10 de janeiro de 2010

O Baptismo do Senhor.

Deus recapitulou todas

as coisas em Cristo (cf. Ef 1,10)
















O Evangelho que a Igreja propõe para este domingo fecha o tempo de Natal, no qual temos rezado e reflectido profundamente sobre a alegria de termos a Deus entre nós, como nós. Porque este evangelho, o evangelho do Baptismo, para cumprir com esta tarefa?

Como todos nós sabemos, no Baptismo a solidariedade de Deus com os homens, pecadores, é evidente no momento em que Jesus se põe na fila dos que vão ser baptizados. Na altura, e ainda hoje, essa celebração religiosa tinha uma grande carga penitencial, de perdão dos pecados. Este texto é muito denso e este comentário não pode falar de tudo o que nele há…mas sim podemos aproximar-nos ao grande mistério cristão que aqui fica belamente condensado.

Há uma frase de são Paulo na Segunda carta aos Coríntios (2 Coríntios 5, 21) que diz assim: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. Jesus estava na fila como mais um pecador…sem sê-lo. Mas a situação é muito mais profunda: Jesus (Deus nele) estava a carregar sobre si…a assumir em si o nosso pecado…para nós sermos libertados e levados à plenitude, divinizados (nós, em Jesus, o Cristo).

Se ficássemos por aqui, já não estaria mal…mas a mensagem cristã continua a aprofundar ainda mais o mistério da Encarnação de Deus em Jesus de Nazaré. O texto de Lucas, diz que tendo sido baptizado Jesus, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal como de pomba. E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho bem-amado; eu, hoje, te gerei!”

Segundo as traduções, no texto do Génesis, nos primeiros versículos (Génesis 1, 1-2) lemos que Deus criou o céu e a terra, e que esta era como um mar profundo coberto de escuridão; e um vento fortíssimo soprava à superfície das águas. Evidentemente, o texto ao que me estou a referir é muito rico em simbologia, mas o que quero sublinhar aqui é que esse “um vento fortíssimo soprava à superfície das águas” também é possível traduzi-lo, como tradicionalmente se fazia, por “sobre as águas pairava o espírito de Deus”, como as aves nos campos. É importante reparar em que o texto do Génesis é para a tradição cristã a base para falarmos de Deus como Criador, mas também como Pai.

Ainda vou trazer outro texto aqui antes de continuar o meu comentário, desta vez dos Actos dos Apóstolos (que alguns autores gostam também de chamar “Actos do Espírito Santo”…). Aí lemos (Act. 2, 1-4) o acontecimento da festa do Pentecostes, onde diz que “De repente, veio do céu um barulho, como o de um vento forte, que ressoou por toda a casa onde se encontravam. Apareceu-lhes, então, uma espécie de línguas de fogo que se espalhavam e desciam sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo.”

Bom, então temos o texto do Génesis (relativo, simplificando, ao Pai), o texto do Evangelho (relativo ao Filho) e o texto dos Actos (relativo ao Espírito Santo). E nos três temos a mesma expressão: o “vento forte”, ou “a pomba”…isto é…o símbolo da presença actuante de Deus. Ao tempo, temos também que o Génesis fala da Criação, o Evangelho da Encarnação de Deus em Jesus Cristo, e os Actos dos do Espírito Santo na Igreja já nascente…

O que é que podemos tirar de tudo isto? A tradição cristã tem compreendido e acreditado desde antigamente no mistério da Trindade, como a comunhão harmónica e amorosa entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo…partilhando a mesma vida divina.

Ora, a revolução cristã consiste precisamente em que em Cristo, os homens e toda a Criação ficam incorporados nesse mistério de comunhão que é Deus.

Quando Jesus é baptizado, como mais um na fila dos homens pecadores…é Deus quem está a libertar a todo homem e mulher, e por tanto a toda a criação, do poder do mal, da morte, da imperfeição…do isolamento (da falta de comunhão).

Por isso é importante o Baptismo de Jesus Cristo, porque é expressão de toda a mensagem cristã: Criação e Criador não são realidades absolutamente distantes…porque em Cristo a comunhão é atingida. Toda a realidade existe e está chamada a aprofundar até à plenitude a participação na vida divina, na Trindade.

Não é estranho, então, que o Evangelho de Lucas descreva uma manifestação trinitária depois de que Jesus seja baptizado: este homem como os demais, é Deus a incorporar plenamente na sua vida toda a realidade.

Chegados a este ponto, surge uma questão: como é possível para um cristão, se tem aprofundado o mistério do Baptismo de Jesus, e desde então do seu próprio baptismo…não considerá-lo o acontecimento central da sua existência, como o momento essencial de aceitação do projecto de comunhão plena com Deus e toda a realidade?

Meditemos seriamente e humildemente o texto evangélico de hoje, já que estamos perante o núcleo central do anúncio cristão. A comunhão do divino e do criado, em Jesus Cristo.

Convido os leitores que estejam baptizados a aprofundar no sentido do Baptismo tal como a Igreja Católica o exprime no seu Catecismo…e descobrir cada vez mais a maravilhosa acção de Deus na qual estão inseridos.

Foto: Rio Jordão, onde hoje está construída uma piscina na margem para celebrar baptismos.

Leituras do dia:

1ª leitura: Is 42, 1-4. 6-7

Salmo: Salmo 28

2ª leitura: Act 10, 34-38

Evangelho: Lc 3, 15-16. 21-22