4 de outubro de 2009

E os dois serão uma só carne


A Bíblia, Palavra de Deus para os cristãos, inaugura-se com a narração da criação. Narra-a no seu estilo mitológico, diferente do modo como a descreveria a nossa cultura de hoje, predominantemente científica. Não é, contudo, por isso que a narração do Génesis perde a sua pertinência, antes a mantém no significado humano que preserva. O excerto de hoje fala-nos da “origem” da mulher, retirada do lado do homem. Creio, ainda assim, que nos fala de algo mais do que da mulher ou do homem. Fala-nos da carne, uma só, que os dois formam.


Algumas linhas antes do excerto de hoje, Deus cria o ser humano, homem e mulher, para que cresça, se multiplique, encha a terra e a domine. Cria-os para o crescimento, para a fecundidade e para a acção responsável sobre o lugar onde lhes é dado habitar e os bens de que lhes é dado dispor. Cria-os para uma vida feliz, não de onde partem, mas para onde partem. É outra das imagens mais recorrentes da Bíblia, a do caminho para a realização da promessa, feita a Abraão, feita a Moisés e ao povo hebreu cativo no Egipto, feita à Igreja que nasce. No caminho vão encontrando essa felicidade, ora cumprida, ora comprometida pela dureza do coração.


A presente narração diz-nos sobre outra dimensão da mesma felicidade humana: que a mulher ou o homem não ficarão sós, mas buscar-se-ão um ao outro para, amando-se, viverem como um só, conhecendo a felicidade que não teriam se permanecessem em si. Uma vez mais, essa felicidade não é a condição de onde partem, no sentido em que não é uma realidade vivida à partida, senão no desejo, mas para onde partem, uma felicidade que podem viver já, mas que pede passos quotidianos. No caminho vão encontrando essa felicidade, ora cumprida, ora comprometida pela dureza de coração.


Jesus é questionado pelos fariseus quanto à lei do divórcio deixada por Moisés, na qual permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se rejeitar a mulher. «Pode um homem repudiar a sua mulher?». A resposta de Jesus é de uma exigência que nos surpreende. A dureza de coração de homens e mulheres (aqui sobretudo da parte de homens) levou Moisés a permitir que a mulher fosse repudiada por algo que fosse repreensível. Jesus não se perde na discussão acerca de que circunstâncias ou critérios definem esse «algo de vergonhoso» que tornaria o divórcio lícito, que circunstâncias ou critérios podem tornar a dureza de coração mais ou menos conforme ao projecto de Deus que se baseia, por oposição, no amor. Antes convida-nos, na vida conjugal, como em todas as dimensões da vida, a não sermos duros de coração. Deparados com o divórcio, ou com o casamento mal vivido, deixemos de lado a dureza de coração e aspiremos à felicidade que nos pertence como promessa do Pai, dando a cada dia os passos que levam da solidão do próprio umbigo ao encontro das necessidades e realização do outro, sem o qual eu mesmo não encontro a felicidade que busco.


4 de Outubro de 2009 - Dom xxvii do Tempo Comum
LEITURA I Gen 2, 18-24
SALMO RESPONSORIAL Salmo 127 (128 ), 1-2.3.4-5.6 (R. cf. 5)
LEITURA II Hebr 2, 9-11
EVANGELHO Mc 10, 2-16