27 de dezembro de 2009

Sagrada Família

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados!


Ainda cantamos o nascimento do Menino Jesus e já a liturgia nos propõe nova festa: a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.


Um carpinteiro, da Casa de David, a quem o Senhor falou num sonho.

Uma jovem, Maria, a quem o Senhor pede que realize o Seu sonho: a Encarnação.

E um Menino, que nasce numa Família da Judeia, Jesus Cristo, nosso Salvador.


Antes do novo ano temos tempo para olhar este modelo de Família e “transportá-lo” para a nossa: o que andamos a fazer com os nossos filhos? o que andamos a fazer com os nosso pais?

Maria e José andavam aflitos à procura de Jesus e Ele tinha ficado na Casa do Pai. Que resposta é esta a de Jesus? Que inteligência é esta a de um Menino de doze anos, que surpreende quem O ouvia falar sobre Deus?


Na Casa do Pai. Era junto da Palavra de Deus, desse Exemplo, que o Menino Jesus Se sentia em casa.

Jesus voltou com os Seus pais para Nazaré e era-lhes submisso. Maria guardava tudo o que ia acontecendo no seu coração. José não entendia o que Jesus dizia e o seu silêncio revela-nos, também, o seu carácter.

Numa Família, cada um tem o seu lugar. Não queiram – nos dias de hoje – os pais ser filhos dos filhos nem o contrário; não queiram os filhos ter outros pais nem os pais ser os amigalhaços dos filhos. Queiram os esposos estar em consonância nas alegrias e nas aflições.

Poderemos assim, com certeza, crescer em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens, porque encontrámos o nosso lugar no seio do lar onde vivemos.

Hoje, depois de conhecermos, experimentarmos e vivermos a Ressurreição de Jesus sabemos que “Ele está no meio de nós” quando estamos reunidos em Seu nome. Está mesmo aqui, na nossa casa, nos nossos esposos, filhos, pais.


Sigamos o modelo e exemplo desta Família, da Sagrada Família.


Não é um bom propósito para o novo ano?



Leituras: à escolha Sir 3, 3-7.14-17a ou Col 3, 12-21; Salmo 127 (128); Lc 2, 41-52

22 de dezembro de 2009

Encarnação



Mas nós pregamos a Cristo crucificado,
que é escândalo para os judeus
e loucura para os gregos.

(1 Coríntios 1:23)


Deus feito Homem não faz sentido.
Quando anunciamos tal barbaridade, a ontologia grega fica baralhada e a teologia judaica fica indignada. Os gregos imaginam um deus perfeito e omnipotente, nunca frágil e acessível. Os judeus rezam ao totalmente Outro, nunca passível de tal proximidade.

Mas, apesar das muitas tentativas do nosso entendimento compreender Deus, Deus veio até nós e Revelou-Se próximo e frágil. Desmentiu os nossos esforços de O abarcar totalmente e, Revelando-Se, abriu-nos a possibilidade de uma relação mais verdadeira com Ele e entre nós.


Este natal, queria deixar neste blog uma pequena nota de estranheza, uma nota de escândalo e de loucura, porque se, por formação cultural ou por hábito, achamos normal que digam que Deus se fez homem estamos distraídos…


Tu andas nesta sala como um homem
o que para um deus é muito pouco
ainda que por louco alguns o tomem

Ruy Belo, in SENHOR DA PALAVRA

19 de dezembro de 2009

Propósitos de Natal (muito melhores que os de ano novo)


Qual é o objectivo da tua vida? Um destes dias frios de advento, enquanto dava um passeio pela cidade, resolvi demorar-me no olhar de todas as pessoas com quem me encontrasse. A pergunta que me fazia e que secretamente lhes fazia também a elas era: qual é o objectivo da tua vida? Qual é o critério que usas para as tuas escolhas? Das mais pequenas às maiores escolhas que podemos ou temos que tomar… qual é o critério que usamos? Da minha parte, já não vejo a vida à maneira do Alberto Caeiro e, por isso, não desejo mais deambular… embora ainda incorra nessa falta vezes demais.

Em primeiro lugar é certo que a vida é recebida. Não tomamos a decisão de nascer mas nascemos e estamos aqui. Em segundo lugar, também é certo que todos temos uma vida, isto é, uma história, uma rotina, hábitos, ligações afectivas, alegrias e tristezas… (por vezes não temos mesmo uma vida, mas uma vidinha). Por último e em terceiro lugar, todos temos desejos, apelos ou vontades projectadas num futuro mais ou menos próximo, mais ou menos distante. E também estas vontades são mais ou menos claras, mais ou menos vagas…

Se pararmos um bocadinho em silêncio (ou talvez mais do que um mero bocadinho) e se olharmos para dentro de nós, todos temos um desejo que é mais constante e mais subtil, ou por vezes mais pujante, mas que, se mantivermos este olhar introspectivo, nos fala e nos projecta para o futuro… temos sonhos; queremos ser alguém. Alguém diferente do que já somos hoje. Quando nos damos conta disto percebemos de modo absolutamente clarividente que podemos fazer escolhas. Não podem então deixar de surgir as questões: O que é que eu quero? Que quero ser, por exemplo, daqui a 5 ou mesmo 10 anos?

O que agora apresento é uma sugestão para abordar este tipo de questão. Comporta três passos, mas pode (e talvez deva) demorar a vida inteira.

Primeiro passo, Identidade. Quem sou, qual é o meu nome, cultura, história? De onde venho? De que filme faço eu parte? E que personagem sou? Talvez a mais fundamental das perguntas seja: Quem és Tu? Tu, que me criaste… Haverá muitas respostas, que Deus fará surgir em nós, e muitas novas perguntas também. Mas seja qual for o ponto onde chegar, estará dependente da fé como de um salto de confiança nas mãos de quem me está a construir. E, neste mundo complexo, facilmente perceberei que não me está a construir só a mim… não estou sozinho, nem posso ser sozinho.

Segundo passo, Valores Práticos. Este é um passo de encarnação, da minha identidade tomar forma rumo ao fim para que fui criado. Encarnar a personagem não é mero teatro. É ir descobrindo o meu papel real, que não tem que ser grande e que com certeza não é melhor do que nenhum outro. Valores práticos são por exemplo: o trabalho, o serviço, o cumprimento dos deveres. Mas também, o silêncio, o tempo para que Deus fale e torne a minha vida parte da Sua. É um passo de disciplina, mas, sobretudo, de aprender a discernir, sem pressas nem imposições, a vontade de Deus para mim (num altruísmo sem voluntarismos) e não a minha vontade ao serviço do meu egoísmo. Tomar umas notas, em papel ou simplesmente no espírito… é sempre importante nestes passos.

Terceiro passo, Missão. Nesta fase, ainda que não inventada, surge a missão. E a missão pode ser quase tudo, porque está agora mais dependente da Identidade com que a olhamos e dos Valores Práticos com que a realizamos. A missão é transcendente, recebida; escapa-se-nos das mãos. Vem sempre de fora. É sempre uma urgência do mundo, pela qual Deus nos fala permanentemente ao ouvido. Basta estarmos atentos. Basta aceitar que o que é real nos parta o coração, para que nós nos possamos partir por Ele.

Haverá desejo que valha mais a pena cumprir do que o maior? Ou será preferível o sono constante dos nossos desejos menores? Para mim é preferível, depender da Liberdade que Deus me coloca no regaço, esperar um Natal que promete dores de parto… do que ser escravo das minhas vontades líquidas e inconsistentes. É um caminho que se faz “escolhendo” e que se escolhe caminhando. Mais pela oração do que pelos raciocínios intrincados. “Quem é que, alguma vez, vai à guerra, à sua própria custa?” (1Cor9,7)

Neste Natal Deus quer oferecer-Se, nu, e encarnar nas nossas vidas. Como poderemos dizer-lhe que “não”?


13 de dezembro de 2009

Nisto consiste a alegria: não em que nós
nos tenhamos alegrado por Ele,
mas em que Ele se alegrou primeiro
por nós.

Quem disse que o Cristianismo, o Evangelho, a vida, eram tristes?

Muitas vezes, os cristãos. Mas isto não deixa de ser uma observação superficial.

A liturgia é a oração da Igreja como comunidade,
e ela guarda e exprime o mais sólido e profundo da Fé Cristã.

Segundo aquela, hoje é o Terceiro Domingo de Advento, que é nomeado como Domingo “de Gaudete”, isto significa: Domingo da Alegria.
Estamos a duas semanas da grande celebração, depois da Páscoa de Ressurreição e intimamen-te relacionada com ela: o Nascimento de Jesus. O Deus a quem todos o temos imaginado com os adjectivos típicos de Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente, mostra-se-nos como omnidepen-dente, omni-ignorante, presente num comedouro de vacas. E, como diz o Evangelho de Lucas, tudo era alegria em Belém!!!
Desde então, temos sempre um motivo para a alegria…como diz Jesus: “Já ninguém vos poderá tirar a vossa alegria!!!” (cf. João 16, 22).

Seria um exercício salutar procurar nos Evangelhos, nas Cartas Apostólicas e nos Actos dos Apóstolos (por serem os livros da Bíblia que transmitem mais directamente a experiência da Fé dos primeiros cristãos) a quantidade de vezes que se fala de alegria, gozo, maravilha…
Também no Antigo Testamento, nomeadamente nos Salmos, encontramos alegria por todos os cantos. A alegria por Deus estar connosco. Como mostra disto, hoje não vou a fazer alusão ao Evangelho deste Domingo, mas à leitura do livro de Sofonías e ao livro de Isaías (donde sai o Salmo, esta vez).

Peço aos leitores um exercício de escuta, hoje na missa: contem a quantidade de vezes que ouvem “alegria”, ou os seus sinónimos, nas leituras da celebração.
Adianto a primeira frase da 1ª leitura, para praticar:
Exulta, filha de Sião, rejubila-te Israel; exulta e alegra-te de todo coração, filha de Jerusalém!!!”

Quem diz que temos que ser tristes para sermos santos? Santa Teresa de Jesus, gostava de dizer que “Um santo triste, é um triste santo”. A Palavra de Deus, claramente neste Domingo, também nos mostra como a Alegria é marca e sintoma da cercania de Deus, e de nós com Ele.
Deus é alegre, como diz a primeira leitura de hoje, num anúncio do apaixonamento de Deus por nós (por cada um de nos!!!!):
“Ele exulta de alegria por ti, e te renovará com o seu amor, estará cheio de alegria por ti, como nos dias de festa”.

Paro aqui, porque se não vou fazer o exercício completo…

Por último, se reparamos bem, descobrimos uma coisa maravilhosa: a mensagem que fica depois de lerem as palavras em negrito deste texto, é que Deus alegra-se por nósantes de que nós nos alegremos por Ele (na Consoada, na Noite de Natal). Este é o nosso Deus. Esta é a Fé da Igreja, que celebramos na liturgia.

Bom Domingo a todos.

(Leituras de hoje: 1ª: Sofonias 3, 14-18ª; Sal: Isaías 12, 2-6;
2ª: Filipenses 4, 4-7; Evangelho: Lucas 3, 10-18)

12 de dezembro de 2009

D. Manuel Clemente - Prémio Pessoa 2009

Fiquei muito contente com a atribuição do Prémio Pessoa a D. Manuel Clemente. A sua «postura humanística de defesa do diálogo e da tolerância», aliado ao seu voraz «combate à exclusão social», levaram o júri a atribuir o Prémio Pessoa 2009 à pessoa de D. Manuel Clemente.

D. Manuel Clemente apresenta-se como um Homem de Igreja que sabe dialogar com a cultura numa sociedade secularizada: sabe escutar e fazer-se ouvir neste mundo que nos rodeia. Nesse sentido, creio que as suas palavras, em Portugal e os Portugueses, poderão ser-nos muito úteis, a nós, cristãos que procuram anunciar o Evangelho no século XXI.

Sendo impossível expressar toda a riqueza da obra, deixo uma pequena citação de D. Manuel Clemente que expressa o seu olhar em torno da sociedade contemporânea:

«a um mundo assim, teremos de responder, antes de mais, amando-o. Quero dizer, integrando com inteligência e coração a sociedade contemporânea, no que consegue e no que indaga: ganhando em cada domínio a maior competência, que o mesmo é dizer a maior verdade. E mostrando aí e nunca de fora – ou indo na onda das religiões da necessidade e da evasão – que Jesus Cristo não entrava, antes estimula a aventura humana, dando-lhe com a sua Páscoa um critério e uma esperança insubstituíveis»

Título: Portugal e os Portugueses
Autor: D. Manuel Clemente
Editora: Assírio & Alvim

9 de dezembro de 2009

Os grandes equívocos do ateísmo contemporâneo


1.Em anos recentes tem-se assistido a uma crescente actividade de indivíduos e instituições empenhados em contribuir para o extermínio da religião o mais rapidamente possível. Richard Dawkins parece ter sido eleito o Grande Líder deste movimento, e à sua volta, num litúrgico coro de muitas vozes, todas elas afinadas pelo mesmo diapasão, surge uma onda de lucidez que pretende realizar uma suma obra de misericórdia, a de trazer para a luz da razão os obscurecidos olhos dos crentes. Estes benfeitores da Humanidade batem-se com uma valentia e uma obsessão semelhante às dos cruzados de outrora para estabelecerem na Terra uma sociedade liberta de todos os grilhões.

2.Como já noutra ocasião aqui afirmei, o ateísmo contemporâneo tem um problema fundamental, direi mesmo trágico: quanto mais se esforçar por conseguir alcançar o seu objectivo – o desaparecimento da religião - mais contribuirá para a sua sobrevivência.

3.Com efeito, se formular críticas inteligentes e informadas às religiões, o ateísmo contemporâneo estará a fazer-lhes um favor: o de as ajudar a eliminar do seu interior todos os elementos irracionais e pagãos que nelas possam existir, contribuindo assim para que as religiões sejam cada vez mais genuinamente aquilo que devem ser. Quando criticam os bombistas suicidas muçulmanos ou o apedrejamento de mulheres em territórios islâmicos, por exemplo, estão a contribuir positivamente para um islamismo mais autêntico, porque mais humano. Há muçulmanos que também fazem a mesma crítica. E há cristãos, hindus, budistas, que fazem igualmente a mesma crítica. Os ateus, esperando destruir a religião através da denúncia do que é, de facto, denunciável, acabam por se encontrar, paradoxalmente, em boa companhia, a de muito dos crentes das diversas religiões!

4.Se, porém, o ateísmo contemporâneo investir numa crítica a pormenores anedóticos ou irrelevantes, como são as ‘denúncias’ do que dizem e fazem ‘santos’ e ‘santas’, bruxos e bruxas, videntes profissionais, etc; ou em imagens inacreditáveis de deus, com o de alguém que se diverte a mandar para o inferno os que não acreditam nele; etc., - nem sequer chegam a beliscar as religiões que em nada disto se reconhecem.

5.Na sua crítica às religiões, o ateísmo contemporâneo têm ainda uma fragilidade fundamental: à custa de se voltar para fora de si, para as religiões e para os seus elementos irracionais, bem como para os problemas que as mesmas religiões deixam em aberto, este ateísmo esquece que também nele há elementos irracionais e que também nele há questões em aberto.

6.O ateísmo contemporâneo fundamenta-se numa interminável cadeia de equívocos, de faltas de conhecimentos objectivos, de falácias, de imagens de deus que os próprios crentes rejeitam, etc. Tenciono apresentar aqui alguns dos grandes equívocos do ateísmo contemporâneo.

8 de dezembro de 2009

Imaculada Conceição


O dogma da Imaculada Conceição – que Maria, a Mãe de Jesus foi concebida sem pecado original – corresponde a uma reflexão, por assim dizer retrospectiva, da comunidade cristã. O pecado original tem tido várias interpretações e, hoje, não é certamente compreendido como o pecado cometido por Adão e Eva ao comerem o fruto proibido da árvore do paraíso. O pecado original corresponde mais a uma situação que a uma acção, a situação da tendência profunda, original no sentido ontológico de radical e não no sentido cronológico, de recusa da Humanidade em encontrar em si mesma e não em Deus o sentido último da sua existência, de procurar esse sentido último de costas voltadas para Deus até ao ponto de O negar. É essa, aliás, a mensagem subjacente à metáfora do pecado de Adão e Eva. A Mãe de Jesus foi sempre vista pelos cristãos como alguém cuja existência se tornou uma só com a de seu Filho e, por conseguinte, seria absurdo pensar que ela alguma vez pudesse não encontrar nele o sentido radical da sua vida. Para quem acredita que a vida humana não se divide em ‘fases’, mas é uma existência contínua desde o momento da concepção, faz todo o sentido para os cristãos a afirmação de que Maria teve, desde a sua concepção, isto é, em toda a sua vida, uma relação de unidade definitiva e radical a Cristo. Por isso mesmo, em vez de se falar de ‘pecado original’ podemos falar, no que se refere a Maria, de ‘virtude original’, uma virtude que ela viveu desde o início da sua vida, e que todos nós podemos procurar viver no dia-a-dia.

6 de dezembro de 2009

Preparar o caminho


Tenho receio de que a palavra de Deus me passe ao lado este ano. E se me passar ao lado, passar-me-á também o Natal, a vinda de Jesus. Receio isso porque vivo na cidade. O que parece um contra-senso, uma vez que na cidade tudo são luzes e enfeites e ‘christmas carols’. E mesmo sabendo que tudo isso tem muito de consumismo e superficialidade, esperar-se-ia, por outro lado, que tanta atenção sobre a quadra despertasse para uma consciência mais profunda do que afinal se celebra. Então porque receio que, por viver na cidade, a palavra de Deus me passe ao lado?


Nasci em meio urbano e vivi praticamente toda a minha vida em meio urbano, o que me agrada muito. Acho até que assim posso desfrutar mais dos prazeres do campo quando lá vou. Mas há algo que tenho aprendido a valorizar e que a cidade não pode reclamar para si. O silêncio. A cidade vive também do que é ruído, não apenas nos gritos, no trânsito, nas obras, nas máquinas, etc., mas ainda mais nas inúmeras caras, de pessoas, de marcas, instituições, ou outras, que reclamam importâncias, atenção, o nosso desejo.

A voz de Deus é discreta a maior parte das vezes, sem espalhafato. Na cidade é atropelada. No silêncio é voz que clama no deserto. Como água turva num copo, com alguma terra. Ou está agitada e a luz passa por ela com dificuldade, ou está em repouso e a terra deposita no fundo do copo, passando a luz livremente.

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto”.

A palavra de Deus passou por todo aquele ruído de caras e importâncias e a nenhuma delas foi dirigida. No silêncio do deserto, foi dirigida a João, o Baptista. João era água translúcida, na qual a luz entra livremente. E, tendo-lhe sido dirigida a palavra de Deus, parte como seu mensageiro:

Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus”.

Se permanecermos na imagem da água, João convida a procurar o silêncio, a deixar que o ruído se deposite no fundo do copo e a luz, a palavra de Deus, entre livremente. De certo modo, é este o seu baptismo, é esta a conversão de que fala. Assim será possível voltar os olhos para Deus.

Vou permanecer na cidade, ainda que haja mais ruído. Vou procurar este silêncio, mesmo no meio da confusão. E quando ouvir a palavra de Deus no meu coração e então puser n'Ele os meus olhos, terei encontrado o mesmo Menino que nasceu na gruta de Belém.

6 de Dezembro de 2009 - Dom II do Advento, Ano C
LEITURA I Bar 5, 1-9

SALMO RESPONSORIAL
125(126)
LEITURA II Filip 1, 4-6.8-11
EVANGELHO Lc 3, 1-6

5 de dezembro de 2009

The Passing of Common Sense

Encontrei na Crónica de Barbara Brenner(crónica de hoje) este texto.
É um ponto de vista sobre o panorama moral e social da actual sociedade Norte-Americana. Trata-se de um desabafo da autora, e convido cada um a reflectir sobre ele.


5 Dezembro de 2009,
Nova Iorque,
Barbara Brenner
Today we mourn the passing of a beloved old friend, Common Sense, who has been with us for many years.. No one knows for sure how old he was, since his birth records were long ago lost in bureaucratic red tape. He will be remembered as having cultivated such valuable lessons as: Knowing when to come in out of the rain; Why the early bird gets the worm; Life isn't always fair; and Maybe it was my fault.

Common Sense lived by simple, sound financial policies (don't spend more than you can earn) and reliable strategies (adults, not children, are in charge).

His health began to deteriorate rapidly when well-intentioned but overbearing regulations were set in place. Reports of a 6 -year- old boy charged with sexual harassment for kissing a classmate; teens suspended from school for using mouthwash after lunch; and a teacher fired for reprimanding an unruly student, only worsened his condition.

Common Sense lost ground when parents attacked teachers for doing the job that they themselves had failed to do in disciplining their unruly children. It declined even further when schools were required to get parental consent to administer Tylenol, sun lotion or a band-aid to a student; but could not inform parents when a student became pregnant and wanted to have an abortion.

Common Sense lost the will to live as the Ten Commandments became contraband; churches became businesses; and criminals received better treatment than their victims.

Common Sense took a beating when you couldn't defend yourself from a burglar in your own home and the burglar could sue you for assault.

Common Sense finally gave up the will to live, after a woman failed to realize that a steaming cup of coffee was hot. She spilled a little in her lap, and was promptly awarded a huge settlement. Common Sense was preceded in death by his parents, Truth and Trust; his wife, Discretion; his daughter, Responsibility; and his son, Reason.

He is survived by his 3 stepbrothers; I Know My Rights, Someone Else Is To Blame, and I'm A Victim.

Not many attended his funeral because so few realized he was gone.

3 de dezembro de 2009

Por dentro

Segunda feira, jantar fora. Terça feira, jantar fora. Quarta feira, jantar fora. Fim de semana, estar com os amigos! Sair e divertir-me. Enfim, uma vida cheia e da qual não nos podemos queixar. Mas a vida poderia ser bem diferente. Poderíamos não poder sair de casa, poderíamos, num caso extremo, não poder sair do nossa própria mente. Foi o que aconteceu a Rom Houben, como foi recentemente noticiado(ver no Público e na Zenit). Ficou 23 anos a habitar dentro do seu próprio “dentro”. Os médicos julgavam que estava em coma mas “apesar de completamente imóvel, Rom conseguia ouvir tudo o que lhe diziam. Ouvia os médicos falarem do seu estado de saúde e ouviu a mãe comunicar-lhe a morte do pai. Ouviu tudo isto sem poder chorar nem mexer a cabeça. Estava consciente e com um cérebro a funcionar, mas nunca conseguiu que o seu corpo comunicasse esse facto.”
O que impressiona não é este facto em si, porque, biologicamente tudo isto não deve causar admiração. O que, na verdade, causa admiração é que humanamente se possa viver assim. Viver com letra grande, viver com a dignidade que a vida em si mesma comporta. Recebida e não conquistada.
São elucidativas as frases que este homem, através de um sistema agora preparado para ele, finalmente fez passar para o mundo exterior. Cito:

1. “Impotente. Extremamente impotente. Inicialmente fiquei revoltado, mas depois aprendi a viver com isso”

2. “Viajei com os meus pensamentos para o passado, ou então para uma nova existência. Eu era apenas a minha consciência, e nada mais”


3. “Eu gritava sem que ninguém pudesse escutar”

4. “Fui testemunha do meu sofrimento enquanto os meus médicos tentavam falar comigo, até o dia em que renunciaram”


5. “Nunca esquecerei o dia em que me ‘descobriram’. Foi o meu segundo nascimento”

6. “agora quero ler, falar com meus amigos por meio do computador e aproveitar minha vida, agora as pessoas sabem que não estou morto”

Estas afirmações de Rom levam-me a concluir e a acreditar cada vez mais que é por dentro que encontramos o fundamento da vida. Não é numa escala de divertimentos e de condições materiais que a felicidade ou, se quisermos, a fecundidade humana se encontra. É preciso bem pouco. Basta a liberdade do olhar profundo de uma vida interior que a nossa sociedade deveria cultivar, mas que, talvez pela fragilidade dessa mesma liberdade, tantas vezes despreza.
A experiência de Rom diz-me, também, que na era da comunicação corremos, afinal, o risco de sempre. O de incomunicabilidade. Digo isto não pela “clausura” forçada deste homem, mas porque, tantas vezes, faltam as forças para acreditar que a comunicação existe e que, tal como Deus, é bem mais subtil do que os panegíricos e os flashes ultravelozes de uma banda-larga que, afinal pode ser bem estreita se não cuidarmos do nosso mundo interior e daquilo que nos constituí como humanidade viva, divina, e cheia de esperança.
Porque desistiríamos tão depressa da comunicação e do diálogo, só porque, a dada altura, nos pareceu que já não valia a pena? Porque subestimaríamos a vida? Não o faremos! Porque não somos condenados, mas homens livres. Desistir do homem seria a antítese da vocação humana.
É nos homens vivos que descobrimos o grande mistério da vida, essa comunicação inesgotável que só o amor pode criar, que brota de dentro de nós continuamente e que não tem outro desejo se não brotar. E aí sim, os jantares à semana, a noite de sábado, e quem sabe as viagens todas que poderei fazer no verão ganharão um sentido cem vezes superiror… ou então esse sentido estará todo no curto espaço dos dedos que ainda consigo mover ou da minha cadeira de rodas. Já não importa pois não? O que nos poderá faltar? Se, afinal, por dentro dos homens é que os homens são.