30 de março de 2009

XTO. hoje


VER JESUS | no evangelho deste domingo “alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus» 1”. A resposta de Jesus a este pedido, parece nada ter a ver com a pergunta. Parece até que, diante da pergunta feita, a resposta, embora cheia de uma profunda visão de Jesus sobre si mesmo, desilude. Os gregos vão para ver Jesus fora da sua terra. Jesus afirma ter vindo para fazer ver o Pai, na Sua/nossa terra. Creio que por vezes podemos ficar desiludidos nos momentos em que buscamos a presença e o suporte, que Deus é, pela mesma razão. Vamos buscá-lo fora da nossa terra. No abstracto. A oração pode torna-se num momento para não pensar muito nas coisas da vida. Olhamos tanto para o alto que esquecemos que Ele veio para ficar. Por isso não ouvimos a fonte, interna e comum a todos, que borbulha Voz do coração. Separamos o cá do lá, o céu da terra, o imanente do transcendente, a vida da Vida… E diante da pergunta do salmista “Onde está o teu Deus? 2” que havemos de responder?



GRÃO NA TERRA
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“Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos 3”. Há uma prática de cultivo em África muito bonita. Dadas as chuvas fortíssimas, as sementes têm que ser plantadas muito fundo. Demoram imenso tempo a nascer mas, se morrerem na terra, germinam com tal pujança que não há chuva que detenha o seu crescimento. Confio que Deus seja esta semente tão funda que só se reconhece, a sua presença em nós, pelos frutos de amor e dedicação ao próximo. Deus não é então uma entidade suprema e desligada da existência. É O que se atira de cabeça para bem dentro da nossa terra. É O que comunga das nossas chatisses e alegrias, das nossas preocupações e afazeres que, parecendo banais para quem n’Ele crê, jamais serão. Porquê? Porque se acreditar é dar crédito a alguém, acreditar em Deus é ser aquele que dá crédito à existência de Deus com a sua vida. Como? ‘Elevando e contestando os lugares do humano 4’ com gestos de vida que gritam palavras, tão fundas quanto elevadoras de outros, tais como: “Amai os vossos inimigos” Mt 5, 44; “Os teus pecados estão perdoados” Lc 7, 48; “Vai em paz” Lc 8, 48; “Quero”que sejas curado…



TRANSPARÊNCIA
DA CRUZ, HOJE | mas que quererá dizer tudo isto hoje? Num mundo em que os problemas são tão reais e tocam-nos tanto a pele, as expressões do religioso podem sempre parecer uma treta cor-de-rosa que não toca a vida de ninguém. Uma linguagem para tipos ultrapassados e não para pessoas de hoje, bombardeadas nos shoopings, que tomam comprimidos para aguentar o stress, que tem sempre as instituições governamentais à ‘coca’ sem pararem de melgar um só segundo com mais papeladas e canseiras… Será por isto a linguagem do amor cristão uma velharia, necessária mas para outros tempos? “A experiência que o cristianismo procura articular e comunicar é esta: o Deus, que circunda toda a realidade, emergiu do mais pobre. Nasceu no meio dos animais, … crucificado, esmolou-se para conseguir o amor de cada um e para eliminar as distâncias entre os seres humanos… desceu até aquela dimensão na qual estamos absolutamente sozinhos, o momento pessoalíssimo da morte, … para nos dizer: «Mesmo que vás até ao inferno, eu estou contigo. Não vais sozinho, Eu vou junto!» Por isso o importante para o cristianismo não é a transcendência nem a imanência. É a transparência, que é a presença da transcendência dentro da imanência. Não é a epifania, o Deus que vem das alturas e se anuncia. É a diafania, o Deus que, de dentro, emerge para fora, de dentro da realidade, do universo, do outro. 5” Pelo que, o cristianismo, que culmina no gesto sacrificial e ressuscitador de Jesus, só permanecerá actual se entrarmos nesta lógica de transparência de quem, tal como o Filho de Deus, deixa a sua própria cruz para trás das costas, a fim de abrir os braços ao seu próximo. Como fazê-lo? Entrar no quarto. Pôr-me diante deste crucificado ‘transparente’ e perguntar-me: “o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo, o que devo fazer por Cristo. 6” Comungando-O para que Jesus lidere os nossos corações, cabeças e braços para sermos em tudo como Ele, segundo os contornos que o Seu estilo ganha nas proporções do nosso carácter.

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1 Jo 12, 20
2 Salmo 42
3 cf. Confissões - Sto. Agostinho
4 FRAZÂO, José - “O memorial do Papa aos Bispos portugueses” in Brotéria. Vol. 166.
5 cf. Tempo de Transcendência - Leonardo Boff
6 cf. Exercícios Espirituais pt.53 – Sto. Inácio de Loyola