3 de janeiro de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco geral:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Equívoco 1:
“Se uma afirmação é digna de crédito, então ela pode ser formulada como uma hipótese empiricamente testável pela metodologia científica. A existência de Deus não é formulável como uma hipótese empiricamente testável pela metodologia científica. Logo, a afirmação da existência de Deus não é digna de crédito. ”

1. Qualquer pessoa que tenha conhecimentos mínimos de lógica reconhecerá aqui facilmente um argumento válido da forma modus tollens. Um argumento logicamente válido não é, porém, um argumento inatacável. Os melhores argumentos, como este, são dedutivos, o que significa que a conclusão sai necessariamente das premissas e, por isso mesmo, depende inteiramente delas. Isto significa que se alguma das premissas do argumento é discutível, também o será a sua conclusão. É o que se passa com este argumento. A sua primeira premissa encerra um equívoco: o de que os seres humanos baseiam a sua existência única e exclusivamente sobre afirmações não só empiricamente testáveis mas também empiricamente testadas segundo a metodologia científica. Segundo os não crentes, as crenças humanas têm que ser racionais e a racionalidade científica é a única de que faz sentido falar. Não se fundamentando na racionalidade científica, as crenças religiosas são irracionais e, por conseguinte, não são dignas de crédito.

2. Ora, não é verdade que a racionalidade humana se reduz à racionalidade científica nem, por conseguinte, que as crenças humanas dignas de crédito são as que se baseiam neste género de racionalidade. Muitas das crenças humanas nas quais se fundamenta a vida das pessoas comuns baseiam-se no testemunho e no crédito que elas se atribuem umas às outras. Não são o resultado positivo de qualquer teste científico a que essas crenças são submetidas.

3. Não tenho nenhuma prova científica de que a minha mãe me amou desde que fui concebido no seu seio. Não tenho nenhuma prova científica de que sou o fruto de uma relação de amor autêntico entre o meu pai e a minha mãe. Não tenho nenhuma prova filosófica ou científica de que Picasso foi um pintor excepcional, ou de que a música de Beethoven é superior à de Wagner, ou de que a poesia de Herberto Helder tem um valor excepcional. Não há nenhuma prova científica de que a vida humana começa no ‘momento’ da concepção, ou de que a eutanásia é a opção mais humana para quem quer terminar a sua vida em determinadas circunstâncias. Poderíamos continuar a enumerar as áreas da vida humana nas quais a racionalidade científica não tem nem a única nem a última palavra. Os críticos de arte não fazem qualquer apelo a testes empíricos realizados segundo a metodologia científica quando têm que atribuir um prémio ao melhor filme no festival de Veneza, ou ao melhor romance, ou livro de poemas num concurso literário.

4. A vida humana vive-se numa complexa rede de relações interpessoais no interior da qual se estabelecem relações de confiança pelas quais acreditamos em muitas coisas que não são demonstráveis nem filosófica nem cientificamente. O cristianismo surgiu precisamente de uma teia de relações que se estabeleceu entre os primeiros cristãos com base em experiências factuais dos contemporâneos de Jesus. Os cristãos não têm, pois, outro acesso a Deus a não ser a partir da experiência dos primeiros cristãos no seu contacto com Cristo que se apresentou como Deus em forma humana.

5. A história do cristianismo, tomada no seu conjunto de luzes e sombras, é fundamentalmente – e continua a ser hoje -, uma história de testemunho, um testemunho que se revelou credível ao longo de dois mil anos, e que tem sido transmitido de geração em geração. Em vez de tomarem a história do cristianismo no seu conjunto, os não crentes preferem fixar-se apenas nas suas sombras. Este constitui um outro equívoco, ao qual voltarei, e corresponde a uma metodologia que permite aparentemente justificar uma tese e a sua contrária, segundo se considera apenas um ou outro conjunto de elementos (luzes ou sombras).

6. Os não crentes continuarão a pedir aos crentes não apenas uma prova da existência de Deus mas uma prova que seja científica. Como se Deus fosse necessariamente semelhante a um campo gravitacional ou a uma galáxia. Continuarão a perguntar como sabemos cientificamente que os primeiros cristãos não se enganaram a respeito de Cristo. Como se eu devesse fornecer uma prova científica do amor que me têm os meus pais. O valor do testemunho não se mede pela racionalidade científica, a única que os não crentes em geral aceitam.

7. Há contudo algumas excepções. Desidério Murcho, um não crente, não reduz a racionalidade humana à sua vertente científica, como afirmou no Dererumnatura (20.12.07): “É um erro reduzir a racionalidade ao mero cálculo, à prova ou à experimentação. A racionalidade é mais vasta… Procurar justificar a crença na existência de Deus só não faz sentido se entendermos a justificação nessa acepção restrita e caricatural de justificação que tem o cientificista.”

8. Conclusão: o argumento acima citado e que nega fundamento à crença na existência de Deus, sendo embora válido, não é convincente, uma vez que a sua premissa maior carece ela mesma de fundamento.

Alfredo Dinis,sj

18 comentários:

Miguel Oliveira Panão disse...

Excelente! Como não podia deixar de ser. Estou certo que muitos não-crentes não aceitarão à primeira este equívoco, mas, pelo menos, dá que pensar.

Obrigado por este post e aguardo ansiosamente os próximos.

Abraço grande ... Miguel

Anónimo disse...

O autor toca, entre outros, num ponto muito interessante. De facto, para 99,9999% das pessoas, a ciência não passa de uma questão de fé. Como é que as pessoas sabem que a velocidade da luz é de 300.000 quilómetros por segundo? Sabem porque alguém lhes disse. Mais de 99,9999% das pessoas nunca a mediu. Como é que as pessoas sabem quais são as partículas que compõem
o átomo? Sabem porque alguém lhes disse e não porque elas as tenham observado... A ciência, para a quase totalidade das pessoas, é pois uma questão de fé. ACREDITAM no que os cientistas lhes dizem. Acontece, ainda por cima, que hoje a ciência é muito mais "humilde" do que era há umas décadas. Ela sabe bem que muitas das suas formulações não passam de hipóteses que vão sendo sucessivamente reformuldas ou até mesmo abandonadas. Mas esta questão de fé científica é muito menos segura do que a fé dos católicos. Como sabemos, há cientistas que são verdadeiramente fraudulentos. Enganam as pessoas por razões várias. Ainda recentemente a questão do "Watergate climático" no-lo veio relembrar. Os apóstolos, porém, que nos transmitiram os dados da revelação DERAM A SUA VIDA como testemunho daquilo que diziam. MORRERAM PELA VERDADE DO QUE DIZIAM.São muito mais dignos de fé do que os cientistas. Era bom que as pessoas pensassem nisto com um pouco mais de demora.

Xiquinho disse...

Um ateu que pede a um crente uma prova científica da existência de Deus é uma tolice que só tem analogia naqueles crentes que insistem que Deus existe, porque os ateus não conseguem provar cientificamente que não.

É um grande equívoco da parte dos crentes pensarem que os ateus andam preocupados com a existência de Deus, quando na verdade o que muito os preocupa são as malvadezas que fazem aqueles que se dizem seus representantes.

A meu ver, a pergunta que deve ser feita é o quê que Deus vem acrescentar a este mundo? Qual a sua mais-valia? Ou que utilidade tem Deus para este mundo? Ou que necessidade tem este mundo de Deus?

Como a resposta é sempre negativa, facilmente se conclui que Deus, mesmo se por hipótese absurda exista, a sua existência é totalmente fútil e supérflua.

Por contra, os crimes a que continuamente assistimos perpetrados em nome de Deus, a discriminação a que pretendem sujeitar a quem pensa de forma diferente e a violência a que estamos sujeitos por parte de quem quer impor o seu Deus pelo terror, são motivos justos, racionais e suficientes para termos tudo a ganhar e nada a perder com a erradicação das religiões e do fenómeno de Deus.

E é tudo o que me apraz dizer sobre tão equivocante matéria… Mas fico a aguardar com expectativa o equivoco 2 :)

Joao disse...

A.D.

Este texto todo faria sentido se fosse provavel a existencia de Deus. Ou Deus pudesse ser de alguma forma conhecido.

Mas não é. Não é distinguivel da fantasia. Isso não é conhecimento. Não há equivoco.

Eu não quero destruir a religião nem acho que seja possivel.

No entanto é obvio que voces estão a defender que acreditar numa ilusão é igual a conhecer a realidade usando todos os mecanismos para isso possiveis.

Joao disse...

Anonimo:

Quem acredita na ciencia como uma fé está enganado. É tudo o que posso dizer. A ciencia é só o que podemos fazer para nos aproximar da realidade. Não é deus. Mas nada é.

Lamento no entanto que o facto de haver crentes em ciencia não prove a existencia de Deus.

PS: O watergate climatico é uma fraude. Enquante watergate claro esta. Não há conspiração. Claro que para um cientofobo qualquer argumento é válido.

Joao disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joao disse...

E anónimo:

"Sabem porque alguém lhes disse. Mais de 99,9999% das pessoas nunca a mediu"

Isto é o cumulo da teoria da conspiração. Não se pode acreditar em nada.

Se para si toda o testemunho é anedotico, não importa estar sujeito a confirmação independente, ser descrito com rigor e sujeito a critica, então suponho que admita ser um solipsista no armario, não?

Acontece que racionalmente temos de pensar se uma determinado dado faz sentido ser inventado:

Como foi medido? Quantas pessoas chegaram à mesma medição? Quantas pessoas teriam de estar implicadas para esconder a verdade? Que explicação alternativa há para um valor diferente? Porque desejariam ter falcatruado esse valor? E etc, etc, etc.

A ciencia tambem tem resposta para isso como vez. Tinha de ter. Faz parte do processo cientifico. E a teortia da conspiração é o oposto de uma teoria cientifica por estas razões.

O problema é falarem de ciencie e querer impor limites à ciencia sem saberem tudo o que ela envolve.

É um processo delicado mas com conclusoes robustas.

E Deus não esta lá.

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Obrigado pelos seus comentários.

Afirma que há “aqueles crentes que insistem que Deus existe, porque os ateus não conseguem provar cientificamente que não”. Não conheço nenhum destes crentes.

Afirma: “É um grande equívoco da parte dos crentes pensarem que os ateus andam preocupados com a existência de Deus”. Mas esta preocupação transparece diariamente em todos os ‘sites’ ligados ao ateísmo!

Afirma: “o que muito os preocupa (aos ateus) são as malvadezas que fazem aqueles que se dizem seus representantes”. A mim, como crente, isso também me preocupa. E também as malvadezes que fazem todos os outros.

Pergunta: “que necessidade tem este mundo de Deus?” Para pessoas como o Xiquinho, este universo existe porque sim; cada um de nós existe porque sim; nasce-se, vive-se, morre-se porque sim. Para pessoas como o Xiquinho não há aqui nada de enigmático. Deus, realmente, não é necessário. Para outras pessoas o ‘porque sim’ não chega. O nascer, o viver, o morrer, o desejo de uma vida plena, imortal, de um amor que corresponda plenamente aos anseios do coração humano, etc., são questões que não encontram resposta simplesmente dizendo que não são verdadeiras questões. Negar as questões nem sempre é o melhor método de as resolver. Neste caso, para os crentes, não é. E também para muitos não crentes!

Afirma: “Como a resposta é sempre negativa, facilmente se conclui que Deus, mesmo se por hipótese absurda exista, a sua existência é totalmente fútil e supérflua.” Não entendo.

Afirma: “Por contra, os crimes a que continuamente assistimos perpetrados em nome de Deus, a discriminação a que pretendem sujeitar a quem pensa de forma diferente e a violência a que estamos sujeitos por parte de quem quer impor o seu Deus pelo terror, são motivos justos, racionais e suficientes para termos tudo a ganhar e nada a perder com a erradicação das religiões e do fenómeno de Deus”. Não. São motivos justos e racionais para acabarmos com todo o género de injustiça, seja ela cometida em nome da religião, da política, da economia, etc. Não é por alguém cometer um crime político dizendo que o faz em nome da democracia que eu decido lutar contra a democracia. Muitos regimes políticos, alguns deles felizmente já extintos, cometeram os piores crimes apelando para a implementação da democracia!

Saudações de Ano Novo,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro João,

Para si, Deus não é distinguível da fantasia. Não sei como chegou a essa conclusão e como a fundamenta. Não basta fazer afirmações, por muito que nos agradem.

Para quem vive a experiência da relação com Deus, que dá sentido à sua existência, a distinção entre Deus e uma qualquer fantasia não é difícil de realizar.

Cordiais saudações,
Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro Prof. Dr. Alfredo Dinis,

O seu post sobre os equívocos do ateísmo contemporâneo é extremamente interessante mas, na minha opinião, irónico por se basear, ele próprio, num equívoco. Parte o autor do princípio de que os (novos*) ateus defendem que uma concepção só é válida se for científica. Mas isto é falso, e é o primeiro equívoco da sua argumentação -- uma falácia do espantalho.

O que defendemos é que afirmações objectivas (e testáveis) são científicas, o que é, na verdade, um truísmo (é circular sem incorrer em petição de princípio, por ser uma relação de equivalência e não um argumento) e que as afirmações científicas podem ser consideradas verdadeiras ou falsas.

Por exemplo: dizer que Beethoven é superior a Wagner é uma afirmação subjectiva, e como tal não é científica. Logo, fazer um julgamento sobre a sua veracidade é algo que depende estritamente de mim, enquanto sujeito (e eu discordo da afirmação, enquanto o autor concorda com ela, o que é justo, por ser subjectiva). Assim, qualquer ateu aceita que algumas das nossas opiniões são não-científicas, nomeadamente aquelas de cariz subjectivo.

Agora, verificamos que a hipótese de Deus, em algumas variedades, é testável e, como tal, científica (caso em que é, geralmente, refutável). Mas na sua versão mais geral (deísta) a hipótese de Deus não é testável. Contudo, mantém o carácter de objectividade. Eu posso dizer «Deus existe, ou não existe», sabendo que uma das opções é universalmente válida, ao contrário do que acontecia com o juízo de valor sobre Beethoven.

Se, por um lado, em afirmações de carácter subjectivo nada há de errado em sustentar qualquer das opiniões, por outro em afirmações de carácter objectivo só é sensato acreditar numa das opções. Qual?

Aquela que a evidência empírica demonstra ser a) não-falsificada e b) parsimónica. Isto é válido mesmo no caso do amor da mãe, em que podemos estabelecer (e estabelecemos intuitivamente) a hipótese «a mãe sempre amou o seu filho» (se a mãe batesse no filho, essa evidência falsificaria a hipótese... como a mãe não o faz, embora nada falsifique a hipótese, é mais parsimónico concordar com ela). Da mesma forma, na questão da existência de Deus não nos podemos deixar levar por uma intuição, temos de inquirir objectivamente. Mesmo que nada falsifique a hipótese-Deus (o que ocorre nalgumas das suas variantes), a sua existência é redundante. Enfim, Occam matou Deus (e não Nietsche, infelizmente para a poesia deste comentário).

*O que há de tão novo no novo ateísmo, afinal? Bertrand Russell já tinha a nossa atitude de advocacia aberta... aliás, Epicuro já o fazia! Mas enfim, o rótulo é útil para nos distinguir dos nossos parceiros apáticos (ou, como têm vindo a ser chamados este ano, acomodacionistas).

***

Ao longo do comentário acima, falei estritamente enquanto indivíduo e (novo?) ateu. Gostaria de fazer um pedido, agora no papel de membro de um grupo que não compartilha necessariamente as opiniões expressas acima.

Ficaria extremamente grato ao prof. dr. Dinis se aceitasse o convite por nós realizado, via e-mail, a respeito da conferência sobre a compatibilidade do darwinismo e do cristianismo. A sua contribuição seria de grande mais-valia e profundamente agradecida. Quer se verifique, quer não, a possibilidade de realizar a dita conferência, ficaria, tal como os restantes elementos do grupo, extremamente grato por uma resposta.

Agradeço antecipadamente,
Gil Henriques

alfredo dinis disse...

Caro Gil,

Obrigado pelas suas observações.

Nenhum dos equívocos do ateísmo contemporâneo que tenciono analisar aqui, a começar pelo presente, se aplica do mesmo modo a todos os ateus. Mas do que conheço, creio que são muito representativos.

As afirmações éticas, estéticas, políticas, económicas, etc., não são necessariamente subjectivas. Como afirmo no meu texto, quando o júri de um concurso de música, arte, etc., se reúne para dar o prémio à melhor peça a concurso, a decisão é tomada com base em critérios objectivos mas não científicos. Do mesmo modo, as crenças cristãs têm base objectiva mas não científica, pelo menos no sentido que lhe dá o cientismo. A existência de Jesus Cristo é objectiva, a sua morte é objectiva, a sua ressurreição foi certificada pelos seus discípulos com base em critérios objectivos. A tradição cristã influenciou as diversas culturas humanas de uma forma globalmente positiva, embora os não crentes não o queiram admitir, preferindo falar apenas dos aspectos negativos da história do cristianismo. Sem o cristianismo, a Humanidade de hoje não estaria numa situação melhor. Dizer que o Deus dos cristãos é redundante parece-me, pois, sem fundamento. Acresce que para muitas pessoas, a história do mundo e da vida tal como é contada pela ciência está incompleta. A ciência explica tudo o que deve ser explicado pela metodologia científica, obviamente! Afirmar que ‘tudo o que há’ deve ser explicado pela metodologia científica é que não é óbvio. Para muitas pessoas só a existência de Deus permite encontrar o sentido completo do mundo e da vida, sobretudo da vida humana e da existência concreta de cada ser humano. Os ateus dirão que estas pessoas estão equivocadas. O mundo existe porque sim, a vida porque sim, a morte porque sim, etc. Esta ‘explicação’ é para eles suficiente. Por isso dizem que Deus sobra. Mas porque não poderão os crentes dizer que Deus é necessário e que, por isso, não sobra? Voltamos à questão da prova científica da existência de Deus?

A falsificação de uma hipótese, mesmo a do amor de uma mãe pelo seu filho não é tão simples como parece. Observa uma mãe a bater no filho e conclui que isso é a prova empírica de que não o ama? Para muitas pessoas, a correcção, mesmo através de algum castigo físico, é uma prova de amor, para outras é o contrário. Do mesmo modo, a evidência que falsifica a crença na existência de Deus e esta mesma existência é vista de formas muito diversas por pessoas diversas.

Caro Gil, uma das coisas que mais me maravilha nos ateus é o quanto se julgam possuidores da verdade acerca do mundo e da vida. Ainda que a imagem que têm dos crentes é que estes sabem tudo e não têm dúvidas nenhumas, isso não corresponde à verdade. Eu próprio estudei cinco anos de teologia mas não me considero de modo nenhum possuidor de todo o conhecimento acerca de Deus. Reconheço que há muitos aspectos da existência de Deus que não entendo. Reconheço que ao longo da história do cristianismo têm sido cometidos muitos erros em nome de Deus. Cultivo por isso uma grande humildade perante a complexa realidade do mundo, da vida e de Deus. É por isso que me espanto com as certezas praticamente absolutas que os ateus aprecem ter. Tudo para eles parece claro e evidente, parecendo maravilhar-se, por vezes irritar-se, com os crentes que teimam em permanecer no obscurantismo religioso quando a luz da razão está aí a mostrar como as coisas são sem margem para dúvidas. Nem todos os ateus terão esta atitude, mas muitos, mesmo muitos, a têm.

Terei muito gosto em partilhar as minhas reflexões sobre a compatibilidade ou não entre darwinismo e cristianismo, e reponderei em princípio positivamente se me for feito o convite a que se refere.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro Prof. Dr. Alberto Dinis,

Antes de mais, muito obrigado pela resposta aos meus comentários. Espero que entenda esta minha nova resposta, não como uma teimosia da minha parte, mas como uma continuação de um debate potencialmente frutuoso ou, pelo menos, interessante.

Diz o Prof. que «A existência de Jesus Cristo é objectiva, a sua morte é objectiva». É objectiva no sentido de ser, ou verdadeira, ou falsa, independentemente do sujeito que profere a afirmação. O mesmo pode ser dito da ressurreição: uma situação que pode ser classificada como objectivamente verdadeira ou falsa. Faltam-nos os mecanismos para afirmar qual das respostas é certa, mas à luz das possibilidades, uma análise imparcial dos factos leva-me a concluir (tentativamente, como em todas as análises metódicas) que é falsa. Isto porque a «certificação» que o Prof. apresenta (a confirmação por parte dos discípulos) não é digna de qualquer crédito. Ambos sabemos que o apelo às testemunhas só pode ser válido se as testemunhas forem credíveis, e os dados que temos sobre elas (por exemplo, contradições entre os seus escritos) fazem-nos concluir que as testemunhas definitivamente não o são. Caso aceitássemos o apelo às testemunhas como critério de verificação de hipóteses, teríamos de acreditar que neste momento, OVNIs raptam jovens mulheres um pouco por todo o globo! O absurdo da ideia só serve para melhor ilustrar o meu argumento...

O seu segundo argumento é que «Sem o cristianismo, a Humanidade de hoje não estaria numa situação melhor», o que é discutível, mas vamos aceitá-lo pelo prazer da discussão. Trata-se mais uma vez de um argumento falacioso, neste caso um apelo às consequências. É bastante claro que, mesmo que a crença em Deus tenha consequências positivas, isso não é prova da sua veracidade.

De seguida, o Prof. aborda a nossa presumível arrogância. «O mundo existe porque sim, a vida porque sim, a morte porque sim, etc. Esta ‘explicação’ é para eles suficiente. Por isso dizem que Deus sobra.» De novo uma interpretação errada da posição dos ateus, ou mesmo, neste caso, dos deístas. Nenhum ateu (bom, certamente haverá excepções, mas há-as em todo o lado...) afirma que as coisas existem «porque sim». A atitude do céptico é admitir que não sabemos porque é que essas coisas existem, e iniciar uma pesquisa metódica para o descobrir. Não é esta atitude muito mais humilde que a do crente, que responde confortavelmente que Deus fez tudo isso? O Prof. acusa-nos de julgarmos saber tudo, mas não vê que o oposto acontece. O ateu, e o céptico em geral, parte do princípio de que nada sabe, nada é claro, nada é evidente. Por isso, estabelece um método auto-correctivo e tenta procurar respostas com ele. E sempre que esse método contradiz o que julgava saber, abandona esse conhecimento passado em lugar do mais actual! Não é isto humilde? O crente, por outro lado, já tem a sua resposta: «foi Deus». Julgue algum árbitro imparcial qual de nós mais se «julga possuidor da verdade»...

***

Agradeço profundamente a sua disponibilidade. O contacto por e-mail já foi estabelecido há algumas semanas, sem resposta, tendo entretanto sido enviado um segundo e-mail. O endereço electrónico para o qual enviámos a mensagem foi o seu correio da faculdade de filosofia... Talvez o prof. tenha mudado de contacto? Caso contrário, não vejo motivo aparente para não ter visto já o referido convite.

Saudações,
Gil Henriques

alfredo dinis disse...

Caro Gil,

Os primeiros discípulos de Cristo deram a sua vida por ele, pela verdade do seu testemunho acerca do encontro com Jesus ressuscitado. Não lhe parece que isto nos merece crédito? O elemento contraditório que apresenta não tem qualquer valor. Os evangelhos não foram escritos por uma só pessoa, num mesmo tempo e numa mesma cultura. Os evangelhos começaram por ser relatos orais e só foram postos por escrito pouco a pouco. Daqui as discrepâncias. No essencial estão de acordo: Jesus ressuscitou e os discípulos tiveram a experiência do encontro com ele, a ponto de aceitarem o martírio. Poderá notar nos relatos discrepâncias de pormenor mas nunca de fundo.

Mais uma vez, parece-me importante colocar o cristianismo no seu contexto histórico. As consequências dos testemunhos dos primeiros cristãos nada têm a ver com os testemunhos de quem se diz ter sido raptado por OVNIS. O que se seguiu destes relatos? Nada. Não creio que seja possível comparar os testemunhos dos primeiros discípulos de Cristo com os testemunhos sobre OVNIS.

Afirma: “É bastante claro que, mesmo que a crença em Deus tenha consequências positivas, isso não é prova da sua veracidade.” De acordo. Do mesmo modo que mesmo que a crença em Deus tenha consequências negativas, como afirmam muitos, isso não é prova da sua falsidade, como pretendem muitos.

Sinceramente, não me parece que os ateus militantes partam do suposto de que nada sabem. Basta passear por dois ou três sites do ateísmo em Portugal para verificar que todos os dias as pessoas que ali se manifestam têm certezas infinitas. Quando o crente afirma que Deus é a explicação última do universo e da vida, e permite compreender o sentido da existência humana, deixa de fora infindáveis questões por esclarecer. Os ateus sabem com toda a certeza que Cristo não ressuscitou, embora não saibam do que falam. Os cristãos acreditam na ressurreição de Jesus mas não fazem a menor ideia de como se deu. Os ateus sabem com toda a certeza que não há milagres, embora não saibam do que falam. Os cristãos acreditam em milagres, mas não necessariamente na quebra das leis da natureza. Por isso, ficam com muitas questões por esclarecer. Para muitos ateus: Deus não existe, foi criado pela mente humana, é um produto da evolução biológica ao longo de milhões de anos pelo seu valor adaptativo, o mesmo se diga quanto aos valore morais, estéticos, etc. Os crentes dizem que Deus criou – ou cria! – o universo, mas não têm a mínima ideia de coimo isso aconteceu e continua a acontecer. Os ateus afirmam que o universo não precisa de um criador. Ponto final.

Meu caro Gil, aceito que a humildade possa estar também do lado de alguns cépticos e ateus, mas do que tenho lido, também nas obras dos ‘novos ateus’ norteamericanos e dos seus seguidores, dúvidas é algo que não encontro neles!

Finalmente, o endereço que estou a utilizar há alguns anos é o seguinte: alfredodinis.facfil@gmail.com.

Cordiais saudações,
Alfredo Dinis

Nuno Gaspar disse...

Cuidado prof. Alfredo Dinis!
Eu ficaria de pé atrás com quem faz convites com esta falta de elegância. Os ateístas não têm nada que se preocupar com a compatibilidade entre o cristianismo e qualquer teoria científica. Os cristãos é que podem estar interessados em actualizar a sua fé com as novidades que a ciência lhe transmite (ou com a falta delas). Para isso organizam reflexões como o congresso que você preparou em Setembro.
Isto cheira-me à história do banquete da raposa e da cegonha.

alfredo dinis disse...

Caro Nuno,

Obrigado pelo seu conselho.

O convite que me foi entretanto dirigido veio de um grupo de alunos do 12º ano de uma Escola Secundária próximo de Lisboa.

Já tenho ido a outras Escolas falar sobre temas diversos, entre os quais o da relação entre cristianismo e evolucionismo e creio que em todos os casos valeu a pena.

Saudações,

Alfredo Dinis

freefun0616 disse...

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Anónimo disse...

Religião: O refugio da Ignorância.

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

Ignorância de quê?

Alfredo Dinis