8 de setembro de 2009

Ecologia

Resumo da intervenção de Isabel Varanda no Congresso Internacional sobre o Impacto de darwin na Ciência, na Sociedade e na Cultura

A ecologia como chave hermenêutica da Criação e da Evolução

Premissas:
1. O que se passou no(s) começo(s) para que o universo seja e seja assim? O jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin lembra-nos de forma categórica que “é impossível chegar ao verdadeiro começo seja do que for” (Teilhard DE CHARDIN, La place de l’Homme dans la Nature. Le Groupe Zoologique Humain (1949) Œuvres, t. VIII, Seuil, Paris, 1963, 93). Impossibilidade tanto mais radical quanto se, por hipótese, a ciência chegasse a decifrar e a compreender os mecanismos e operações das origens e da evolução das coisas e dos seres, o mistério da Vida permaneceria e nunca, diz ele, chegaríamos a poder “vangloriarmo-nos de ter enfim esclarecido o mistério do Homem”(IDEM, La Paléontologie et l’apparition de l’Homme (1923) Œuvres, t. II, Seuil, Paris, 1956, 80.). Não é dito, todavia, que estejamos condenados à ignorância. Aliás, as contínuas descobertas nos diferentes domínios científicos confirmam que é possível desbravar o terreno da ignorância do ser humano sobre si mesmo, sobre o universo e sobre o sentido profundo de todas as criaturas. Precisamos, no entanto, de dispor dos instrumentos adequados à interpretação dos elementos que nos chegam. Este é o verdadeiro problema que se coloca aos cientistas e que a maior parte das vezes desemboca em verdadeiros impasses. Que método seguir e que processo iniciar para ultrapassar o paradoxo intrínseco aos novos conhecimentos: de um lado, as abundantes informações científicas contidas em cada nova descoberta, e de outro lado, a precariedade de sentido que elas trazem aos enigmas e ao mistério da vida em geral.
2. Num texto sobre a Paléontologie et l’apparition de l’Homme, Teilhard de Chardin vê este paradoxo não como um impasse ou aporia mas como um paradoxo útil; no seu entender, o facto de nós próprios sermos seres vivos faz com que o mistério da vida não nos seja totalmente inacessível. Com efeito, escreve, “realizando com urgência e maior precisão no nosso espírito quanto a nossa natureza está intimamente ligada às entranhas da Terra, chegaremos a uma ideia mais magnífica da unidade orgânica do universo” (ibidem) Mas, prossegue, “por mais poderosa que a História possa ser para dilatar a consciência que podemos ter do mundo, ela é incapaz de, por si mesma, nos explicar este mesmo Mundo” (ibidem). Porque o mistério da vida é irredutível a uma cadeia físico-química, por mais complexa que ela seja. Algo escapa aos microscópios. A ciência perde-se nos caminhos do passado onde os começos se esbatem e a origem dos começos é inacessível. Por outras palavras, o começo do que não existe nos começos (Criação, em registo religioso) escapa aos principais requisitos da investigação científica e mesmo que a ciência chegue a reproduzir logicamente a cadeia de desenvolvimentos da vida, ela não nos ensinará nada sobre “as forças secretas que animaram este belo desenvolvimento” (ibidem).
3. Àqueles que pretendem ler a Bíblia como cientistas ou como um livro científico vale a pena recordar que a Sagrada Escritura não nos oferece um tratado de cosmologia nem de paleontologia, nem de biologia, nem mesmo de ecologia, no sentido de um conhecimento positivo e sistemático da constituição dos seres e da sua inserção e dinamismo interno e externo no contexto dos ecossistemas. Já os Padres da Igreja o tinham entendido. Basílio de Cesareia, por exemplo, numa das suas homilias, fala “desses autores de tratados” que emitem toda a espécie de conjecturas sobre o mundo. “Mas – diz ele – não será isso que me fará falar com desdém do nosso relato da Criação, sob pretexto de que o servidor de Deus, Moisés, nada tenha dito das suas formas, não tenha avaliado o perímetro da terra em 180 mil estádios, nem medido quanto muda no ar a sombra da terra quando o sol passa debaixo dela, e que ele não tenha explicado enfim como esta sombra projectada sobre a lua provoca os eclipses” (BASILE DE CÉSARÉE, Homélies sur l’Hexaéméron, Sources Chrétiennes 26 (introdução e tradução de Stanislas Giet), Cerf, Paris 1950, 481-483. Ver: Pierre GISEL, «Sens et savoir du monde. Quel discours théologique sur la Création?», in Laval théologique et philosophique 52, 2 (1996) 355-364; Pierre GISEL – Lucie KAENNEL, La création du monde. Discours religieux, discours scientifique, discours de foi, Labor et Fides, Genève 1999).
A intenção subjacente aos textos bíblicos é teológica e religiosa; não é científica.
4. Seja qual for o valor do argumento aos olhos dos cientistas, não podemos silenciar as deposições de fé daqueles que se confrontaram antes de nós com a questão da vida e do sentido. Através da sua fé, eles explicitaram o lugar inaugurado pelos começos do que não existia no começo: esse lugar sem ser e sem o ser, onde tudo era indiferença e que Deus (ens a se), criando a diferença (ens ab alio), transforma em lugar habitado pela diferença, em lugar abençoado e em promessa de crescimento, multiplicação e plenitude: “Deus abençoou-os e disse-lhes: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra…” (Gn 1,28).
5. Deus cria criaturas perfeitas na sua ordem, mas não finalizadas na sua ordem. A perfeição desta ordem reside precisamente na sua capacidade de finalização, de autoconstrução e de autodeterminação. No caso da criação do ser humano, a intentio profundior está orientada, num projecto a longo termo, para o estádio de uma liberdade inteligente, dotada de consciência reflexiva ao serviço de uma incessante busca da inteligibilidade do universo e da vida.
Pela Criação – que não é entendida pela Tradição cristã como criacionismo instantâneo – o Criador inaugura e faz dom de uma história da qual só o Prólogo aparece escrito e leva a sua assinatura. Este lugar na origem da história é de uma natureza diferente da natureza da história. Ele releva de uma irredutibilidade categórica quer às teorias científicas quer às classificações históricas e quer mesmo às construções teológicas.
6. Em suma, no que respeita ao mistério mais apaixonante da história da humanidade, o das suas próprias origens e de tudo quanto existe, a ciência não conseguiu até hoje dar uma explicação. Existem hipóteses mais ou menos plausíveis, mas o mistério permanece. Por seu lado, as cosmogonias e antropogonias religiosas (cf. Génesis 1-2) procuram, através de narrativas redigidas num “estilo mítico”, representar o inexprimível e ajudar o espírito reflexivo humano a aceder ao fundamento.
7. A aliança dos saberes (Ilia Prigogine e Isabel Stengers) como projecto e método epistemológico, se não preconiza a separação hermética entre a fé e a ciência, tampouco defende a promiscuidade entre os dois domínios; ela supõe, como requisito de referência, uma cirurgia de precisão pela qual é possível identificar um espaço transitivo inter-epistemológico: da fé à ciência e da ciência à fé. Falta instruir um referencial de fundamentação da credibilidade, legitimidade e importância deste espaço bem como o nexo nesta passagem inter-epistemológica.

Proposição:
Fazer habitar neste espaço inter-epistemológico o conceito de ecologia (1).. Por um lado, ele permite unificar diversas disciplinas, desde as ciências exactas às ciências humanas, passando pelas ciências religiosas; por outro, sendo denominador comum à Criação – sabedoria ecológica – e à Evolução – ciência ecológica – o espaço epistemológico entre a doutrina da Criação e a teoria da Evolução deixa de ser terra de ninguém e interdito, passando a ser reconhecido como espaço possível para inter-dizer a Criação na Evolução e a Evolução na Criação.
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(1)No século XIX, a biologia concentrou a sua atenção no estudo do ser vivo no seu ambiente natural. A palavra “ecologia” é forjada neste contexto pelo biólogo alemão Ernst Haekel que, em 1886, com o neologismo “ecologia”, pretendia significar “a ciência da economia, dos hábitos, do modo de vida, das relações vitais entre os organismos”, in Ernst HAECKEL, Generelle Morphologie der Organismen, I, Berlim, 8, citado por Pascal ACOT, Histoire de l’écologie, PUF, Paris 1988, 44. Desde então, o conceito de ecologia mudou substancialmente. Segundo a definição do sociólogo espanhol Manuel Castells, a ecologia é “um conjunto de crenças, de teorias e de projectos que consideram a humanidade como um dos componentes de um ecossistema mais vasto e desejam manter esse sistema em equilíbrio (homeostasia), numa perspectiva dinâmica e evolucionista”, Manuel CASTELLS, Le pouvoir de l'identité, II: L'ère de l'information, Fayard, Paris 1999, 142.