11 de abril de 2009

Agora começa. Tudo começa!

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ASSUSTADOS, DESANIMADOS, COM MEDO: fechados num cubículo, desorientados e tristes. Era este o estado de espírito dos discípulos quando Jesus ressuscitou. Nada daquilo que antes os movia, lhes dava esperança, os animava ou abria os olhos para a beleza da sua própria existência, sobrevivia. Como numa manhã abraçada de neblina... Tudo havia mudado. O Mestre havia desaparecido.
Os acontecimentos que nos marcam, em particular aqueles que nos ferem e provocam, têm o especial dom de nos fazer esquecer os tempos de consolação. Mudamos de estado de espírito quase sem nos apercebermos. O medo apodera-se de nós, rodeia-nos, e não nos permite olhar para além da dor.
Fechados num cubículo, onde a luz está ausente, porque não queremos ser vistos, encontrados, reconhecidos. Nenhuma metáfora mais certa, nenhuma analogia mais incisiva poderia conceder espaço à nossa frágil imaginação. Onze homens a fugir de si mesmos, dominados de receios, sem liberdade.

INCRÉDULOS PERANTE O ANÚNCIO DA RESSURREIÇÃO: Uma mulher foi a primeira a saber. Que facto poderia ferir mais o orgulho de onze homens feridos e com medo? Mesmo diante da memória das palavras do Mestre, haveria sempre algo a questionar. Poderá um homem nascer de novo? Eventualmente superar a experiência da morte?
A morte já não é mais o final, a absurdidade que fecha o homem sobre si mesmo. Jesus enfrentou a falta de fé dos seus próprios discípulos, daqueles que tudo haviam deixado para O seguir, daqueles que o escutaram vezes sem conta, que com Ele haviam partilhado os últimos anos da sua vida. Onde estava a confiança? Em que lugar residia a esperança?
À imagem dos discípulos, tantas são as situações em que os nossos olhos se recusam a admitir aquilo que a fé revela. Precisámos de ver, de tocar, de sentir e ainda assim não há certeza ou facto óbvio que consiga perturbar a nossa sede por duvidar. Ainda que Deus decidisse fazer o maior milagre possível, os nossos corações vacilariam. Todavia... eis o verdadeiro milagre, aquele limite que nos toca e questiona incessantemente. Quem não sentiu já os seus joelhos a tremerem diante da grandeza do gesto e da palavra inesperada? Quem não sentiu já o seu coração a bater tão forte que parecia querer rebentar os tecidos do seu peito? Quem não se deixou tocar e mover por essa força que nos anima e dá paz? Quem não acredita ainda que é o amor que nos traz aquilo que todo o ser humano ambiciona no mais fundo de si?
O amor, experiência mais sublime da nossa humanidade, é o milagre quotidiano mais óbvio que nos não permite duvidar.

"EU ESTAREI CONVOSCO ATÉ AO FIM DOS TEMPOS": Aí está Ele diante dos nossos olhos. Não há dúvidas! Já não há espaço para senãos. Viram e acreditaram. A ânsia desenfreada de certezas, os medos infantis que os dominavam, a escuridão do cubículo onde se escondiam... tudo havia desaparecido. Ele estava ali! Agora tudo começa de novo, uma vida nova se apoderava deles sem se darem conta.
A experiência do sofrimento e da morte havia renovado aqueles homens, tanto que poderíamos falar de uma vida nova, de uma autêntica ressurreição. Poderá um homem voltar ao ventre de sua mãe? Talvez não. Contudo a vida de um homem, que veio inaugurar uma nova lógica da existência, que se 'encosta' ao nosso lado, que partilha surpreendentemente as nossas dificuldades, as nossas hesitações, as nossas dores e dúvidas, pôs tudo em estado de sítio. Como aqueles terramotos que não deixam nada no seu lugar, assim este Homem conseguiu o que ninguém havia conseguido. Deus desceu do seu pedestal, do altar longinquo que o separava tanto daqueles que amava. O amor pede uma proximidade absoluta, exige uma vontade inexorável de fazer o bem ao outro, faz-nos abdicar de tudo aquilo que parecia imprescindível na nossa vida. Quem não consegue entender isto?
Deus obriga-nos a começar de novo. Descoordena todas as nossas prioridades, escangalha as nossas tempestades angustiadas e abre-nos a vida à serenidade. Qual é o acontecimento, a ausência, a morte, a dor, a dúvida que nos poderá tirar a paz, o gozo, a alegria de termos ao nosso lado Alguém que nos compreende e acolhe?
Agora começa. Tudo começa!