31 de março de 2009

Bofes e arabófobos


"Qualquer embirração que não nos afecte tem graça, mas as únicas que fazem rir são as injustas. A rainha de todas é o pó que muitos muçulmanos têm à Dinamarca e a tudo o que é dinamarquês.
Ontem o PÚBLICO noticiava que há países muçulmanos que pediram à Turquia para vetar o nome de Anders Fogh Rasmussen para secretário-geral da NATO. Por ser dinamarquês e por não ter pedido desculpa por uns cartoons que não desenhou nem publicou - e que saíram num jornal que se farta de publicar cartoons a gozar com o próprio Rasmussen e com toda a gente que calha.
Os (ditadores religiosos dos) países islâmicos mais frenéticos podiam embirrar, com razão, com quase todos os outros países da Europa e do mundo livre em geral. Aí encontrariam com facilidade o preconceito anti-islâmico e a arabofobia contra o qual estão sempre a protestar.
Mas a Dinamarca? Os dinamarqueses? Logo o país simultaneamente mais aberto, avançado e simpático da Europa? É uma Itália sem preconceitos; uma Inglaterra sem complexos; uma Escandinávia sem gelos ou distâncias. É até um Portugal mais feliz, frio, prático, inteligente e com mais sentido de humor. Ou, pensando melhor, Portugal nenhum.
Ó países muçulmanos mais de atar o burro e agitar o punho: façam lá um favor a vocês próprios e escolham outro país europeu. Qualquer um é melhor, para efeitos de fazer chegar a mostarda ao nariz, do que a Dinamarca."

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Miguel Esteves Cardoso, In: Jornal o Público, 30 de Março de 2009, p.31.

30 de março de 2009

XTO. hoje


VER JESUS | no evangelho deste domingo “alguns gregos que tinham vindo a Jerusalém para adorar nos dias da festa, foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus» 1”. A resposta de Jesus a este pedido, parece nada ter a ver com a pergunta. Parece até que, diante da pergunta feita, a resposta, embora cheia de uma profunda visão de Jesus sobre si mesmo, desilude. Os gregos vão para ver Jesus fora da sua terra. Jesus afirma ter vindo para fazer ver o Pai, na Sua/nossa terra. Creio que por vezes podemos ficar desiludidos nos momentos em que buscamos a presença e o suporte, que Deus é, pela mesma razão. Vamos buscá-lo fora da nossa terra. No abstracto. A oração pode torna-se num momento para não pensar muito nas coisas da vida. Olhamos tanto para o alto que esquecemos que Ele veio para ficar. Por isso não ouvimos a fonte, interna e comum a todos, que borbulha Voz do coração. Separamos o cá do lá, o céu da terra, o imanente do transcendente, a vida da Vida… E diante da pergunta do salmista “Onde está o teu Deus? 2” que havemos de responder?



GRÃO NA TERRA
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“Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos 3”. Há uma prática de cultivo em África muito bonita. Dadas as chuvas fortíssimas, as sementes têm que ser plantadas muito fundo. Demoram imenso tempo a nascer mas, se morrerem na terra, germinam com tal pujança que não há chuva que detenha o seu crescimento. Confio que Deus seja esta semente tão funda que só se reconhece, a sua presença em nós, pelos frutos de amor e dedicação ao próximo. Deus não é então uma entidade suprema e desligada da existência. É O que se atira de cabeça para bem dentro da nossa terra. É O que comunga das nossas chatisses e alegrias, das nossas preocupações e afazeres que, parecendo banais para quem n’Ele crê, jamais serão. Porquê? Porque se acreditar é dar crédito a alguém, acreditar em Deus é ser aquele que dá crédito à existência de Deus com a sua vida. Como? ‘Elevando e contestando os lugares do humano 4’ com gestos de vida que gritam palavras, tão fundas quanto elevadoras de outros, tais como: “Amai os vossos inimigos” Mt 5, 44; “Os teus pecados estão perdoados” Lc 7, 48; “Vai em paz” Lc 8, 48; “Quero”que sejas curado…



TRANSPARÊNCIA
DA CRUZ, HOJE | mas que quererá dizer tudo isto hoje? Num mundo em que os problemas são tão reais e tocam-nos tanto a pele, as expressões do religioso podem sempre parecer uma treta cor-de-rosa que não toca a vida de ninguém. Uma linguagem para tipos ultrapassados e não para pessoas de hoje, bombardeadas nos shoopings, que tomam comprimidos para aguentar o stress, que tem sempre as instituições governamentais à ‘coca’ sem pararem de melgar um só segundo com mais papeladas e canseiras… Será por isto a linguagem do amor cristão uma velharia, necessária mas para outros tempos? “A experiência que o cristianismo procura articular e comunicar é esta: o Deus, que circunda toda a realidade, emergiu do mais pobre. Nasceu no meio dos animais, … crucificado, esmolou-se para conseguir o amor de cada um e para eliminar as distâncias entre os seres humanos… desceu até aquela dimensão na qual estamos absolutamente sozinhos, o momento pessoalíssimo da morte, … para nos dizer: «Mesmo que vás até ao inferno, eu estou contigo. Não vais sozinho, Eu vou junto!» Por isso o importante para o cristianismo não é a transcendência nem a imanência. É a transparência, que é a presença da transcendência dentro da imanência. Não é a epifania, o Deus que vem das alturas e se anuncia. É a diafania, o Deus que, de dentro, emerge para fora, de dentro da realidade, do universo, do outro. 5” Pelo que, o cristianismo, que culmina no gesto sacrificial e ressuscitador de Jesus, só permanecerá actual se entrarmos nesta lógica de transparência de quem, tal como o Filho de Deus, deixa a sua própria cruz para trás das costas, a fim de abrir os braços ao seu próximo. Como fazê-lo? Entrar no quarto. Pôr-me diante deste crucificado ‘transparente’ e perguntar-me: “o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo, o que devo fazer por Cristo. 6” Comungando-O para que Jesus lidere os nossos corações, cabeças e braços para sermos em tudo como Ele, segundo os contornos que o Seu estilo ganha nas proporções do nosso carácter.

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1 Jo 12, 20
2 Salmo 42
3 cf. Confissões - Sto. Agostinho
4 FRAZÂO, José - “O memorial do Papa aos Bispos portugueses” in Brotéria. Vol. 166.
5 cf. Tempo de Transcendência - Leonardo Boff
6 cf. Exercícios Espirituais pt.53 – Sto. Inácio de Loyola

27 de março de 2009

O homem oligárquico em Platão


Começo a descrição do homem oligárquico em Platão com uma frase de Philonenko: “Uma coisa são as fraquezas do homem timocrático, outra a falsidade que vai emergir no seio da existência oligárquica.”1
Platão começa por imaginar uma situação. Um homem timocrático, um grande general é mal sucedido na guerra e quando regressa a casa é exilado ou privado dos seus direitos e bens2 . Com isto o seu filho ficará assustado e alarmado. Uma vez que o seu pai foi reduzido à pobreza e à desgraça, ele sentirá a obrigação de compensar os títulos perdidos. Para obter esse resultado vai trabalhar empenhadamante, por isso Platão vai concluir que ele já não admirará as qualidades da honra e da coragem que o pai admirava, e que antes irá incidir as suas forças na angariação de uma grande riqueza. Como resultado desta, projectará no dinheiro a valorização da sua vida. Geralmente levará uma vida aplicada e ascética, mas essa vida será o meio pelo qual procurará defender a sua riqueza, que como diz Platão: “(…)ganha boa fama por parecer justo, devido a uma espécie de virtuoso autodomínio, reprime outros desejos maus que tem, não por os convencer que não é o melhor segui-los, nem por os suavizar com argumentos, mas devido à necessidade e ao medo, porque treme pelo resto da sua fortuna?” 3
Logo não irá ceder a todos os seus desejos e impulsos, pois se o fizesse gastaria a sua riqueza e não conseguiria expandi-la, indo por isso comportar-se controladamente. Então o homem oligárquico terá sobre si um certo grau de controlo, contudo este controlo será apenas resultado do seu desejo pela riqueza e pela posse e não a convicção moral que o impede de ceder aos maus desejos. Como diz Pappas: “É que, ao contrário da razão, que inspecciona todas as motivações para depois seleccionar qual delas há-de autorizar, a avareza governa simplesmente, insistindo nos seus próprios fins. A avareza não sabe como autodominar-se(…)”4. Daqui se percebe bem a falsidade que emerge neste homem oligárquico. O que o controla não é a razão nem a sua parte irascível, mas apenas o desejo que possui de riqueza com o qual se confronta todos os dias. Existe algo na nossa vida que nos controla para além da razão, conhecer os nossos afectos desordenados, conhecer as verdadeiras motivações é chave essencial para uma vida equilibrada, é uma das interpretações que tiro do homem Oligárquico em Platão.

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1. PHILONENKO, Alexis – Lições Platónicas. Lisboa : Instituto Piaget, 1999. p. 297
2.
Cfr. PLATÃO - A República. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 1975, p. 379 - 380 (553 b).
3.
Ib. , p. 381 - 382 (554 c - d).
4.
PAPPAS, Nickolas - A República de Platão. Lisboa : Edições 70, 1995, p. 194.

22 de março de 2009

Porque não ser livre?

O grande problema da humanidade é a falta de lucidez que apresenta perante a sua existência. A assertividade da afirmação anterior daria azo a inúmeras discussões e dissensões. Discordar ou concordar são dois caminhos legítimos perante uma afirmação, atitude ou ideia. A decisão essa permanece invariavelmente vinculada à liberdade individual, talvez mais condicionada que o que inicialmente pensamos. Quando a nossa intransigência ultrapassa o limite do razoável e se apega a uma teimosia extrema, poderemos falar de liberdade? Ser livre não será precisamente esta capacidade de nos deixarmos desapegar daquilo que pensamos e sermos flexíveis quanto baste para revermos a nossa posição?
Os textos que a Igreja propõe para a meditação dos cristãos neste Domingo questionam profundamente a concepção de cada um de nós perante a sua existência. Aos homens e mulheres deste mundo é oferecida a hipótese de recusarem a proposta de Deus, é lançada a possibilidade de acharem que a humanidade não é nada daquilo que é sugerido. Escolher o caminho da auto-suficiência ou do egoísmo é viável, todavia representa uma fuga desesperada àquilo que é efectivamente humano. 'Como defender esta posição?', eis a questão. Talvez seja indefensável partindo dos meios argumentativos comuns. Andamos há séculos a tentar definir o que é ser humano e ainda não chegamos a um consenso. Algum dia chegaremos? Talvez o importante não seja a unanimidade...
O ser humano que tem presente diante de si um horizonte de fé, no qual Deus se apresenta como Alguém que ama e oferece a serenidade e até mesmo a alegria, vive no encontro constante com os seus anseios mais profundos. Deus não veio para condenar o mundo, ao contrário da argumentação de muitos anti-crentes, mas veio para o salvar. Como? Precisamente respondendo ao ser humano, não através de uma argumentação tao precisa e clara que convença toda a gente, mas abordando a profundidade dos desejos mais universais de cada um de nós. Quem de nós não quer ser feliz? Quem deseja viver em constante desolação e insatisfação?
O grande problema é o caminho para atingir a concretização dos nossos anseios. A negação do egoísmo, através de uma autêntica abertura aos outros, é um desafio deveras exigente. O amor, no sentido cristão, é esta tendência para abdicar dos apegos que nos limitam no dia-a-dia, daquelas coisas das quais não conseguimos abrir mão e que, se eventualmente, falham nos deixam particularmente irritados e angustiados. Experimentar a libertação que o amor humano nos traz é perceber um pouco deste dinamismo de anti-egoísmo. A alegria profunda de nos despreocuparmos de nós mesmos, das nossas necessidades e anseios, a possibilidade de até mesmo esquecer aquilo que habitualmente nos move em favor de um outro, que se apresenta diante de nós, é uma demonstração empírica do amor de Deus pela humanidade. Deus amou tanto o mundo que enviou o seu próprio filho. Geralmente é o que acontece connnosco quando amamos efectivamente um outro. Não conseguimos estar sem dar o que temos de mais precioso, sofremos com o seu sofrimento, deixamo-nos atingir pela sua indiferença, não descansamos enquanto não vemos no seu rosto a alegria. É precisamente isto que Deus quer fazer connosco!
A vida de Jesus Cristo revivida e retomada nos nossos dias é o exemplo, o estímulo e a motivação que Deus nos oferece para sermos outros, para nascermos de novo, para resolvermos o nosso desejo de felicidade. O amor de Deus é tão grande que Ele não descansou enquanto não se fez próximo. Deixou de estar lá em cima, preso nas nuvens e distante nas alturas, para se mostrar ao nosso lado. Quando se ama há um desejo inefável de proximidade. A humanidade de Cristo é perfeita porque é negação do egoísmo, é vida que põe de lado a teimosia e aceita a liberdade, é existência não vivida para si mas convencida da relevância dos outros. Ser humano é, por isso, estar voltado para fora de mim, estando constantemente num processo de despojamento e liberdade. Sou mais livre quanto mais preparado estiver para todas as possibilidades: para a morte ou para a vida, para o risco ou para o cómodo, para o imprevisto ou para o que já estava à espera, para o sol ou para a chuva, para a certeza ou para a dúvida. Quando me deixo apegar pelos meus esquemas e planos prévios, quando não sei aceitar outra situação ou outra pessoa senão aquelas que tinha imaginado, quando não sei aceitar uma ideia ou ponto de vista diferente do meu e fico perfeitamente irritado devido a isso, aí poderei falar de liberdade?
A liberdade para a morte talvez seja a mais difícil de aceitar e, por isso, a cruz de Cristo continua erguida ao alto como sinal de algo muito incómodo. O amor exige uma morte constante a nós mesmos e quando essa morte atinge o extremo, o amor foi totalmente concretizado. Olhemos para a nossa vida, para a nossa própria experiência de amor e da alegria que nos trouxe, para perceber de vez a realidade da proposta cristã. Como diz o povo, o pior cego é aquele que não quer ver!


20 de março de 2009

Bento XVI em África

"Angola sabe que chegou para a África o tempo da esperança. Cada comportamento humano recto é esperança em acção. As nossas acções nunca são indiferentes aos olhos de Deus; e também não o são para o progresso da história. Meus amigos, armados de um coração íntegro, magnânimo e compassivo, podereis transformar este continente, libertando o vosso povo do flagelo da avidez, da violência e da desordem e guiando-o pela senda daqueles princípios que são indispensáveis em qualquer democracia civil moderna: o respeito e promoção dos direitos humanos, um governo transparente, uma magistratura independente, uma comunicação social livre, uma administração pública honesta, uma rede de escolas e de hospitais que funcionem de modo adequado, e a firme determinação, radicada na conversão dos corações, de acabar de uma vez por todas com a corrupção."

(Encontro com as Autoridades Políticas e Civis, e com o Corpo Diplomático no Palácio Presiencial em Luanda, 20 de março de 2009, www.vatican.va)


19 de março de 2009

Obrigado P. Amadeu!

Morreu esta Quarta-feira, aos 68 anos de idade, o Padre Amadeu Pinto, membro da Companhia de Jesus, com 68 anos de idade, no Centro Inaciano São João de Brito (Lisboa).

Natural de Resende, diocese de Lamego, o Pe. Amadeu Pinto fez os seus estudos superiores nas Faculdades de Filosofia de Braga e de Granada e nos Institutos de Teologia e Sociologia de Lovaina, tendo regressado a Portugal em 1974.

Aliando funções pastorais e académicas, o P. Amadeu foi, sucessivamente, professor e membro do Conselho Directivo da Escola Secundária de Santiago do Cacém, director, por duas vezes, do Instituto Nun’Álvares de St. Tirso e director do Colégio de São João de Brito, em Lisboa. Em 1999 foi eleito Provincial da Companhia de Jesus em Portugal, e, em 2001, presidente da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos.

O funeral teve lugar esta tarde, 19 de Março, com missa às 15 horas, na capela do Colégio de São João de Brito, seguindo para o cemitério do Lumiar.

(Agência Ecclesia)

Novo tsunami sobre declarações do Papa


Durante a recente viagem de avião para África, o Papa respondeu a várias perguntas dos jornalistas. A única coisa que correu mundo foi a ideia de que o Papa afirmou que o preservativo não resolve o problema da Sida. Logo se levantaram vozes por toda a comunicação social a condenar as palavras do Papa: um verdadeiro tsunami. Não sei quantas pessoas se deram ao trabalho de ler a declaração do Papa. Ele não se referiu ao uso do preservativo de um ponto de vista ‘técnico’, nem sequer médico, mas sim de um ponto de vista ético e espiritual. Deste ponto de vista, o Papa refere-se à solução do problema da Sida não numa perspectiva avulsa mas sim como uma proposta enquadrada num projecto de vida, num esforço de transformação do estilo de vida das pessoas, de uma humanização da sexualidade e não de uma sua mera instrumentalização, como sucede cada vez mais. Neste sentido, confiar que, só por si, o preservativo vai erradicar a Sida da África ou de outro continente qualquer, é de facto um engano, uma vez que pode dar às pessoas uma falsa segurança, bem como a ideia de que não é necessário mudar o estilo de vida nem humanizar a sexualidade. O Jornal Público de hoje, quarta-feira, informava que em Washington entre 3 e 5 por cento da população está infectada com o vírus da Sida. Não creio que isso seja devido à proibição do uso do preservativo mas sim a um estilo de vida desresponsabilizante no que se refere às relações interpessoais em geral e à sexualidade em particular.

Carta aberta ao Director do jornal Público

O Jornal Público habituou-nos a editoriais de extremo rigor, objectividade e oportunidade, assinados por José Manuel Fernandes. Foi por isso que fiquei surpreendido com o editorial do dia 18, quarta-feira, acerca das declarações do Papa aos jornalistas na sua viagem para África. Afirma Nuno Pacheco que as declarações do Papa se centraram nos preservativos, e que o mesmo Papa ‘recomendou, como alternativa, a abstinência sexual’. Compreendo que o director de um jornal como o Público nem sempre tenham tempo para verificar devidamente o fundamento das suas afirmações e tenham que confiar nas agências de notícias. Mas neste caso Nuno Pacheco deveria tê-lo feito para se pronunciar com rigor. Em primeiro lugar, o Papa não se centrou na questão do preservativo. Esta questão foi abordada como resposta a uma de seis questões que lhe foram colocadas: com que sentimentos se dirigia a África, se iria fazer uma apelo à comunidade internacional para ajudar a África a superar a sua pobreza, se iria pedir à Igreja Católica em África um exame de consciência e uma purificação das suas estruturas, de que modo a Igreja Católica se coloca perante as seitas e as religiões tradicionais africanas, se iria referir-se na sua viagem ao problema da Sida e, finalmente, se pensava dirigir ao continente africano uma mensagem de esperança. Dizer que o Papa se centrou no problema da sida revela que o autor do editorial não leu as declarações de Bento XVI. Além disso, o Papa não se referiu à abstinência sexual como solução para a sida. Referiu-se, com muito ênfase, à necessidade de uma mudança no estilo de vida das pessoas que as leve a humanizar as relações interpessoais em geral e a sexualidade em particular. Esta é uma solução não técnica nem médica, não é uma solução avulsa mas sim uma proposta ética e espiritual de cura radical da sida. Não será questionável a condenação liminar desta proposta?

P. Alfredo Dinis, Director da Faculdade de Filosofia de Braga

Bento XVI sobre a Sida, na actual visita à África

“Afirmo que não se pode superar este problema da Sida apenas com frases publicitárias. Se não há ânimo, se os africanos não se entreajudam, não se pode resolver o flagelo com a distribuição de preservativos: pelo contrário, o risco é de aumentar o problema. A solução só se pode encontrar num duplo empenho: primeiro, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que inclua um novo modo de comportamento das pessoas umas em relação às outras; segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo para com as pessoas que sofrem, a disponibilidade, mesmo com sacrifício, com renúncias pessoais, a estar com os que sofrem. Reafirmo, pois, esta nossa dupla força de renovação interior do ser humano, de lhe dar uma força espiritual e humana que o leve a um comportamento justo para com o próprio corpo e o corpo dos outros; e reafirmo também esta capacidade de sofrer com os que sofrem, de permanecer presente nas situações de prova. Parece-me ser esta a resposta justa, e a Igreja dá essa resposta, oferecendo assim um contributo muito grande e importante. Agradeço a quantos assim procedem” (fonte: www.vatican.va)

16 de março de 2009

Maus ventos no Tibete

Foi há cinquenta anos que os Tibetanos realizaram uma revolta para se libertarem do jugo Chinês. Para os Chineses, aquela zona dos Himalaias(Tibete) é uma parte inalienável do seu pais.
No entretanto o governo tibetano continua no exílio na Índia, sob a liderança do Dalai Lama, que mantém firme a sua recusa a render-se à ocupação Chinesa.

Mas agora os ventos sopram contrários ao Tibete, a China continua a aumentar a sua influência internacional e agora muitos estados estão relutantes em oferecer apoio à causa Tibetana.
Mas a grande incerteza do Tibete, está na sucessão do Dalai Lama.
Este desconhecimento, esta sombra, sobre quem irá ser o sucessor do Dalai Lama está a alimentar medos sobre o futuro do Tibete, assim como da estabilidade politica chinesa.
O destino de aproximadamente 120 000 Tibetanos exilados na Índia mantém-se uma incerteza, ao mesmo tempo que a Índia começa a retirar o seu apoio aos mesmos, com o intuito de melhorar as suas relações com a China.

Como se devem recordar, no ano passado antes do começo dos jogos olímpicos, alguns grupos de tibetanos manifestaram-se contra a ocupação chinesa, atacando lojas chinesas e mantendo muitos confrontos com a polícia por todo o Tibete.
Por isso neste aniversário da revolta Tibetana, a China preveniu-se, e tomou algumas medidas para abafar os protestos tibetanos. Fechou a capital do Tibet, Lhasa, e guarneceu o local com milhares de tropas, fechou as fronteiras, e negou a entrada aos estrangeiros.

A China olha para o Tibete como uma sociedade feudal e supersticiosa que lhe pertence de todo o direito.
Argumenta internacionalmente a sua posse, com factores históricos e económicos, afirmando que o Tibete progrediu devido ao domínio Chinês, e que a província muito tem a ganhar fazendo parte da China. Contudo o ultimo relatório dos Direitos Humanos, do Departamento de Estado dos Estados-Unidos, afirma categoricamente que o nível de repressão chinesa aos budistas tibetanos aumentou dramaticamente, durante o último ano.1
No Relatório de 2008 do "CONGRESSIONAL-EXECUTIVE
COMMISSION ON CHINA"2 do Governo dos Estados-Unidos, vem mencionado que a China está à espera que morra o actual Dalai Lama, para apontar o seu sucessor, o mesmo relatório indica que muito provavelmente os tibetanos não irão aceitar este sucessor fantoche do regime Chinês, alertando para o perigo que lhe advém na página 200 : "(...)could result in heightened risks to local and regional security for decades to come."
Também numa entrevista que o Dalai Lama deu o ano passado que podem ver na integra aqui ele revela o receio que tem pelo futuro do Tibete após a sua morte.3

Mas a própria China percebe o problema que tem nas suas mãos, por um lado não quer dar mais autonomia ao Tibete, com receio que esta concessão venha a trazer no futuro outras concessões, por outro lado a China nega-se a restituir a independência do Tibete. E no entretanto vai mantendo uma grande parte da sua nação( a área do Tibete) debaixo de uma cortina militar. Será que os Chineses têm a Ilusão que o tempo será a melhor solução para anexarem os Tibetanos?
Ou será que irão acelerar o processo de migração da sua população Han para o Tibete, assim como os Russos o fizeram no Báltico durante o período Soviético?
Os últimos dados estatísticos do census de 2000, mostram que 6,1% da População do Tibete, são chineses Han, e que na capital Lhasa, já vão em 17,0%.4

Os governos de todo o mundo ainda apoiam o Dalai Lama, mas nenhum reconhece o seu governo no exílio. Talvez no futuro, os governos não apoiaram um seu sucessor e ai perde-se mais uma ancora da autonomia Tibetana.


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  1. Relatório dos Direitos Humanos, do Departamento de Estado dos Estados-Unidos.
    http://www.state.gov/g/drl/rls/hrrpt/2007/100518.htm
  2. Relatório de 2008 do "CONGRESSIONAL-EXECUTIVE
    COMMISSION ON CHINA", em .PDF
    http://frwebgate.access.gpo.gov/cgi-bin/getdoc.cgi?dbname=110_house_hearings&docid=f:45233.pdf
  3. Entrevista do Dalai Lama
    http://www.newsweek.com/id/124365
  4. Estatísticas dos grupos étnicos no Tibete, In: "Major ethnic groups in Greater Tibet by region, 2000 census.", http://en.wikipedia.org/wiki/Tibet

15 de março de 2009

Santificar o Sábado e o Templo

Corremos de um lado para o outro em busca do que ou de quem nos possa salvar, onde possamos alcançar a felicidade que justamente procuramos, porque a ela somos destinados desde o momento em que fomos sonhados e existimos. Pomos o nosso coração e a nossa confiança, a nossa esperança, ou em Deus e naqueles/naquilo que por Ele nos é dado, ou no que nos afasta d'Ele e nos torna menos humanos.

O apelo que Deus nos faz por Moisés e por Jesus, santificar o sábado e santificar o templo, é um apelo à nossa humanização. Na santificação de cada lugar e momento , acção e desejo, está também a nossa humanização. Como é próprio da relação, entre duas pessoas e entre cada um com Deus, nada acontece apenas de um lado, mas reflecte-se em ambos. Santificar é certamente louvar e bendizer Deus, mas é também realizar aquilo que procuramos ser cada vez mais - humanos. Santificar é viver o exercício do amor e o fruto é tanto o louvor como a humanização.

O apelo que Deus nos faz, tanto por Moisés como por Jesus, é o de abandonar todos os ídolos, todas as falsas esperanças onde falta a luz e a beleza de Deus, do amor, para sermos mais nós mesmos, filhos que recebem do Pai a vida e o amor. E por isso, porque vivem mais do amor, santificam o lugar e o momento, a acção e o desejo.

Santificar é tornar segundo Deus a circunstância e o coração, simultaneamente humanizando e divinizando a realidade. É no amor que as duas coisas se realizam e encontram.

14 de março de 2009

ACREDITAR (EM) DEUS: PORQUÊ?

Em 1980, durante os meus estudos de teologia, encontrei em Roma o norte-americano Robert Spitzer que me falou de como começou a acreditar em Deus. Num momento da sua juventude, compreendeu que era tempo de decidir se devia acreditar em Deus, ou não. Pegou numa série de livros sobre a existência de Deus, fechou-se no quarto durante vários dias e, quando saiu, tinha decidido acreditar em Deus. Hoje é um padre jesuíta.

Por outro lado, o britânico Richard Dawkins deixou de acreditar em Deus ao contactar com a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin.

Estas duas experiências mostram que acreditar em Deus, ou não, tem uma base RACIONAL, mas esta base não é suficiente. Não existe nenhuma prova científica ou filosófica da existência de Deus. Refiro-me a ‘prova’ no sentido em que se prova, sem margem para dúvidas, por exemplo, que a Terra tem a forma esférica.

A experiência religiosa de quem acredita em Deus tem TAMBÉM uma base RELACIONAL: é a relação que tenho com os outros cristãos e com Deus que me leva a DAR-LHES CRÉDITO, isto é a ACREDITAR NELES.

Aceito como CREDÍVEL o testemunho dos primeiros cristãos que chegou até hoje. Por isso, DOU-LHES CRÉDITO. ACREDITO-OS, e, por isso, ACREDITO NELES. Não tenho razões para não lhes dar crédito, para não os acreditar. Tenho todas as razões para lhes DAR CRÉDITO. A experiência dos primeiros cristãos está contida no Novo Testamento, que não é uma narração jornalística da vida de Jesus, mas uma profissão de fé nele. Jesus não deixou nenhum escrito, e ainda bem. Não precisamos de escritos abstractamente inspirados, ‘caídos do céu’, mas de escritos que nos falem de Deus a partir da experiência de vida dos primeiros cristãos.

A Igreja Católica merece-me CRÉDITO. Por isso mesmo, ACREDITO-A e, por isso, CAREDITO NELA. Na sua história há momentos de luz e momentos de sombra. A Igreja Católica reconhece os seus erros. Em 12 de Março de 2002 o Papa João Paulo II pediu publicamente desculpas pelos erros da Igreja Católica: Cruzadas, Inquisição, intolerância para com outras religiões e culturas, etc. Os não crentes – isto é os que NÃO DÃO CRÉDITO a esta Igreja – fixam-se apenas nos momentos de sombra. Mas a história da Igreja Católica está também iluminada, no passado como no presente, por momentos de luta pela verdade e pela justiça, pelos incontáveis actos dos que dão a vida pelos mais fracos, necessitados e oprimidos: nos campos de refugiados, nos cenários de guerra e de miséria, colaborando em projectos de desenvolvimento económico, social e cultural, etc. Esta Igreja MERECE-ME CRÉDITO. Por isso mesmo, ACREDITO-A e. também por isso, ACREDITO NELA.

Foi nesta Igreja que me falaram de Deus em criança. À medida que fui crescendo fui sentindo cada vez mais que este Deus era mais que o herói de uma história para crianças. Quando na adolescência comecei a sentir por ele um ‘deslumbramento apaixonado’ que ia mudando pouco a pouco o sentido da minha existência, tornou-se-me de todo evidente que lhe podia DAR CRÉDITO. Por isso mesmo, ACREDITEI-O e passei a CAREDITAR NELE.

A imagem que tenho dele não tem nada a ver com a que muitos não crentes criticam – e ainda bem que o fazem: um Deus cruel, sanguinário e hipócrita, um Deus polícia, sempre à procura de me apanhar em falta para me ameaçar com a condenação eterna. Quem daria crédito a um Deus como este?

O Deus a quem DOU CRÉDITO é a explicação última do universo e da vida, mas respeita a autonomia e a liberdade dos seres que criou. Não faz tudo o que pode porque toma a sério a nossa liberdade. Cria um universo em evolução e respeita a autonomia das suas leis e processos. Não sabe tudo. Não sabe senão o que se pode saber. Por isso não sabe como vou decidir viver a minha vida nos próximos tempos. Espera para ver, e respeita as decisões que eu tomar. A sua perfeição está mais no AMAR do que no saber.

É este o Deus a quem DOU CRÉDITO. É este o Deus em quem ACREDITO. Não sei explicar muito sobre o que a ele se refere. Mais do que saber explicar, procuro saber viver. Deus tem mais a ver com a sabedoria do que com o saber. ACREDITAR EM DEUS RELACIONALMENTE, em unidade com os outros cristãos, na Igreja Católica, dá-me paz e sentido para a vida. Por isso mesmo, DOU-LHE CRÉDITO. Por isso mesmo ACREDITO NELE.
Alfredo Dinis,sj (alfredodinis.facfil@gmail.com)

13 de março de 2009

"Nunca mais"

No dia 12 de Março de 2002 o Papa João Paulo II pediu publicamente desculpa pelos pecados históricos da Igreja Católica: Cruzadas, Inquisição, conversões forçadas, intolerância para com outras culturas e religiões, etc. A Igreja Católica é constituída por seres humanos que têm feito uma longa caminhada na compreensão de si mesmos e de Deus. Esta Igreja tem na sua história, passada e presente, muitos momentos de luta pela dignidade dos povos, pela justiça e pela verdade. Incontável é o número dos cristãos que deram e continuam a dar a sua vida pela reconciliação entre os povos, e pela igualdade e fraternidade entre todos. Esta realidade está à vista de todos. Por outro lado, a Igreja enobrece-se quando reconhece os seus erros, sobretudo quando esse reconhecimento vem do Papa.
Que outra instituição teve a coragem de fazer semelhante gesto?

7 de março de 2009


Uma Parede | As leituras deste Domingo podem surgir para nós com uma espécie de bloqueio estético, principalmente no que se refere à Primeira Leitura e ao Evangelho. Na primeira, Deus manda Abraão matar o seu próprio filho como sacrifício agradável a Si e, embora Ele impeça posteriormente Abraão de fazer tal coisa, a verdade é que nada parece haver de sensato numa história em que um Deus, que supostamente é amor, manda matar o filho único de um homem piedoso. Por sua vez no Evangelho nada parece ser real quando nos deparamos com aparições misteriosas de profetas, um Jesus que se torna mais branco que o Gandalf no ‘Senhor dos Anéis’ e vozes vindas de um outro mundo.



Uma Porta | Se virmos bem o que se passa entre Abraão e o seu filho Isaac, constatamos que é praticamente o mesmo que se passa entre Deus Pai e o Seu filho Jesus. Por fidelidade ao amor, Deus Pai oferece a cada um de nós, no Seu “Aqui Estou”, o dom total da vida do Seu filho Jesus. Logo o mais importante aqui talvez não seja a história em si, que muito tem de simbólico, mas o que por ela se revela e se realiza completamente em Jesus: a disponibilidade máxima de Deus para ti. Imagino que isto resulta como uma teoria cor-de-rosa para quem não espera nada de novo e profundamente reconfigurador da sua vida, ou seja, para quem não espera salvação. Contudo, para ti que continuas a ler este post, pergunto: Já alguma vez sentiste a necessidade de ser acolhido por Deus? Porquê? E porque razão nalgum momento não experimentaste o acolhimento que esperavas?



Um Caminho | No Evangelho aparecem Abraão e Moisés como testemunho histórico do desvelar da íntima presença de Deus, em cada homem e mulher, da qual Jesus é continuidade especial. Por isso te fiz a última pergunta do ponto anterior. Só indo à tua história poderás ver o Deus disponível a entregar-Se, mesmo que, como os discípulos de Emaús, ainda não o tenhas reconhecido. O caminho que os discípulos Pedro, Tiago e João fizeram é também o nosso! Subir à montanha para reconhecer. Descer da montanha para transparecer.

Só se fores livre para ler a tua vida e nela reconheceres Deus a dar incrível e totalmente o Seu amor nas coisas simples de todos os dias, poder-te-ás sentir, com o temor de quem é frágil, impelido a deixares-te liderar pelo Senhor que te transfigurará com o Seu amor e fará de ti um transmissor de Vida. Por outras palavras, fará de ti um apóstolo, ou seja: extensão da disponibilidade do Senhor Deus para todos os que passam por ti.



Agora, quão frágil és para que isto ocorra?

2 de março de 2009

DEBATE NA FACFIL

ACREDITAR EM DEUS. Porque sim? Porque não?

Vai realizar-se no próximo dia 14 de Março, às 15h, na Aula Magna da Faculdade de Filosofia um debate sobre as razões para acreditar em Deus e as razões para não acreditar. O debate insere-se no Projecto de Investigação ‘Epistemic Studies’ do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos da Faculdade de Filosofia, na linha de investigação sobre o diálogo fé-ciência. A iniciativa é co-organizada também pelo Portal Ateu, uma instituição que procura promover o ateísmo em Portugal. O debate insere-se numa tentativa de esclarecimento recíproco entre crentes e não crentes, com o objectivo de se superarem alguns mal-entendidos de parte a parte, e de assim se esclarecerem os termos do diálogo que deve existir. Pelo Portal Ateu intervêm dois dos seus membros fundadores, Ricardo Silvestre e Helder Sanches. Pela Faculdade de Filosofia intervém Alfredo Dinis. Bernardo Motta intervirá também como crente.

1 de março de 2009

É uma questão de tempo

Alinhar à esquerda Saber esperar revela uma sabedoria esplêndida e uma maneira de estar lúcida sobre a vida. Não raras são as vezes em que gabámos a paciência de outra pessoa quando, inadvertidamente, se revela esta capacidade de espera serena pelo que está para vir.

No Evangelho deste Domingo, o primeiro do tempo quaresmal, Jesus aparece-nos precisamente inserido neste dinamismo de expectativa pelo seu tempo, pela sua hora. Os quarenta dias de deserto são simbólicos e pretendem revelar esta necessidade tão premente de nos retirarmos do nosso ambiente habitual para centrarmos o nosso coração no essencial.
A Quaresma aparece no horizonte de um cristão como um tempo de paragem. Todavia esta paragem não se revela estática. Muitas vezes achamos que o silêncio ou o facto de estarmos parados ou sozinhos é um tempo desaproveitado, no qual não estamos a fazer nada de produtivo. Hoje sentimos uma necessidade abrupta de estar a fazer coisas. Não nos sentimos úteis ou capacitados se não estivermos activos. Esta actividade visível aparentemente esconde uma outra atitude, também ela essencial nas nossas vidas: a oração.
Todos precisámos de parar por vezes, isto num horizonte de fé ou sem ele. Aproveitar o nosso tempo é também usar da sabedoria de nos retirarmos do mundo, de nos distanciarmos das pessoas e situações quotidianas para melhor avaliar com lucidez os passos do nosso caminho, as nossas atitudes e decisões.
O Evangelho deste Domingo revela-nos um Jesus em diálogo profundo com Deus, que não deixa de ser tentado para se desviar do caminho que lhe era indicado. O Messias heróico que vemos surgir nas Escrituras era um homem de carne e osso, que vivia igualmente inserido numa teia complexa de relações e acontecimentos que o afectavam e marcavam. Na sua vida mostrava esta necessidade de se retirar para um lugar silencioso de forma a poder confrontar aquilo que vivia, dando tempo e espaço para Deus se revelar na sua vida. Não é, contudo, um tempo fácil por isso muitas vezes preferimos fugir deste confronto. Colocar-mo-nos de frente perante o nosso rumo, as nossas faltas de liberdade ou as decisões mal tomadas, faz-nos chocar com a nossa fragilidade e limite. O orgulho de nos sentirmos hiper-seguros de nós mesmos, sem dúvidas ou hesitações, dura pouco quando embatemos com a nossa própria realidade. O que Jesus nos pretende revelar é esta sabedoria de sermos autênticos, de nos colocarmos diante d'Aquele que nos criou e nos ama infinitamente, e sermos exactamente aquilo que somos. Para este processo ser uma realidade é necessário parar para nos situarmos. É isso o tempo de deserto!
A aliança que Deus revela para com a humanidade, retratada no episódio do dilúvio universal, aparece nítida na pessoa de Jesus. É preciso parar para arrancar, fazer um parênteses para melhor decidir. O tempo que agora se inicia oferece-nos uma proposta de reflexão profunda na nossa situação actual. Que situações, relações ou atitudes preciso de repensar de forma a ser mais livre e autêntico? Que caminhos novos devo trilhar para me recolocar verdadeiramente diante daquilo que sou? O que posso, em concreto, mudar?
É tudo uma questão de tempo. Para avançar é necessário parar, recuperar as forças, olhar de cima para o vale de forma a saber onde estou. Assim, quando estiver a preencher a minha agenda não posso deixar de reservar o tempo para mim, o tempo do deserto, o tempo para Deus, Aquele que me revela quem sou.

1 de Março de 2009 – Domingo I da Quaresma

LEITURA I: Gen 9, 8-15
SALMO RESPONSORIAL:
25 (24)
LEITURA II:
1 Pedro 3, 18-22
EVANGELHO: Mc 1, 12-15