28 de junho de 2009

Talitha qûm!


Não era o manto de Jesus que esta mulher queria tocar, como se de um objecto de um santo esperasse o efeito mágico de uma cura. Queria tocá-Lo a Ele. Aproximar-se para ser tocada por Ele.

A sua doença, um fluxo de sangue, símbolo de impureza, é mais que uma condição fisiológica. Na tradição hebraica, não há na pessoa separação entre físico e espiritual. Tudo faz parte de uma mesma realidade. Diríamos nós, o que o seu corpo sente, vive-o também o seu espírito. E dessa impureza que a toma por inteiro, espera a saúde, a salvação, já há 12 anos.

Nas mãos dos médicos antigos não encontrava alívio para a sua doença, para o seu estado de impureza. Há 12 anos esperava e sofria.

Passou naquele dia pela sua cidade uma grande multidão, vozes que enchiam as ruas e traziam aos seus ouvidos o nome do novo profeta, Jesus de Nazaré. A antiga aliança falhara na infidelidade de Israel, que espera e sofre. Está cansada nas mãos de uma medicina que pela sua infidelidade falhou em restituir a pureza ao género humano. Corre-lhe sangue, impura, e, como a filha de Jairo, sente a morte perto.
No entanto, um ruído de multidão, de novo povo em êxodo, traz-lhe o nome de Jesus aos ouvidos. Junta-se à multidão. Por entre corpos que se comprimem, tenta alcançá-Lo e tocá-Lo. Quer tocar o Médico Novo, ser tocada por Ele, purificar-se por um novo toque, uma nova aliança que Ele traz. «Se ao menos tocar nem que seja as suas vestes, ficarei curada». E é curada pela nova aliança que se dá naquele toque, um toque tão singular

«Quem tocou as minhas vestes?»

«Vês que a multidão te comprime de todos os lados, e ainda perguntas: 'Quem me tocou?’»

onde a fé (fides) toma o lugar da in-fidelidade. O Novo Templo (Jesus, Deus feito homem) opera pela fé a purificação que o Templo Antigo, lugar da antiga aliança, falhara em alcançar. «Filha, a tua fé salvou-te; vai em paz e sê curada do teu mal.»

Afinal, a menina, filha de Jairo, cujo destino surge aqui tão ligado a esta mulher, não morreu, apenas dorme. O povo não morreu. Dorme para ser agora acordado. Despertado pelo mesmo toque da fé que acontece também no coração de Jairo, na mão da menina de 12 anos.

«Não tenhas receio; crê somente.»

E tomando a mão de Israel, disse:
«Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!»


5 comentários:

saltes disse...

Por vezes fico com impressão de que os milagres de Jesus nos são apresentados com uma tal profundidade que há algo aí latente bem mais importante que a cura física em si. Creio que o João explicita isso muito bem com a analogia do levantamento de Israel. Ora, hoje em dia parece-me que muitos milagres (curas em Fátima+milagres para canonizações+…) são-nos apresentados como magias que se encerram no físico. Digo isto porque o que parece contar é o poder de um Deus distante e a fraqueza de uma natureza humana pedincheira. Desculpe esta última afirmação ser tão redutora (não lhe quero roubar horas com muitas explicações pormenorizadas) contudo diga-me, que lente lhe parece que nos falta, a nós cristãos de hoje, para sabermos ler os milagres?

joão disse...

Caro/a Saltés/Brenda,

Obrigado pelo seu comentário que me levou a reflectir ainda um pouco mais sobre este tema não tão simples quanto parece.

O entendimento do que é um milagre varia muito, de facto, como são diversas também as motivações de quem pede e as imagens de Deus que em si concebe quem o espera. Não duvido da aplicação da sua afirmação aparentemente redutora em vários casos. Também não creio que seja a maioria, embora não o possa avaliar. É provável que, de entre quem pede e espera um milagre, uma larga parte sinta, em maiores ou menores dificuldades, a necessidade de recorrer a Deus para lhe resolver o 'problema' por que passa, seja quanto à saúde, seja quanto ao sustento, seja quanto a outros pontos onde muitas vezes é vivido o drama humano. Nesse sentido, a nossa reacção não pode ser a censura fácil. Tampouco creio que o faça. Põe simplesmente a mesma questão que eu me ponho várias vezes. Claro que o milagre mais importante é sem dúvida o deste toque, o milagre da conversão do homem. Penso que quando se entende mal o milagre é porque se entende mal o lugar que a confiança tem neste toque, nesta conversão do homem a uma nova aliança. Quando o milagre é entendido por quem pede como partindo da fraqueza humana que pedincha ao poder de um Deus distante, encontramo-nos face a um limitado entendimento da confiança da fé. Esta, quando autêntica, não se prende no que pede, mas a Quem pede.

É imprescindível situarmo-nos no horizonte da fé cristã, da confiança cristã. Como cristãos acreditamos num Deus diferente daquele que lá do alto, quase olímpico, nos daria por meio de intervenções extraordinárias o que lhe pedíssemos em necessidade (saúde, sustento, ...). Não quero com isto dizer que semelhantes intervenções extraordinárias, não naturais, não possam ter lugar. Mas importa atender a Quem é o Deus da fé cristã, quem somos nós que pedimos e que relação é esta onde o pedido de uma graça (ou milagre) faz todo o sentido.

Se em necessidade eu procurasse em Deus aquele que me guarda a saúde (etc.) ou a dos meus, se necessário fosse, até ao milagre, até à intervenção "divina", estaria definitivamente com uma visão redutora de Deus. Deus não é aquele que salvaguarda o meu bem-estar (ainda que seja Aquele que quer o meu bem-estar). Ter fé não é acreditar num Deus que nos concede o que nos falta na necessidade.

(continua)

joão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joão disse...

Ter fé é saber que habito um universo criado por Deus, um mundo imenso e maravilhoso que é por nós recebido do amor de Deus e a ele regressa pela nossa gratidão. Que tudo volte a Deus num movimento de amor recebido e entregue, que este ciclo de graça se dê ininterruptamente é o projecto da criação. Olhando à nossa volta, porém, não é a graça que encontramos, não é este movimento de amor entre os homens e entre estes e Deus o que vemos. Encontramos antes o pecado, a inimizade e a ingratidão. O que num primeiro instante se constitui novidade dolorosa para o cristão é que ele é responsável, protagonista, a par com toda a humanidade, desse drama do pecado, da inimizade, da ingratidão, drama que tem efeitos concretos no mundo, na Igreja, no próprio. Atingiu as últimas consequências quando Jesus, Deus connosco, morreu na cruz, rejeitado pela humanidade que vinha salvar. É também minha essa culpa, é o pecado de toda a humanidade de todos os tempos que é rejeição de Jesus, da Luz de Deus que assumiu a nossa humanidade. Contudo, ao morrer na cruz, o amor vence o pecado, a vida vence a morte, o perdão vence a culpa, e esse é o nosso Aleluia. Somos tomados como filhos no Filho que assumiu a nossa humanidade e com o Filho que ressuscita ressuscitamos nós também.

É nesse segundo momento em que conhece Jesus como Aquele que o salva, Quem o salvou há 2000 anos e hoje pelo toque da fé o vai do pecado conduzindo de novo à graça, ao movimento de amor recebido e entregue, que a sua dor se transforma em alegria e confiança. O mesmo toque da fé é o toque da mulher que sofria do fluxo de sangue e o toque de Jairo, passagem para a vida, despertar do sono.

É este o motivo da nossa alegria, da confiança da fé cristã -- saber-se resgatado do pecado. É este o nosso Aleluia -- que o amor vença o pecado. Ao cristão isso lhe basta, nos milagres de Jesus é esse o maior milagre, é esse o toque, a tal "profundidade" onde "há algo aí latente bem mais importante que a cura física em si". Concordo plenamente. O que é de facto significativo nos milagres de Jesus é esta confiança de se saber salvo -- convidado a passar do pecado, da inimizade, da ingratidão, à graça -- e que muitas vezes se traduz no seguimento ou no envio a anunciar o Reino. Claro que um cristão pode pedir um milagre também, mas basta-lhe saber-se salvo, a caminho da graça original.

Para não me alongar mais, digo apenas que continua a fazer sentido pedir um milagre, enquanto for esta a confiança que tem o cristão e não a de um deus que preserva o meu bem-estar ou me livra dos infortúnios. "Quem Deus tem, nada lhe falta". A graça basta, é ela o grande milagre.

Esta fé estará presente nos milagres de Fátima, de Lurdes, das canonizações? Não sei. Se forem manifestações de que a mensagem de Fátima, Lurdes e as devoções dos santos remetem para esta confiança e nela conduzem os cristãos, acho que podemos dar graças por eles. Que toda a gente que a eles acorre tenha esta fé é talvez improvável. O importante é que, se como cristão peço o milagre, o peça nesta lógica do caminho que faço para a graça, que discirna se a ela conduz. Qual a lente? Esta confiança, este toque da fé.


Mais uma vez obrigado. Espero ter respondido à sua questão, ajudando a uma reflexão que não termina aqui.


Cumprimentos,

João

freefun0616 disse...

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