23 de fevereiro de 2009

O horror do vazio

O jornalista Mário Crespo publicou no passado sábado no Jornal de Notícias a seguinte opinião sobre dois dos temas actualmente mais polémicos na sociedade portuguesa:


"Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido.Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia. Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte. No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica "a morte do sentido de tudo" dos Niilistas de Nitezsche. A discussão entre uma unidade matrimonial que não contempla a continuidade da vida e uma prática de morte, é um enunciar de vários nadas descritos entre um casamento amputado da sua consequência natural e o fim opcional da vida legalmente encomendado. Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência, que o presidente e o secretário-geral do Partido Socialista querem pôr à consideração de Portugal. Um sombrio universo em que se destrói a identidade específica do único mecanismo na sociedade organizada que protege a procriação, e se institui a legalidade da destruição da vida. O resultado das duas dinâmicas, um "casamento" nunca reprodutivo e o facilitismo da morte-na-hora, é o fim absoluto que começa por negar a possibilidade de existência e acaba recusando a continuação da existência. Que soturno pesadelo este com que Almeida Santos e José Sócrates sonham onde não se nasce e se legisla para morrer. Já escrevi nesta coluna que a ampliação do casamento às uniões homossexuais é um conceito que se vai anulando à medida que se discute porque cai nas suas incongruências e paradoxos. O casamento é o mais milenar dos institutos, concebido e defendido em todas as sociedades para ter os dois géneros da espécie em presença (até Francisco Louçã na sua bucólica metáfora congressional falou do "casal" de coelhinhos como a entidade capaz de se reproduzir). E saiu-lhe isso (contrariando a retórica partidária) porque é um facto insofismável que o casamento é o mecanismo continuador das sociedades e só pode ser encarado como tal com a presença dos dois géneros da espécie. Sem isso não faz sentido. Tudo o mais pode ser devidamente contratualizado para dar todos os garantismos necessários e justos a outros tipos de uniões que não podem ser um "casamento" porque não são o "acasalamento" tão apropriadamente descrito por Louçã. E claro que há ainda o gritante oportunismo político destas opções pelo "liberalismo moral" como lhe chamou Medina Carreira no seu Dever da Verdade. São, como ele disse, a escapatória tradicional quando se constata o "fracasso político-económico" do regime. O regime que Sócrates e Almeida Santos protagonizam chegou a essa fase. Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos."

22 de fevereiro de 2009

Pecado: uma palavra em desuso para uma realidade de sempre


No Evangelho deste Domingo (Mc 2, 1-12) Jesus aparece rodeado de uma pequena multidão que enche por completo a sua casa. Perante a dificuldade de levarem um paralítico até junto de Jesus, um grupo de homens sobe ao telhado, no qual abrem um buraco e por onde fazem descer a enxerga do doente. Contrariamente às expectativas, Jesus não cura imediatamente o doente, mas diz-lhe: “Filho, os teu pecados estão perdoados.”


Na cena evangélica um grupo de homens – escribas, diz-nos o texto – mostram-se escandalizados e acusam Jesus de ser blasfemo. “Não é só Deus que pode perdoar os pecados?” Se a cena se passasse na actualidade talvez fosse a própria palavra pecado, e não o facto de Jesus perdoar pecados, o motivo do escândalo. Para muitos a palavra pecado cheira a mofo e evoca uma religião decrépita e limitadora da autonomia, que se quer ilimitada, do Homem contemporâneo.


E no entanto, Jesus parece mais preocupado com os pecados do homem paralítico do que com o seu bem-estar. Se na sequência da discussão com os escribas decide curá-lo não é com outro objectivo senão o de mostrar que tem o poder de perdoar os pecados.


Talvez a palavra pecado esteja tão negativamente conotada que se constitua em barreira de comunicação, mas então teremos que encontrar outro termo para descrever a possibilidade real do o ser humano fracassar no seu desejo de viver em profundidade, verdade e liberdade. Actualmente mobilizamos inúmeros meios para cuidar da nossa saúde física e psíquica, mas tendemos, parece-me, a descuidar a nossa dimensão espiritual. Cada vez mais desconfiados em relação às grandes tradições espirituais esquecemos que as nossas opções têm consequências na nossa vida. O que fazemos acaba por condicionar o que somos. Quando agimos com critérios desafinados a injustiça e a degradação da nossa vida são inevitáveis.


Cuidar do espírito não significa decorar inutilmente um compartimento estanque da nossa existência, mas sim dotar a nossa vontade da capacidade de escolher o que mais nos humaniza. Jesus perdoa os pecados ao homem paralítico, ou seja, restitui-lhe a saúde espiritual, oferecendo-lhe assim a capacidade de acolher a sua própria vida, tal como se lhe apresenta, e restabelecer a relação com Deus e com a sua comunidade. “O homem”, diz-nos e Evangelho de S. Marcos, “levantou-se, tomou a enxerga e saiu diante de toda a gente, de modo que todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim»”.



Fotografia de Jorge Alfar

20 de fevereiro de 2009

Crise das Associações de Estudantes, que Futuro. . .


Sensivelmente há um ano o IPJ reviu o seu procedimento de apoios e incentivos monetários às Associações de Estudantes.

Esta medida que poderia ser sinal de crise e de alguns cortes orçamentais é sinal de uma outra crise, bem mais preocupante, pois esta irá sentir-se cada vez com maior força no Futuro. Falo-vos da crise académica.

Os muitos e cada vez mais escandalosos desvios de dinheiro por parte das Associações Estudantis, fez com que o IPJ tivesse modificado a forma como concedia dinheiro às Associações. Mas este problema começa bem mais detrás. Antes dos membros das Associações ocuparem os seus cargos é necessário a apresentação de uma Lista, a referida campanha e o habitual escrutínio, porém toda esta engrenagem democrática está corrompida desde o primeiro momento que se escolhem os seus membros.

Parece uma regra de ouro escolherem-se para uma lista as pessoas mais populares e não as mais competentes, escolhem-se assim pessoas capazes de arrastar consigo alunos e não pessoas empreendedoras ou dinamizadoras, mata-se a cultura e eleva-se a diversão nocturna.
As listas normalmente tendem a ser assim, cheias de pessoas populares, as caras bonitas da faculdade. O resultado não tarda a chegar à campanha eleitoral, troca-se a ideologia, os projectos, ideias e competências, por um espectáculo de popularidade, carisma, e afirmação de poder.

Ora como seria de esperar o escrutínio não vai ser em função de quem os alunos gostariam de os representar, trabalhar para eles, mas antes o escrutínio da popularidade, do sorriso, enfim um escrutínio de aparências e de modas. Mas também a crise desce até aos eleitores, que por falta de participação eleitoral , ou falta de capacidade racional, não vão eles filtrando o jogo.

Do escrutínio é eleita uma lista, toma posse nova associação, e o sentimento de alegria é trocado pelo sentimento de euforia, pois para os novos empossados, não foi ganha uma responsabilidade mas uma lotaria.

E assim continuamos em crise, que trabalho estes jovens populares podem oferecer à faculdade?, que projectos podem eles ter? quando deste modo subiram ao poder, daqui só poderá acontecer aquilo que acontece hoje em dia, Associações de Estudantes a desviarem dinheiro, paradas, cheias de pó, o espectáculo já foi, agora é colher o que se ganhou.

E o Futuro ?
Ele está comprometido claramente, a tradição académica é confundida com o bem trajar, e o espírito apenas dura enquanto duram as praxes. De Festa em Festa, de Bar em Bar, lá vai percorrendo na noite a tradição académica aquilo que não percorre no Campus.

Se isto não lhe chega para comprometer o futuro, lanço mais dois dos problemas.
Os alunos plagiam trabalhos da internet e compram trabalhos feitos. Um grupo de cinco elementos tem um trabalho para entregar, nada mais que dividir a despesa pelos cinco e comprar um trabalho, mas nem os professores escapam, quando estes não obrigam os alunos a defenderem os seus trabalhos, limitando-se a receber e avaliar, sem confrontar.

E a crise é assim, não só feita de cifrões, mas também de valores.

12 de fevereiro de 2009

Obrigado Mr. Darwin por me mostrar Deus.

Caro Mr. Darwin:

Muito obrigado pela sua investigação. O contacto com a sua Teoria da Evolução das Espécies tem sido, para mim, bastante libertador.
Até contactar com a Teoria que Mr. Wallace e Vossa Excelência defendem, a questão dos estratos fósseis fez -me bastante confusão. O aparecimento de fósseis muito parecidos, embora sucessivamente mais complexos (mesmo não constituindo séries inteiras) que apareceram em escavações e pedreiras a céu aberto, colocava-me muitas dificuldades de explicação. A única resposta a estas descobertas que conhecia era a do Prof. Cuvier, da Sorbonne, que enunciou a Teoria das Criações Sucessivas. Mas esta Teoria postula que Deus criou e destruiu várias vezes o mundo e isso pareceu-me bastante estranho. Se Deus criou o mundo e o arrasou, para depois criar um segundo mundo mais perfeito e o destruir, para criar um terceiro mundo, e por ai fora… quem me garante que Ele não vai destruir este mundo para criar ainda um outro? É que nós não somos exactamente perfeitos! Um Deus que assim procedesse não teria respeito algum pela criação, não lhe estaria a dar autonomia nenhuma, ora essa característica não é compatível com o Deus do cristianismo! O Deus que o povo Judeu foi descobrindo e que Jesus apresenta de forma tão coerente não é, de todo, compatível com esta imagem de perfeccionista implacável…
As dúvidas de fé que os autores criacionistas me estavam a criar, Vossa Excelência as tratou! Muito obrigado por me ajudar a olhar o mundo com mais verdade! Depois de contactar com a teoria das espécies, tenho ainda mais esperança no ser humano e na graça de Deus. Do ser humano espero que possa ainda evoluir socialmente, o que parece mais fácil que a gigante evolução biológica que nos precede. De Deus espero que continue a respeitar a nossa liberdade, sem ter medo de nos mostrar razões para viver cheios de esperança.
Mais uma vez obrigado pela sua contribuição para a ciência, mas também para a teologia, porque mostrando a criação nos ajuda a compreender o Criador, e para a antropologia, porque percebendo o mundo tenho mais dados para compreender o homem.

Darwin, 200 anos – quem tem medo de Darwin?

Richard Dawkins confessou num do seus múltiplos debates sobre o evolucionismo que foi a descoberta da teoria da evolução das espécies que o fez perder definitivamente a fé. O Jesuíta francês Teilhard de Chardin sentiu a sua fé fortalecida ao descobrir que toda a realidade do universo está em evolução. Ainda hoje esta dupla experiência se repete. Muitas pessoas, talvez na sua maioria estudantes universitários, ao descobrirem o processo evolutivo que conduziu ao aparecimento da Humanidade concluem que não necessitamos de Deus para fundamentar esta teoria, e que, por conseguinte, Deus não existe. Ao mesmo tempo, porém, eminentes biólogos como o Jesuíta português P. Luis Archer, compreendem que não é à Bíblia que devemos ir procurar a explicação científica da origem da vida mas sim à ciência. E não sentem dificuldade em harmonizar a sua fé com a sua prática científica. O mito da incompatibilidade entre ciência e religião persiste ainda hoje, tendo contra si todas as evidências.

Os criacionistas cometem o erro fundamental de interpretarem literalmente os três primeiros capítulos do Livro do Génesis, ignorando todo progresso que desde o século XIX tem sido feito no campo da hermenêutica bíblica. Pretendendo defender o cristianismo estão a contribuir para o seu descrédito porque o apresentam em conflito com a ciência.

A posição que actualmente gera mais controvérsia é a do ‘desígnio inteligente’. Os seus defensores sustentam que há no universo em geral, e em certas estruturas biológicas em particular, alguma complexidade que só é explicável pela existência de um ser criador. O ‘desígnio inteligente’ é apresentado como tendo carácter científico, e os seus defensores exigem, por conseguinte, que ela seja ensinada nas escolas em simultâneo com a teoria da evolução, o que tem sido recusado, com razão, em particular nos Estados Unidos. O desígnio inteligente de Deus no universo e na vida só é defensável a partir da fé, e não é demonstrável nem filosófica nem cientificamente.

A teologia cristã, sobretudo a partir de Teilhard de Chardin, tem produzido obras sobre a teologia da natureza e da criação, procurando elaborar um discurso sobre Deus no interior de um paradigma evolutivo. Comum a estes autores é a afirmação de que a evolução é o método pelo qual Deus criou o universo e a vida e, por conseguinte, a criação é vista não como uma acção instantânea de Deus, mas como um processo que continua.
Neste sentido, nem o universo nem a vida são puro fruto do acaso, mas esta perspectiva é religiosa e não científica. Por conseguinte, é possível aceitar a teoria da evolução e, simultaneamente, a existência de um Deus criador, tese defendida por autores como Michael Ruse, um agnóstico (cf. Can a Darwinian be a Christian?, 2001).

A teoria da evolução levanta ao cristianismo alguns desafios. Ao pôr em causa a interpretação literal do Livro do Génesis, conduz a uma nova compreensão do significado da descendência de toda a humanidade a partir de Adão e Eva, do paraíso terrestre, da criação dos primeiros seres humanos em estado de graça e de imortalidade, do pecado original, da causa do sofrimento e da morte, da aparição dos primeiros seres humanos no processo evolutivo, etc.

Contudo, o evolucionismo, como qualquer outra teoria científica, não constitui uma ameaça para as crenças religiosas devidamente fundamentadas, antes pelo contrário. Ao questionar fundadamente aspectos tradicionais das religiões, tanto a ciência em geral, como o evolucionismo em particular, contribuem para o esclarecimento do que é fundamental nelas e do que nelas é acessório ou errado.

Alfredo Dinis,sj

(texto que publiquei em parte no Semanário Agência Ecclesia, 03.02.09, p. 10)

11 de fevereiro de 2009

Debates ou votos?

A reacção de alguns políticos à recente posição da Igreja Católica acerca do casamento entre pessoas do mesmo sexo é bem reveladora daquilo que preocupa realmente esses políticos: votos. O porta-voz da Conferência Episcopal situou-se claramente fora das querelas partidárias e das contagens de votos para se situar naquilo que é essencial, os valores. A Igreja Católica, como qualquer outra instituição representativa do pensar de muitos cidadãos, tem todo o direito de se pronunciar sobre os assuntos que bem entender, e tem o direito de se pronunciar de forma crítica, contribuindo assim para um verdadeiro debate na sociedade portuguesa. A mesma Igreja é frequentemente acusada de querer impor as suas posições a toda a sociedade de forma autoritária. Os políticos gostam de se identificar com a democracia, mas a sua reacção de irritação, quando não de intolerância, sempre que as suas posições são contrariadas revelam que não são assim tão democratas como pensam ou como querem aparecer.

A reacção de alguns políticos à recente posição da Conferência Episcopal sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mostra que eles prefeririam que o debate fosse conduzido apenas entre os que estão na sua linha de pensamento. De outro modo, não se compreende porque reagem tão impacientemente sempre que alguém aponta outros caminhos. Os políticos partidários tendem a ver o mundo pelos óculos dos votos e do poder, e por isso interpretaram a posição da Conferencia Episcopal como sendo um apelo ao voto contra o partido no Governo, quando não houve nem haverá qualquer apelo da Igreja Católica ao voto num partido mais que noutro. Por isso mesmo, deixo a pergunta dirigida aos políticos, sobretudo aos políticos profissionais: querem debates ou querem votos?

Alfredo Dinis

7 de fevereiro de 2009

Sobre a diferença entre ‘dar o corpo ao manifesto’ e ‘dar corpo ao manifesto’

Creio que na Liturgia da Palavra deste domingo somos chamados, de uma forma muito simples e directa, a rever a nossa visão e forma de estar em diversos pontos da vida. É certo que todos os domingos nos trazem ao de cima esta necessidade de mudança, contudo desta vez o evangelho pede-nos que repensemos até a nossa visão sobre as sogras.


Uma Sogra Surpreendente | O evangelho deste Domingo fala-nos da sogra de S. Pedro. Diz o texto que ela “estava de cama com febre” e que Jesus, aproximando-se dela, levantou-a pela mão e a febre deixou-a. Podemos pensar facilmente: ‘Isto é que é um Filho de Deus à maneira, olha mais um milagre. Este Jesus é sempr’ andar!’ O facto é que o evangelho segue e diz o seguinte: “A febre deixou-a e ela começou a servi-los.” Aqui reside a primeira diferença entre ‘dar o corpo ao manifesto’ e ‘dar corpo ao manifesto’. Quem dá o corpo ao manifesto oferece o que quer e lhe apetece, porque quer e lhe apetece. É o maior! Quem dá corpo ao manifesto, dá do que recebeu, por outras palavras restitui livremente aquilo que recebeu no que lhe foi manifesto por Deus. Faz-se o menor... Diante desta manifestação da ternura de Deus, exteriorizada na cura da sogra de Pedro, “ela começou a servi-los”. Foi transparência externa do que lhe foi manifesto. E nós? Ao recebermos algo que confiamos ser de Deus, se depois não servimos, das duas uma: ou não era de Deus, ou sou eu que, por negligência, não ponho os meios para viver o que me foi concedido. E, sabendo que só os medíocres é que estão sempre na sua máxima forma, o que é que eu posso e devo fazer para servir mais e melhor, ‘dar corpo ao manifesto’?


Vida Espiritual | Ultimamente tenho-me deparado com imensos artigos sobre meditação transcendental. Apelam a uma vida espiritual que equilibre a pessoa, a fim de vivermos em todos os níveis e patamares da existência. Ora, antes de Jesus curar a sogra de Pedro e antes de partir para outras terras a fim de anunciar a Boa Nova do Reino, Jesus reza. Antes de partir para “outros lugares… a fim de pregar”, Jesus sai muito cedo, a um sítio isolado, para rezar. Isto serve-nos de prova como a profundidade espiritual não se trata de uma concepção teórica e esfumada, mas uma relação de seguimento, em amizade com um Deus que, na intimidade, nos manda ao concreto. Lembra-nos igualmente que a vida de oração e de serviço, não são propriamente momentos de ‘spa’ espiritual. São antes o lugar onde o serviço está para a oração como o vidro da lâmpada está para a luz (quando está ligada, claro). Pela oração, Jesus decidiu ir anunciar a tal Boa Nova que para muitos foi, e que talvez deveria ser mais para nós, fonte de inconveniência. Por esta relação de Jesus com o Pai podemos entender que a profundidade espiritual não é um lugar abstracto onde ‘eu cá me arranjo’, nem pode ser comparado à impassibilidade de um ‘fundo do mar’ qualquer. Deve sim ser comparado ao centro da terra, porque é o espaço que dista o mesmo de todos os lugares. A vida espiritual não será então algo que se tem quando se pode, mas um lugar onde se está e a partir do qual se operam e reconhecem milagres, se unem em Deus as vontades, se repousam as esperanças de algo melhor na promessa de Deus. Promessa de todos, feita a cada um, que nos atrai a um caminho incerto mas objectivo, a saber: ‘dar corpo ao manifesto’.




5 de fevereiro de 2009

São Paulo Miki e companheiros mártires

Texto de Francisco Machado, sj - jesuíta português em formação na China

Do pouco que conheço da vida de São Paulo Miki partilho dois aspectos que me chamam a atenção, especialmente agora que também me encontro em terras de missão onde os cristãos são uma minoria.
Impressiona-me, em primeiro lugar, o zelo com que estes cristãos vivem a fé que receberam de Deus através dos missionários. Às vezes penso que a nossa cultura Ocidental, na qual o Cristianismo está fortemente enraizado (ainda que hoje não pareça), se tornou um obstáculo a uma vivência profunda e concreta da fé. Todos nós, sejamos mais ou menos crentes, mais ou menos praticantes, contactámos desde sempre com a Igreja, com a figura de Jesus, com alguma noção de Deus, com figuras de santos e santas, com tradições, com os sacramentos, … Em princípio, julgo que isto deveria ser um estímulo à fé, ao desejo de conhecer e aprofundar a importância que a religião teve para grande parte dos nossos antepassados, ao interesse pela figura de Cristo a que chamamos Salvador. Mas, talvez por falta de zelo, coerência e autenticidade de nós crentes, e por uma certa inércia e cómodo desinteresse dos não crentes, o Cristianismo vai perdendo espaço na vida de cada vez mais pessoas.
Paulo Miki, pelo contrário, vivia num mundo em que Deus, Jesus, ou a Igreja não significavam grande coisa. Nada nas suas raízes culturais os faria em princípio aderir à fé cristã mas, talvez nas suas raízes mais profundas (aquelas comuns a todo o ser humano), souberam encontrar um desejo de Sentido e de Encontro mais forte que todas as culturas e tradições. Mais do que isso, não só receberam o conhecimento e o dom da fé, como souberam agarrá-lo com as suas vidas. Por isso deram muito fruto.
Outro aspecto que me chamou a atenção é o modo como este(s) santo(s) souberam aliar todos os esforços humanos de que eram capazes, à eficácia e graça divina que não controlamos mas da qual dependemos inteiramente. Para não me alongar muito, lembro apenas o detalhe da vida destes mártires que, ao serem conduzidos para as cruzes onde iriam morrer, não deixaram de recorrer ao seu Senhor rezando um Te Deum pelos seus perseguidores. Se passaram a vida a servir os outros, com as obras de caridade mais variadas, souberam sempre recorrer a Deus que é a única e verdadeira fonte de eficácia e de salvação em tudo o que fazemos de bem. Não lhes bastou realizar o gesto mais concreto de amor que pode haver – dar a própria vida – eles quiseram pedir a Deus por todos os seus irmãos japoneses.
Todos nós, seja no “Ocidente Cristão”, seja nos lugares mais remotos de missão, podemos aprender muito com estes santos – Paulo Miki e companheiros. Sejamos mais ou menos crentes, todos temos um lado ainda não convertido que precisa aprender a valorizar e aprofundar mais a fé, saber olhá-la como o maior tesouro e não como algo banal e simplesmente adquirido. Por outro lado todos, mais ou menos crentes, precisamos de aprender a ser mais coerentes com aquilo em que acreditamos, com os valores profundos que realmente dão sentido à vida e fazem do mundo um lugar melhor.
Nós que somos cristão vivemos hoje num mundo, cuja cultura já não reconhece a fé como algo essencial à felicidade. Tal como Paulo Miki, a nossa vida deve falar mais alto do que as nossas palavras (ele que era um grande pregador) e o amor que nos esforçamos por pôr em cada gesto deve vir acompanhado de uma confiança inabalável na acção de Deus que acontece sempre que amamos verdadeiramente.
Acabei por alongar-me, e termino partilhando as palavras de um padre da comunidade onde vivo. Trata-se de um jovem com os seus oitenta e muitos anos, que trabalha pala fé no Oriente há mais de 50 anos. “Sabes, Francisco, a coisa mais importante que podemos fazer por estas pessoas é rezar por elas no nosso coração, pedir a Deus que lhes chegue ao coração. Temos que ser uma presença visível de Deus num mundo em que Ele é cada vez mais invisível.” Passou a vida a trabalhar e a servir esta gente, e ao mesmo tempo está convencido que nada transforma tanto os corações como uma prece de intercessão ou uma missa bem celebrada.

4 de fevereiro de 2009

S. João de Brito - A sua esperança estava cheia de imortalidade



As almas dos justos estão nas mãos de Deus

e nenhum tormento os atingirá.

Aos olhos dos insensatos parece­ram morrer,

a sua saída deste mundo foi tida como uma desgraça,

a sua morte, como uma derrota.

Mas eles estão em paz.

Se aos olhos dos homens foram castigados,

a sua esperança estava cheia de imortalidade.

Sab 3, 1-4


Ao golpe da espada, cai na terra o sangue, a vida toda em testemunho. Mártir como o Mestre, aos olhos da Índia está o sinal de contradição. A uns parece morrer na desgraça. Para outros está em paz, cheio de imortalidade.

Como outros antes e depois dele, sobressai em S. João de Brito a generosidade de quem está atento ao bem mais necessário, não necessariamente o mais evidente para si mesmo, mas o que sente ser-lhe dito por Aquele a Quem escuta atentamente.

Em Coimbra, já em formação na Companhia de Jesus, ouve as cartas de Francisco Xavier, as notícias dos missionários do Oriente, como apelo do que era mais necessário fazer por Cristo, a Quem escutava. Na Índia, dá um dos exemplos mais impressionantes de inculturação na história da Igreja, adaptando-se aos costumes e hábitos daquele povo. Aprende as suas línguas, veste-se e come como eles, penetra no interior da terra e da cultura, cativando o afecto de quantos o conhecem ao adoptar os hábitos austeros dos brâmanes gentios, capaz de se abrir ao sentir e pensar de uma outra cultura e nela anunciar Deus, não para a anular, mas para a realizar plenamente. Está atento e escuta as comunidades cristãs que vê nascer à sua frente, dando o seu sangue na fidelidade e dedicação com que percorre matos densos e atravessa rios a nado, para socorrer ao necessário, para acompanhar os que estão ao seu cuidado.

O que hoje é mais extraordinário porque nos causa maior estranheza, é o modo como desejava morrer em martírio. Não que procurasse deliberadamente a prisão e a morte, mas também sem delas fugir fosse por que boa razão fosse. O próprio diz: “ Agora espero padecer pelo meu Deus e meu Senhor a morte buscada duas vezes na Índia, na missão do Maravá, na verdade com grande trabalho, mas com prémio incomparável”. Anseia morrer como mártir, dar a vida pelo seu Senhor. Porquê, se vivo poderia fazer tanto que ainda havia por fazer? Porquê entregar-se assim louco nas mãos da morte? João sabia que a sua morte era inevitável, como a de tantos missionários antes dele, mas não era uma derrota, nem uma fatalidade.

Cheio de imortalidade, perdera o medo da morte. Esta era a consumação do sinal, o mesmo sinal de contradição que acompanhou a vida e culminou na morte do Eterno. Escutara a vida do Mestre até ao último momento, quando o sangue e a vida caem na terra.


João de Brito nasce a 1 de Março de 1647. Em 1662, com 15 anos, pede para entrar no Noviciado da Companhia de Jesus, em Coimbra, onde vai aprender o modo de proceder de um jesuíta. Durante o noviciado cresce em si o desejo de ir para a Índia, face aos apelos constantes dos missionários que de lá mandavam notícias, que tocavam grandemente o coração do jovem. Chegando a Goa, interessa-se por aprender as línguas faladas na Costa da Pescaria, onde vivera São Francisco Xavier. Procura conhecer e adaptar-se aos costumes e às ideias daqueles povos. No Madure, aprende a língua tamil. As dificuldades com que se depara são inúmeras. Vem a Portugal em 1687, enviado pelos seus companheiros do Maduré, depois de 14 anos de intensa vida missionária na Índia, com frutos abundantes em baptismos e conversões, mas ao lado de muitos dissabores. De novo na missão, Os brâmanes desencadeiam, em várias povoações, violentas perseguições contra os cristãos e, principalmente, contra o missionário, tendo conseguido obter licença do rei para os prenderem e maltratarem. O Padre João de Brito não se cansa de encorajar e animar os fiéis. Mas ele próprio é sujeito a injúrias e castigos corporais, é torturado, sofre a fome, a sede e o cansaço, a ponto de os próprios sacerdotes hindus dessas povoações se compadecerem dele. Em 1693, acontece o que se previa pelo facto de ele continuar a fazer cristãos e a proibir alguns costumes hindus aos que se baptizavam. Preso nos primeiros dias do ano, os insultos, a fome e a sede são as constantes da sua vida, nas comunidades e no cárcere, onde confessa a sua fé cristã. Todos os companheiros jesuítas e os cristãos imploram a Deus para que não lhe falte a fortaleza necessária nos momentos tão difíceis que está a viver. O rei entrega-o nas mãos dos algozes que o levaram a um lugar não longe da fortaleza, em Oriyur. O missionário pede algum tempo para rezar. Em seguida, abraça os algozes, faz o sinal da cruz, e de mãos postas inclina a cabeça esperando o golpe mortal.

2 de fevereiro de 2009

O problema fundamental do ateísmo. A propósito do primeiro aniversário do Portal Ateu.

O ateísmo militante, como é o do Portal Ateu, tem um problema fundamental. Se a sua crítica da religião for irrelevante, como é a constante crítica baseada em factos anedóticos, o seu efeito na religião é positivo, uma vez que critica o que de facto é criticável, também do ponto de vista religioso. Nesta perspectiva, o ateísmo militante colabora com a religião! Falo aqui em concreto do cristianismo. Mas também quando criticam os bombistas suicidas muçulmanos ou o apedrejamento de mulheres em territórios islâmicos, considero que estão a contribuir positivamente para um islamismo mais autêntico, porque mais humano. Há muçulmanos que também fazem a mesma crítica.

Se, pelo contrário, a crítica da religião feita pelo ateísmo militante for objectiva e inteligente, e se dirigir a aspectos realmente fundamentais, uma tal crítica só pode ser benéfica para a religião, uma vez que desafia os crentes a reavaliar criticamente esses aspectos. Também nesta perspectiva, o ateísmo é benéfico para a religião. Porque a fé não exclui a crítica, ao contrário do que se pensa normalmente.

Tenho por vezes a sensação de que o ateísmo militante, incluindo o dos grandes ateus tão venerados no Portal Ateu, como Dawkins, Harris, etc., baseia a sua crítica em factos anedóticos e numa imagem de Deus e da fé que são realmente inacreditáveis. Raramente me reconheço nessa crítica.

Apesar de tudo, é sempre agradável participar num bom debate. A sugestão que deixo aqui neste aniversário do Portal Ateu: vamos manter o nível dos debates com boa argumentação e sem agressividade?

Foi com muito gosto que já tive a oportunidade de me encontrar pessoalmente quer com o famoso Bernardo, quer com as duas colunas do Portal Ateu, o Helder e o Ricardo. São pessoas simpáticas. O primeiro é crente assumido, e os dois últimos até parecem crentes! Outros dizem que eu, que sou crente, também pareço ateu! Se Deus existe há-de sorrir…