22 de novembro de 2009

Venha a nós o Vosso Reino...

Se no Evangelho deste Domingo, Pilatos não consegue ver um Rei no Jesus ferido, ainda hoje nos custa vê-lo como Rei de alguma coisa diante de Igrejas vazias, desempregos, guerras, famílias destroçadas… Como poderemos ainda chamar a Cristo: Rei e Senhor do Universo? Façamos uma leitura do tipo de poder de Jesus a partir das três virtudes teologais, pois elas “têm como origem, motivo e objecto imediato o próprio Deus.[1]

FÉ, ENTRE A LIBERTAÇÃO E A HOSPITALIDADE «O Evangelho é poder de Deus para salvação de todo o crente» (Rom. 1). A salvação é a libertação do que desfigura, diminui, destrói a vida. Jesus é o Evangelho vivo. Mostra-o no seu perdão, na sua vida, na sua alegria. É por isso que a salvação não está reservada para os que preencheriam certos critérios. Deus salva «todos os que crêem».
Mas será que tenho de acreditar como quem arranja um bilhete para entrar no céu? Não, a fé é um dom que se acolhe mais com espanto que com actos voluntários. É uma confiança muito simples pela qual, sentindo-nos acreditados por Deus, acreditamos num nexo silencioso na nossa vida, donde brota grande alegria, uma amizade indizível que nos restabelece, como o Bom Samaritano.

A realeza de Cristo é fonte, ao passo que a de Pilatos é dominação. Cristo é fonte da identidade e singularidade de cada coisa, pela qual “enche o Universo e dá consistência a todas as coisas” (Sab. 1), pois liberta-nos do que não somos.

ESPERANÇA, ENTRE O AMOR E A FIDELIDADE Numa época em que muitas vezes é difícil encontrar razões para ter esperança, o cristão deve saber «dar a razão da sua esperança a todo aquele que lha peça» (1 Pedro 3).
Mas em que consiste a esperança? A Bíblia define as características do Deus da aliança usando dois termos hebraicos: hesed e emet. Em geral, traduzem-se por «amor» e «fidelidade». A esperança bíblica e cristã não significa uma vida nas nuvens, o sonho de um mundo melhor. Não é uma simples projecção do que gostaríamos de ser ou de fazer. Leva-nos a ver as sementes deste mundo novo já presentes no dia de hoje, por causa do amor e fidelidade de Deus manifesta na vida de tantos homens e mulheres do nosso tempo.
A esperança é sobretudo a atenção a uma promessa que se está a realizar. Como alguém que, ao ver o despontar de algumas ervas na terra, deseja e espera uma árvore que crê despontar. E tal como Abraão teve de fazer da sua vida uma peregrinação, a esperança é viver e
m constante começo.
Por causa destes começos, «nós próprios gememos no nosso íntimo» (Rom. 8), mas é por eles que reconhecemos que, ao passo que o poder de Pilatos é um poder transitório, o de Cristo é pleno e infinito. Pois o Seu poder de mostrar o rasto de Deus em nós acompanha sempre os nossos altos e baixos, por um convite de esperança: “Ficai para sempre alegres, pois vou criar um povo cheio de entusiasmo” (Is. 65).


CARIDADE, ENTRE A ACÇÃO E A CONTEMPLAÇÃO A caridade vivida não é senão agir em conformidade com o que Deus faz em nós. O nosso amor não é permanente ou definitivo. E o amor mais pleno que podemos ter é quando reconhecemos que só Ele ama sempre, ao passo que o nosso amor é feito de impulsos de boa vontade, que nos fazem entrar numa corrente de água, anterior a nós. “O amor é o nome que damos ao que Deus faz em nós quando supera a desunião em que vivemos… O amor é, portanto, algo que nos acontece, algo de passivo, algo sobre o qual não exercemos domínio… O amor não é, p
ois, uma opção humana. É eleição de Deus.”[2] Esta ternura de Deus, motriz de qualquer gesto sincero de quem dá cor e vida ao mundo, foi o que levou o nosso Rei ao Seu trono: a Cruz. Parece um paradoxo vermos a frescura do amor a ser elevada no absurdo da morte do Filho de Deus, em nome da Lei de Deus. Mas tal como no Apocalipse, o livro de Deus só pode ser aberto com o sangue do cordeiro, também só as palavras que são acompanhadas pelo testemunho são dignas de não serem levadas pelo vento. Se Pilatos, sendo poderoso, dá decretos, Jesus, sendo poderoso, dá testemunho.
Assim, a caridade é o testemunho e transparência activa de um amor que se reconhece anterior a nós. Reconhecer a realeza de Jesus por uma contemplação que nos permita compreender que, embora tenhamos “lutas, por fora; temores por dentro. Deus, porém, que consola
os aflitos, consolou-nos” (2 Cor. 7)

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[1] Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (CCIC), n. 384
[2] BONHOEFFER, Dietrich - Ética