13 de junho de 2009

Dawkins agnóstico?

1. Richard Dawkins tornou-se uma das principais bandeiras do ateísmo contemporâneo. Foi por isso que fiquei surpreendido com uma sua afirmação acerca do sentido que tem a hipótese da existência de algum Deus. Embora para ele se trate de uma hipótese refutável – não disse ‘refutada’ – é uma hipótese digna de respeito. Trata-se de uma posição que me parece mais racional do que a simples negação de Deus, como se esta negação fosse uma questão do género de negar a existência de sereias ou outros seres mitológicos. A afirmação de Dawkins foi feita em diálogo com Francis Collins, e publicada na TIME [Sunday, Nov. 05, 2006, God vs. Science, by Dan Cray/Los Angeles]:

2."My mind is not closed, as you have occasionally suggested, Francis. My mind is open to the most wonderful range of future possibilities, which I cannot even dream about, nor can you, nor can anybody else. What I am skeptical about is the idea that whatever wonderful revelation does come in the science of the future, it will turn out to be one of the particular historical religions that people happen to have dreamed up. When we started out and we were talking about the origins of the universe and the physical constants, I provided what I thought were cogent arguments against a supernatural intelligent designer. But it does seem to me to be a worthy idea. Refutable--but nevertheless grand and big enough to be worthy of respect. I don't see the Olympian gods or Jesus coming down and dying on the Cross as worthy of that grandeur. They strike me as parochial. If there is a God, it's going to be a whole lot bigger and a whole lot more incomprehensible than anything that any theologian of any religion has ever proposed."

3. Como é evidente, não tenho a concepção de Dawkins acerca do paroquialismo do cristianismo, mas, por outro lado, compreendo que ele considere paroquial a concepção que tem do cristianismo, e que não é a minha. Cristo não desceu do céu nem subiu ao céu, no sentido em que se pensava até recentemente, quando o céu estaria 'lá em cima', por detrás das estrelas. O Cristo de Dawkins é o dos não crentes em geral: anda por aí de bloco-notas na mão a tomar nota das nossas maldades para se divertir depois a fazer connosco um churrasco nas brasas do inferno; diverte-se a fazer milagres baralhando as leis da natureza; aparece e desaparece como as crianças num jogo de 'esconde-esconde'; Deus Pai mandou o Filho Jesus Cristo à terra para sofrer e assim pagar pelos pecados da humanidade, uma vez que esta humanidade estava em dívida e não havia outra maneira de apagar a cólera do Eterno Pai; delicia-se com o sofrimento dos seres humanos, com a confusão que vai por esse mundo fora e lava as mãos de tudo isso quando lhe seria tão fácil pôr ordem nisto tudo; etc., etc. Sim, este é um deus paroquial, e Dawkins faz bem em não lhe dar crédito. E o mesmo fazem todos os não crentes.

4. Perguntam-me muitas vezes em que Deus é que acredito se não acredito no que acabei de descrever. Considero que a perspectiva do jesuíta francês Teilhard de Chardin é a que mais nos aproxima de uma imagem não paroquial de Deus. Parece-me que os não crentes fariam bem em seguir a posição de Dawkins, de abertura a "futuras possibilidades, acerca das quais nem sequer posso sonhar, nem tu, nem ninguém", como ele afirma. Provavelmente os não crentes interpretarão esta afirmação no sentido de que não sabemos que descobertas fulgurantes nos reserva a ciência. Mas não me parece que seja este o sentido total da afirmação de Dawkins.

5. Com efeito, e muito curiosamente, o que diz logo a seguir é muito mais 'ortodoxo', pelo menos para os cristãos, do que ele próprio pensa. Os cristãos sabem perfeitamente que, embora acreditem que Deus se manifestou na pessoa de Cristo e acreditem no que ele disse, Deus é realmente muito maior e muito mais incompreensível do que os teólogos e as religiões propõem, exactamente como diz Dawkins:

"If there is a God, it's going to be a whole lot bigger and a whole lot more incomprehensible than anything that any theologian of any religion has ever proposed."

6. Qualquer teólogo cristão, qualquer cristão informado, subscreve esta proposição. Eu subscrevo-a sem reservas.

P. Alfredo Dinis,sj

19 comentários:

Alexandre disse...

Caro Professor Alfredo Dinis,

"If there is a God, it's going to be a whole lot bigger and a whole lot more incomprehensible than anything that any theologian of any religion has ever proposed."

Lamento, mas não posso concordar.

Diria antes que:

There is no doubt that there was a God.

When God finally manifests in glory, every single human is going to understand how simple the history is. And another book will be opened, which is the book of Life.

Aproveito para deixar mais uma reflexão:

Também não posso concordar com a designação de agnóstico para os que estão indecisos sobre a existência de Deus.

Agnóstico. Pessoa sem gnosia, sem conhecimento. O reconhecimento que os dados não formam conhecimento é uma mais valia e não um defeito.

Se os dados têm estrutura podem ser organizados em informação. Só após validação cruzada e externa é que se pode retirar se é conhecimento ou não.

Dawkins nos seus livros demonstra mais conhecimento do que a média, concerteza que não será agnóstico...

Estarei enganado?

Cordiais saudações,
Alexandre

alfredo dinis disse...

Caro Alexandre,

A afirmação de Dawkins constitui a premissa antecedente de um silogismo condicional, que tem mais duas proposições, em meu entender. Para mim, o silogismo completo tem a seguinte forma:

“Se existe um deus, será muitíssimo maior e muitíssimo mais incompreensível do que qualquer coisa que qualquer teólogo de qualquer religião tenha proposto.

Ora, existe um Deus.

Logo, ele será muitíssimo maior e muitíssimo mais incompreensível do que qualquer coisa que qualquer teólogo de qualquer religião tenha proposto”

É evidente que Dawkins se fica pela premissa antecedente. Eu, naturalmente, não fico por aí.
No que se refere ao meu acordo com a afirmação de Dawkins, que cita, ele não tem nada de original. Esta foi sempre a posição dos teólogos cristãos, desde o início do cristianismo até aos dias de hoje, como também já afirmei. O Deus de que falam os teólogos revelou-se em Jesus Cristo, mas Cristo não deixou nenhum tratado filosófico ou teológico para nos dar uma explicação exaustiva de tudo o que se refere à natureza de Deus. Disse apenas o que era essencial e acessível ao intelecto humano. E o que disse é suficiente para termos uma compreensão do sentido do universo e da vida, não numa perspectiva filosófica ou científica, abstracta, mas numa linha existencial e pessoal, respondendo às questões a que nem a filosofia nem a ciência respondem. Temos, pois um conhecimento suficiente de Deus, mas não um conhecimento completo, longe disso. Esta posição em nada diminui o valor do conhecimento que o cristianismo tem de Deus. Coloca-o na sua devida proporção.

Quanto ao agnosticismo de Dawkins, não creio que ele próprio se considere tal. Eu é que levantei essas hipóteses. O agnóstico tem alguns ou até muitos conhecimentos, como dizes que Dawkins tem. O que ele diz é que não tem conhecimentos suficientes para tomar uma decisão definitiva sobre a existência de Deus. No contexto da resposta de Dawkins a Collins, parece-me ser esse o caso do primeiro. Ele admite a hipótese de existir um Deus que seja muito diferente do das actuais religiões, mas não tem dados suficientes que o levem a tomar uma decisão sobre esse Deus.

Saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Anónimo disse...

Caro membro da Societas Iesu,

Talvez me classifique de lunático.

Mas porque é que a palavra lunático tem o sentido de louco?

Quem é que quis que a crença na influência da Lua fosse ostracizado da sociedade.

Eu acredito na influência da Lua em muitos factos da vida.

Um exemplo: as marés...

Não me considero, um pagão, um ignorante por isso.

Quando o uso das palavras tem intenções cínicas, como agnóstico ou lunático, em prol da servilização de uma cultura, algo está errado.

Se têm consciência do real significado da palavra e gozam com os pagões, mesmo cristãos, como classifca tal classe de pessoas?

Se não têm consciência do significado e tentam educar as passoas com essas palavras que classificação dar?

alfredo dinis disse...

Caro Anónimo,

O uso do termo 'agnóstico' não tem da minha parte qualquer intenção cínica. Porque haveria de ter? Há muitas pessoas que, sem qualquer ironia, se classificam a si mesmas de agnósticas. Trata-se de um termo que está perfeitamente definido nos dicionários. O interesse do texto de Dawkins que comentei está em que me parece corresponder mais a um agnóstico que a um ateu, quando, de facto, Dawkins se apresenta como ateu e é praticamente considerado o porta-voz do ateísmo mundial.

Quanto à influência da lua, creio que está cientificamente provada.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

Anónimo disse...

"Há muitas pessoas que, sem qualquer ironia, se classificam a si mesmas de agnósticas."

Há muitas pessoas que, sem qualquer ironia, se classificam a si mesmas de pecadoras...

Sem nunca terem pecado... Apenas porque têm alguém que repete que são pecadoras tantas e tantas vezes que passa a parecer verdade.

"Por minha culpa, minha tão grande culpa"

NÃO!

Por vossa culpa, vossa tão grande culpa!

Agnóstico é uma palavra mal usada no que toca a incerteza...

Reconhecer a incerteza envolve muito conhecimento...

Guilherme Gomes e Sousa disse...

Qualquer pessoa que lê um livro convém que antes se informe. Procura-se aconselhar as pessoas que se informem e vejam se precisam de ler um livro que possa pôr em causa as suas convicções.

faculdade disse...

Caro anónimo,

Não sei que ideia tem do termo 'pecado', mas o seu significado é simplesmente o de 'mal cometido voluntariamente', e não creio que se possa dizer que isto não exista por esse mundo fora.

Não entendi a sua expressão 'por vossa culpa'. Creio que cada um deve assumir as próprias responsabilidades pelo que faz, não lhee parece?

Reconhecer a incerteza envolve muito conhecimento, sem dúvida. Só que para algumas pessoas esse conhecimento não é suficiente para tomarem decisões definitivas e convictas em determinadas áreas da vida.

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro membro da Societas Iesu,

Acredite ou não existe mais falta de comunicação, falta de clarificação de intenções e falta de empatia, do que existe pecado.

"Vossa culpa" a culpa de um culto, de uma religião que tenta incutir simultaneamente culpa e incapacidade como também prepotência relativamente a outros seres vivos.

Quando se assume uma religião, as responsabildades são da religião e partilhadas, ou não?

parabéns pela sua resposta.

Joao disse...

O Alfredo Dinis manifesta a sua descrença pela factualidade da mitologia cristã enquanto sem duvida considera que aquele é o seu Deus. Como ele sabe que o seu Deus é o que esta associado a esta mitologia e não a outra parece-me imposivel de explicar, mas pior que isso é admitir que Deus nem sequer é alguma coisa que tenha sido já ponderada. O que invalida toda a teologia e a religião. Isto mostra que há mais vontade em acreditar e "wishfull thinking" que racionalismo e logica.

Terei muito gosto em argumentar consigo mas peço-lhe que pense bem no que eu disse e se a sua resposta não é motivada pelo seu desejo de existir um deus e não pela razão.

Eu estou aberto para o que der e vier, e o Alfredo? Pode aceitar o que conhecimento sugere, sem enviesamento?

alfredo dinis disse...

Caro João,

A sua afirmação:

"pior que isso é admitir que Deus nem sequer é alguma coisa que tenha sido já ponderada."

não corresponde ao que disse. Acredito que o Deus que existe se revelou em Jesus Cristo. Conhecer Cristo e as suas palavras significa conhecer alguma coisa de Deus, concretamente, aquilo que é necessário conhecer para que sejamos seres humanos que vivam ao máximo a sua humanidade.

Uma coisa é dizer que Deus está muito para além do que possamos dizer dele, outra coisa, completamente diferente, é dizer que nada sabemos de Deus. Sabemos pouco, mas sabemos o suficiente.

A minha experiência de Deus tem várias dimensões: racional, afectiva, espiritual, mas ela é acima de tudo pessoal.

Sou padre, fiz votos de pobreza, castidade e obediência... Não o faria por uma simples crença ou ideia, apenas por alguém.

Obrigado pelo seu comentário.

Saudações,

Alfredo Dinis

Joao disse...

Prof:

"Sabemos pouco, mas sabemos o suficiente"

vs

"...muito maior e muito mais incompreensivel que qualquer teologo ou qualquer religião algumas vez propos"

Não vê a contradição em a mesma pessoa fazer estas duas afirmações?

alfredo dinis disse...

Caro João,

Não vejo nenhuma contradição.

Dou-lhe apenas um exemplo: nós, os cristãos,acreditamos que Cristo ressuscitou e que os seus primeiros discípulos tiveram a experiência de encontro com ele, ressuscitado. Mas não sabemos como se deu a ressurreição de Cristo. Isto está para além de tudo o que possamos conhecer. Mas saber que ele ressuscitou é suficiente.

Saudações,

Alfredo Dinis

Joao disse...

"Mas saber que ele ressuscitou é suficiente"

Suficiente para que? SE é para compreender, conhecer, ou inferir sobre as intenções do Pai ou do Filho, se está de acordo com a frase é insuficiente.

Se é suficiente para acreditar em Deus, idem, porque não sabe o suficiente sobre Deus para concluir que qualquer episodeo terreno lhe possa ser atribuido. Muito menos sabe o suficiente para avaliar a veracidade do relato.


A questão é então, suficiente para que?

Anónimo disse...

Suficiente para ter fé.

Suficiente para ter fé em Deus.

Suficiente para ter fé nos Homens mesmo com condição humana.

Joao disse...

Anonimo:

O que esta a dizer é que acreditar é suficiente para acreditar.

A regressão infinita não o preocupa?

Anónimo disse...

Caro João,

Ter fé é auto-suficiente de facto.

Um comportamento fractal não me preocupa. Parece fazer parte da natureza.

No entanto aceito todos os desafios à minha fé. Todos os desafios às minhas crenças. Pronto a integrar mais reflexões na minha fé.

Cumprimentos.

Joao disse...

Anonimo:

"Um comportamento fractal não me preocupa. Parece fazer parte da natureza."

Onde é que acreditar na ressureição porque tem fe e acreditar na fé porque acredita na ressureição é mais que um ciclo vicioso e pode ser descrito com um fractal.

Tem consciencia que os fractais naturais não são infinitos, certo? A matematica aqui é uma abstração da realidade. Como sempre.

Mas estouu francamente interessado no desenvolvimento da teoria do fractal e porque não é um ciclo fechado em si proprio inconcludente.

E já agora gostava de saber pelo menos o seu primeiro nome, para o caso de aparecerem mais anonimos.

Anónimo disse...

"Onde é que acreditar na ressureição porque tem fe e acreditar na fé porque acredita na ressureição é mais que um ciclo vicioso e pode ser descrito com um fractal."

Fé é uma firme convicção de que algo seja verdade, sem nenhuma prova de que este algo seja verdade, pela absoluta confiança que depositamos neste algo ou alguém. A palavra Fé veio da palavra grega pí·stis, que transmite a idéia de confiança, fidúcia, firme persuasão.

Ter fé é auto-suficiente de facto.

acredito, porque acredito, porque acredito... a repetição, a função dentro da função, que resulta em fé e se mudar de dimensão resulta em fé.

"Tem consciencia que os fractais naturais não são infinitos, certo?"

Não.

Ficamos fascinados com a tabela periódica dos elementos químicos. Tivemos a prepotência de lhes chamar átomos. Mas já sabemos que existem partículas. (partícula -parte pequena) de que tamanho? Quanto tempo irá demorar para termos uma tabela periódica de partículas "sub-atómicas" (designação antagónica)?

Acha que a natureza não infinitesimal?

Tente dividir um fotão...
O que é um fotão? Uma perturbação no campo vectorial que por capricho forma "matéria"?

Os Judeus acreditam que o profeta Elias subiu a céu num carro.
Não aceitaram um filho de Deus.
Para os Cristãos uma opção para deixar uma herança. Curiosamente a mesma dos Islâmicos.

E os Sabeus?

Em que acredita? Qual a mensagem que retira dos textos sagrados? os detalhes são importantes?

freefun0616 disse...

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