29 de janeiro de 2010

P. Manuel Antunes Um utópico tranquilo

O P. Manuel Antunes nasceu na Sertã, a 3 de Dezembro de 1918 (dia de S. Francisco Xavier). Entrou na Companhia de Jesus em 1936, foi ordenado sacerdote em 1949, depois dos estudos de Filosofia (em Braga) e de teologia (em Granada e Lovaina). A partir de 1955 fixou-se em Lisboa, na revista Brotéria, primeiro como colaborador e depois director, de 1965 até 1982. Entre 1957 e 1982 foi professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de várias cadeiras na área da filosofia, história e cultura clássica. Como jesuíta participou nas Congregações Gerais 31ª (1965) e 32ª (1974) que procuraram adaptar a Companhia de Jesus às directivas do Concílio Vaticano II. Morreu em Lisboa a 18 de Janeiro de 1985.

Este jesuíta do mundo da cultura e em especial da universidade não foi um académico brilhante, grande especialista nalguma área do saber. A marca deixada pelo P. Manuel Antunes, em especial nos seus alunos, colegas, companheiros jesuítas e amigos não é a de um homem de um saber só, mas a de quem constrói pontes e convida à síntese.

O P. Manuel Antunes, como professor e, mais do que isso, como homem de cultura desempenhou um papel de relevo na área da educação, em anos de grande instabilidade e procura de orientações. O olhar atento sobre a realidade nacional não podia deixar de ver que na educação estavam, e estão, os principais desafios que o país enfrenta para ultrapassar as crises e as dificuldades. O fascínio que exercia sobre os seus alunos, e as suas reflexões na revista Brotéria valeram a sua associação a um “Mito do Pedagogo”, tendo chegado a ser convidado para ministro da educação.

A intervenção cultural do P. Manuel Antunes ultrapassou largamente o espaço dos auditórios onde leccionava e as páginas da Brotéria, chegando a todo o mundo intelectual e cultural de um país em mudança. Enquanto professor e redactor teve de enfrentar a censura do Estado Novo e as conturbações do período revolucionário, mas soube sempre recolher a admiração e o respeito de todos. A sua postura dialogante e conciliatória permitiu-lhe continuar a exercer as suas actividades, mesmo no meio da agitação.

Através de quase toda a segunda metade do século XX, o P. Manuel Antunes acompanhou a evolução social e política de Portugal, partilhando o seu olhar clarividente e apontando caminhos para o futuro. Depois do 25 de Abril, congratulou-se com a liberdade, mas não deixou de apontar os perigos que poderiam fazer perder a oportunidade da democracia. Perante as dificuldades materiais e as clivagens ideológicas, assumiu a postura de um realismo utópico, apelando a uma “revolução moral” que abrisse caminho ao desenvolvimento humano integral, privilegiando o ser face ao ter, não optando nem pela via da pura maximização do lucro nem da sacralização do poder. A sua profecia para Portugal apontava quatro objectivos estratégicos: desburocratizar, para tornar a actuação do Estado menos pesada, desideologizar, para alimentar ideologias sem fanatismo, desclientelizar, para acabar com o flagelo da corrupção e descentralizar, para assegurar uma verdadeira partilha do poder que o torne mais próximo das comunidades. O diagnóstico ainda hoje é certeiro…

A figura do P. Manuel Antunes marcou (e ainda marca) o panorama cultural português num tempo de transição (talvez ainda não terminado) para uma democracia consolidada. A sua descrição, ponderação e equilíbrio (à imagem da sua estatura física) fizeram dele uma referência e um apoio numa sociedade em busca de modelos, que viu nele a paciência e clarividência que ele mesmo pedia para Portugal. O P. Manuel Antunes pode por isso continuar a inspirar o país, enquanto homem que soube viver no e para o seu tempo, encarnando ideais que permanecem vivos e atractivos, lançando propostas que não perderam nada da sua urgência…

Para saber mais, aconselho a leitura do livro “Repensar Portugal”, do P. Manuel Antunes (reeditado em 2005 com prefácio de José Eduardo Franco) que reúne textos escritos entre 1975 e 1979.