22 de junho de 2009

Reflexões sobre a oração

1. As religiões anteriores e contemporâneas do início do cristianismo tinham uma relação com os seus deuses baseada na possibilidade de obter deles vantagens e favores pessoais e sociais. Antes das batalhas ou de alguma acção que poderia ter resultados negativos, faziam sacrifícios a esses deuses para ‘comprarem’ os seus favores. Esta perspectiva entrou e ficou em parte no cristianismo até aos dias de hoje. Para algumas pessoas Deus é sobretudo uma espécie de proprietário de uma agência de seguros. Mas também os não crentes têm esta imagem do que é a oração para os crentes! Como é possível, perguntam-me por vezes os não crentes, que um autocarro de peregrinos que regressavam de Fátima tenha tido um acidente? Então a Virgem Maria não os protegeu? Para um bom número de pessoas, crentes e não crentes, o essencial da relação com Deus, a oração, resume-se às vantagens e favores pessoais que se podem obter de Deus se nos portarmos bem e lhe fizermos promessas de generosas ofertas ou de duros sacrifícios. E o sucesso das peregrinações aos santuários mede-se pelo número de curas milagrosas ali registadas. Há aqui algum paganismo que ficou no cristianismo de algumas pessoas.

2. O cristianismo veio fazer uma proposta radicalmente diferente das outras religiões. Ao manifestar-se em forma humana em Cristo, Deus propõe a cada ser humano uma relação interpessoal que tem muitas semelhanças com as nossas relações interpessoais no interior de uma família, por exemplo. Como são essas relações? São feitas de palavras, mas também de silêncios, de afectos, de elogios, de lamentações, de ajudas e de pedidos de ajuda. Mas nem todas as ajudas são desejáveis (as ‘ajudas’ das mães-galinha aos seus filhos podem ser desastrosas), nem todos os pedidos de ajuda devem ser atendidos, para bem dos que fazem tais pedidos. A oração é um termo religioso que designa a relação do crente com Deus e, neste sentido, ela é mais uma atitude permanente, uma maneira de estar na vida, do que esta ou aquela acção ritual, este ou aquele pedido. Só no contexto de uma atitude permanente de relação com Deus – como acontece entre pessoas que se amam – é que se podem avaliar os gestos e palavras concretas que fazemos e dizemos.

3. Mas o cristianismo coloca o crente num outro contexto, o da construção de um mundo de justiça, de amor e de paz, a que, em linguagem cristã, se chama o ‘Reino de Deus’. É em relação a este ‘reino’ que eu devo decidir o que vou pedir a Deus. Não peço apenas para meu proveito pessoal. Se peço saúde, é para que possa dar um melhor contributo para um mundo melhor. Não posso ‘servir-me de Deus’ apenas para os meus interesses pessoais. No cristianismo isto não faz qualquer sentido.


4. Os actuais estudos sobre os efeitos da oração que se baseiam numa maratona de orações para obter a cura de um certo número de doentes em hospitais e verificar empiricamente se a oração faz ou não efeito está completamente fora de todos os contextos que referi. Fico totalmente indiferente perante os estudos científicos sobre este assunto, quer concluam que houve efeitos empíricos benéficos da oração, quer concluam que não houve. Isto nada tem a ver com o cristianismo tal como o entendo, e creio que posso dizer, tal como o entende a Igreja Católica.
P. Alfredo Dinis,sj

16 comentários:

Gonçalo disse...

Caro Alfredo,

Percebo que dá muito mais importância ao carácter relacional da oração do que aos seus efeitos empíricos. Ainda assim fico sem perceber se acredita que estes efeitos empíricos existem ou não.

Cumprimentos

alfredo dinis disse...

Caro Gonçalo,

Como não me sinto confortável com o esquema de pensamento dualista, prefiro não entrar no dualismo empírico-não empírico, ou material-espiritual, natural-sobrenatural, etc. É evidente que acredito que 'a oração faz sempre bem', isto é, tem sempre efeitos benéficos. Mas esses efeitos não são sempre os que desejamos e pedimos nem acontecem quando desejamos e pedimos. E esses efeitos têm a ver com a pessoa na sua totalidade e com a pessoa na sua dimensão simultaneamente pessoal e comunitária. É por isso que não atribuo nenhuma importância aos estudos empírico-científicos destinados a verificar se uma pessoa doente num hospital melhora mais depressa se há um grupo de crentes a rezar pelas suas melhoras, do que outra pessoa pela qual ninguém reza. Terá isto alguma coisa a ver com o cristianismo?

Saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Amália e Zé disse...

Caro P. Alfredo,
Gostei da sua reflexão sobre a oração.
Acho importante repensarmos como é a nossa oração, não pode ser um negócio.
Para mim Deus é amor, se Ele me ama, sabe q eu estou triste, desanimada quando algo me corre mal. Mas quando eu estou em baixo confesso que Lhe peço ajuda. A minha oração por vezes é pedinchona. Nunca Lhe pedi para ganhar o totoloto. Mas saúde, força, trabalho, para mim ou para alguem que precisa, eu peço. Não me envergonho de dizer. A minha oração ás vezes vai nessa linha. Eu sei que Deus não é um agente de seguros, ou um empregador. Eu sei que a nossa dimensão é uma e a de Deus é outra. Mas Deus que nos ama proporciona-nos de alguma forma felicidade e às vezes escrevendo direito por linhas tortas, por isso eu entendo a oração, a nossa relação com Ele também, pedindo, desabafando, às vezes até chorando. Se poder dê-me a sua opinião. Obrigada.

alfredo dinis disse...

Caríssimos Amália e Zé,

Obrigado pela vossa reflexão. Para S. Inácio de Loyola a oração é um diálogo profundo entre os seres humanos e Deus, de um género muito semelhante ao de dois amigos que trocam confidências, se entreajudam, etc. Cada um dá ao outro o que tem e recebe do outro o que o outro tem. Na nossa relação com Deus, a oração de petição não é uma oração 'menor', nem tem que ser interesseira. Jesus encorajou os seus discípulos a pedir, e prometeu-lhes que receberiam tudo o que pedissem em seu nome. Mas também lhes disse que quando pedem e não recebem é porque pedem mal. E é aqui precisamente que está a questão. Pedir em nome de Jesus não consiste apenas em mencionar o seu nome na oração de petição. É pedir como Jesus pedia - "Pai, se é possível, passe de mim este cálice; não se faça porém a minha vontade mas a tua". Jesus pedia para si o que fosse melhor para o Reino do Pai. Pediu alívio na sua dor, mas também manifestou disponibilidade para não o receber, e encontrou sentido no facto de realmente ter de beber o cálice.

Por isso, creio que a oração perfeita é a que é feita como a de Jesus e como a de Maria. Pedimos para nós e para os outros o que nos parece melhor, mas nunca em função apenas do que mais nos convém, em função dos nossos próprios interesses. Como disse no post, se peço saúde não devo pedi-la apenas para tirar proveito pessoal disso, mas também para me colocar mais ao serviço do Reino de Deus com a saúde que Ele me conceder.

Estou convencido que uma certa caricatura da oração está muito difundida entre os não-crentes, e quando essa caricatura corresponde a uma certa prática cristã, então ela torna-se um obstáculo para o não crente entender o que é a fé cristã. E isso acontece, realmente.

Cordiais saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Vítor Mácula disse...

Caro Alfredo Dinis

Uma pequena comichão no seu magnífico esclarecimento:

“As religiões anteriores e contemporâneas do início do cristianismo tinham uma relação com os seus deuses baseada na possibilidade de obter deles vantagens e favores pessoais e sociais.”

Não tinham mais do que o cristianismo; e algumas, como o budismo ou o taoismo nem sequer permitem tal “pessoalidade”; a apologética evolucionista em que o cristianismo é o topo, ou um dos topos, da consciência religiosa parece-me, do ponto de vista histórico, bastante frágil. O eterno tem provavelmente outros modos que não a linearidade para se instanciar no tempo; não anulando evidentemente a fundante categoria judaico-cristã de peregrinação ;)

Um abraço

alfredo dinis disse...

Caro Vítor,

Obrigado pelo seu comentário.

As religiões que não têm a dimensão de pessoalidade são mais filosofias de vida do que religiões, no sentido comum, ou pelo menos ocidental, que damos ao termo 'reliigão'. Nesse sentido não podem ser comparadas ao cristianismo no que se refere à oração.

Quando falo no cristianismo refiro-me à época que começa em Cristo. Nessa época, a relação pessoal com Deus, tal como a que Cristo nos ensinou, era praticamente inexistente nas outras religiões.

Acredito que Deus se foi revelando de diversos modos a todos os povos ao longo da história da Humanidade, e que ainda é o referente de praticamente todas as religiões que reconhecem um Deus criador. Mas também acredito que Deus se revelou mais clara e directamente em Cristo, sem ter dificuldade em acreditar também que a compreensão desta revelação não tem sido linear, como o mostra a história das Igrejas e das Teologias Cristãs.

Cordiais saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Gonçalo disse...

Caro Alfredo,

Agradeço a sua resposta. Eu fico desconfortável com o que disse em relação aos dualismos, mas como prefere não entrar por aí, não entro eu sem companhia. Faço só um último comentário. Não percebo porque não dá nenhuma importância aos estudos que refere e pelo contrário não se apoia neles para dizer que esse tipo de oração não é cristã e como se vê não tem os efeitos pretendidos. Nesse estudo que refere poderá pelo menos concluir que não há efeitos na saúde de pessoas pelas quais rezam um grupo de crentes com as características do estudo (presumo que sejam pessoas que não conheciam o doente). E dizer "não vale a pena um conjunto de pessoas crentes rezarem por um doente desconhecido se o efeito pretendido é a melhoria da sua saúde". Outros efeitos, como os que estas orações têem na própria comunidade crente, não foram alvo do estudo e portanto não fazem parte das conclusões. Posteriormente poder-se-ão fazer outros estudos que analisem outros tipos de oração, outros alvos da oração, outros efeitos, etc.

"Terá isto alguma coisa a ver com o cristianismo?"
Percebo que ache que não. Ainda assim, como diz no post original, são ideias que estão enraizadas nas mentes de muitos crentes e não crentes (tal como estão a astrologia ou uma série das chamadas medicinas alternativas). Parece-me que este tipo de estudos pode dar uma ajuda para pelo menos perceber para que é que a oração não serve.

Cumprimentos

alfredo dinis disse...

Caro Gonçalo,

Eu não afirmei que a oração de cristãos por uma pessoa doente não tem nunca, nem pode ter nunca, qualquer efeito. O que disse é que esses efeitos não se verificam como nem quando as pessoas querem e que, portanto, não podem ser objecto de verificação científica.

A ciência baseia-se em vários princípios, um dos quais é a repetibilidade das experiências e a consequente obtenção dos respectivos resultados. Isto é que não tem nada a ver com o cristianismo. Mas acredito que Deus pode ouvir a oração dos crentes pela saúde de uma pessoa, quando e como entender. E que a saúde não tem apenas uma função estritamente pessoal mas que, para o cristão, ela, como a doença, só tem pleno significado no contexto do Reino de Deus que é uma sociedade baseada na procura da caridade, da paz e da justiça.

O tipo de estudos sobre a oração a que me refiro corresponde, da parte de alguns crentes, a uma atitude apologética que já foi há muito tempo abandonada pela Igreja Católica. E lamento que a insistência neste tipo de apologética que, insisto, nada tem de cristã, continue a dar argumentos aos não crentes para ridicularizarem o cristianismo e se convencerem que encontram aqui provas de que Deus não existe.

Cordiais saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Vítor Mácula disse...

Caro Alfredo, cinjamo-nos à proposição comentada:

“As religiões anteriores e contemporâneas do início do cristianismo tinham uma relação com os seus deuses baseada na possibilidade de obter deles vantagens e favores pessoais e sociais.”

É evidente que se o “conceito ocidental” de religião que o Alfredo usa significa algo como as actividades de reconfiguração existencial que podem ser “comparadas ao cristianismo no que se refere à oração”, não há evidentemente maneira de se sair das religiões abrâmicas; talvez por isso o Alfredo resuma a proposição comentada a “ter uma relação pessoal com Deus”; mas isso é uma capicua, algo que formalmente nós adoramos usar para não sairmos da nossa terra e subsumirmos o sentido do mundo nela.

De resto, acredito que acredita no que me diz acreditar, pois eu sou cristão e também acredito ;) mas nada disso está em liça na identificação de “as religiões anteriores e contemporâneas do início do cristianismo”.

Seja como for, a relação pessoal com divindades é tudo menos um exclusivo do cristianismo; claro que a relação cristã com Deus Abba o é, mas isso…

Mas não empolemos demasiado a minha notinha de rodapé, para o barulho não ofuscar a magnitude do resto LOL

Gonçalo disse...

Caro Alfredo,

Obrigado mais uma vez. Queria só esclarecer que não quis dizer que tinha afirmado "que a oração de cristãos por uma pessoa doente não tem nunca, nem pode ter nunca, qualquer efeito." Eu é que disse que seria uma conclusão do estudo. Se calhar devia ter fundido duas frases que escrevi numa só: "Nesse estudo que refere poderá pelo menos concluir que não há efeitos na saúde de pessoas pelas quais rezam um grupo de crentes com as características do estudo (presumo que sejam pessoas que não conheciam o doente) e dizer "não vale a pena um conjunto de pessoas crentes rezarem por um doente desconhecido se o efeito pretendido é a melhoria da sua saúde".

Cumprimentos

alfredo dinis disse...

Caro Vitor,

Quando afirma

"a relação pessoal com divindades é tudo menos um exclusivo do cristianismo"

em que outras religiões está a pensar?

Saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

alfredo dinis disse...

Caro Gonçalo,

Não sei se esclareceu a sua posição. Não subscrevo a afirmação:

"não vale a pena um conjunto de pessoas crentes rezarem por um doente desconhecido se o efeito pretendido é a melhoria da sua saúde".

Suponho que isto está claro para si.

Saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Vítor Mácula disse...

Caro Alfredo

Bem, todas as que têm divindades, do totemismo ameríndio ao daimon socrático, do zoroastrismo ao luciferanismo, etc

O sentido e dinâmica de tais relações pessoais é que é, com maior ou menor evidência, significativamente diverso; assim como a sua constituinte antropologia fundamental.

saudações, bom fim de semana

Anónimo disse...

"Sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como uma bola colorida nas mãos de uma criança"

Ter um objectivo claro.

Orar para atingir esse objectivo não tem nada de pagão.

É um passo essencial para atingir os nossos sonhos. Para explicitar os sonhos...

Também faz parte de uma forma de vida. Meditação e orar para obter clarificação...

Porque não orar a "Deus"?

Não impede as relações interpessoais...

Será que orar a Deus gera mesmo falsas expectativas?

Anónimo disse...

Cuidado com o que desejam. Pode ser que se realize...

freefun0616 disse...

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