28 de junho de 2009

Talitha qûm!


Não era o manto de Jesus que esta mulher queria tocar, como se de um objecto de um santo esperasse o efeito mágico de uma cura. Queria tocá-Lo a Ele. Aproximar-se para ser tocada por Ele.

A sua doença, um fluxo de sangue, símbolo de impureza, é mais que uma condição fisiológica. Na tradição hebraica, não há na pessoa separação entre físico e espiritual. Tudo faz parte de uma mesma realidade. Diríamos nós, o que o seu corpo sente, vive-o também o seu espírito. E dessa impureza que a toma por inteiro, espera a saúde, a salvação, já há 12 anos.

Nas mãos dos médicos antigos não encontrava alívio para a sua doença, para o seu estado de impureza. Há 12 anos esperava e sofria.

Passou naquele dia pela sua cidade uma grande multidão, vozes que enchiam as ruas e traziam aos seus ouvidos o nome do novo profeta, Jesus de Nazaré. A antiga aliança falhara na infidelidade de Israel, que espera e sofre. Está cansada nas mãos de uma medicina que pela sua infidelidade falhou em restituir a pureza ao género humano. Corre-lhe sangue, impura, e, como a filha de Jairo, sente a morte perto.
No entanto, um ruído de multidão, de novo povo em êxodo, traz-lhe o nome de Jesus aos ouvidos. Junta-se à multidão. Por entre corpos que se comprimem, tenta alcançá-Lo e tocá-Lo. Quer tocar o Médico Novo, ser tocada por Ele, purificar-se por um novo toque, uma nova aliança que Ele traz. «Se ao menos tocar nem que seja as suas vestes, ficarei curada». E é curada pela nova aliança que se dá naquele toque, um toque tão singular

«Quem tocou as minhas vestes?»

«Vês que a multidão te comprime de todos os lados, e ainda perguntas: 'Quem me tocou?’»

onde a fé (fides) toma o lugar da in-fidelidade. O Novo Templo (Jesus, Deus feito homem) opera pela fé a purificação que o Templo Antigo, lugar da antiga aliança, falhara em alcançar. «Filha, a tua fé salvou-te; vai em paz e sê curada do teu mal.»

Afinal, a menina, filha de Jairo, cujo destino surge aqui tão ligado a esta mulher, não morreu, apenas dorme. O povo não morreu. Dorme para ser agora acordado. Despertado pelo mesmo toque da fé que acontece também no coração de Jairo, na mão da menina de 12 anos.

«Não tenhas receio; crê somente.»

E tomando a mão de Israel, disse:
«Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!»


22 de junho de 2009

Reflexões sobre a oração

1. As religiões anteriores e contemporâneas do início do cristianismo tinham uma relação com os seus deuses baseada na possibilidade de obter deles vantagens e favores pessoais e sociais. Antes das batalhas ou de alguma acção que poderia ter resultados negativos, faziam sacrifícios a esses deuses para ‘comprarem’ os seus favores. Esta perspectiva entrou e ficou em parte no cristianismo até aos dias de hoje. Para algumas pessoas Deus é sobretudo uma espécie de proprietário de uma agência de seguros. Mas também os não crentes têm esta imagem do que é a oração para os crentes! Como é possível, perguntam-me por vezes os não crentes, que um autocarro de peregrinos que regressavam de Fátima tenha tido um acidente? Então a Virgem Maria não os protegeu? Para um bom número de pessoas, crentes e não crentes, o essencial da relação com Deus, a oração, resume-se às vantagens e favores pessoais que se podem obter de Deus se nos portarmos bem e lhe fizermos promessas de generosas ofertas ou de duros sacrifícios. E o sucesso das peregrinações aos santuários mede-se pelo número de curas milagrosas ali registadas. Há aqui algum paganismo que ficou no cristianismo de algumas pessoas.

2. O cristianismo veio fazer uma proposta radicalmente diferente das outras religiões. Ao manifestar-se em forma humana em Cristo, Deus propõe a cada ser humano uma relação interpessoal que tem muitas semelhanças com as nossas relações interpessoais no interior de uma família, por exemplo. Como são essas relações? São feitas de palavras, mas também de silêncios, de afectos, de elogios, de lamentações, de ajudas e de pedidos de ajuda. Mas nem todas as ajudas são desejáveis (as ‘ajudas’ das mães-galinha aos seus filhos podem ser desastrosas), nem todos os pedidos de ajuda devem ser atendidos, para bem dos que fazem tais pedidos. A oração é um termo religioso que designa a relação do crente com Deus e, neste sentido, ela é mais uma atitude permanente, uma maneira de estar na vida, do que esta ou aquela acção ritual, este ou aquele pedido. Só no contexto de uma atitude permanente de relação com Deus – como acontece entre pessoas que se amam – é que se podem avaliar os gestos e palavras concretas que fazemos e dizemos.

3. Mas o cristianismo coloca o crente num outro contexto, o da construção de um mundo de justiça, de amor e de paz, a que, em linguagem cristã, se chama o ‘Reino de Deus’. É em relação a este ‘reino’ que eu devo decidir o que vou pedir a Deus. Não peço apenas para meu proveito pessoal. Se peço saúde, é para que possa dar um melhor contributo para um mundo melhor. Não posso ‘servir-me de Deus’ apenas para os meus interesses pessoais. No cristianismo isto não faz qualquer sentido.


4. Os actuais estudos sobre os efeitos da oração que se baseiam numa maratona de orações para obter a cura de um certo número de doentes em hospitais e verificar empiricamente se a oração faz ou não efeito está completamente fora de todos os contextos que referi. Fico totalmente indiferente perante os estudos científicos sobre este assunto, quer concluam que houve efeitos empíricos benéficos da oração, quer concluam que não houve. Isto nada tem a ver com o cristianismo tal como o entendo, e creio que posso dizer, tal como o entende a Igreja Católica.
P. Alfredo Dinis,sj

21 de junho de 2009

Jesus acalma a tempestade


Já era tarde. Jesus tinha pregado a uma multidão e estava cansado. Enquanto estavam no barco, Ele quis dormir nas duas, três léguas que os separavam da outra margem. O mar da Galileia “está situado numa depressão, a 208 metros abaixo do nível do Mediterrâneo. Em volta dele, um circulo de montanhas, rasgadas por estreitos desfiladeiros e gargantas pelas quais o vento sopra violentamente de norte para sul.” Isto cria as condições para que surjam facilmente tempestades, muito típicas nos finais de Outono na Galileia. (1)

Desponta uma violenta tempestade. Jesus dorme. Quase podemos imaginar Pedro a acordar o Senhor e reclamar: “Não te importas que pereçamos?” Jesus fala imperiosamente aos ventos e ao mar. Tudo se acalma. “Ainda não tendes fé?”



O SENHOR DO TEMPO, AGE A SEU TEMPO | Por vezes, quando estamos em grandes correrias, todos os que estão ao pé de nós parecem estar quietos. Jesus estaria a dormir de facto ou somente aos olhos dos discípulos? Não questiono aqui a autoridade dos Evangelhos, mas creio que por vezes, por levarmos a vida sozinhos, cremo-nos abandonados nas tempestades mais difíceis porque nos pomos de parte, convencidos de que tudo podemos. A atitude de Jesus deve levar-nos, parece-me, a ganhar distância diante dos contratempos para os sabermos dominar e deixarmo-nos ajudar/amar.



O ALÉM DA DIFICULDADE | Para além de tudo isto só a confiança num Outro nos leva além da dificuldade. Este ‘além da dificuldade’, nesta leitura em concreto, é o temor dos apóstolos diante de Jesus a Quem se confiaram por se verem insuficientes diante da tempestade. Mas em que consiste este temor? Não, temor não é ‘ter medo de’. Temor é o desafio de responder em/por amor a alguém que mo reclama porque me faz redescobrir a minha riqueza diante dos Seus gestos simples que não me deixam morrer(2). Era S. Leão Magno que dizia: “Se crês na grandeza de Jesus compreenderás o teu poder”.

Efectivamente, acalmada a tempestade, continuam a haver ondas e ventos. Contudo, a atenção ao Outro, que parecia indiferente, transfigurou-as. Sim, haverão sempre dificuldades, mas o amor transfigura-as. Quem ama é consolador e quem é amado é consolado. Mas “o amor não é consolação, é luz”(3). Só a luz, de Alguém que se entrega todo para se comprometer e transformar os ventos das crises e as ondas de quem sofre, é capaz de abrir caminho ao Espírito para que em tudo brote uma tranquilidade que não começa senão de dentro para fora.



AQUELE QUE ESTÁ | Assim, não há crise que resista ao amor de quem se compromete com o mundo, sabendo que tem as costas e o coração largos. Mesmo que tudo nos pareça desfavorável e perdido, e nos sintamos falhados diante da realidade que é dura: Ele está! E se num dia de tempestade sentirmos todos estes fracassos a serem-nos atirados à cara pela consciência digamos com o coração: Eu sei que a vida é dura e que só por mim vou a baixo num segundo, mas tenho em mim Alguém que deu a vida por mim, o Seu nome é Jesus Cristo e onde Ele estiver eu estarei também. Não haverá tempestade que nos vire, se assim nos confiarmos. A Vida mostrará o seu rosto como uma bênção e não como maldição. “Ainda não tendes fé?”



[1] DESCALZO, José Luís – Vida e Mistério de Jesus de Nazaré II, Cucujães: EDITORIAL MISSÕES, 1994, pp.165 – 166

[2] “Amar alguém é dizer-lhe: não morrerás” (Gabriel Marcel)

[3] WEIL, Simone - À porta do farol faz escuro, Braga: APOSTOLADO DA ORAÇÃO, 1991

20 de junho de 2009

Beato Francisco Pacheco (1565-1626)

Hoje a Companhia de Jesus recorda a vida do Beato Francisco Pacheco.
Nasceu em Ponte de Lima em 1565. Sobrinho de um mártir do Japão, ficou de tal forma entusiasmado com a história do tio que fez voto de ser também mártir, tendo apenas 10 anos. No entanto, já tinha vinte anos quando entrou para a Companhia de Jesus, tendo sido ordenado sacerdote em Goa. Em 1604 já estava no Japão, donde teve de fugir duas vezes devido ao clima de perseguição que aí se vivia. Acabou por ser feito prisioneiro e levado para Nagasaqui, onde foi queimado vivo em 1626. Com ele, morreram mais dois padres jesuítas, alguns catequistas, três famílias acusadas de o terem acolhido e ainda um menino chamado Luís.


Numa das suas últimas cartas escrevia: “Estamos todos já muito cansados e cortados, dos trabalhos desta perseguição; porém, as esperanças de nos caber alguma boa sorte de martírio nos animam e fazem continuar e fazer da fraqueza forças, esperando nessa hora em que nos caiba a ditosa sorte”.


texto retirado do evangelho quotidiano

Novas tecnologias, novas relações - Bento XVI no dia mundial das comunicações sociais

(...) Na mensagem deste ano, o meu pensamento dirige-se de modo particular a quem faz parte da chamada geração digital: com eles quero partilhar algumas ideias sobre o potencial extraordinário das novas tecnologias, quando usadas para favorecerem a compreensão e a solidariedade humana. Estas tecnologias são um verdadeiro dom para a humanidade: por isso devemos fazer com que as vantagens que oferecem sejam postas ao serviço de todos os seres humanos e de todas as comunidades, sobretudo de quem está necessitado e é vulnerável.

A facilidade de acesso a telemóveis e computadores juntamente com o alcance global e a omnipresença da internet criou uma multiplicidade de vias através das quais é possível enviar, instantaneamente, palavras e imagens aos cantos mais distantes e isolados do mundo: trata-se claramente duma possibilidade que era impensável para as gerações anteriores. De modo especial os jovens deram-se conta do enorme potencial que têm os novos «media» para favorecer a ligação, a comunicação e a compreensão entre indivíduos e comunidade, e usam-nos para comunicar com os seus amigos, encontrar novos, criar comunidades e redes, procurar informações e notícias, partilhar as próprias ideias e opiniões. Desta nova cultura da comunicação derivam muitos benefícios: as famílias podem permanecer em contacto apesar de separadas por enormes distâncias, os estudantes e os investigadores têm um acesso mais fácil e imediato aos documentos, às fontes e às descobertas científicas e podem por conseguinte trabalhar em equipa a partir de lugares diversos; além disso a natureza interactiva dos novos «media» facilita formas mais dinâmicas de aprendizagem e comunicação que contribuem para o progresso social.

Embora seja motivo de maravilha a velocidade com que as novas tecnologias evoluíram em termos de segurança e eficiência, não deveria surpreender-nos a sua popularidade entre os utentes porque elas respondem ao desejo fundamental que têm as pessoas de se relacionar umas com as outras. Este desejo de comunicação e amizade está radicado na nossa própria natureza de seres humanos, não se podendo compreender adequadamente só como resposta às inovações tecnológicas. À luz da mensagem bíblica, aquele deve antes ser lido como reflexo da nossa participação no amor comunicativo e unificante de Deus, que quer fazer da humanidade inteira uma única família. Quando sentimos a necessidade de nos aproximar das outras pessoas, quando queremos conhecê-las melhor e dar-nos a conhecer, estamos a responder à vocação de Deus - uma vocação que está gravada na nossa natureza de seres criados à imagem e semelhança de Deus, o Deus da comunicação e da comunhão.

O desejo de interligação e o instinto de comunicação, que se revelam tão naturais na cultura contemporânea, na verdade são apenas manifestações modernas daquela propensão fundamental e constante que têm os seres humanos para se ultrapassarem a si mesmos entrando em relação com os outros. Na realidade, quando nos abrimos aos outros, damos satisfação às nossas carências mais profundas e tornamo-nos de forma mais plena humanos. (...)

14 de junho de 2009

Porque queremos tanto ser?


O ser humano, devido à sua vasta capacidade racional e afectiva, está capacitado para enormes realizações, feitos do seu vasto e desenvolvido talento. Muitas vezes é inevitável sentir uma certa vaidade e orgulho pela obra marcada e selada com o nosso nome. É uma tendência muito difícil de controlar. Dizia um dia um grande escritor português, Teixeira de Pascoaes, que o nosso mundo vive repleto de esqueletos, de ossos erguidos ao alto, que se apresentam diante dos nossos olhos como tentativas de eternidade. Os monumentos que hoje exaltamos, as grandes obras de arte, os túmulos sumptuosos dos grandes senhores de outros tempos, até o pequeno murete que circunda a propriedade, são oportunidade para ser presença neste mundo. Recordava este escritor, que as ruínas da velha e magna civilização romana, erguidas ao alto na Cidade Eterna, são o exemplo mais nítido deste anseio. Naquele tempo pensavam-se grandes e invencíveis, julgavam-se eternos, mas o tempo encarregou-se de os contradizer.
A verdade inevitável e a grande conclusão a retirar é que, efectivamente, todos os homens e mulheres querem ser. Ninguém escapa a esta vontade inexorável de existir e de existir permanentemente, para além dos curtos dias de sol que nos estão destinados. Deixar obra feita é um mecanismo perfeitamente inconsciente de atingir este desiderato. Outro dos efeitos deste desejo é a ilusão da força e estabilidade. Sempre que fazemos algo digno de elogios e atenção estamos cada vez mais convencidos das nossas capacidades e talentos, daquilo que somos capazes de fazer. Sentimo-nos perfeitamente grandes e seguros de nós mesmos. A nossa fragilidade, que é real, fica esquecida por instantes. Chega a fantasia.
Ora, as leituras deste Domingo apontam precisamente para esta ilusão. Deus aparece como Aquele que é perfeitamente. Ele existe e porque existe permanentemente, ausente de fragilidade, resolve toda esta nossa questão de querer ser. De um pequeno ramo Deus é capaz de fazer brotar uma enorme árvore. Diria mais, de um ser frágil e débil Deus é capaz de fazer maravilhas. Esta certeza da presença de Deus na nossa vida é uma extraordinária fonte de serenidade. Sabemos que somos sempre n'Aquele que nos criou e que constantemente nos dá sinais da sua presença. A semente que cai à terra é este apelo profundo que Deus faz a todos os seres humanos, através de Jesus Cristo, para que vivam na verdade da sua condição e não iludidos em relação à sua existência. O reino de Deus é o lugar da paz e da alegria porque lá todos sabem o que são, de onde vêm e para onde vão.
São Paulo diz-nos hoje que "estamos sempre cheios de confiança" não nas nossas forças e realizações, mas na certeza de que habitamos neste mundo, nesta forma, provisoriamente. Esta verdade que se apresenta tão clara para São Paulo tem muito a ver com aquele desejo que todos partilhamos de existir e existir para sempre. Vasta atentarmos um pouco na nossa vida concreta, nas nossas decisões, naquilo que nos move e motiva, para termos a verificação empírica desta situação. O inverso seria desejar a morte, não comer, beber ou falar.
Um grande Jesuíta e filósofo contemporâneo, Júlio Fragata, disse um dia que "eu sou para ser sempre" abordando o absurdo que seria sermos temporariamente. Não é um argumento simplesmente favorável a uma necessidade do Ser Absoluto, mas é um dado imprescindível para a nossa razão tão demasiadamente autónoma que se toma como capaz de responder aos maiores mistérios da humanidade. Porque existimos? Será que Deus existe? Qual é efectivamente a nossa verdade?
O grão de mostarda, tão pequeno e subtil, é precisamente aquele que se torna numa das maiores árvores sobre a face da Terra. Cabe aos cristãos, àqueles que acreditam firmemente que a sua existência está vinculada a este Deus que foi, que é e que há-de vir, o anúncio desta verdade. Se os homens e mulheres deste mundo que partilham a fé neste Deus souberem ser fiéis aquilo em que acreditam, se forem efectivamente construtores deste Reino do qual nos fala Jesus hoje, certamente que os outros homens e mulheres, mais incrédulos e duvidosos, serão interpelados profundamente nos seus fundamentos.
Este desejo profundo de infinito, que nos é comum, não nos larga. Está constantemente connosco e permanece misterioso como sinal de contradição e dúvida. A resposta está em aberto e é legítimo não concordar com a proposta cristã, todavia parece inevitável ficar desconcertado perante as palavras de Jesus, diante deste Deus que oferece uma resposta concreta e que se apresenta como Aquele que nos dá o ser e está por trás de todas as nossas realizações. É inútil negar o desconforto que nos causa... Vale a pena pensar nisto!

13 de junho de 2009

Dawkins agnóstico?

1. Richard Dawkins tornou-se uma das principais bandeiras do ateísmo contemporâneo. Foi por isso que fiquei surpreendido com uma sua afirmação acerca do sentido que tem a hipótese da existência de algum Deus. Embora para ele se trate de uma hipótese refutável – não disse ‘refutada’ – é uma hipótese digna de respeito. Trata-se de uma posição que me parece mais racional do que a simples negação de Deus, como se esta negação fosse uma questão do género de negar a existência de sereias ou outros seres mitológicos. A afirmação de Dawkins foi feita em diálogo com Francis Collins, e publicada na TIME [Sunday, Nov. 05, 2006, God vs. Science, by Dan Cray/Los Angeles]:

2."My mind is not closed, as you have occasionally suggested, Francis. My mind is open to the most wonderful range of future possibilities, which I cannot even dream about, nor can you, nor can anybody else. What I am skeptical about is the idea that whatever wonderful revelation does come in the science of the future, it will turn out to be one of the particular historical religions that people happen to have dreamed up. When we started out and we were talking about the origins of the universe and the physical constants, I provided what I thought were cogent arguments against a supernatural intelligent designer. But it does seem to me to be a worthy idea. Refutable--but nevertheless grand and big enough to be worthy of respect. I don't see the Olympian gods or Jesus coming down and dying on the Cross as worthy of that grandeur. They strike me as parochial. If there is a God, it's going to be a whole lot bigger and a whole lot more incomprehensible than anything that any theologian of any religion has ever proposed."

3. Como é evidente, não tenho a concepção de Dawkins acerca do paroquialismo do cristianismo, mas, por outro lado, compreendo que ele considere paroquial a concepção que tem do cristianismo, e que não é a minha. Cristo não desceu do céu nem subiu ao céu, no sentido em que se pensava até recentemente, quando o céu estaria 'lá em cima', por detrás das estrelas. O Cristo de Dawkins é o dos não crentes em geral: anda por aí de bloco-notas na mão a tomar nota das nossas maldades para se divertir depois a fazer connosco um churrasco nas brasas do inferno; diverte-se a fazer milagres baralhando as leis da natureza; aparece e desaparece como as crianças num jogo de 'esconde-esconde'; Deus Pai mandou o Filho Jesus Cristo à terra para sofrer e assim pagar pelos pecados da humanidade, uma vez que esta humanidade estava em dívida e não havia outra maneira de apagar a cólera do Eterno Pai; delicia-se com o sofrimento dos seres humanos, com a confusão que vai por esse mundo fora e lava as mãos de tudo isso quando lhe seria tão fácil pôr ordem nisto tudo; etc., etc. Sim, este é um deus paroquial, e Dawkins faz bem em não lhe dar crédito. E o mesmo fazem todos os não crentes.

4. Perguntam-me muitas vezes em que Deus é que acredito se não acredito no que acabei de descrever. Considero que a perspectiva do jesuíta francês Teilhard de Chardin é a que mais nos aproxima de uma imagem não paroquial de Deus. Parece-me que os não crentes fariam bem em seguir a posição de Dawkins, de abertura a "futuras possibilidades, acerca das quais nem sequer posso sonhar, nem tu, nem ninguém", como ele afirma. Provavelmente os não crentes interpretarão esta afirmação no sentido de que não sabemos que descobertas fulgurantes nos reserva a ciência. Mas não me parece que seja este o sentido total da afirmação de Dawkins.

5. Com efeito, e muito curiosamente, o que diz logo a seguir é muito mais 'ortodoxo', pelo menos para os cristãos, do que ele próprio pensa. Os cristãos sabem perfeitamente que, embora acreditem que Deus se manifestou na pessoa de Cristo e acreditem no que ele disse, Deus é realmente muito maior e muito mais incompreensível do que os teólogos e as religiões propõem, exactamente como diz Dawkins:

"If there is a God, it's going to be a whole lot bigger and a whole lot more incomprehensible than anything that any theologian of any religion has ever proposed."

6. Qualquer teólogo cristão, qualquer cristão informado, subscreve esta proposição. Eu subscrevo-a sem reservas.

P. Alfredo Dinis,sj

9 de junho de 2009

Beato José de Anchieta


Nascido em Tenerife a 19 de Março de 1534, ingressou na Companhia de Jesus com apenas 17 anos. Entrou na Província Portuguesa em Coimbra. Após os dois anos de Noviciado foi destinado às missões. Partiu imediatamente para o Brasil, onde se dedicou inteiramente ao anúncio do Evangelho junto dos indígenas, respeitando sempre a cultura local ao ponto de ter escrito, pela primeira vez na história, uma gramática e um catecismo na língua indígena.

Trata-se de um santo que viveu o espírito missionário próprio da Companhia, muito ligado à inculturação, isto é, à integração do Evangelho nas várias culturas sem destruir a riqueza e a diversidade que lhes são próprias.

O anúncio da Fé esteve, em Anchieta, intimamente ligado à promoção da Justiça, o que ficou bem patente no cuidado para com os indígenas sob o aspecto social e humano.

Morreu a 9 de Junho de 1597 numa cidade que hoje, em sua honra, se chama Anchieta.

7 de junho de 2009

Unidade perfeita e fértil


Se confesso Deus e o confesso como Trindade, não o faço por alguma vez o ter visto ou por ter uma ideia clara e vivida do que me refiro quando falo de Trindade. Nunca vi o Pai e do Espírito conheço apenas os efeitos. Ponho a minha fé no Filho que me fala de ambos, mas o meu conhecimento é por demais imperfeito. Deus é-me, na sua profundidade, desconhecido. Mesmo estas palavras que escrevo na tentativa de dizer algo sobre a Santíssima Trindade são habitadas de um profundo mistério. Contudo, Aquele diante de Quem me ponho na oração e na vida, que é profundo mistério, é Quem me é mais certo, em Quem ponho toda a minha fé. E creio que essa é a porta de entrada no mistério, não o que pela razão poderei alcançar e compreender, mas o que me é revelado por Deus e, na experiência do seu amor, recebo como verdade digna de fé.

Outros encontrarão palavras mais claras, certeiras e eloquentes do que as minhas para falar da Trindade. Por isso cito o próprio Verbo, a segunda Pessoa do Deus único, na noite em que ia ser entregue, numa das passagens onde mais me é dada a conhecer a Trindade.

«Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós. (...) o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse (...) há-de guiar-vos para a Verdade completa.» (Jo 14, 16-17. 26; 16, 13).

Como são estas três pessoas divinas, que se relacionam deste modo, um só Deus? É a questão que o nosso entendimento nos coloca (porque a razão não é excluída pela fé, mas concorre no conhecimento de Deus). A ideia chave que nos abre a compreensão àquilo que nunca deixará de ser um mistério é a de que Deus é amor. Um amor que não é a palavra onde cabem os mil e um significados que lhe damos, mas aquele que Jesus revelou na sua vida e faz do absurdo da sua morte na cruz algo pleno de sentido. Pela sua morte na cruz e Ressurreição somos salvos e tomados como filhos. O amor que é Deus é o amor que dá (a vida, a salvação, a filiação, ...) sem recuar face à morte, o amor que é sempre dom sem sombra de egoísmo. É nessa medida que a Trindade pode ser entendida, porque nEla o amor é unidade perfeita e fértil, porque é inteiramente dom sem sombra de egoísmo em cada uma das três pessoas.

Entendido assim o amor, são três as pessoas porque o amor só é quando há uma relação e não existe solitariamente. Amor entre duas pessoas, Aquele que é todo Pai e Aquele que é todo Filho, mais o Espírito gerado da unidade perfeita e fértil entre o Pai e o Filho, igualmente amado e amante. Os três são um só Deus pela unidade perfeita do amor.

Tudo em Deus é um acto de dom, desde a criação e tudo quanto existe, ao momento singular em que Deus Se faz homem e habita entre nós, morre, ressuscita e nos toma nos braços como seus filhos, até todos os momentos em que Se faz presente na nossa vida. Que a nossa vida seja acto de fé, reconhecendo e celebrando o dom que é o mundo e a nossa história.

2 de junho de 2009

Michel Onfray, filósofo francês e ateu.
A primeira e a última pergunta de uma entrevista.
Para que é que serve a filosofia?
Qual é a sua direcção pessoal?
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