17 de janeiro de 2010

sobre a atenção

No evangelho deste domingo, encontramos um momento muito iluminador. Ao perceber que tinha acabado o vinho, “a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho».” Esta declaração de Maria parece dar a deixa ao sinal feito por Jesus. A partir de aqui levanta-se uma pergunta que me parece muito séria. Se Deus nos pode dar tudo e é nosso Pai, porque temos nós de Lhe pedir para que Ele nos dê?


Creio que, em Maria temos a resposta a esta pergunta. Diz o papa Bento XVI que Maria não exige uma determinada resposta a Jesus, “ela simplesmente diz: «Eles não têm vinho» (…) Ela não lhe disse o que Ele tem que fazer. “ (Homilia do Papa durante a Santa Missa na Praça do Santuário de Altotting ALTOTTING,) Daqui podemos tirar duas lições para a nossa oração:


1) Que pedir é dispor-me a receber | Já todos certamente estivemos na situação de querer ajudar alguém que se fecha em copas e não reconhece que precisa de ajuda. Pedir não é exigir isto ou aquilo. Pedir é dispor-me a receber, porque se peço é porque reconheço que preciso, e se preciso abro-me a quem me ajuda. Reconheço-me frágil e pecador sozinho ou diante de Jesus?

2) Que a atenção é prévia ao pedir | Quem não é generoso na atenção, não pode pedir. A atenção coloca-nos no preciso momento que estamos a viver. É “a forma mais pura de generosidade” (Simone Weil), porque nos faz viver o presente, sem nos prendermos às expectativas futuras, que castram o espontâneo, e às comparações sufocantes que o passado suscita. Quando não estamos atentos ao que acontece em nós e ao nosso lado, nunca conseguimos reconhecer a fragilidade e a pequenez que nos fazem pedir, porque tudo o que é importante passa-nos ao lado. Tenho estado atento às notícias sobre o Haiti?


Terminei este segundo ponto com a pergunta sobre o Haiti, porque o momento presente é o que nos é dado viver. Todos podemos pôr mais ou menos perguntas sobre o porquê destes acontecimentos trágicos. A atenção tem um papel de relevo, porque não nos leva a um porquê meramente académico. Leva-nos a um porquê que tem carne. Jesus, porque é atenção-de-Deus-a-nós, também pergunta na cruz, como muitos homens ao longo da história: “Porque me abandonas-Te?”. Ele mesmo, por ser atento, faz a pergunta a partir da carne e não do pensamento abstracto. A atenção é generosa, porque traz carne aos nossos porquês e faz-nos viver o mundo a partir de dentro.


A atenção de Maria, é de uma finura vital, porque traduz uma atitude comprometida. Comprometida com o mundo concreto. Pela atenção, Maria assume a necessidade dos outros e comunica-a ao seu Filho. A atenção é nuclear no cristianismo porque a justiça do nosso Deus não tem por fim último uma redistribuição proporcional dos bens, mas, não esquecendo estas coisas, funda-se no assumir todas as realidades que me tocam. A ponto de chamar ao planeta terra: casa, e a cada ser-humano: irmão.


Ser atento é tocar o mundo a partir de dentro e confia-lo a Outro que o toque e transforme. Toque e transforme a água das nossas leis e aspirações, num vinho de sabor inextinguível, união realizada por Deus entre os homens, e entre os homens e Deus. (Santo Efrém (c. 306-373), diácono na Síria, doutor da Igreja)