31 de outubro de 2009

Santo Afonso Rodrigues

O que se passou com Afonso Rodriguez, natural de Segóvia – Espanha, comerciante casado e com dois filhos para que aos 38 anos tenha entrado na Companhia de Jesus como Irmão?
Estamos em pleno século XVI e a vida deste homem não corre bem. Em pouco tempo morrem-lhe a mulher e os filhos e os seus negócios entram em quebra. Simultaneamente, com o impacto destes factos, Afonso, dá-se conta da fragilidade da vida e o Senhor concede-lhe a graça de o tocar profundamente. Diz ele, que «este conhecimento próprio era acompanhado do conhecimento de Deus.» Durante três anos, opera-se uma profunda e definitiva transformação.
Em 1571, entra na Companhia de Jesus e é enviado, ainda como Noviço, para o Colégio de Monte Sião, em Palma de Maiorca. Entre outros trabalhos de casa é sobretudo como porteiro que, durante 46 anos, colabora na vida do Colégio.
Nada faria supor que este porteiro simples, humilde e acolhedor tivesse uma vida interior de enorme intimidade com Jesus e Nossa Senhora, como pelos seus apontamentos se veio a descobrir. No entanto, as pessoas viam neste Irmão alguma coisa de muito especial pois acudiam a ele para lhe exporem as suas vidas, os seus projectos e os seus desejos de relação com Deus. Foram muitos os que recorreram à sua ajuda espiritual e, entre todos, sobressai S. Pedro Claver que partindo para a América do Sul, Cartagena na Colômbia, se fez o escravo dos escravos.
A sua espiritualidade é marcada por ser um contemplativo também na acção. Em tudo encontra o amor de Deus, o que o leva a escrever: «Quando tocavam à porta, fazia interiormente actos de alegria, pelo caminho, como se fosse abrir a Deus, e como se Ele tivesse tocado à campainha, ia-Lhe dizendo: “Já vou, Senhor!”».
Afonso Rodriguez morreu aos 84 anos em Palma de Maiorca (Ilhas Baleares) a 31 de Outubro de 1617. Foi canonizado por Leão XIII em 1888.

30 de outubro de 2009

Beato Domingos Collins

Domingos Collins nasceu por volta do ano de 1566, no condado irlandês de Cork. Cedo enveredou pela carreira militar, o que o levou a abandonar o seu país e a fixar-se no continente, mais propriamente em França. O empenho nas artes militares valeu-lhe a patente de capitão. No entanto, a sua vida tomaria um novo rumo em 1598, quando decidiu abandonar tudo para entrar na Companhia de Jesus, como Irmão Coadjutor.

Em 1601, regressou à sua terra natal, a Irlanda, já como jesuíta. No ano seguinte, a intolerância religiosa levou-o ao martírio, juntamente com dezasseis católicos irlandeses. Foram todos beatificados por João Paulo II a 27 de Setembro de 1992.
São inúmeros os mártires que a Igreja celebra e oferece como testemunho vivo da Fé. Homem que nos mostram como a máxima evangélica de “entregar a vida” não constitui uma mera metáfora: trata-se de uma realidade muito concreta, plenamente incarnada na existência destes cristãos. No entanto, que significado tem, para nós, o “martírio” nos tempos de hoje?

A etimologia da palavra diz-nos que “mártir” significa “testemunha”. Para os primeiros cristãos, o “martírio” expressava a mais alta identificação com Cristo, realizando plenamente a bem-aventurança evangélica declarada pelo próprio Jesus: «Bem-aventurados sereis quando vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim...» (Mt 5,11-12).

Parece-me que hoje em dia, os cristãos do ocidente, habitantes das mesmas regiões percorridas por Domingos Collins, não são chamados ao mesmo tipo de martírio que as consequências do século XVII impuseram. Há, no entanto, outro tipo de martírio, que dispensa o derramamento de sangue: refiro-me ao testemunho de uma vida inteiramente dedicada ao evangelho. Creio que toda a perfeição cristã tem algo de martírio: a perseverança no bem, a denúncia das injustiças, a dedicação aos pobres, a integração dos sofrimentos inerentes a qualquer vida.

Desta forma, parece-me ser possível que o ideal do martírio se estenda a todos os estados de vida: no convento ou no matrimónio; na família e no trabalho. Possivelmente, todo aquele que der testemunho da sua fé num ambiente hostil será o mártir desta época em que nos situamos.

27 de outubro de 2009

Aprendemos alguma coisa com o ‘Caso Saramago?’
Alfredo Dinis,sj


1. Saramago revelou na apresentação do seu livro Caim um desconhecimento do que é ler um texto – qualquer texto – surpreendente e, para muitos, chocante. Este novo ‘caso Saramago’ é – foi? - em muitos aspectos diferente dos anteriores. As suas declarações sobre a Bíblia em geral e sobre o Antigo Testamento em particular não feriram apenas os ouvidos dos cristãos mas, talvez mais, os de pessoas que não reagiram tanto em função do facto de se tratar da Bíblia, mas pela ingenuidade das afirmações de Saramago. O ‘caso Saramago’ não é pois um caso de intolerância por parte dos crentes, mas de assombro por parte de muitos, crentes e não crentes.

2. ‘Está lá escrito’! ‘Porque é que a Igreja Católica mudou a interpretação da Bíblia? Quem lhe deu autoridade para isso?’ Estas questões mereceram aplausos de alguns – dos que estão sempre, acrítica e incondicionalmente com Saramago e com todos quantos se declararem contra a religião! Sempre me impressionou o facto de estas pessoas – Ludwig Krippahl e muitos dos frequentadores do Portal Ateu, para só dar alguns exemplos - se atribuírem um espírito crítico, uma liberdade de pensamento, que afirmam ser impossível aos crentes em geral e aos cristãos em particular. Impressiona-me o facto de este espírito crítico ser ‘propriedade privada’ deles; e impressiona-me o facto de esse espírito crítico se dirigir apenas ao que afirmam os crentes, nunca ao que afirmam os não crentes. A estes, como a Saramago, Dawkins, Harris, etc., parece concederem uma infalibilidade que lhes causa horror quando atribuída ao Papa.


3. Desta vez, a polémica não se verificou entre iluminados, por um lado, – Saramago e os seus defensores ideológicos –, e obscurecidos, por outro – todos os crentes, a começar pelas autoridades eclesiais. As intervenções vindas de todos os cantos do espaço cultural português manifestando espanto e incredulidade pelas declarações de Saramago, extravasaram e muito o espaço católico. O próprio Saramago acabou por reconhecer que se excedeu em algumas das suas declarações. Reagiu, porém, lamentando-se que as pessoas se estavam a pronunciar sem terem lido o seu livro. Mas a questão em debate nada tem a ver com o livro de Saramago, que poderá escrever romances sobre as personagens, bíblicas ou outras, que bem entender. E sobre um romance, a crítica terá que ser literária, com base em cânones da crítica literária.

4. O que está em causa no ‘caso Saramago’ é a interpretação da Bíblia. Os cristãos nunca se limitaram à sua interpretação literal. A interpretação metafórica esteve sempre presente, não foi inventada agora. Não tem razão Ludwig Krippahl quando afirma: “Só a partir do século XIX é que a exegese católica começou a considerar a Bíblia literatura. Antes disso defendiam uma interpretação literal. Daí que, quando afirmam que não se deve ler a Bíblia à letra, de uma forma a que chamam “banal”, contradizem dezoito séculos de tradição católica e outras variantes contemporâneas de cristianismo.” Isto é objectivamente falso. Muitas passagens foram sempre interpretadas metaforicamente. Algumas passagens foram durante algum tempo interpretadas literalmente, como as que se referem à criação do mundo. Mas também as que se referem ao movimento do sol e à estabilidade da Terra. No tempo de Galileu, esta incapacidade dos teólogos em mudar a interpretação literal destas passagens para uma interpretação metafórica, proposta por Galileu, foi uma das causas do ‘caso Galileu’, como reconheceu o Papa João Paulo II. Porque deveriam os teólogos ter deixado a interpretação literal das passagens bíblicas de conteúdo astronómico e cosmológico? O Cardeal Belarmino afirmou que estaria disposto a fazer a mudança de interpretação que lhe sugeria Galileu se este apresentasse provas suficientemente credíveis do movimento da Terra. Isto acabou por acontecer mais tarde, e a mudança de interpretação verificou-se. Assim se pode responder à pergunta de Saramago: ‘Quem autoriza a Igreja Católica a mudar a interpretação da Bíblia?’. O dado científico, por exemplo, tem sido uma das grandes causas desta mudança.

5. ‘Está lá escrito’! repete Saramago. Diz exactamente o que diziam os teólogos que não aceitaram a proposta hermenêutica de Galileu. ‘Está lá escrito’!, dizem os criacionistas fundamentalistas dos nossos tempos. Não me parecem boa companhia para Saramago! Se a Igreja Católica nada muda, é acusada de imobilismo, de falta de liberdade de investigação, de espírito crítico, etc. Se muda, pergunta-se: quem lhe deu o direito de mudar? Para Saramago e os que neste caso lhe batem palmas, a Igreja não deve mudar nada. Só assim interpretará correctamente a Bíblia!


6. Segundo Ludwig Krippahl: “É claro que podemos reinterpretar a Bíblia à luz dos nossos valores. É sempre possível inventar que tudo o que parece mal é metáfora para outra coisa que vá escapando. Mas é incorrecto vender esta reinterpretação, muito forçada, como conhecimento. É mera opinião.” Não, Ludwig, a tua insistência em que tudo na religião e, em particular no cristianismo, é mera opinião, é mera subjectividade, ignora que qualquer texto tem que ser interpretado de acordo com alguns parâmetros objectivos: estilo literário, época de composição, modo de composição, contexto cultural em que surgiu, significado dos conceitos utilizados no espaço cultural a que pertencem originalmente, etc. Nada disto é subjectivo.

7. É claro que Saramago pode dizer e escrever o que quiser, mesmo ferindo alguns sentimentos de pessoas crentes. Mas não deve fazer afirmações que são, objectivamente, impróprias de um Prémio Nobel. Não importa que tais afirmações sejam sobre religião. Poderiam ser sobre a História de Portugal, sobre a investigação científica, sobre arte, etc. Só posso lamentar que este nosso Prémio Nobel tenha decidido deixar aos portugueses uma recordação tão triste dos seus anos de maturidade.


8. Aprendemos alguma coisa com o ‘caso Saramago’? Os que incondicionalmente lhe batem palmas, não aprenderam nada! Continuam a repetir o que é objectivamente inaceitável no que se refere à hermenêutica em geral, e à hermenêutica bíblica em particular. Continuam a fazer uma leitura deste caso como se fosse um mero episódio de intolerância por parte dos crentes. Continuam a dizer que é preciso ler o livro Caim para se poder entrar no debate. Nada aprenderam!

9. Só as pessoas – independentemente da sua posição para com a religião – que ouviram ou leram com espírito realmente crítico as palavras de Saramago poderão ter aprendido realmente alguma coisa. Por exemplo, que um Prémio Nobel da literatura pode revelar uma debilidade cultural incompreensível precisamente na sua área de especialidade. Os cristãos poderão ter-se dado conta de uma forma inesperada de como um dos livros mais marcantes de todos os tempos, tanto do ponto de vista religioso como do ponto de vista cultural, permanece largamente ignorado. Talvez a maior parte de nós tenha aprendido que é importante rever como estamos a ensinar os nossos jovens, sobretudo no campo da literatura, da hermenêutica, da cultura em geral, e da cultura religiosa em particular. O espírito crítico tem que ser um espírito informado e inteligente. O estudo da religião em geral e do cristianismo em particular, no qual a Bíblia tem um relevo especial, não deve ser visto como pertencente simplesmente à esfera privada e de interpretação subjectiva. Aprendemos também que se torna necessário e urgente mostrar como a Bíblia é uma fonte de humanismo e de sabedoria particularmente adaptada aos nossos tempos. Aprendemos que ainda é surpreendentemente possível que ateus como Saramago e muitos outros continuem a afirmar que a religião só fez e só faz mal, e que todos viveríamos melhor sem religião.

10. Mais do que ‘reagir’, ‘protestar’, etc., em relação às declarações de Saramago, prefiro usar o verbo ‘lamentar’. Foi isso o que fizeram muitos comentadores. Ignoro se Saramago aprendeu alguma coisa com o seu ‘caso’. Parece-me que os seus apoiantes ideológicos não aprenderam nada. Creio que muitas pessoas aprenderam alguma coisa.

24 de outubro de 2009

da hostilidade à hospitalidade, da cegueira ao seguimento

Jericó é uma cidade em que Jesus Se revelou muito. Foi em Jericó que Jesus curou o cego Bartimeu |Lc. 18, 35| e salvou o publicano Zaqueu |Lc. 19, 1|. Assim, Jericó é um quadro de salvação: Cura e conversão.

Há três expressões, no Evangelho deste domingo (Bartimeu), que, se lidas com maior profundidade nos poderão ajudar a entender melhor o que Deus nos pode querer dizer por meio destes textos.



THARSEIN | Quando Jesus ouve Bartimeu a chamá-lo insistentemente, chama-o. Alguns dizem-lhe: Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te. Este levanta-te não é uma expressão colocada sem qualquer intenção. A expressão original é tharsein que quer dizer: Atrever-se a dar um passo em frente, arriscar-se a crer.

A multidão, anteriormente hostil a Bartimeu, após ter ouvido Jesus dizer: “Chamai-o”, incitam-no a ir ter com Ele. Isto faz-nos ver o papel que a Igreja deve ter. Embora frágil e pecadora, como o prova a multidão que tenta calar Bartimeu, se interpelada pelo convite de Jesus não pode senão incitar outros a crer mais, pelo seu testemunho. Se Jesus toca uma pessoa já é um dom incrível. Mas se toca um grupo, transforma a sua hostilidade natural em hospitalidade à bondade e diferença do/no outro.


SÔZEIN | O encontro entre Jesus e Bartimeu começa com uma pergunta que parece não combinar com Deus: Que queres que Eu te faça? O politicamente correcto seria ser o cego a perguntar isto a Jesus. Mas Jesus inverte a lógica, é Ele quem serve. Mais estranho ainda: a tua fé te salvou. Ora a fé, aceitação simples da amizade de Deus, é o que nos salva. Não é o fazer-coisas. O amor, que é o que nos salva, não é algo de activo, mas de passivo. Algo que nos acontece, quando Deus unifica a nossa vida. “Não é opção humana. É eleição divina” (Dietrich Bonhoeffer in Ética).

Curiosamente Jesus usa a expressão Sôzein que significa: salvar. A significação deste salvar, é bem mais ampla do que ser salvo de qualquer limitação, enfermidade ou pecado. Ser salvo, aqui, significa viver numa plenitude, tão grande, que só nos pode ser oferecida.


AKOLOUTHEIN | Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho. A palavra seguiu foi-nos transmitida com a expressão akolouthein que quer dizer: Seguir. Este verbo significa quase sempre, no Novo Testamento, tornar-se ou ser discípulo. É essa a razão pela qual por vezes nos parece que Jesus está em contínuo movimento, seguido pelos Seus.

Talvez nesta atitude constante de movimento consiste a grande dificuldade em deixar que os Seus gestos falem ao nosso coração. Deus tem sempre algo de novo para nos dizer. Mas os evangelhos repetem-se e nem sempre temos paciência para fugir a essa ideia de que já lhe tiramos todo o sentido. Acontece que, as minúcias e os sentidos não óbvios levam-nos a paisagens novas que só a paciência alcança. É que Deus não pára de Se comunicar e revelar num caminho constante.

Por vezes vemos como sentimentos vagos alguns toques de Deus, porque O queremos enjaulado e Ele é livre. Move-se, como se multiplicasse a Sua ausência para que eu O siga, sempre mais adiante. Pois como dizia o poeta Daniel Faria: Somarei a tua ausência à minha escuta; e tu redobrarás a minha vida. (Poesia, p. 182)



Domingo XXX

EVANGELHO Mc 10, 46-52

23 de outubro de 2009

Todos temos razão

O director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura manifestou a sua “desilusão” com a obra «Caim», novo livro de José Saramago. Foi em entrevista à Agência Ecclésia que Tolentino Mendonça, Sacerdote e escritor, explicou de uma forma suficientemente clara as declarações vazias que Saramago fez nestes últimos dias. Citando:

“O que impressiona nesta opção [de Saramago decidir que ler é só juntar letras] é ele recusar que aquele texto precisa de uma interpretação, de uma leitura simbólica”, declara. José Tolentino Mendonça realça que a Bíblia “é um livro de fé, que é lido a partir dessa perspectiva por milhões de pessoas, e ao mesmo tempo um livro de literatura, um superclássico”.

Nesse sentido, é necessária “uma compreensão da Bíblia enquanto texto literário para verdadeiramente chegar ao seu sentido”, é preciso “ir à terra do poeta”, como se referia no Vaticano II, perceber que há “um sentido segundo, terceiro, que não se pode ler de forma literal e unívoca, que os géneros literários são para respeitar”.

Parece-me que, mesmo para quem se diz ateu, a sua interpretação do texto e a mensagem que nos quer fazer chegar é demasiado pobre para ser levada a sério, embora preocupante e digna da nossa dedicação, sendo um sinal claro de que devemos insistir na luta contra este tipo específico de ignorância. Talvez devamos insistir mais na literacia e no desenvolvimento da nossa educação quanto à capacidade crítica na leitura e interpretação do que nos chega das mais diversas partes, da variada informação a que temos acesso.

Devemos também procurar a humildade (que tantas vezes não temos) para admitir que os outros possam ter as suas razões e principalmente a vontade de permanecer abertos, até às últimas consequências, àquilo que eles nos possam querer dizer. Estamos num país livre em que podemos expressar aquilo que pensamos. Quanto a isto Saramago tem toda a razão, mas neste caso essa “razão toda” é pouca, e essa pouca que tem não lhe serve de nada.

19 de outubro de 2009

Sangue de mártires, semente de cristãos


Hoje a Companhia de Jesus celebra a memória dos Santos Mártires João de Brébeuf, Isaque Jogues e Companheiros. Os oito mártires franceses deram a vida entre 1642 e 1649 no actual território do Canadá, onde se dedicaram ao duríssimo trabalho entre os Hurões.

A missão em que perderam a vida Brébeuf, Jogues e os seus companheiros pode ser considerada uma das mais difíceis de todos os tempos. De facto, estes missionários conheceram condições tremendas de clima, alimentação e alojamento. Através de um país de grandes dimensões, venceram distâncias de várias centenas de quilómetros. Dedicaram-se, durante anos, à aprendizagem duma língua nova, sem qualquer laço de parentesco com as línguas europeias, para comporem um dicionário que permitisse balbuciar, em hurão, os rendimentos da doutrina cristã.

A todas estas dificuldades veio juntar-se a árdua prova do insucesso. Com efeito, depois de uma fase bastante reconfortante de amizade, os missionários encontraram, por parte daqueles a quem vinham anunciar o Evangelho, uma crescente e obstinada resistência. Segundo Brébeuf, esta deveu-se a três factores: imoralidade dos Hurões, apego aos seus costumes; e sucessivas epidemias, cuja responsabilidade atribuíam aos missionários. De 1637 a 1641 a missão viveu constantemente num clima de ameaças e perseguições. Como consequência, o ritmo das conversões foi desesperadamente lento. Só em 1637, após Seia anos de trabalho duro, é que Brébeuf pôde baptizar um adulto que não estivesse em perigo de morte. Em 1641 a missão não tinha ainda mais de 60 cristãos.

A partir de 1642, hordas de hordas de Iroqueses envolvem com uma imensa rede todo o país dos Hurões. Começam então os grandes desastres que continuarão até 1649: ataque aos comboios de canoas ou de gente a pé, correspondência dos missionários apanhada ou destruída; Hurões e Franceses capturados, torturados e massacrados, aldeias saqueadas e incendiadas. O resultado destas sangrentas perseguições foi o esmagamento dos Hurões e o martírio daqueles que tinham oferecido a sua vida para anunciar o Evangelho.

A missão dos Hurões desapareceu com o martírio dos que a fundaram. Da própria tribo, não restavam, em 1650, mais do que uma centenas de sobreviventes (de 30.000 que haviam sido). A dispersão dos Hurões teve como efeito a propagação da fé entre os povos da bacia dos Grandes Lagos do Canadá e das margens do rio Hudson. Estes convertidos formaram o núcleo das comunidades cristãs que os jesuítas irão fundar entre os Iroqueses e os povos do Oeste. Por um desígnio misterioso de Deus, a salvação dada aos Hurões no sangue dos Mártires, germinou e propagou-se por toda a América Setentrional.


Passados quase quatro séculos a missão de evangelização continua a ser muito difícil em muitos lugares do mundo, inclusivamente na velha Europa, onde a secularização avança a um ritmo acelerado. O impressionante testemunho destes oito jesuítas, canonizados por Pio XI em 1930, constitui para mim um forte sinal de esperança: quando o Evangelho é vivido e anunciado com dedicação e amor, nunca deixará de produzir os seus frutos, mesmo se décadas ou séculos depois.


Texto baseado na obra Santos e Beatos da Companhia de Jesus. Braga, Secretariado Nacional do Apostolado de Oração e Livraria Apostolado da Imprensa, 1974.



18 de outubro de 2009

Ainda vale a pena Servir?




As leituras deste Domingo falam-nos do servo: o servo e o sofrimento, o servo e a confiança, o servo e a redenção.

É na lógica do Amor que nasce o desejo de servir: aquele que se abre a esse Amor de Jesus – tal como Jesus Se abriu ao Amor do Pai e, por isso, só desejou fazer a Sua vontade – está disposto a entregar toda a sua vida pelo outro. Não se trata de um sofrimento masoquista, mas de uma entrega alegre. O Podemos de Tiago e João (no Evangelho) vem-lhes do desejo de ficar com Jesus, seu Senhor, para sempre, por terem já experimentado o Seu Amor e a Sua companhia.

Jesus sofreu a morte na cruz como consequência dessa entrega amorosa a cada um de nós. Tinha de morrer assim? Talvez não; mas Jesus não era extraordinário, desenraizado do Seu tempo e da Sua cultura, e foi aquele tipo de morte que Lhe tocou sofrer.

O dia-a-dia é feito de pequenas cruzes, pequenas mortes, que nem sempre sabemos aceitar. Que sentido têm “as dores”? Provavelmente, nenhum, temos mesmo de passar por elas. Conhecer o Jesus que sofre connosco, ser simples e pedir ajuda a quem está perto, faz-nos relativizar o menos bom da vida e passar por esses momentos felizmente, na esperança que vem do Seu Amor e da Sua companhia.

Se assim for, podemos servir cada um dos que se cruzar connosco, ajudando-o a carregar as suas cruzes e a suportar as suas mortes. Agora, aceitar as dores ganha leveza, não só porque nos sentimos acompanhados, mas também porque vemos nelas meio para servir quem precise. Só esta aceitação não resignada nos pode fazer ver a vida de modo alegre e confiado e só assim podemos ir cheios de confiança junto de Deus, como na Carta aos Hebreus.

No mundo do séc. xxi (especialmente o Ocidental), dominado pela concorrência, pela competitividade e em que o respeito pelo próximo é mais uma questão de individualismo do que de sentido de comunidade, como podemos ser estes servos? Estes homens e mulheres que alegremente desejam ser escravos de todos, entregando a sua vida?

Nas nossas casas, nos nossos empregos, com as pessoas com quem nos cruzamos diariamente, podemos viver esta entrega sendo disponíveis, acolhendo a diferença, esforçando-nos por compreender o que parece imperceptível.

Então, podemos responder: Sim, ainda vale a pena servir! Porque servir é pôr-me em relação, dar-me ao outro, conhecê-lo. Servindo de modo livre e alegre estou a salvar o mundo!

Esta semana, na agitação dos meus dias, em que dimensão da minha vida vou ser servo? A quem vou – livre e alegremente – entregar-me?


Domingo XXIX:

Is 53, 10-11;

Salmo 32 (33), 4-5.18-19.20.21 (R. 22);

Hebr 4, 14-16;

Mc 10, 35-45

16 de outubro de 2009

Mas que «Plausibilidade»? - Resposta a Ludwig Krippahl



Fiquei espantado quando li o post «Plausibilidade» de Ludwig Krippahl, no blog ‘Que Treta’. Tanto não foi, que me movi a escrever uma resposta ao mesmo.







Ludwig Krippahl diz nos que perante um relato temos estas duas hipóteses: “Ou o relato corresponde a um facto ou é um relato fictício”. Segue-se que devemos: “Considerar o mérito relativo destas hipóteses é um ponto de partida melhor que simplesmente optar por uma e ficar-se por aí.”
Contudo o que é o «mérito relativo»? Ludwig nada nos diz.
Como pode Ludwig apresentar um ponto de partida melhor, se não o explica? No que é que consiste esse seu ponto de partida?
Ora Ludwig apenas se remete a dizer: “ (…) avaliar cada hipótese para escolher a mais plausível.”
Vejamos os exemplos apresentados, o primeiro é de uma história Sumérica, sobre a condenação de uns assassinos: “ (…) relato factual é plausível (…)”; e um outro da descida aos infernos de uma Deusa Sumérica que regressou à vida volvidos três dias, observe-se que ele aqui faz uma analogia com a ressurreição de Jesus, que é o motivo pelo qual ele inicia o seu post criticando a crença na ressurreição de Jesus. Neste segundo exemplo Ludwig diz: “ (…) os acontecimentos relatados são implausíveis à partida.”

A única aparente justificação que Ludwig nos apresenta é: “É mais correcto considerar as várias alternativas, confrontá-las com as evidências que permitam avaliar a verosimilhança dos relatos (…)”
Contudo que evidencias são essas?
O Ludwig, nos seus exemplos, não expõe os critérios para as suas evidências. No primeiro exemplo somente diz que”(…)provavelmente estará próximo da realidade.”; no segundo,” (…) evidência que as pessoas gostam deste tipo de história.”
Será que estas «evidências» bastam para justificar algo?
Porque é que o relato da ressurreição de Jesus é implausível à partida? Com que critérios? Com que argumentos?
Pois bem ele não nos apresenta, é implausível só porque sim… Melhor é implausível porque “ (…) pessoas gostam deste tipo de história.”
Por isso eu digo, Ludwig é pobre na sua argumentação, não apresenta definições, nem explicações e o que diz é meramente vago.

Parece-me estar subentendido algo de «senso comum» nesta dada plausibilidade. Por isso sugiro que se observe a diferença entre plausibilidade e possibilidade.
Um relato pode ser factual não sendo plausível, e também um relato pode ser plausível e ser fictício. Vejamos o seguinte exemplo: se alguém me desse o testemunho de uma mulher ter sido mãe aos 65 anos de idade na Índia onde a esperança média de vida das mulheres ronda os 63 anos, eu diria que era um relato muito pouco plausível. Porém esse relato, «pouco plausível», constitui um facto verdadeiro. Na Índia, um país onde a esperança média de vida das mulheres ronda os 63 anos, uma mulher foi mãe aos 65 (<http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/030410_india1db.shtml>).
Agora vejamos um outro exemplo: vou na rua e encontro um amigo que me dá um relato de ontem ter se desmoronada uma casa num bairro X. Eu conheço esse bairro e sei que ele é composto por casas bastante velhas e mal tratadas. Por isso, o relato dele é plausível. Agora acontece que depois de o ter encontrado, seguindo o meu trajecto, passo por esse bairro X e vejo que nenhuma casa se encontra desmoronada. Então, um relato que se me apresentou plausível era na verdade um relato fictício.

Dei estes exemplos porque fica subentendido que para Ludwig somente o relato plausível deve ser aceite como um facto, e o relato implausível deve ser tomado como uma ficção. Mas esta atitude assenta num pressuposto: plausibilidade implica factualidade. Trata-se de um pressuposto que carece de justificação, e nem sempre se verifica.
De facto, com estes exemplos mostrei que a factualidade de um relato não depende primeiramente da sua plausibilidade, mas antes da sua possibilidade.
Termino dizendo que talvez o problema da proposta de Ludwig esteja, não só nos seus fundamentos, mas também em alguns preconceitos face à religião e aos testemunhos religiosos.

15 de outubro de 2009

A Expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses

“A Expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses” é o tema de um Colóquio Internacional que decorrerá nos dias 19 e 20 de Outubro na Biblioteca Nacional e que é promovido, entre outras instituições, pela Universidade Católica Portuguesa. Para lá dos objectivos pedagógicos desta iniciativa, é importante também o carácter de lucidez que este colóquio pode imprimir sobre a nossa visão da História: a nossa História como país. Já no século XVIII os jesuítas ofereciam um serviço educativo amplo, distribuído por todo o país e sistematizado na famosa “Ratio Studiorum”. Com a sua expulsão, Portugal perdeu mais do que hoje se pode imaginar. Numa altura de crise profunda do nosso sistema educativo, será da maior utilidade reflectir sobre este assunto. Outros temas do colóquio versarão acerca das sociedades amazónicas e dos projectos que nelas foram interrompidos, das crises diplomáticas de então e também da influência religiosa dos jesuítas do século VXIII.

Pode-se aceder ao programa e às inscrições a partir deste site

13 de outubro de 2009

14 Outubro - S. João Olgivie

João Olgivie nasceu na Escócia, em 1579 numa família da nobreza calvinista. Enviado para estudar no continente, converteu-se à fé católica e entrou na Companhia de Jesus em 1596. Depois de ordenado sacerdote e apesar dos elevados riscos, ofereceu-se para regressar à Escócia onde ajudou a fortalecer os católicos perseguidos. Denunciado, é preso e morto em 1615, por recusar-se a renegar a primazia espiritual do Papa. Foi canonizado por Paulo VI em 1976.


Qual o sentido de lembrar e celebrar este santo, vítima das sangrentas lutas religiosas da Reforma e Contra-reforma, quando domina a ordem do dia o diálogo ecuménico e a tolerância?

Em primeiro lugar, permanece intacto o testemunho de quem se recusou a comprometer o fundamento da sua vida. Num tempo em que os compromissos estão fora de moda, João Olgivie lembra-nos que não podemos ser felizes, verdadeiramente, se não tivermos bem claro aquilo que é essencial e não-negociável nas nossas vidas.

Por outro lado, as circunstâncias específicas do seu martírio (a palavra, que significa "testemunho", refere-se não só à morte mas a toda a vida) interpelam-nos para as relações entre aquilo que se costumava designar por "poder temporal" e "poder espiritual". Se por um lado, a separação da Igreja e do Estado parece ser uma realidade, o desconforto dos poderes públicos face à presença e visibilidade da dimensão espiritual na sociedade civil dá-nos que pensar. A Igreja não alveja mais (felizmente!) nenhum estatuto privilegiado numa sociedade laica, aberta, plural, mas também não se pode resignar a ficar confinada nas sacristias, nos estreitos limites de uma opção e prática estritamente privadas. São João Olgivie desafia-nos a viver a fé de um modo aberto, provocador até, mas não impositivo, de modo que a Igreja seja cada vez mais sinal da presença e do amor de Deus por todos os homens, como diz o Concílio Vaticano II: "a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano".

12 de outubro de 2009

Pobre, Casto e Obediente...até ao fim.

Na Igreja da Sé Nova de Coimbra, no passado sábado, o Pedro, o Filipe, o Samuel e eu, João, consagramo-nos ao Senhor, com o voto de Pobreza, Castidade e Obediência perpétuas na Companhia de Jesus e também com a promessa de entrar na mesma Companhia, para nela perpetuamente viver. Para estarmos unidos a Cristo e sermos participantes da sua própria liberdade para estarmos ao serviço de todos os que precisam de nós.


Foi uma cerimónia cheia de alegria e muito comovente…:D

A Felicidade era grande e presente em todas as pessoas que encheram a grande e bonita igreja da Sé Nova.

- Parabéns! - Diziam-nos.

- É Deus..É Deus, que está de Parabéns.

Estamos aqui porque Deus é muito grande! Porque o Senhor nos deu a sua graça para o desejar e oferecer…“…e assim como me destes graça para o desejar e oferecer, dai-ma também abundante para até ao fim o cumprir.” Fórmula dos votos


Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração (Lc 12, 34)

Ser pobre | Ser grato no que recebo e gratuito no que dou; como Cristo, não ter o coração nas coisas, mas em Deus e nos outros.

Tende em vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus (Fl 2, 5)

Ser casto | Ter o mesmo desejo criador de Deus, querer gerar uma humanidade segundo a felicidade e a liberdade de Cristo, que se assemelha à caridade, nada buscando para Si, mas para amar a cada um.

A verdade vos libertará. (Jo 8, 32)


Ser obediente | Encontrar em Cristo, o Homem plenamente livre, Aquele que atentamente escuta a vontade do Pai como força de verdade. A obediência é o meio com que se manifesta aos membros da Companhia a vontade de Deus.

11 de outubro de 2009


Dai-nos loucos, dai-nos sábios.

“Amei a Sabedoria mais do que a saúde e a beleza, e a preferi à luz,
porque a sua claridade não se extingue.
Todos os bens me vieram junto a ela, e havia em suas mãos riqueza incalculável.”

Esta forma poética de falar…mostra uma lucidez extraordinária que, em alguns momentos da vida, podemos ter. São situações nas quais vemos claro o que importa e o que não, o que enche a vida e o que não.


A última frase do texto fala das mãos da Sabedoria, e bem pode ser que faça referência aos efeitos na vida
que esta clarividência produz naquele que a tem. Mas há outra leitura mais profunda…

“Fitando-o, Jesus o amou e disse: “vai, vende o que tens, dá
aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.”


A Sabedoria tem mãos, porque a sabedoria é a consciência da paixão espantosa que Deus vive por nós. E, para nossa grande alegria, Deus tem mãos – Jesus tem mãos.
É hoje possível esta experiência? É hoje possível crer neste amor, arriscar-se a confiar?

Ontem, quatro homens, quatro místicos, quatro crentes fizeram os seus votos na Companhia de Jesus, na Sé Nova de Coimbra. E começaram a prometê-los com estas palavras: “Deus todo-poderoso e eterno”. Ou seja, o que estavam a dizer era algo assim como “Deus amante poderoso e eternamente fiel”. Eles têm tido a experiência. Outros, ao longo do mundo, também a têm.


Peçamos hoje, 11 de Outubro de 2009, ter a mesma experiência, embora única e irrepetível, de confiar no amor de Deus que se nos mostrou em Jesus Cristo. Peçamos a sabedoria pela qual vale a pena viver.

(leituras Domingo XXVIII tempo comum: Sb 7, 7-11; Hb 4, 12-13; Mc 10, 17-30)

10 de outubro de 2009

O bom senso

E começa assim a primeira parte do Discurso do Método, de René Descartes:

"O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída, porque cada qual pensa ser tão bem provido dele que mesmo os que são mais difíceis de contentar noutras coisas não costumam desejar mais do que o que têm."



6 de outubro de 2009

B. Diogo Luís de San Vítores


Natural de Burgos, nascendo por meados do século XVII, no seio de uma família abastada, Diogo Luís pediu, no auge da sua infância, para ingressar na Companhia de Jesus: tinha então apenas treze anos de idade.

Em 1660, já ordenado, partiu para América Latina como missionário. Passou pelo México, pelas Filipinas, onde anunciou o Evangelho vivendo-o. Por fim, pediu para ser enviado às Ilhas Marianas onde os cristãos eram fortemente perseguidos.

Estava determinado a anunciar o evangelho de Cristo a todos os que o ignoravam. Essa vontade de partilhar o tesouro que teve a graça de encontrar levou-o ao martírio. Realmente, numa das cartas que enviou ao Padre Geral, disse que não desejava «as missões por causa do martírio, mas por causa das missões». No fundo, era incapaz de esconder a fé que vivia dentro de si.

Diogo Luís mostra-nos um cristianismo sem dualismos, onde a fé e a oração não são apenas interiores ou meramente espirituais. Trata-se de uma fé que se manifesta em obras, em acções concretas, claramente visíveis aos olhos de todos nós.

4 de outubro de 2009

E os dois serão uma só carne


A Bíblia, Palavra de Deus para os cristãos, inaugura-se com a narração da criação. Narra-a no seu estilo mitológico, diferente do modo como a descreveria a nossa cultura de hoje, predominantemente científica. Não é, contudo, por isso que a narração do Génesis perde a sua pertinência, antes a mantém no significado humano que preserva. O excerto de hoje fala-nos da “origem” da mulher, retirada do lado do homem. Creio, ainda assim, que nos fala de algo mais do que da mulher ou do homem. Fala-nos da carne, uma só, que os dois formam.


Algumas linhas antes do excerto de hoje, Deus cria o ser humano, homem e mulher, para que cresça, se multiplique, encha a terra e a domine. Cria-os para o crescimento, para a fecundidade e para a acção responsável sobre o lugar onde lhes é dado habitar e os bens de que lhes é dado dispor. Cria-os para uma vida feliz, não de onde partem, mas para onde partem. É outra das imagens mais recorrentes da Bíblia, a do caminho para a realização da promessa, feita a Abraão, feita a Moisés e ao povo hebreu cativo no Egipto, feita à Igreja que nasce. No caminho vão encontrando essa felicidade, ora cumprida, ora comprometida pela dureza do coração.


A presente narração diz-nos sobre outra dimensão da mesma felicidade humana: que a mulher ou o homem não ficarão sós, mas buscar-se-ão um ao outro para, amando-se, viverem como um só, conhecendo a felicidade que não teriam se permanecessem em si. Uma vez mais, essa felicidade não é a condição de onde partem, no sentido em que não é uma realidade vivida à partida, senão no desejo, mas para onde partem, uma felicidade que podem viver já, mas que pede passos quotidianos. No caminho vão encontrando essa felicidade, ora cumprida, ora comprometida pela dureza de coração.


Jesus é questionado pelos fariseus quanto à lei do divórcio deixada por Moisés, na qual permitiu que se passasse um certificado de divórcio, para se rejeitar a mulher. «Pode um homem repudiar a sua mulher?». A resposta de Jesus é de uma exigência que nos surpreende. A dureza de coração de homens e mulheres (aqui sobretudo da parte de homens) levou Moisés a permitir que a mulher fosse repudiada por algo que fosse repreensível. Jesus não se perde na discussão acerca de que circunstâncias ou critérios definem esse «algo de vergonhoso» que tornaria o divórcio lícito, que circunstâncias ou critérios podem tornar a dureza de coração mais ou menos conforme ao projecto de Deus que se baseia, por oposição, no amor. Antes convida-nos, na vida conjugal, como em todas as dimensões da vida, a não sermos duros de coração. Deparados com o divórcio, ou com o casamento mal vivido, deixemos de lado a dureza de coração e aspiremos à felicidade que nos pertence como promessa do Pai, dando a cada dia os passos que levam da solidão do próprio umbigo ao encontro das necessidades e realização do outro, sem o qual eu mesmo não encontro a felicidade que busco.


4 de Outubro de 2009 - Dom xxvii do Tempo Comum
LEITURA I Gen 2, 18-24
SALMO RESPONSORIAL Salmo 127 (128 ), 1-2.3.4-5.6 (R. cf. 5)
LEITURA II Hebr 2, 9-11
EVANGELHO Mc 10, 2-16


3 de outubro de 2009

S. Francisco de Borja


Francisco nasceu em Gandia (Reino de Valência) no ano de 1510, filho primogénito do duque João de Borja. Primorosamente educado na corte do imperador Carlos V, casou em 1529 com Leonor de Castro de quem teve oito filhos. Sucedeu ao pai em 1542, mas depois da morte da mulher, renunciou ao ducado, fez os estudos teológicos, foi ordenado sacerdote em 1551 e entrou na Companhia de Jesus, da qual foi eleito terceiro Superior Geral em 1565. Foi notável a sua actividade na formação e na vida espiritual dos religiosos da Companhia, na fundação de colégios em várias localidades e na promoção missionária. Morreu em Roma a 30 de Setembro de 1572 e foi canonizado por Clemente X em 1671.


De uma sua carta a toda a Companhia:

«Todos nós somos peregrinos e, pelos votos que fizemos, já calçámos as botas e as esporas. Frustraríamos a nossa profissão se deixássemos de progredir sempre com grande diligência no caminho da perfeição, enquanto não chegamos "ao monte de Deus, o Horeb".

A primeira coisa que me ocorre dizer-vos é o que advertem as Constituições, no princípio da décima parte, ao tratar da conservação e do aumento da Companhia:
"Os meios que unem o instrumento com Deus e o dispõem a deixar-se conduzir fielmente pela mão divina são mais eficazes do que aqueles que o dispõem em relação aos homens. Tais são a bondade e a virtude, e especialmente a caridade e a pura intenção no serviço divino, a familiaridade com Deus, Nosso Senhor, nos exercícios espirituais de devoção e o zelo sincero das almas, sem procurar outro interesse senão a glória d'Aquele que as criou e as resgatou".


Palavras verdadeiramente dignas de serem por todos atentamente consideradas, por serem do pai que com tanto amor as deixou escritas para seus filhos. De facto, se repararmos bem, reconheceremos que, por não se empregarem estes meios que unem o instrumento com Deus e nos identificam pela caridade com o seu divino Espírito, é que nascem as divisões e as tribulações nas ordens religiosas.

Assim como pela secura da terra murcham as flores e os frutos das árvores, assim também, quando a alma se torna desleixada na oração e nos exercícios de piedade, secam-se as flores e os frutos espirituais. Por isso, quem pouco se exercita na meditação e imitação de Cristo crucificado, mal aprenderá a sofrer e cairá na impaciência. (...)


Grande remédio para os nossos males é a meditação da Cruz de Cristo!»