31 de janeiro de 2010

O caminho de Deus

Foto: João Tuna - Breve Sumário da História de Deus


«Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações. Tu, porém, cinge os teus rins, levanta-te e diz-lhes tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles; se não, serei Eu a fazer-te temer na sua presença. E eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar»


Estas são as palavras que Deus dirige ao profeta Jeremias. Ele é profeta, enviado a ser voz de Deus, denunciadora e anunciadora. Denunciadora de toda a forma de injustiça, anunciadora da salvação de Deus, da sua misericórdia, da sua justiça. A mesma “vocação” de Jeremias é dirigida à Igreja, ela que é, com Cristo, povo de profetas.

No Evangelho do Domingo passado, Cristo, “segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito:

«O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres;
enviou-me a proclamar a libertação aos cativos
e, aos cegos, a recuperação da vista;
a mandar em liberdade os oprimidos,
a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.»”

Ele é o Profeta, a cuja profecia a Igreja tem a graça de poder dar voz. Esta é a sua profecia, a sua missão, o seu programa de vida.

O Evangelho de hoje é a continuação deste. E se o primeiro nos apresenta a missão que Jesus toma para a sua vida, o de hoje, por seu lado, condensa o que será a vida de Jesus, como a sua missão será recebida pelo seu povo. Primeiro, é aclamado pelos da sua terra; depois, rejeitado por trazer uma Boa-Nova que contrasta com os interesses dos que O escutam. “Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, fá-lo também aqui na tua terra.” Contudo, a resposta de Jesus é decepcionante: “Em verdade vos digo, havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.” Quem O escuta esquece-se que os prodígios que Jesus fez em Cafarnaúm e continuará a fazer até à sua morte e Ressurreição são secundários quanto a um bem maior que é anunciado e em nome do qual eles são sinal. Esse bem maior é o próprio Deus presente no meio dos homens. A justiça e salvação de Deus anunciadas feitas carne entre nós. Quem O escuta permanece surdo e cego. A sua atenção está presa ao proveito que lhes sobrará de alguém tão bem-falante e generoso. Não é a isso que Jesus vem.

Frustrados nas suas expectativas, “todos se encheram de fúria. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo”. É a mesma frustração e a mesma fúria que Jesus conhecerá naqueles que o ouvem sem a liberdade de acolher Deus tal como Ele é e Se dá, com gratuidade, sem O aprisionar naquilo que d’Ele esperam. Atentam contra a sua vida do mesmo modo que os chefes do povo o quererão fazer. Do mesmo modo o farão, expulso da cidade, de Jerusalém, do povo ao qual é enviado como Salvador, levado ao cimo do monte para aí ser morto, crucificado.

“Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho”. Segue o caminho da sua missão. A sua hora, aquela em que os pés que anunciam a paz hão-de ser travados, ainda não chegou. Este episódio é ainda apenas antevisão do mistério de toda a sua vida, uma vida marcada pela rejeição, pelo insucesso. Que Deus estranho!

Mas, precisamente porque também, quando chegar a sua hora, Jesus, padecendo, há-de seguir o seu caminho vencendo a morte com a Ressurreição, vencendo a culpa com o perdão, o ódio com o amor, a sua vida e a sua morte são uma história de triunfo. Os sinais dados nos seus prodígios e na sua palavra terão encontrado sentido, porque Deus, dando a vida pelos seus amigos, realiza o prodígio maior, aquele donde nos vem o maior e essencial proveito – salva-nos e toma-nos como seus filhos. Que Deus surpreendente! Talvez diferente do que esperávamos.

31 de Janeiro de 2010 - Dom IV do Tempo Comum, Ano C
LEITURA I Jer 1, 4-5.17-19

SALMO RESPONSORIAL
70(71)
LEITURA II 1 Cor 12, 31 - 13,13
EVANGELHO Lc 4, 21-30


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