6 de abril de 2009

Lucetta Scaraffia, “A importância da verdade”


1. Certamente a característica da missão de Bento XVI é a verdade.
É-o para tudo, inclusive para o problema da SIDA e dos preservativos, um tema preocupante que – poder-se-ia imaginar facilmente – foi abordado durante a sua viagem à África. No meio das polémicas suscitadas pelas suas palavras, um dos mais prestigiosos jornais europeus, o britânico «Daily Telegraph», teve a coragem de escrever que, sobre o tema dos preservativos, o Papa tem razão. «Certamente a SIDA – lê-se no artigo – apresenta o tema da fragilidade humana e sob este ponto de vista todos devemos interrogar-nos sobre o modo de aliviar os sofrimentos. Mas o Papa é chamado a falar sobre a verdade do homem. É a sua função: ai dele se não o fizesse».

2. O problema da SIDA apresentou-se imediatamente, desde quando a doença se manifestou nos Estados Unidos nos primeiros anos 80, não só sob o ponto de vista médico, mas também cultural: a explosão da epidemia surpreendeu uma sociedade que acreditava ter derrotado todas as doenças infecciosas, e desde o início tocou um âmbito, o das relações sexuais, que há pouco tinha sido «libertado» pela revolução sexual. Com uma doença que punha em discussão o «progresso» alcançado e que se difundia rapidamente graças também à onda de cosmopolitismo que se estava a realizar com os novos e velozes meios de transportes. Ficou imediatamente claro que tal patologia era fruto de uma modernidade avançada e de uma profunda transformação dos costumes, e que talvez a luta para a prevenir tivesse que considerar também estes aspectos. Ao contrário, no mundo ocidental, as campanhas de prevenção foram baseadas exclusivamente no uso dos preservativos, dando por certa a obrigação de não exercer alguma interferência nos comportamentos das pessoas. O «progresso» não deveria ser colocado em discussão; nem na África, onde era evidente – e onde até agora é evidente, se se lerem com honestidade os dados da Organização Mundial de Saúde sobre a difusão da SIDA – que a distribuição de preservativos não é só por si suficiente para erradicar a epidemia.

3. O preservativo não é utilizado em África de um modo ‘perfeito’. – o único que garante 96% de defesa contra a infecção – de um modo ‘típico’, isto é, com a utilização descontinuada e inapropriada, que garante apenas uma defesa de 87%, dando, além disso, uma segurança que pode ser perigosa quando se estabelecem relações com outras pessoas. Como se sabe, a sida não se transmite apenas através da relação sexual, mas também através do sangue. Basta pois uma ferida, um pouco de sangue, para estabelecer a possibilidade de contágio. Torna-se igualmente necessário recordar, como é indicado nas pormenorizadas instruções de uso nas embalagens de preservativos, que estes se podem danificar facilmente com o calor – são feitos de borracha! – e também se foram manipulados por mãos enrugadas, como as de quem faz trabalhos manuais. Mas as indústrias farmacêuticas, tão rigorosas em assinalar estes perigos, são também as mesmas que apoiam o mito de que a difusão dos preservativos pode salvar a população africana da epidemia. Pode por isso compreender-se que todas as propostas de difusão do seu uso seja aceite com satisfação pelas suas empresas comerciais.

4. O único país da África que obteve bons resultados na luta contra a epidemia é o Uganda, através do método ABC, no qual A significa abstinência, B fidelidade (‘be faithful’) e C preservativo (‘condom’), um método, apesar de tudo, não inteiramente de acordo com a proposta da Igreja Católica. Até a revista Science reconheceu em 2004 que a parte mais conseguida do programa foi a mudança de comportamento sexual, com uma redução de 60% das pessoas que declaravam ter tido relações sexuais, e o aumento da percentagem dos jovens entre os 15 e os 19 anos que se abstiveram de relações sexuais. De tal modo que a revista escreveu: “Estes dados sugerem que a redução do número de parceiros sexuais e a abstinência entre os jovens não casados, juntamente com o uso do preservativo, constituíram os factores relevantes na redução da incidência do HIV”.

5. Muitos países ocidentais não querem reconhecer a verdade das palavras pronunciadas por Bento XVI seja por razões económicas – os preservativos custam dinheiro, enquanto que a abstinência e a fidelidade são obviamente gratuitas – seja porque receiam que o dar razão à Igreja num aspecto central do comportamento sexual possa significar um passo atrás naquela fruição do sexo puramente hedonista e recreativa que é considerada uma importante conquista do nosso tempo. O preservativo é exaltado para além da sua capacidade efectiva de deter a sida porque permite à modernidade continuar a acreditar em si mesma e nos seus princípios sem nada mudar. É precisamente porque tocam este ponto nevrálgico, esta mentira ideológica, que as palavras do Papa foram tão criticadas. Mas Bento XVI, que já o sabia muito bem, permaneceu fiel à sua missão, a de proclamar a verdade.
L’Osservatore Romano, 22.04.09

15 comentários:

tcasaleiro disse...

A polémica gerada em torno deste problema é um paradigma da nossa sociedade "light", "massificada" e "estupidificada". Sendo eu profissional de saúde (enfermeiro, neste caso)tive que debruçar-me sobre estes temas e não posso deixar de citar uma médica especialista em doenças infecciosas que nos disse: "a única forma de prevenir as infecções sexualmente transmissíveis é uma relação monogâmica com um parceiro são".
A moral sexual é, principalmente desde a Encíclica Humanae Vitae, um dos temas "quentes" na relação Igreja-Sociedade e o mais fácil é sempre acusar a Igreja de estar na idade das trevas, presa ao passado. Como refere o artigo o papa Bento XVI tem como missão a verdade e o combate ao relativismo. Contudo, a nossa sociedade não gosta de ouvir as verdades... (Deixo isto à consideração). Nessa mesma altura um investigador sénior da Univ. de Harvard escreve um artigo no Washington Post com o título "The Pope may be right". Porque será que isto não foi também difundido na nossa comunicação social?


Tiago Casaleiro

PS: Fica a ligação a este artigo:
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/03/27/AR2009032702825.html

alfredo dinis disse...

Caro tcasaleiro,
Obrigado pelas suas palavras. Conheço o artigo que cita, e que me parece valer a pena ler. No que se refere à comunicação social, cheguei à conclusão que eu próprio terei que procurar informação objectiva, sobretudo sobre questões e acontecimentos mais inportantes, visto que não posso ter confiança nos nossos meios de comunicação. Se ainda tivesse alguma dúvida acerca disso, a forma como a intervenção do Papa em África foi tratada, seria suficiente para me levar à conclusão a que agora cheguei.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Alexandre disse...

Caro Professor Alfredo Dinis,

Antes de mais os meus sinceros parabéns pelo texto.

Uma nota. Os preservativos são distribuídos gratuitamente por várias entidades entre elas o sistema nacional de saúde, pelo menos para já...

Não posso concordar com afirmações:
"a única forma de prevenir as infecções sexualmente transmissíveis é uma relação monogâmica com um parceiro são".

Relações sexuais poligâmicas estáveis entre parceiros sãos, previne com a mesma eficácia!

Não esqueça que os parceiros infectados com HIV devem usar preservativo. O perfil de resistência do virus pode evoluir de forma diferente nos parceiros infectados e provocar resistências cruzadas...

O uso de toalhas em hoteis, lençois pode também permitir a propagação de algumas doenças sexualmente transmissiveis (DST) bem como roupa interior nova não lavada. exemplo: Neisseria gonorrhoeae, Clamydia trachomatis, Candida albicans...

Cordiais saudações,
Alexandre

alfredo dinis disse...

Caro Alexandre,
Obrigado pela tua reflexão.
Talvez a grande diferença entre a posição do Papa e a dos que não estão com ele tem que ver com uma questão mais fundamental, a do contexto no qual se devem colocar todas as questões relativas à sexualidade. Este contexto tem a ver com a visão do ser humano e da forma como ele/ela se realiza afectivamente também através das relações sexuais, mas não só. Todas as nossas palavras, gestos e atitudes exprimem o que somos, e mudam segundo o ritmo do nosso amadurecimento como pessoas. A relação sexual é uma relação interpessoal tão intensa que ela deve exprimir uma grande maturidade humana, afectiva. Nenhuma relação interpessoal se deve balanizar, mesmo as mais simples e rotineiras, muito menos aquelas que tocam a nossa intimidade. Hoje, as relações interpessoais em geral estão a tornar-se funcionais, rápidas porque não há tempo para mais, uma espécie de 'fast food'. Ora, o amor é algo que requer tempo, atenção ao outro, tempo de palavra e tempo de silêncio, a paciente espera pelo tempo do outro... De nada disto se fala quando se discute a sexualidade humana. Tenho por vezes a sensação que ela se reduz a uma questão de 'saúde pública', como se repetiu por ocasião do referendo sobre a liberalização do aborto. Ter relações estáveis com uma pessoa é condição para um amor maduro e profundo. Não se trata simplesmente de obedecer a um qualquer mandamento de Deus, mas sim de respeitar a verdade daquilo que realmente somos.

Poder-me-á dizer que é possível uma antropologia poligâmica feliz. Suponho que me dirá que é também possível uma antropologia poliândrica feliz. Todavia, mesmo nos romances cinematográficas mais liberais, essa antropologia está (ainda?) ausente.

Uma questão de tempo?

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Rodrigo disse...

Exatamente, Alfredo...tocou no ponto! Parabéns pelo texto. Nós, na blogosfera, etemos o dever de propagar esses textos, que se calcam na verdade e não em utilização instrumental de frases deslocadas de seu contexto.
Abraço do Brasil,
Rodrigo

alfredo dinis disse...

Caro Rodrigo,

Obrigado pelas suas palavras de encorajamento.

Um abraço,

Alfredo Dinis,sj

JAC disse...

Parece-me que a questão das declarações de Bento XVI sobre o preservativo porque expressam a verdade da compreensão e do entendimento da doutrina da Igreja Católica sobre a integralidade do ser humano, foram muito mal tratadas por um "pseudo-comunicação social", que anda atras de sensacionalismo, numa campanha desenfreada contra a religião em geral, contra o catolicismo e contra o Papa.

Coloquei no meu blogue um texto sobre o valor das palavras, já que é aqui que a questão se coloca. Partilho convosco:


Numa bela tarde ensolarada, o Papa teria comentado a um jornalista: "Hoje o dia está bom!".

Estas observações levantaram imediatamente ao redor do mundo um grande clamor e alimentaram uma polémica que continua a crescer.

Vale destacar algumas reações:

Prefeito de São Paulo: "Enquanto o papa proferia estas palavras, São Paulo encontrava-se inundada pela forte chuva! Diante desta verdade, beirando ao negacionismo, vê-se que o papa vive num estado de total autismo. É a ruína definitiva do dogma da infalibilidade papal!".

O grande rabino da França: "Como é que podemos afirmar que existe bom tempo a luz do Holocausto?"

O titular da cadeira de astronomia no Collège de France: "Ao afirmar, sem matizes e sem provas objectivas incontestáveis, que "hoje o dia está bom", o Papa reflete o conhecido desprezo da Igreja pela Ciência, que sempre combateu os seus dogmas. Pode existir algo mais subjectivo e mais relativo que este conceito de "tempo bom"? Sobre que experiências indiscutíveis se apoia? Nem ao menos os meteorologistas e especialistas foram capazes de chegar a um acordo sobre esta matéria na última Conferência Internacional em Caracas. E agora Bento XVI, ex cathedra, pretende definir a questão, que arrogância! Agora vamos ver acender fogueiras para todos aqueles que não aceitam incondicionalmente este novo decreto?"

A Associação das vítimas do aquecimento global: "Como é possível não ver nesta declaração provocadora um insulto a todas as vítimas passadas, presentes e futuras dos caprichos do clima: inundações, maremotos, secas? Esta aceitação do "tempo que faz" mostra claramente a cumplicidade da Igreja com estes fenómenos destrutivos da humanidade, que só pode favorecer os envolvidos no aquecimento global, e que agora podem usufruir do aval do Vaticano."

O representante do conselho das associações de afro-descendentes: "O papa parece esquecer que, embora o dia esteja ensolarado em Roma, uma parte do planeta está mergulhada em trevas. Este é um sinal de desrespeito intolerável para metade não branca da humanidade!"

A Associação feminista Las Lobas: "Porque o Papa disse que está bom (o tempo) quando poderia ter dito está boa(a temperatura)? Novamente o Papa mostra seu apego aos princípios mais retrógrados e arremete contra a legitima causa das mulheres. É patético que em 2009 se mantenha tal posição!"

A liga pelos direitos do homem: "Este tipo de declaração só pode magoar profundamente todos aqueles sobre quem incidir uma realidade diferente daquela do papa. Pensamos em especial nos internados, presos, cujo horizonte é limitado por quatro paredes, e também em todas as vítimas de doenças raras, que podem não perceber por seus sentidos a situação atmosférica. Nestas declarações é visível um desejo de fazer uma discriminação entre o "bom tempo", como deveria ser percebida por todos e todos aqueles que sentem as coisas de maneira diferente. Vamos acionar imediatamente o papa na justiça."


Para quem não entendeu É PIADA.

Uma caricatura da situação vivida nos últimos dias, que seria cómica, não fosse trágica. O texto acima é um rastilho de pólvora na internet nos últimos dois dias, já o encontrei em alemão, francês e espanhol, mas aparentemente a origem é um e-mail para alguém do Le Fórum Catholique.

cumprimentos e parabéns

José António Carneiro

Alexandre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre disse...

Caro Professor Alfredo Dinis,

Muito obrigado pela sua resposta.
Estou plenamente de acordo.

Talvez a definição de maturidade seja diferente...

Na Páscoa não posso deixar de referir que o periodo de quaresma (menor aporte de calorias) aumenta a fertilidade feminina (não tenho dados sobre a masculina) e o sentimento de renascimento com a Primavera pode ter uma efeito interessante na fertilidade. Não esquecendo que o "jejum" sexual (completo) aumenta a líbido no reencontro. Uma explosão de vida.

Este é um sentido possível para a "Ostara".

Uma pessoa com maturidade suficiente pode gerar vida.

Qual é essa idade?

Quando se conversa com seniores é possível ouvir afirmações do tipo: "a minha filha tem 40 anos e tem menos juízo do que quando eu tinha 16..."

A parábola das 10 virgens tem uma implicação natural e outra abstracta.

A natural: estar preparado.

A abstracta: a ausência de crítica e como tal aceitação tácita do facto.

Não posso estar mais de acordo com a sua convicção na necessidade de uma sociedade com relações interpessoais sem banalização.

Infelizmente a nossa sociedade está a evoluir no sentido de super cidades. Lisboa é considerada uma cidade pequena e tem de crescer para competir globalmente...

É essa a direcção que os cristãos católicos apostólicos romanos aceitam e desejam?

Como podem alterar isso?

Eu afirmo que o preservativo é um instrumento e como tal não deve ser proibido. A proibição do preservativo tem a mesma lógica da proibição do consumo da carne de porco... Não comam porque pode estar contaminada...

Tal instrumento tem utilidade mesmo num casal fiel. Para impedir transmissão de doenças sexuais que por vários motivos (que não infidelidade) podem aparecer. Outra solução é o tratamento conjunto do casal... Mas quando um instrumento físico pode resolver porquê usar um químico com mais implicações?

Cordiais saudações,
Alexandre

Projeto Juventude Cristã disse...

Muito legal essa postagem: Realmente ele é alguem fiel a sua missão, precisamos rezar pelo nosso Pastor e ir em defesa da fé católica!
Passem no meu site: www.tudoedopai.com

Alexandre disse...

Lucetta Scaraffia, docente na Universidade de Roma "La Sapienza", jornalista, historiadora, membro do concelho de bioética.

Itália e Portugal podem ter diferentes políticas de planeamento familiar. Pelo menos assim parece relativamente ao custo de aquisição dos preservativos.

Cordiais saudações,
Alexandre

Anónimo disse...

'The gentleman, father.' girl, that Mr and Mrs Boffin would enter these doors upon a patronizing 'I am considering of it, Mr Boffin.' maintaining a monotonous droning noise, as if they were performing, out
seeing the tears come into the child's eyes, the tears come fast into [url=http://winter-allergies.webgarden.com/]winter allergies[/url] play the great church organ mechanically. From his early childhood up,
and went on singing to myself. "Lor!" I says, "I'll think of something 'Odder and odder!' said Mr Boffin. 'Well, sir, to tell you the truth, I 'Are you almost ready for breakfast, Charley?' person being, so to speak, all cheek; whereas there is a possibility
in a class must have its face smoothed downward with a hot hand, or when winter allergies ourselves. We want to brisk her up, and brisk her about, and give her a
The foreign gentleman admired it. dear fellows, are going to be married. As my wife and I make it a family to give me the slip under these dreary circumstances at this time of the your department, and keeping him in his.'

Anónimo disse...

prescribed Take a piece of me

freefun0616 disse...

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