22 de março de 2009

Porque não ser livre?

O grande problema da humanidade é a falta de lucidez que apresenta perante a sua existência. A assertividade da afirmação anterior daria azo a inúmeras discussões e dissensões. Discordar ou concordar são dois caminhos legítimos perante uma afirmação, atitude ou ideia. A decisão essa permanece invariavelmente vinculada à liberdade individual, talvez mais condicionada que o que inicialmente pensamos. Quando a nossa intransigência ultrapassa o limite do razoável e se apega a uma teimosia extrema, poderemos falar de liberdade? Ser livre não será precisamente esta capacidade de nos deixarmos desapegar daquilo que pensamos e sermos flexíveis quanto baste para revermos a nossa posição?
Os textos que a Igreja propõe para a meditação dos cristãos neste Domingo questionam profundamente a concepção de cada um de nós perante a sua existência. Aos homens e mulheres deste mundo é oferecida a hipótese de recusarem a proposta de Deus, é lançada a possibilidade de acharem que a humanidade não é nada daquilo que é sugerido. Escolher o caminho da auto-suficiência ou do egoísmo é viável, todavia representa uma fuga desesperada àquilo que é efectivamente humano. 'Como defender esta posição?', eis a questão. Talvez seja indefensável partindo dos meios argumentativos comuns. Andamos há séculos a tentar definir o que é ser humano e ainda não chegamos a um consenso. Algum dia chegaremos? Talvez o importante não seja a unanimidade...
O ser humano que tem presente diante de si um horizonte de fé, no qual Deus se apresenta como Alguém que ama e oferece a serenidade e até mesmo a alegria, vive no encontro constante com os seus anseios mais profundos. Deus não veio para condenar o mundo, ao contrário da argumentação de muitos anti-crentes, mas veio para o salvar. Como? Precisamente respondendo ao ser humano, não através de uma argumentação tao precisa e clara que convença toda a gente, mas abordando a profundidade dos desejos mais universais de cada um de nós. Quem de nós não quer ser feliz? Quem deseja viver em constante desolação e insatisfação?
O grande problema é o caminho para atingir a concretização dos nossos anseios. A negação do egoísmo, através de uma autêntica abertura aos outros, é um desafio deveras exigente. O amor, no sentido cristão, é esta tendência para abdicar dos apegos que nos limitam no dia-a-dia, daquelas coisas das quais não conseguimos abrir mão e que, se eventualmente, falham nos deixam particularmente irritados e angustiados. Experimentar a libertação que o amor humano nos traz é perceber um pouco deste dinamismo de anti-egoísmo. A alegria profunda de nos despreocuparmos de nós mesmos, das nossas necessidades e anseios, a possibilidade de até mesmo esquecer aquilo que habitualmente nos move em favor de um outro, que se apresenta diante de nós, é uma demonstração empírica do amor de Deus pela humanidade. Deus amou tanto o mundo que enviou o seu próprio filho. Geralmente é o que acontece connnosco quando amamos efectivamente um outro. Não conseguimos estar sem dar o que temos de mais precioso, sofremos com o seu sofrimento, deixamo-nos atingir pela sua indiferença, não descansamos enquanto não vemos no seu rosto a alegria. É precisamente isto que Deus quer fazer connosco!
A vida de Jesus Cristo revivida e retomada nos nossos dias é o exemplo, o estímulo e a motivação que Deus nos oferece para sermos outros, para nascermos de novo, para resolvermos o nosso desejo de felicidade. O amor de Deus é tão grande que Ele não descansou enquanto não se fez próximo. Deixou de estar lá em cima, preso nas nuvens e distante nas alturas, para se mostrar ao nosso lado. Quando se ama há um desejo inefável de proximidade. A humanidade de Cristo é perfeita porque é negação do egoísmo, é vida que põe de lado a teimosia e aceita a liberdade, é existência não vivida para si mas convencida da relevância dos outros. Ser humano é, por isso, estar voltado para fora de mim, estando constantemente num processo de despojamento e liberdade. Sou mais livre quanto mais preparado estiver para todas as possibilidades: para a morte ou para a vida, para o risco ou para o cómodo, para o imprevisto ou para o que já estava à espera, para o sol ou para a chuva, para a certeza ou para a dúvida. Quando me deixo apegar pelos meus esquemas e planos prévios, quando não sei aceitar outra situação ou outra pessoa senão aquelas que tinha imaginado, quando não sei aceitar uma ideia ou ponto de vista diferente do meu e fico perfeitamente irritado devido a isso, aí poderei falar de liberdade?
A liberdade para a morte talvez seja a mais difícil de aceitar e, por isso, a cruz de Cristo continua erguida ao alto como sinal de algo muito incómodo. O amor exige uma morte constante a nós mesmos e quando essa morte atinge o extremo, o amor foi totalmente concretizado. Olhemos para a nossa vida, para a nossa própria experiência de amor e da alegria que nos trouxe, para perceber de vez a realidade da proposta cristã. Como diz o povo, o pior cego é aquele que não quer ver!


7 comentários:

Anónimo disse...

" Deus não quis o mal moral em nenhum sentido, mas apenas o permitiu devido a um bem maior que aquele que se poderia alcançar impedindo-o, ou seja, não tornando o homem livre" S. Tomás de Aquino ( acerca da liberdade do homem).

Saudações,

Conceição Oliveira

Anónimo disse...

Muito bom!
De facto num tempo em que tudo se defende à custa do “direito” da liberdade de cada um, valia a pena discutir o que é afinal ser livre. Talvez muitos “iluminados” chegassem a conclusão que aquilo a que chamam liberdade é tudo menos liberdade. E definitivamente tem razão, o importante não é a unanimidade
Parabéns pela sua reflexão

Rui disse...

Cara Conceição:

Não consegui perceber o sentido do seu comentário. Geralmente citações tiradas do contexto podem dar azo a interpretações incorrectas. Se me quiser enviar o resto do capítulo poderemos iniciar um diálogo. Mesmo considerando muito S. Tomás preferia comentar a sua opinião.

Saudações,

Anónimo disse...

Caro Rui,
Concordo que “ geralmente citações tiradas do contexto podem dar azo a interpretações incorrectas”. Portanto, passo a esclarecer o sentido do meu comentário:
Considerei a sua reflexão muito interessante.
Dado que nela aborda o tema da liberdade, do ser livre e do individualismo, julguei interessante fazer esta citação no sentido em que o homem livre pode escolher amar e servir a Deus, elevando-se ( este um bem maior) . Da mesma forma, esta condição de liberdade responsabiliza o homem pelos seus actos. Deus, ao conceder a liberdade ao homem, tornou-o apto a engrandecer-se, aproximando-se Dele, ou de diminuir-se, afastando-se da visão de Deus. Como Deus é amor, e o amor só se realiza de dentro para fora, o individualismo é um caminho inverso.
Espero ter esclarecido.


Saudações,
Conceição Oliveira

Anónimo disse...

Acrescento que, no meu entender, o amor verdadeiro é aquele que se dá sem esperar retorno. E este amor deverá sair do homem em direcção a tudo o que o rodeia. Neste amor poderemos encontrar a felicidade maior, Deus. Claro que poder-se-á considerar esta visão, uma visão utópica, irrealizável. Afinal, somos apenas “humanos”, e interagimos com realidades muito diversificadas. Contudo, se nos exercitarmos, iremos, por vezes, conseguir. Afinal, a felicidade é composta de pequenos momentos maravilhosos. Dar é, em si mesmo, o maior acto de amor.
C.O.

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto. Muito Bom. Mas...

"O ser humano que tem presente diante de si um horizonte de fé, no qual Deus se apresenta como Alguém que ama e oferece a serenidade e até mesmo a alegria, vive no encontro constante com os seus anseios mais profundos. Deus não veio para condenar o mundo, ao contrário da argumentação de muitos anti-crentes, mas veio para o salvar. Como? Precisamente respondendo ao ser humano, não através de uma argumentação tao precisa e clara que convença toda a gente, mas abordando a profundidade dos desejos mais universais de cada um de nós."

Neste parágrafo apresenta muitas certezas e algumas classifico como falsas. Como define um "anti-crente"?

Eu defino-me como crente, mas acredito que a "condenação" do mundo seja a mesma razão da "salvação".

E a argumentação é muito precisa e clara. Do livro "An Iron Will" de O. S. Marden:
Rules of destiny
"There is no chance, there is no destiny, no fate"

Não concordo:

There is no chance? Try to stop the light.
There is no destiny? Try to stop the moon eclipse.
And you will find your fate.

"God has spoken, or he has not spoken. If he has spoken, the wise will hear."

Qual a sua opinião?

Cle'Nilson de Sousa Sucupira disse...

Não existe nenhuma obrigação maior que a obrigação de sermos livres; uma obrigação tamanha que não temos mais como negá-la, nem como nos esquivar um tantinho! Ou somos livres ou a sociedade nos destrói - nosso corpo inclusive, e antes nossa individualidade. Quando pensamos que estamos escravos d'alguma 'coisa', ou religião, ou ideologia outra qualquer, é justamente a hora em que estamos exercitando nossa liberdade.