31 de julho de 2009

Iñigo

Nos vários anos que este blog já acumula, há vários comentários hagiográficos tradicionais sobre Iñigo Oñaz Lopes de Loyola -Inácio - portanto permito-me ultrapassar a informação histórica e centrar-me no porquê de Inigo ter ficado na história.




Aprender a comunicar com Deus

Notava, ainda, esta diferença: quando pensava nas coisas do mundo, sentia um grande prazer; mas quando depois de cansado as deixava, sentia-me árido e descontente. Por outro lado, quando pensava ir a Jerusalém, descalço e comendo só ervas, e em fazer todos os mais rigores que via que os santos tinham feito, não só sentia consolação quando estava nesses pensamentos, mas também depois de os deixar, ficava contente e alegre. Mas não reparava nisso nem me detinha a ponderar esta diferença, até que um dia se me abriram um pouco os olhos e comecei a maravilhar-me desta diferença e a fazer reflexão sobre ela.
In: Autobiografia de Inácio,nº 8.

[Não nos vamos deter na análise do ideal de santidade que Inácio tinha nesta fase da inicial da vida, até porque foi mudando com a experiência.]
Esta pequena passagem da Autobiografia de Inácio relata a sua primeira tomada de consciência daquilo a que chamamos Discernimento de Espíritos. A finura com que Inácio aprendeu a ler as suas próprias moções (estados de espírito) tornou-se um grande legado à Igreja, e um verdadeiro alfabeto da afectividade humana.
Foi decifrando o que lhe passava por dentro que Inácio conheceu Deus. Foi com essas ferramentas de leitura, e tomada de consciência de si mesmo, que nos últimos 500 anos se vai ensinando os
homens que buscam Deus a actualizarem esse caminho nas suas próprias vidas.


Acreditar não é confiar no passado, é conhecer no presente.

“…muitas vezes pensei comigo que se não houvesse Escritura que nos ensinasse estas coisas da fé, me determinaria a dar a vida por elas, só por aquilo que vi.”
In: Autobiografia de Inácio, nº 29.

Estas palavras registam uma experiência tão séria e profunda de Deus, que actualizou, em Inácio, a Revelação. Ora se Inácio, que não foi contemporâneo de Jesus, o pode conhecer de forma tão decisiva, também nós podemos aceder a essa vivência da Boa Nova na primeira pessoa. A nossa fé não é acreditar no dizem sobre os acontecimentos de Jerusalém no ano 0 d.C.. A nossa fé é fruto do encontro com a divindade que habita a criação e se revela ao homem que ousa o silêncio, para ouvir Deus.


Não é Pedagogia, é Mistagogia.

Inácio não ficou na história por ser um óptimo pedagogo da doutrina. Não foi por ter dado à Igreja um novo método de assimilação dos mandamentos, das virtudes e dos pecados capitais que ele ficou na história. Inácio de Loyola ficou na História da Igreja e da humanidade por ter dado ao homem que busca um itinerário para ir até Deus. Não um caminho exterior, mas um mergulho no mais íntimo de si, onde Deus, também, habita. Inácio foi um mestre de Mistagogia, a dinâmica de adentramento no Mistério de Deus, e isso é que nos faz recordá-lo.

Quem não acreditar em mim, vá fazer os Exercícios Espirituais de S. Inácio e arrisque-se a encontrar Deus.

10 de julho de 2009

ateus missionários?

1. Alguns não crentes, como os meus estimados amigos Ludwig e os do Portal Ateu, têm um entusiasmo pela difusão do ateísmo que rivaliza com o entusiasmo proselitista dos mais devotados missionários cristãos. Literalmente. Sem metáfora nem ironia. De onde lhes vem esse entusiasmo e convicção proselitistas? Muitos deles estão honestamente a tentar dar o seu contributo para um mundo melhor. Pessoalmente, estou convencido que o seu esforço tem efeitos muito reduzidos, em nada proporcionais aos seus esforços. Porquê? Pelo facto, creio eu, de se basearem em equívocos e numa argumentação que chega a conclusões que não estão contidas nas premissas nem são por elas implicadas.

2. O Ludwig, no seu bem conhecido blog ktreta, persiste me exigir que a hipótese da existência de Deus seja formulada em termos empíricos e espácio-temporais, de forma a poder ser submetida a testes igualmente empíricos. Mas esta posição tem tanta justificação como a de pretender apresentar a hipótese da beleza de um quadro de Picasso de tal forma que essa beleza seja posta à prova pela observação empírica do movimento dos electrões dos átomos que constituem a matéria da tinta que o autor utilizou. Se a hipótese de Deus fosse uma hipótese empírica, então não estaríamos a falar de Deus. Do mesmo modo que se a hipótese sobre a beleza de um quadro de Picasso fosse formulável em termos do movimento de electrões, não estaríamos a falar de beleza.

3. Os fundadores e comentadores do Portal Ateu cometem vários erros de argumentação. O primeiro consiste em tomar o todo pela parte. É como se eu ao olhar para uma macieira e visse algumas maçãs apodrecidas concluísse alegremente que estava em presença de uma árvore envenenada que só poderia produzir maçãs envenenadas e envenenar as pessoas. A árvore poderá ter cem maçãs perfeitamente sãs e saborosas, e uma dúzia de maçãs podres, mas é evidente que se se quer defender a tese de que é toda a árvore que está envenenada, eu tenho necessariamente que ignorar as cem maças sãs e saborosas, ou então dizer que elas não significam nada. É o que se faz no Portal Ateu quando se critica a religião. Como já afirmei noutras ocasiões, este género de crítica não tem qualquer efeito de convencimento, a não ser para os que a praticam.

4. Um outro erro argumentativo é o do verificacionismo: quando se quer verificar uma hipótese, escolhem-se cuidadosamente os exemplos que a verificam, e ignoram-se cuidadosamente os exemplos que a contradizem. Todas as teorias científicas têm contra-exemplos. Se eu considerasse apenas esses contra-exemplos, nenhuma teoria científica seria defensável, todas seriam declaradas absurdas. É o que se faz no Portal Ateu quando se critica a religião. Escolhem-se cuidadosamente os contra-exemplos da religião para a declarar absurda.Como já afirmei noutras ocasiões, este género de crítica não tem qualquer efeito de convencimento, a não ser para os que a praticam.

5. Em conclusão: tal como os missionários cristãos, alguns ateus têm um verdadeiro espírito proselitista, e acredito que muitos deles estejam a pensar que prestam um grande serviço à Humanidade com as suas críticas. Como já tenho dito noutras ocasiões, a religião nada tem a temer das críticas objectivas, inteligentes e fundamentadas. Antes pelo contrário, só tem a ganhar com elas. Contrariamente ao que pensam estes ateus, a religião não está acima de toda a crítica. Mas qualquer crítica que, mesmo que bem intencionada, como acredito que seja a de alguns ateus, cometer os erros de argumentação acima indicados (mas há muitos mais!), acaba por ser inútil. Poderá divertir e convencer os ateus, mas não terá mais efeitos do que esses.



Alfredo Dinis,sj

7 de julho de 2009

Diogo Carvalho


Nascido em Coimbra no ano 1578, Diogo Carvalho tornou-se jesuíta aos 16 anos. Desde o seu noviciado, Deus foi germinando em si o desejo de servir a igreja nas missões do oriente. Assim sendo, enviaram-no para Macau em 1600 a fim de estudar Filosofia e Teologia.

Em 1610, concluídos os estudos, partiu para o Japão, percorrendo incansavelmente as regiões onde os cristãos clandestinamente praticavam o seu culto, reconfortando-os com os sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, vivendo o cristianismo de uma forma tão simples quanto admirável.

Num Japão onde os cristãos eram perseguidos acabou por ser martirizado em 1624. Hoje a Companhia, particularmente a Província Portuguesa, celebra este exemplo de fidelidade ao evangelho tanto nas coisas simples da vida como nos momentos de maior heroicidade.

5 de julho de 2009

Religião, ateísmo, e espírito crítico

1. Entre os crentes, sejam eles cristãos, hindus, muçulmanos ou outros, há variedade de posições em muitos aspectos, mesmo que estejam de acordo no essencial. Há muitas afirmações e muitos factos por esse mundo fora que são muitas vezes considerados elementos essenciais da religião mas que, de facto, não passam muitas vezes de caricaturas. O mesmo acontece com ateus e agnósticos. Há entre eles posições muito diversas, mesmo que estejam de acordo no essencial.

2. Por conseguinte, se se quiser fazer uma análise crítica, objectiva, inteligente e fundamentada, seja da religião, seja do ateísmo, não se podem escolher para objecto de crítica apenas as posições mais duvidosas e ridículas de um lado ou do outro, ignorando outras posições mais difíceis de rebater. Mas é isto que fazem os ateus, como Dawkins, Dennett, Harris, etc., bem como muitos não crentes, sobretudo os que encontro na blogosfera. Apesar deste erro metodológico fundamental, os ateus consideram estes e outros autores na mesma linha grandes génios do pensamento ateu, e aceitam incondicionalmente o que dizem. Esta é uma posição que considero inaceitável: os ateus têm pouco espírito crítico, ou mesmo nenhum, para com o que escrevem e dizem os ateus mais iluminados. E aquilo que consideram o seu espírito crítico aplica-se apenas às religiões, e dirige-se em geral a aspectos que pouco ou nada têm a ver com a religião em geral, menos ainda com o cristianismo em particular. O que criticam são, com frequência, aspectos anedóticos que, ao serem facilmente deitados por terra, lhes dão a sensação de que venceram mais uma batalha contra a crença religiosa. Penso que, ao procedrem assim, os não crentes estão, de facto, a perder o seu tempo.

3. Não me parece saudável subscrever incondicionalmente qualquer texto, seja de um autor cristão, seja de um ateu, sem antes o examinar criticamente. Raramente me identifico totalmente com os textos de autores cristãos, e não tenho qualquer problema em o dizer publicamente. Não vejo esta atitude, que me parece essencial no pensamento crítico e racional, da parte dos não crentes em relação a textos de autores ateus. Fico com a sensação de que os não crentes atribuem aos seus autores uma omnisciência e infalibilidade que não atribuem a mais ninguém. Ou estarei enganado?

2 de julho de 2009

S. Bernardino Realino (1530-1616) S. João Francisco Regis (1597- 1640) S. Francisco de Jerónimo (1642-1716) B. Julião Maunoir (1606-1683) B. António B

Hoje celebra-se a vida de mais três santos e dois beatos da Companhia de Jesus. São três italianos (S. Bernardino, S. Francisco e B. António) e dois franceses (S. Francisco Regis e S. Julião) que se distinguiram, sobretudo, pela pregação, pelo ensino da fé e pelo trabalho junto dos mais pobres.
Nos séculos XVI, XVII e XVIII estes homens integraram as “missões populares”, que consistiam em breves períodos de tempo passados de comunidade em comunidade por pequenos grupos de missionários, com o objectivo de reavivar a fé dos cristãos destas comunidades e de converter aqueles que não a tinham. Era um tempo intenso de pregação, de ensino, de consolar os mais fragilizados e de estabelecer relações com as pessoas.
As suas vidas foram passadas nestas missões. Todos eles se destacaram pelo trabalho incansável na entrega à sua missão.