27 de outubro de 2009

Aprendemos alguma coisa com o ‘Caso Saramago?’
Alfredo Dinis,sj


1. Saramago revelou na apresentação do seu livro Caim um desconhecimento do que é ler um texto – qualquer texto – surpreendente e, para muitos, chocante. Este novo ‘caso Saramago’ é – foi? - em muitos aspectos diferente dos anteriores. As suas declarações sobre a Bíblia em geral e sobre o Antigo Testamento em particular não feriram apenas os ouvidos dos cristãos mas, talvez mais, os de pessoas que não reagiram tanto em função do facto de se tratar da Bíblia, mas pela ingenuidade das afirmações de Saramago. O ‘caso Saramago’ não é pois um caso de intolerância por parte dos crentes, mas de assombro por parte de muitos, crentes e não crentes.

2. ‘Está lá escrito’! ‘Porque é que a Igreja Católica mudou a interpretação da Bíblia? Quem lhe deu autoridade para isso?’ Estas questões mereceram aplausos de alguns – dos que estão sempre, acrítica e incondicionalmente com Saramago e com todos quantos se declararem contra a religião! Sempre me impressionou o facto de estas pessoas – Ludwig Krippahl e muitos dos frequentadores do Portal Ateu, para só dar alguns exemplos - se atribuírem um espírito crítico, uma liberdade de pensamento, que afirmam ser impossível aos crentes em geral e aos cristãos em particular. Impressiona-me o facto de este espírito crítico ser ‘propriedade privada’ deles; e impressiona-me o facto de esse espírito crítico se dirigir apenas ao que afirmam os crentes, nunca ao que afirmam os não crentes. A estes, como a Saramago, Dawkins, Harris, etc., parece concederem uma infalibilidade que lhes causa horror quando atribuída ao Papa.


3. Desta vez, a polémica não se verificou entre iluminados, por um lado, – Saramago e os seus defensores ideológicos –, e obscurecidos, por outro – todos os crentes, a começar pelas autoridades eclesiais. As intervenções vindas de todos os cantos do espaço cultural português manifestando espanto e incredulidade pelas declarações de Saramago, extravasaram e muito o espaço católico. O próprio Saramago acabou por reconhecer que se excedeu em algumas das suas declarações. Reagiu, porém, lamentando-se que as pessoas se estavam a pronunciar sem terem lido o seu livro. Mas a questão em debate nada tem a ver com o livro de Saramago, que poderá escrever romances sobre as personagens, bíblicas ou outras, que bem entender. E sobre um romance, a crítica terá que ser literária, com base em cânones da crítica literária.

4. O que está em causa no ‘caso Saramago’ é a interpretação da Bíblia. Os cristãos nunca se limitaram à sua interpretação literal. A interpretação metafórica esteve sempre presente, não foi inventada agora. Não tem razão Ludwig Krippahl quando afirma: “Só a partir do século XIX é que a exegese católica começou a considerar a Bíblia literatura. Antes disso defendiam uma interpretação literal. Daí que, quando afirmam que não se deve ler a Bíblia à letra, de uma forma a que chamam “banal”, contradizem dezoito séculos de tradição católica e outras variantes contemporâneas de cristianismo.” Isto é objectivamente falso. Muitas passagens foram sempre interpretadas metaforicamente. Algumas passagens foram durante algum tempo interpretadas literalmente, como as que se referem à criação do mundo. Mas também as que se referem ao movimento do sol e à estabilidade da Terra. No tempo de Galileu, esta incapacidade dos teólogos em mudar a interpretação literal destas passagens para uma interpretação metafórica, proposta por Galileu, foi uma das causas do ‘caso Galileu’, como reconheceu o Papa João Paulo II. Porque deveriam os teólogos ter deixado a interpretação literal das passagens bíblicas de conteúdo astronómico e cosmológico? O Cardeal Belarmino afirmou que estaria disposto a fazer a mudança de interpretação que lhe sugeria Galileu se este apresentasse provas suficientemente credíveis do movimento da Terra. Isto acabou por acontecer mais tarde, e a mudança de interpretação verificou-se. Assim se pode responder à pergunta de Saramago: ‘Quem autoriza a Igreja Católica a mudar a interpretação da Bíblia?’. O dado científico, por exemplo, tem sido uma das grandes causas desta mudança.

5. ‘Está lá escrito’! repete Saramago. Diz exactamente o que diziam os teólogos que não aceitaram a proposta hermenêutica de Galileu. ‘Está lá escrito’!, dizem os criacionistas fundamentalistas dos nossos tempos. Não me parecem boa companhia para Saramago! Se a Igreja Católica nada muda, é acusada de imobilismo, de falta de liberdade de investigação, de espírito crítico, etc. Se muda, pergunta-se: quem lhe deu o direito de mudar? Para Saramago e os que neste caso lhe batem palmas, a Igreja não deve mudar nada. Só assim interpretará correctamente a Bíblia!


6. Segundo Ludwig Krippahl: “É claro que podemos reinterpretar a Bíblia à luz dos nossos valores. É sempre possível inventar que tudo o que parece mal é metáfora para outra coisa que vá escapando. Mas é incorrecto vender esta reinterpretação, muito forçada, como conhecimento. É mera opinião.” Não, Ludwig, a tua insistência em que tudo na religião e, em particular no cristianismo, é mera opinião, é mera subjectividade, ignora que qualquer texto tem que ser interpretado de acordo com alguns parâmetros objectivos: estilo literário, época de composição, modo de composição, contexto cultural em que surgiu, significado dos conceitos utilizados no espaço cultural a que pertencem originalmente, etc. Nada disto é subjectivo.

7. É claro que Saramago pode dizer e escrever o que quiser, mesmo ferindo alguns sentimentos de pessoas crentes. Mas não deve fazer afirmações que são, objectivamente, impróprias de um Prémio Nobel. Não importa que tais afirmações sejam sobre religião. Poderiam ser sobre a História de Portugal, sobre a investigação científica, sobre arte, etc. Só posso lamentar que este nosso Prémio Nobel tenha decidido deixar aos portugueses uma recordação tão triste dos seus anos de maturidade.


8. Aprendemos alguma coisa com o ‘caso Saramago’? Os que incondicionalmente lhe batem palmas, não aprenderam nada! Continuam a repetir o que é objectivamente inaceitável no que se refere à hermenêutica em geral, e à hermenêutica bíblica em particular. Continuam a fazer uma leitura deste caso como se fosse um mero episódio de intolerância por parte dos crentes. Continuam a dizer que é preciso ler o livro Caim para se poder entrar no debate. Nada aprenderam!

9. Só as pessoas – independentemente da sua posição para com a religião – que ouviram ou leram com espírito realmente crítico as palavras de Saramago poderão ter aprendido realmente alguma coisa. Por exemplo, que um Prémio Nobel da literatura pode revelar uma debilidade cultural incompreensível precisamente na sua área de especialidade. Os cristãos poderão ter-se dado conta de uma forma inesperada de como um dos livros mais marcantes de todos os tempos, tanto do ponto de vista religioso como do ponto de vista cultural, permanece largamente ignorado. Talvez a maior parte de nós tenha aprendido que é importante rever como estamos a ensinar os nossos jovens, sobretudo no campo da literatura, da hermenêutica, da cultura em geral, e da cultura religiosa em particular. O espírito crítico tem que ser um espírito informado e inteligente. O estudo da religião em geral e do cristianismo em particular, no qual a Bíblia tem um relevo especial, não deve ser visto como pertencente simplesmente à esfera privada e de interpretação subjectiva. Aprendemos também que se torna necessário e urgente mostrar como a Bíblia é uma fonte de humanismo e de sabedoria particularmente adaptada aos nossos tempos. Aprendemos que ainda é surpreendentemente possível que ateus como Saramago e muitos outros continuem a afirmar que a religião só fez e só faz mal, e que todos viveríamos melhor sem religião.

10. Mais do que ‘reagir’, ‘protestar’, etc., em relação às declarações de Saramago, prefiro usar o verbo ‘lamentar’. Foi isso o que fizeram muitos comentadores. Ignoro se Saramago aprendeu alguma coisa com o seu ‘caso’. Parece-me que os seus apoiantes ideológicos não aprenderam nada. Creio que muitas pessoas aprenderam alguma coisa.

4 comentários:

Amália disse...

Não li Caim mas vou ler certamente,estou curiosa, não quero ajudar ao negócio do Sr. Saramago (não sei se será o negócio q está por detrás de td isto, pode ser)mas só lendo posso analisar. Reconheço como cristã que muitos de nós nem sempre aprofundámos a leitura da biblia como seria desejável, mas o mais importante é procurar iluminar a nossa vida com a mensagem dela. Para isso é preciso entendê-la é verdade. Mas parece-me q qualquer pessoa de boa fé ainda q pouco esclarecido não entende q se tenha mudado a interpretação da biblia. Não dirá q o q era verdade ontem hoje é mentira. Nada mudou na biblia na minha opinião. Não leio nada hoje q ontem tenha lido doutra forma. Em alguns casos entendo hoje o q não entendi ontem.
Choca-me no Sr. Saramago, a arrogância, a intolerância relativamente aos cristãos. Trata-nos assim como uns tótós. É importante q se respeite a diferença. Nós cristãos temos a obrigação de respeitar os q pensam diferente de nós, é legítimo q tb nos respeitem a nós, é um direito q nos assiste. Acho q foi isto q aprendi com Saramago não q ele tivesse tido essa atitude, mas porque não a teve.

Luciano Henrique disse...

Ateu militante é basicamente um leitor de auto-ajuda.

Não há como dialogar com eles.

Não produzem sequer um diálogo racional, vivem somente de frases de efeito, maquiagens sobre religião e ciência (geralmente não conhecem nada sobre as duas), falsas dicotomias, erísticas e o que valha.

O Saramago é que já passou da idade dessas frescuras.

Em tempo... excelente texto.

Posso citá-lo em meu blog?

LH

P.S.: Segue o link para um artigo recente sobre os ateus militantes:

http://neoateismodelirio.wordpress.com/2009/10/30/como-demolir-o-castelo-de-cartas-neo-ateista-questionando-a-auto-ajuda/

alfredo dinis disse...

Caro Luciano,
Obrigado pelo seu comentário. Em relação aos ateus nunca entendi por que razão se querem sempre considerar como sendo os que sabem tudo, incluindo que Deus não existe, acusando os crentes de ignorância quando não de estupidez. Os ateus parecem sentir-se seguros com a sua argumentação e, neste sentido, talvez isso corresponda àquilo a que chama 'auto-ajuda'.
Poderá citar o meu texto e usá-lo como achar melhor.
Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj

freefun0616 disse...

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