto completo da troca de impressões entre o Papa Bento XVI e o repórter, texto esse que lançou uma tempestade na imprensa mundial, foi divulgado agora pela imprensa do Vaticano.
O Papa foi confrontado com a seguinte questão: “ Santo Padre, um dos maiores flagelos de África é o problema da epidemia de S.I.D.A.. A posição da Igreja Católica na luta contra este mal tem sido frequentemente considerada irrealista e ineficaz.”
Bento XVI respondeu: “ Eu diria o contrário.
“Estou convencido de que a presença mais efectiva na frente de batalha contra o HIV/S.I.D.A. são, precisamente, a Igreja Católica e as suas instituições. Penso por exemplo na Comunidade de Santo Egídio, que tanto faz e tão visivelmente na luta contra o S.I.D.A; ou nas Camillianas, só para mencionar algumas das freiras que estão ao serviço dos doentes.
Penso que este problema, o S.I.D.A., não pode ser vencido com slogans de propaganda. Se falta a alma, se os Africanos não se entre ajudarem, o flagelo não pode ser resolvido com a distribuição do preservativo; pelo contrário, arriscamo-nos a piorar a situação. A solução só pode advir de um compromisso duplo: primeiro, na humanização da sexualidade, ou por outras palavras, num renovamento espiritual e humano que traga consigo uma nova forma de proceder uns para com os outros. E em segundo lugar, num amor autêntico para com os que sofrem, numa prontidão – mesmo à custa de sacrifício pessoal - para estar presente aos que padecem. São estes os factores que podem trazer o progresso, real e visível.
Assim, eu diria que o nosso esforço deve ser o de renovar a pessoa humana por dentro, o de dar-lhe força espiritual e humana para uma forma de comportamento justa para com o seu corpo e o corpo do outro; e ainda o de ajudá-la a ser capaz de sofrer com os que sofrem e de estar presente nas situações difíceis.
Acredito que é esta a primeira resposta ao problema do S.I.D.A., que é esta a resposta da Igreja e que, deste modo, a sua contribuição é uma grande contribuição. E estamos gratos a todos os que assim contribuem.”
Veja as credenciais impressionantes e a lista de publicações do Dr. Green em http://www.harvardaidsprp.org/faculty-staff/edward-c-green-bio.html

alfredo dinis disse...

Caro Nicolau,

Obrigado por mais esta informação muito importante, que só vem corroborar o que é óbvio e que muitas pessoas teimam em não querer entender.

Um abraço,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

us through. Here I split my discourse (give me your arm, Sophronia), operation, and became inflamed with a sacred zeal to administer it, Daggs, Mr Faggs, Mr Gaggs, Mr Boffin. Yes, sir; quite right. You are a family--I care not which--you accuse them of an impertinence little less
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Anónimo disse...

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mechanical genius. And so on. Therefore I say that M. R. F. amuses me.' winter allergies the vices of the commonest and worst life, were expected to profess
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Anónimo disse...

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freefun0616 disse...

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