15 de janeiro de 2010

Teilhard de Chardin (1871-1955) - visionário silencioso

1. Um homem surpreendente. Um dos aspectos que mais surpreendem em Teilhard de Chardin é o facto de ele não ser considerado, nem a si mesmo se considerar, filósofo ou sequer teólogo. Identificava-se mais como cientista. O facto é que hoje ele não é considerado um nome de referência nem em filosofia, nem em ciência, nem em teologia. E no entanto, os seus escritos continuam a atrair um enorme interesse, precisamente porque neles se encontram em diálogo estas três áreas do saber humano.

2. Um visionário. Teilhard, visionário silencioso, ousou fazer aquilo que está hoje ainda largamente por fazer: a integração das descobertas científicas contemporâneas nos discursos filosófico e teológico. A perspectiva evolutiva não apenas da vida mas de todo o universo abriu-se-lhe diante dos olhos como uma revelação, a revelação de um mundo que deixava de ser estático para se revelar num extraordinário dinamismo. Foi como se todo o universo que durante milénios foi representado como uma pintura definitiva, acabada e inerte, passasse a ser um filme cheio de acção e movimento.

3. Consequências. Para Teilhard, esta visão não podia deixar de ter consequências filosóficas e teológicas. As tradicionais categorias metafísicas estáticas nas quais se baseava uma teologia igualmente estática, pareceram-lhe como que retiradas do grande quadro final de uma aventura que durara apenas seis dias, os dias da criação, e que chegara ao fim no sexto dia. Tudo desde então permanecera substancialmente idêntico, imutável. Pelo contrário, a ciência revelou a Teilhard um mundo em evolução. Por outro lado, se Deus não se limita a olhar o mundo como um mero espectador, mas se envolve na história desse mundo, então já não podemos acreditar num Deus metafisicamente imutável. E o significado da incarnação de Cristo assume uma dimensão cósmica, não se limita ao planeta Terra – um grão de areia no universo. A história da criação do mundo tinha que ser contada desde o início em termos radicalmente novos. A criação de Adão e Eva e a narração do pecado original com base numa leitura literal do Génesis tornaram-se insustentáveis.

4. O que aconteceu a Teilhard? As suas propostas são de tal modo radicais que nunca pôde publicá-las em vida. Só a partir da sua morte os textos que deixou inéditos têm sido objecto de sucessivas edições em praticamente todas as línguas. E no entanto, esses textos estão oficialmente desaconselhados. Em 1962 e novamente em 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé confirmou o carácter pouco ortodoxo dos textos de Teilhard. É verdade que desde Paulo VI todos os Papas têm citado passagens das suas obras. Mas também é verdade que a teologia católica não está ainda preparada para incorporar os dados da ciência contemporânea no discurso teológico, nem a aceitar todas as consequências dessa incorporação, tal como procurou fazer Teilhard. Quando uma tal incorporação – necessária e urgente – se fizer, o cristianismo aparecerá aos olhos da humanidade como um visão do universo e da vida verdadeiramente fecunda amadurecida e credível.

Por Alfredo Dinis sj

28 comentários:

Anónimo disse...

De facto, Teilhard de Chardin foi um homem à frente do seu tempo.

Considero genial o facto dele ter interpretado a mensagem da Revelação Cristã à luz da Evolução.
A tese do Cristo cósmico, ponto centrípeto de toda a Criação para o qual Homem e demais coisas criadas convergem, é algo que me fascina.

Penso que o diálogo com a cultura contemporânea pode ser feito nestes termos, isto é, a incorporação da Teoria da Evolução na Teologia, aquilo que Teilhard de Chardin fez, na verdade, potencialmente permitirá que estabeleçamos pontes com o mundo hodierno.E a mensagem cristã sairá com certeza enriquecida com esta nova abordagem.

Em jeito de provocação: por que é que os Papas desde Paulo VI têm citado este autor, se, no que concerne a algumas das suas obras, não se recomenda a leitura?

Fábio Graa disse...

Eu vejo que o texto tem certos problemas:

1- Trata o evolucionismo como "descoberta científica contemporânea", quando, na verdade, se trata apenas de uma hipótese. Afirmá-lo como "verdade" é forçar as coisas, o que não é científico...

2- Algo substancialmente imutável não significa algo inerte, como o autor propõe. Deus é imutável! S. Paulo o afirma, a Igreja o afirma. A razão o diz! A mutabilidade implica imperfeição, pois a mudança se dá, ou no sentido da perfectibilidade, ou da defectibilidade. Se Deus muda, não é Deus. Do contrário, estamos mais próximos do panteísmo. Não à toa a filosofia de Chardin tem uma cara panteísta.

Bem, eu dizia que Deus é imutável, e isto não o faz um Ser inerte. Ao contrário, como Ser absolutamente livre, na Sua imutabilidade, Deus cria e Deus age. Cristo já dizia isto: "Meu Pai opera, e eu também".
A própria designação aristotélico-tomista de Deus como "motor" sugere que ele move, sem, porém, ser movido.

Um mundo que não seja evolutivo nos moldes darwinistas, portanto, não implica um mundo inerte. Deus é livre e fez homens livres. Estes homens agem no mundo e o transformam. Além disto, a matéria, de que o mundo é composto, possui muita potência e o princípio de corruptibilidade, o que lhe permite transformar-se. Esta transformação, porém, não é substancial, mas acidental. Temos então a mudança "em" algo, e não "de" algo. Portanto, o mundo não é necessariamente inerte fora da compreensão darwinista.

Depois, se diz que já não se pode acreditar num Deus metafisicamente imutável!!! E crê-se em que, entao? Num Deus mutável? Não percebe a gritante contradição disto?

Depois, há um repúdio total da possibilidade literal do acontecimento da Queda tal como descrito no livro do Gênesis. Uma coisa é dizer que pode não ter sido daquela forma; outra, muito distinta, é afirmar que não pode ter sido daquela forma. Esta última afirmação, até que se construa uma máquina do tempo, não pode propôr-se uma afirmação científica. O que temos, aí, é uma nova teologia. Mais uma vez, trata-se o evolucionismo como dogma.

O autor acerta quando diz que a "ciência" "revelou" a Chardim estas coisas. Não se trata de uma especulação, mas de algum tipo de "revelação" que, uma vez acatada, tomou o lugar da Revelação (esta sim sem aspas) que Deus fez de Si mesmo.

Fábio Graa disse...

Enfim, diz-se que a teologia católica "não está ainda preparada para incorporar os dados da ciência contemporânea no discurso teológico".. Se o autor conhecesse bem, por exemplo, os escritos do Papa Pio XII, veria que ele afirmou que a boa ciência jamais se oporá à Fé. A teologia, na sua substância, por corresponder com a imutabilidade divina, é também imutável na sua substância. Ela trata de verdades imutáveis, embora o conhecimento humano dessas verdades possa aperfeiçoar-se. Se as "descobertas" científicas hodiernas são, de fato, científicas e verdadeiras, é claro que elas não se oporão ao dogma católico, revelado por Deus em Seu Verbo. Interessante notar que a boa ciência não cessa de reafirmar as posições ortodoxas da Igreja.

Terminando, se diz que quando a Igreja aceitar a incorporação destas "verdades", incorporação supostamente necessária e urgente, "o cristianismo aparecerá aos olhos da humanidade como uma visão do universo e da vida verdadeiramente amadurecida e credível". O autor trata aqui do cristianismo como uma "visão", ou uma interpretação de como as coisas seriam. DEsculpe-me a pergunta, a qual faço de forma muito respeitosa: o autor deste texto é católico?

É no Verbo de Deus que todas as coisas assumem seu real significado. Ora, o Verbo de Deus revelou-se aos homens e constituiu a Igreja como a depositária e guarda fiel da verdade. Se, porém, o autor considera o cristianismo apenas como uma versão do mundo, então temos: ou uma descrença na revelação do Verbo; ou uma descrença na Igreja...

Enfim, depois de tudo isto, não me admira que Teilhard de Chardin, como bem diz o próprio texto, não seja um referencial, nem no campo da ciência, nem da filosofia, nem da teologia...

Pax et Bonum

Fábio

alfredo dinis disse...

Caro Fábio,

Obrigado pelos seus comentários.

Considero que a incarnação de Deus em Jesus Cristo só é possível se puder haver mudança em Deus. De outro modo, a incarnação seria apenas uma aparência, o sofrimento e a morte de Jesus não teriam sido reais e, por conseguinte, não nos teriam salvo.

Dizer que a teologia deverá incorporar os conteúdos da ciência foi algo afirmado por João Paulo II. Poderá ler a este propósito o meu texto "Porquê a ciência se temos Deus?" publicado recentemente na obra "Porquê Deus se temos a ciência?" (Ed. Esfera do Caos). É muito mais do que dizer simplesmente que não há incompatibilidade entre fé e ciência.

Não encontra hoje nenhum teólogo católico que defenda que o pecado original corresponde a uma interpretação literal do Génesis, como não encontra nenhum teólogo católico, que não aceite a teoria da evolução das espécies enquanto teoria científica, a qual obriga a repensar profundamente a questão do pecado original.

A resposta à sua 'provocação' já a dei no meu texto. O pensamento de Teilhard teve uma grande influência no Concílio Vaticano II, e foi muito apreciado pelos Papas Paulo VI e João Paulo II, bem como pelo actual Papa já desde o tempo em que escreveu a sua obra Introdução ao Cristianismo, há cerca de quarenta anos. Mas a aceitação 'oficial' do pensamento de Teilhard de Chardin levaria a uma mudança filosófica e teológica muito grande que a Igreja Católica ainda não está preparada para fazer.

Cordiais saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Fernando Castro Martins disse...

Professor Dinis,
Gostei das suas abordagens da figura e obras de Chardin. Ainda bem que pensa assim. Com padres deste modo, como ele e como o senhor, sempre nos vamos refrescando e tendo a certeza de que não é vá a nossa Fé.
Caro Fábio: Vejo que é muito jovem - ainda bem! -, pois terá muito tempo ainda para se abrir às surpresas de Deus. Mas não se feche nessa concha e, por favor, leia a Bíblia com a inteligência que Deus lhe deu.
Amistoso.

Fábio Graa disse...

Caros amigos...

Aprecio muito o tom respeitoso deste espaço. Portanto, permitam-me também, com a sinceridade da minha alma (desculpem-me se, nalgum momento, pareço ingênuo demais), tecer alguns comentários.

1- Se o professor afirma que há mudança em Deus, então a afirmação de Paulo sobre Deus ser imutável é, ou uma mentira, ou uma ingenuidade. E aí ferimos já um dogma da Igreja: o da inerrância bíblica. Ora, se a Sagrada Escritura não é inerrante, então não nos podemos fiar nela absolutamente.

Depois, se Deus é mutável, isto implica, como eu pus anteriormente, que seja ou perfctível (então não é perfeito) ou defectível (também não é perfeito). Ademais, nada garantiria que a mutação em Deus se resumisse à incarnação do Verbo. Teríamos um Deus sempre evolutivo e aí sim, temos algo idêntico ao panteísmo.

Sobre a incarnação propriamente dita, Deus imutável assume a nossa condição humana, isto é, um corpo e até uma alma mutáveis. Mas a sua substância divina, suas potências divinas não mudam de forma alguma.

A mudança em Jesus se dá enquanto homem, conforme escreve Lucas: "E Ele crescia em sabedoria, graça e estatura". A mutação na substância divina, porém, é um contra senso.

Sobre a questão da incorporação da Ciência na teologia, isto não tem nada demais, desde que, como bem o disse Pio XII, seja a boa ciência.
Afirmar, porém, que o evolucionismo é uma descoberta científica é extrapolar os próprios limites da ciência que absolutamente não prova. Depois, uma tensão entre as supostas descobertas científicas e o terreno da teologia, faria com que uma destas esferas estivesse incorreta. Se tens que a teologia é imperfeita, então não podes crer com segurança em nenhum dogma, pois estes seriam apenas tentativas de aproximações que, por ser mutáveis e evolutivos, procederiam antes da habilidade humana e não de revelação divina. Temos aí um grande problema.

Depois o professor diz que não se encontra nenhum teólogo que defenda a interpretação literal do Gênesis, bem como nenhum que negue o evolucionismo. E isto é, no mínimo, uma afirmação forçada. Claro que existem, e aos montes!

Fábio Graa disse...

Veja, por exemplo, o que diz Pio XII, na Humani Generis, sobre todo este assunto:

"Resta-nos agora dizer algo acerca de algumas questões que, embora pertençam às disciplinas a que é costume chamar positivas, entretanto, se entrelaçam mais ou menos com as verdades da fé cristã. Não poucos rogam insistentemente que a religião católica tenha em máxima conta a tais ciências; o que é certamente digno de louvor quando se trata de fatos na realidade demonstrados, mas que hão de admitir-se com cautela quando se trata de hipóteses, ainda que de algum modo apoiadas na ciência humana, que tocam a doutrina contida na sagrada Escritura ou na tradição. Se tais conjecturas opináveis se opõem direta ou indiretamente à doutrina que Deus revelou, então esses postulados não se podem admitir de modo algum.
Por isso o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento, contanto que todos estejam dispostos a obedecer ao ditame da Igreja, a quem Cristo conferiu o encargo de interpretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de defender os dogmas da fé. Porém, certas pessoas ultrapassam com temerária audácia essa liberdade de discussão, agindo como se a própria origem do corpo humano a partir de matéria viva preexistente fosse já certa e absolutamente demonstrada pelos indícios até agora achados e pelos raciocínios neles baseados, e como se nada houvesse nas fontes da revelação que exigisse a máxima moderação e cautela nessa matéria.
Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.
Da mesma forma que nas ciências biológicas e antropológicas, há alguns que também nas históricas ultrapassam audazmente os limites e cautelas estabelecidos pela Igreja. De modo particular, é deplorável a maneira extraordinariamente livre de interpretar os livros históricos do Antigo Testamento."

Fábio Graa disse...

O evolucionismo se tornou o novo dogma e, para acatá-lo, muitos desprezam os dogmas da Igreja, mesmo que ainda se digam católicos, o que é grande contradição. POrém, o evolucionismo não é provável cientificamente.. sinto muito.
O tal "elo comum" entre o macaco e o homem nunca foi encontrado. Além do que, as diverentes vertentes que defendem o evolucionismo, seja pelo estudo dos fósseis, seja pelo estudo dos genes ou o que for, costumam discordar totalmente entre si. Interessante notar que, geneticamente, o homem é muito mais parecido com o rato do que com o macaco.. Isto, claro, o professor deve saber.

Enfim, a mudança teológica que o senhor pretende, realmente a Igreja não está preparada para fazer, assim como não está preparada para abandonar a verdade, e nem deseja ou sequer cogita este tipo de preparação...

Enfim, se o senhor se dispuser ainda a perder tempo com este que vos escreve, respondendo os meus questionamentos, peço-lhe que os tome um a um, como eu faço com os que o senhor escreveu.

Agradeço a oportunidade.
Grande abraço.

Fábio Graa disse...

Caro Fernando
Se a fé é tão mutável assim, por que que não é vã? Pois se é mutável, é imperfeita e, se é imperfeita, é tudo, menos divina.

De fato, sou muito jovem, e que bom! Mas afirmá-lo não retira o valor do que escrevo, desde que o que eu escreva esteja correto.

Me recomendas a ler a Bíblia com a inteligência que Deus me deu. E é o que tenho buscado fazer! E percebo também que ler a Bíblia como se fosse algo que qualquer um pode interpretar a seu modo, numa flexibilidade total onde nada é certo e os símbolos podem variar ao bel prazer do leitor, bem no estilo luterano, não é inteligente!

E se chamas de "concha" a Barca de Pedro, pareces pedir que eu saia dela e morra afogado pelos sofistas hodiernos.. Ora, seja mais amoroso comigo. kkk..

Enfim, não tenha isto como uma ofensa. COnsiderar que a Fé é mutável e evolutiva tem muitas implicâncias que não são tão inteligentes... Ademais, os que costumam encará-la deste jeito, apenas o fazem porque pôem sua fé num outro, sejam Darwin, seja Lutero, seja quem for.. Esta fé, uma vez transportada, assume o caráter absoluto que só se legitimava naquela anterior, revelada pelo Verbo.

Grande abraço.

Fábio.

alfredo dinis disse...

Caro Fábio,

Afirma:

“Sobre a incarnação propriamente dita, Deus imutável assume a nossa condição humana, isto é, um corpo e até uma alma mutáveis. Mas a sua substância divina, suas potências divinas não mudam de forma alguma. A mudança em Jesus se dá enquanto homem, conforme escreve Lucas: "E Ele crescia em sabedoria, graça e estatura". A mutação na substância divina, porém, é um contra senso.”

Esta sua linguagem é mais filosófica que teológica. A distinção entre substância e acidentes não é de origem bíblica, tem origem na filosofia grega e foi adoptada pela teologia cristã, provocando acesos debates e controvérsias, sobretudo acerca da Santíssima Trindade. Nesta distinção, e segundo as suas palavras, a incarnação de Jesus foi acidental e não substancial, o que relega a pessoa de Jesus Cristo para uma posição divina não essencial. Sinceramente, não me parece que uma afirmação destas seja teologicamente aceitável. Mas, como afirmei, a distinção substância-acidente não é o único género de linguagem em que se pode exprimir o que pensamos saber sobre Deus. Há certamente aspectos de Deus que nos parecem imutáveis: o seu amor por nós, a sua fidelidade, o seu desejo de que todos se salvem, a sua misericórdia, etc. Serão estas características substanciais? Não me sinto obrigado a responder a uma pergunta como esta, uma vez que, como disse, não creio que o dualismo substância-acidente seja o único modo adequado de falar da natureza de Deus.

O conteúdo da Bíblia, bem como a sua inerrância, tem que ser entendido no conjunto do texto bíblico. Certamente que no Antigo Testamento Deus nos aparece como um Deus vivo, que vive intensamente a história de pecado e de salvação do seu povo.

É certo que a Bíblia não erra, mas nós podemos errar ao interpretá-la.

Quanto à teoria da evolução das espécies, há suficientes evidências empíricas que a fundamentam, como afirmou o Papa João Paulo II, e como afirma também o actual Papa Bento XVI. O Papa Pio XII manteve-se prudentemente no campo da hipótese porque no seu tempo havia ainda uma grande debate em torno desta questão.

Afirma ainda :

“Depois o professor diz que não se encontra nenhum teólogo que defenda a interpretação literal do Génesis, bem como nenhum que negue o evolucionismo. E isto é, no mínimo, uma afirmação forçada. Claro que existem, e aos montes!”

Repito que não há nenhum teólogo que siga os ensinamentos da Igreja desde o Vaticano II e os ensinamentos dos dois Papas mais recentes, bem como os ensinamentos expressos em diversos documentos oficiais da Igreja Católica, que afirme a existência do paraíso terrestre, de Adão e Eva enquanto personagens históricos e individuais, e negue a teoria da evolução das espécies. Se conhece algum, peço que me indique o seu nome.

No que se refere aos dogmas, eles são imutáveis, mas a linguagem em que são expressos é mutável, como se pode verificar facilmente através da história da Igreja. Por exemplo, a presença real de Jesus na Eucaristia é um dogma imutável, mas a forma humana de exprimir este dogma não é imutável, porque o nosso conhecimento acerca deste dogma pode, com a ajuda do Espírito Santo, aperfeiçoar-se.

As verdades da fé são expressas em linguagem humana. É nesta linguagem que a teologia procura exprimir o inexprimível, Deus. Por isso, a imperfeição da nossa linguagem coloca-nos numa atitude de procurar compreender cada vez melhor, em formas mutáveis, a imutabilidade da verdade acerca de Deus.

Cordiais saudações,

P. Alfredo Dinis,sj

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

Interroga-se o Fabio, mais acima: “... o autor deste texto é católico?”

Como se deduz da dúvida do Fabio, está dada a resposta à pergunta do equívoco n.º 2: Um crente que pensa inteligentemente não pode ser crente, pois este parece ser exactamente o seu caso: quando alguém inteligente tenta contribuir com um pingo de lucidez para a renovação que Cristianismo tanto precisa, (o que em si já é tarefa bastante bicuda), não pode ser católico :)

Eu, não o querendo ofender, não me atreveria a considera-lo como ateu, mas como pelos vistos também não é católico, fica assim aberta a porta para a sua inscrição na AAP ou na PAMAP. Se me disser qual delas prefere, terei todo o gosto em enviar-lhe uma ficha de inscrição, estou convicto que qualquer uma delas rejubilará de o ter ao seu lado :)

Renovados cumprimentos do xiquinho

Fábio Graa disse...

Caro Professor...

Desculpe-me, sinceramente, tomar o seu tempo.. mas estas ocasiões me são deliciosas e me propiciam também um bom aprendizado. Então, vou tomar um pouco mais do seu tempo... Espero que não se incomode.

A princípio, deixa eu esclarecer uma coisa acerca da minha pergunta sobre o senhor ser católico. Alguns têm postado como se eu o tivesse provocado. E não é bem assim. Como eu expressei na ocasião da pergunta, foi este um questionamento sincero.

Mas vamos continuar...

Primeiramente, o senhor diz que a linguagem que uso é mais filosófica que teológica. Ora... a filosofia se opõe de alguma forma à teologia? Será que a afirmação de Tomás acerca de que a Verdade filosófica não se opõe à verdade teológica, visto terem ambas a mesma fonte, é falsa? Depois, o senhor diz que a distinção real entre substância e acidente não é de origem bíblica... Ora, mas não estamos aqui seguindo a Sola Scriptura.. Ademais, tantas outras supostas descobertas científicas também não estão lá... Então, acho legítimo que na nossa discussão nos utilizemos de conteúdos extrabíblicos, desde que estes não contradigam diretamente o que lá está expresso..

O senhor escreve:
"Nesta distinção, e segundo as suas palavras, a incarnação de Jesus foi acidental e não substancial"
Ora, eu não disse isto. Eu escrevi que a substância divina é imutável. A doutrina católica afirma que Cristo continuou sendo Deus;em nada decaíram seus poderes divinos; mas isto não faz que a sua incarnação seja meramente acidental... Claro que estamos aqui em terreno complexo.. Mas a "União Hipostática" é a união de duas substâncias sem que se confundam... Em Cristo havia e há, verdadeiramente, duas substâncias. Não meramente um corpo que ele assumiu, como se um veículo para transportar a sua divindade; mas verdadeiramente a substância da natureza humana... Daí que dizer que a incarnação foi somente acidental, eu também não concordo; não sou, absolutamente, desta posição.

O senhor ainda diz:
"Há certamente aspectos de Deus que nos parecem imutáveis: o seu amor por nós, a sua fidelidade, o seu desejo de que todos se salvem, a sua misericórdia, etc. Serão estas características substanciais?"
São características provenientes da substância divina. Muito acertadamente, o senhor dirá adiante que buscamos exprimir o inexprimível; buscamos falar do Inefável... Estas composições de Deus em diversas partes, como o senhor faz aqui: "amor, misericórdia, desejo da salvação universal" também se inclui nesta tentativa. Mas Deus é uno.. TOdos estas características estão na mesma substância divina e, estritamente falando, são a mesma coisa. Como diz, se não me engano, Santo Anselmo no seu Proslógio: A dualidade "Misericórdia-Justiça" em Deus é a mesma coisa, de modo que a sua misericórdia é justa e a sua justiça é misericordisa... Então, são realmente características substanciais.

Fábio Graa disse...

O senhor diz:
"não creio que o dualismo substância-acidente seja o único modo adequado de falar da natureza de Deus."
E eu gostaria que o senhor me esclarecesse: O senhor não crê que seja o único adequado, ou o senhor crê que não seja adequado? Porque se não for o único adequado, é um dos adequados... então o que escrevi pode ser verdade, não?


"É certo que a Bíblia não erra, mas nós podemos errar ao interpretá-la."
De fato, mas isto com relação a certos termos ou afirmações equívocas. Porém, a expressão "Deus não muda" é unívoca. Não creio que a interpretação disto possa distinguir daquilo que o autor sagrado realmente quis dizer..

O senhor diz, quanto ao evolucionismo, que o que justifica o Papa Pio XII ter escrito daquela forma, é que no seu tempo não havia provas suficientes para elevar esta teoria acima do campo da hipótese... E agora as há, professor? Sendo que a ciência, entendida no seu sentido moderno, de corrente positivista, trabalha com demonstrações, experimentos, repetições, recortes bem definidos, controle das variáveis... é possível, dentro deste tão estreito campo, provar hoje o evolucionismo? Uma coisa, repito, é dizer que pode ou deve ser real; outra, muito distinta, e que transcende as possibilidades científicas atuais, é afirmá-la como verdade absoluta, a ponto de pôr uma flexibilidade nos dogmas católicos, que não sao dotados disto, para poder adequá-los a uma teoria que é somente isto mesmo: uma teoria.

Sobre a minha afirmação de que existem teólogos aos montes que negam a evolução e aceitam uma interpretação literal do Gêneses, o senhor me escreve:

"Repito que não há nenhum teólogo que siga os ensinamentos da Igreja desde o Vaticano II e os ensinamentos dos dois Papas mais recentes, bem como os ensinamentos expressos em diversos documentos oficiais da Igreja Católica, que afirme a existência do paraíso terrestre, de Adão e Eva enquanto personagens históricos e individuais, e negue a teoria da evolução das espécies. Se conhece algum, peço que me indique o seu nome."

PRofessor, primeiramente quero dizer que não vivo procurando referências neste sentido... Pelo que não sei por nomes. Posso somente afirmar que já li coisas a respeito. E, para satisfazer apenas de modo modesto a sua petição, posso somente indicar o Pe. Caldeiron, que, se não me engano, está à frente do movimento anti-evolucionista e organiza seminários e debates neste sentido. Não sei falar muito dele, mas fica o nome...

Agora o senhor restringe bem o campo onde se podem encontrar estes teólogos: tem que ser alguém "que siga os ensinamentos da Igreja desde o Vaticano II". E por que não, professor, desde Trento? E por que não desde Pedro? Há alguma mudança na natureza (pra não usar substancial, que o senhor não gosta.. rs...) da Igreja, naquilo que determina a sua essência, depois do Vaticano II? O sr. cita Bento XVI como uma força a favor da possibilidade da evolução. E eu o cito agora como alguém que condenou esta "hermenêutica da ruptura", que entende o Vaticano II como uma cisão entre a Igreja atual e a antiga. Ademais, se a Igreja é a guarda e portadora da Verdade, e a verdade é imutável, no seu aspecto principal, a Igreja não muda. A uma afirmação não se chama de antiguada ou nova, mas de verdadeira ou falsa. O Magistério anterior ao Vaticano II é, também, válido... ou não? Portanto, não entendo a sua exigência de que o teólogo deve ser fiel aos ensinamentos desde o Vaticano II...

Fábio Graa disse...

O senhor escreve:
"No que se refere aos dogmas, eles são imutáveis, mas a linguagem em que são expressos é mutável, como se pode verificar facilmente através da história da Igreja. Por exemplo, a presença real de Jesus na Eucaristia é um dogma imutável, mas a forma humana de exprimir este dogma não é imutável, porque o nosso conhecimento acerca deste dogma pode, com a ajuda do Espírito Santo, aperfeiçoar-se."

Corretíssimo, professor.. Mas aqui há algo para se esclarecer. Embora a linguagem humana possa mudar com relação a uma Verdade estabelecida, esta mudança está limitada pela própria natureza da Verdade. Legitimar qualquer mudança por este argumento é uma falácia. E aqui estamos, de novo, no campo da substância e do acidente... E o professor verá que não são apenas invenções teóricas, mas realmente se adequam à natureza e ordem das coisas. A substância ou Verdade determina o que se dirá. O que se diz deve se adequar à Verdade que quer expressar. Se pegarmos dois idiomas, por exemplo, e formos falar do mesmo objeto, os fonemas serão diferentes, mas a substância será a mesma. Só que a substância define o rumo do discurso e o limita aí. Portanto, a diversidade de formas acidentais, ou seja, de formas de expressão é limitada pela substância mesma do que se quer dizer. Se aceitamos isto, então notamos que certas mudanças verbais são ilegítimas para falar de algo.
Por exemplo, a Presença real de Jesus na Eucaristia, pra usar o exemplo do senhor:
Posso realmente falar de diversas formas desta verdade, mas a partir do momento que eu falo: A Eucaristia é um pedaço de Jesus, eu esto errado. Eu sei que isto é óbvio para o professor... com isto eu apenas quero fazer notar que nem toda mudança na forma de dizer é legítima.

Portanto, mais uma vez, professor, temos um problema.
"Deus é imutável" é uma afirmação unívoca. O senhor afirmou em outro post que não pode aceitar um Deus metafisicamente imutável. Creio que Paulo discordaria do Senhor, pois esta sua afirmação não pode ser uma interpretação válida da curta e unívoca afirmação paulina...

Mais uma vez, professor, agradeço a oportunidade.
Deus o abençoe e guarde.

Fábio.

Fábio Graa disse...

Caro Alfredo,

Vc escreve:
"Um crente que pensa inteligentemente não pode ser crente, pois este parece ser exactamente o seu caso: quando alguém inteligente tenta contribuir com um pingo de lucidez para a renovação que Cristianismo tanto precisa, (o que em si já é tarefa bastante bicuda), não pode ser católico :)"

A sua forma aparentemente calma de escrever não esconde a sua ofensa a mim, pois, segundo o que vc diz, eu, por ser crente, sou um burro...

E vc diz que o Cristianismo precisa de renovação.. Pra afirmar tal, vc deve então conhecer o cristianismo "de cabo a rabo, não?"..

Ou vc escreve pelo que ouviu falar?
COnhece a doutrina católica, os dogmas da Igreja, a teologia e filosofia católicas? Se não, parece que afirmação desinteligente não é a minha...



Professor Dinis...
Mais uma vez, agradeço o tom respeitoso com que tem me suportado...

Xiquinho disse...

Caro Fábio

Vç parece que se equivoca muito facilmente, caso contrário, nem me chamava Alfredo, nem pensava que eu tive a intenção de chamar-lhe burro, mas já vç o afirma, também não seja eu quem o vai contrariar.

E o motivo principal da sua equivocação foi não ter prestado atenção, que dois post atrás o Prof. Alfredo Dinis considerou que um dos equívocos do ateísmo contemporâneo consiste em achar que os crentes não pensam. E se vç acha que quem não pensa é burro, neste aspecto não posso deixar de concordar.

Acontece porém que o Prof. estava a ironizar quando afirmou que sendo crente, não podia ser de modo algum inteligente. E eu limitei-me a pegar nesta ironia, virá-la do avesso, para também ironizar que deduzindo da sua pergunta, o Prof. sendo inteligente, provavelmente não seria católico. Mas imagino a canseira enorme que não deve ser para si, perceber uma coisa tão simples.

Ora se quando um católico inteligente (que é o caso do Prof., não o seu, que sendo católico não me parece inteligente, apesar de também não parecer completamente burro) abre a boca para exprimir uma ideia inteligente são os próprios católicos que duvidam que o Prof. o seja, então pouco mais restará aos ateus para dizer sobre o assunto.

Da minha parte, apenas me resta ser o mais comedido possível com os elogios ao Prof. Alfredo Dinis, pois não lhe desejo mal, muito menos que lhe aconteça o mesmo que aconteceu a Teilhard de Chardin, embora, tenho que admitir, muito gostasse de me encontrar com ele aqui na China.

Por último equivoca-se mais uma vez quando diz que eu acho que o Cristianismo precisa de uma renovação: mas engana-se, por mim até podem deixar tudo exactamente como está, que é a forma mais rápida de o Cristianismo cair no abismo de que se aproxima lenta, mas inexoravelmente. O que eu acho é que os católicos inteligentes já perceberam que alguma coisa, que não me compete a mim dizer o quê, terá de se renovar para que o Cristianismo possa continuar a ser uma religião que no Séc. XXI, continue a fazer um mínimo de sentido, mas este, obviamente, não parece ser o seu caso.

Fábio Graa disse...

O "já que vc o afirma", meu caro, não se refere ao fato de eu ser burro ou não, mas ao fato de vc ter dito ou não. Bem.. Pelo menos, nada me interessa o que pensas a meu respeito... Me preocuparia, talvez, se eu fosse objeto dos seus elogios...

Depois, enganar-me do seu nome é o de menos... E chamar a atenção pra isso é típico dos sofistas...

Escreves:
"Ora se quando um católico inteligente (que é o caso do Prof., não o seu, que sendo católico não me parece inteligente, apesar de também não parecer completamente burro) abre a boca para exprimir uma ideia inteligente são os próprios católicos que duvidam que o Prof. o seja, então pouco mais restará aos ateus para dizer sobre o assunto."

Veja só... Leu uns 5 posts meus, e já se arvora o direito de me dizer "não-inteligente", e pensa talvez me elogiar em qualificar-me como "não completamente burro"... Interessante que é próprio da "sabedoria" de vocês (e não incluo aqui o professor) ficar de ofensinha ao invés de tratar de argumentos... Mas como eu já falei, suas opiniões sobre mim não me interessam..

E aqui identificas a "idéia inteligente" com a idéia evolucionista? Isto é um "a priori" pra você? Intocável? Qualquer um que discorde da teoria evolucionista está numa atitude desinteligente? Oh my Super God (Deus evoluído...)!!!

E, por fim, me dizes que estou equivocado ao atribuir a si a afirmação de que o Cristianismo precisa de uma renovação. Mas não fui eu quem escreveu isto: "(...)a renovação que Cristianismo tanto precisa". Ué... ??

E dizes que o Cristianismo aproxima-se "inexoravalmente" do abismo, uma afirmação realmente bem no estilo "mãe-dinah"...
Leste isto nalguma mesa de búzios?
O que há de se renovar é a fidelidade dos católicos à Verdade, pois o que vemos hoje é a triste realização da profecia de S. Paulo: "dias virão em que alguns, não suportando a verdade, dela apartarão os ouvidos e se atirarão às fábulas e contos de comadres".

Fico, enfim, feliz por perceber que não me enquadro no protótipo que vc faz de "salvador" do cristianismo...
A mim basta segui-lo e amá-lo como ele é...

Repudio totalmente esta conversa de querer mexer na religião fundada por um Deus e, como dizia Gustavo Corção, acho estranho que esta idéia possa ocorrer em alguém.

Anónimo disse...

Estive acompanhando a discussão, silenciosamente, pois não me vejo no mesmo nível de entendimento em que estão os demais participantes.

Mas já que Xiquinho postou...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Me diverti muito com o texto deste rapaz.

Porém tenho algumas dúvidas.
1. Xiquinho, você é chinê? É por isso que escreve um pouco ruim?

2. O que aconteceu a Teilhard de Chardin na China?

3. Você é católico?

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Obrigado pelo seu comentário.

Tenho que reconhecer que a sua afirmação "Um crente que pensa inteligentemente não pode ser crente" encerra uma contradição. Um crente é crente precisamente enquanto pensa inteligentemente. O que não significa que dois crentes tenham que pensar exactamente do mesmo modo, afirmação que vai contra a muito repetida afirmação dos não crentes de que os crentes têm que afinar todos pelo mesmo discurso porque não têm liberdade - nem capacidade? - de pensamento. O facto de eu e o Fabio não estarmos a dizer exactamente a mesma coisa ou, pelo menos, não do mesmo modo, mostra claramente que os crentes devem pensar também por si mesmos, embora num mesmo contexto doutrinal e comunitário.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Xiquinho disse...

Caro Fábio,

Não insista que eu fico de ofensinha, asseguro-lhe que nunca tive essa intenção: não fui eu que perguntei se o Prof. seria católico, pois não? Ora se isto não revela falta de inteligência, releva pelo menos uma falta de perspicácia tão grande que só tem paralelo com a sandice de quem pergunta se eu sou católico.

Não era minha intenção, mas já que me obriga uma vez mais a elogiar o Prof., confirmo que ele é o único católico inteligente que eu conheço, mas isso, claro, é com certeza deficiência minha, pois deve haver muitos mais, só que eu não os conheço. No seu caso, até ontem nunca tinha ouvido falar de si, por isso como deve compreender, desconhecia-o olimpicamente.

Agora uma vez que teceu alguns considerandos a meu respeito, não conte comigo para lhe responder com a mesma bonomia que distingue o Prof., pois eu no lugar dele, eu já há muito lhe teria esclarecido que “sutor, ne supra crepidam”.

Mas já que apresenta tantas dúvidas à Evolução, esclareça-me por gentileza: onde é que arranjou tantas certezas acerca da Criação? Ah, já sei: corrija-me se estiver errado, aprendeu na Bíblia online, a sua cyberbola de cristal, não foi?

Xiquinho disse...

Caro Prof. Alfredo Dinis,

Tenho que concordar consigo na primeira parte do seu comentário, mas discordar da segunda. A minha afirmação:"Um crente que pensa inteligentemente não pode ser crente" creio que facilmente se entende que é um sarcasmo, resultado da única dedução lógica que se pode fazer da pergunta do Fábio: quem não pensa de acordo com a sua (dele) doutrina, não pode ser católico.

Ora se é verdade que os crentes têm capacidade de pensamento, será que, e aqui vem a parte em que discordo, também têm liberdade para o fazer? Eu não creio, e isso está bem patente precisamente no caso de Teilhard de Chardin, que não me consta que tenha vindo exactamente de livre vontade passar férias à China.

Mas mesmo tendo os crentes capacidade de pensamento, de que lhes serve essa capacidade? Como está à vista de toda agente, quando alguém inteligente e corajoso tenta dar alguma lucidez à mitologia cristã, tarefa que a meu ver, é digna da dificuldade que tem um rico para entrar no reino dos céus, logo irrompem os fariseus profissionais a socorrerem-se da figura de S. Paulo para se empoleirarem na Santa Madre Igreja e bradar aos céus: “Ai, Jesus, acudam, que querem mexer na imutabilidade da coisa sagrada!!!”. Como se verifica, os vícios da instrumentalização não podiam dar noutra coisa.

Teilhard de Chardin constitui mais um exemplo trágico onde se verifica que religiões nem sequer aceitam as “críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas” vindas dos próprios crentes quanto mais vindas dos ateus. É pena, porque o catolicismo tem potencialidade para que os ateus deixem de ocupar grande parte do seu tempo a criticá-lo, para que possam dedicá-lo a criticar outros “ismos” muito mais inconvenientes. Infelizmente os fariseus do eterno sagrado que ainda abundam na cristandade, não querem permitir que uma coisa dessas aconteça.

Agradeço e retribuo as cordiais saudações e também os votos de Feliz Natal e bom Ano Novo que gentilmente me enviou.

Xiquinho disse...

Caro Anónimo,

Responderia às suas dúvidas se me merecessem respeito. Não é o caso.

Fábio Graa disse...

Caro Professor,
Não quisera eu fazer deste espaço um ambiente de troca de gracejos como noto ser a intenção do sr. "Xiquinho". Portanto, permita-me, só mais uma vez, responder a este senhor e, depois, não mais tecerei comentários que não sejam em resposta ao professor, se este se dignar responder-me, é claro. Desde já, porém, reafirmo minha satisfação em conversar consigo que, sendo professor, manteve sempre o respeito.

Caro Xiquinho...

Seu nome é muito sugestivo e, como me manda não tratar de coisas "acima das sandálias", eu bem poderia endereçar toda o seu texto a um bom "xiqueiro", Xiquinho... Desculpe o erro de português, é que este "xiqueiro" é específico...

Sobre a minha pergunta de se o professor era católico, eu já tinha postado que era uma indagação sincera.
E permita-me contar-lhe, quase desenhando, o que aconteceu. Eu tinha o blog do professor como um blog tradicional. Portanto, minha expectativa era de que encontrasse aqui também conteúdos tradicionais. Quando, porém, li o texto e percebi a defesa de Chardin que aqui se fazia, estranhei e ao ver a afirmação de que Deus é metafisicamente mutável, então já não tive mais certeza. Compreendeu? Qualquer coisa leia 15 vezes...

Dizes que o professor é o único católico inteligente que conheces e admites que isto é uma deficiência sua.. pois é mesmo. Primeiro pelo óbvio: as pessoas que se conhece ou se deixa de conhecer são um problema pessoal. Depois, pq para que entitules alguém como inteligente, este alguém deve corresponder a algum modelo de inteligência que tenhas... Provavelmente, só precisa ser darwinista...

Sobre o seu gracejo em latim, sugeres que trato do que não sei.. Ora, dizer assim é fácil. COmente os argumentos, meu caro...Refute-os... Ou você, na sua escola de sofistas, somente aprendeu argumentos "ad hominem"?
Tem uma parte que ainda sugeres que eu tenho uma doutrina.. Não... Apenas busco ser fiel à doutrina da Santa Igreja...

Fábio Graa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fábio Graa disse...

Depois, em mais uma "prova" sofista, Dizes:
"já que apresenta tantas dúvidas à Evolução, esclareça-me por gentileza: onde é que arranjou tantas certezas acerca da Criação?"

kkk... E aqui há vários problemas:

1- Esquivando-se de responder as questões, distrais a conversa pra outro terreno. Isto só mostra que vc é mais um dogmaticozinho que se satisfaz na sua tola pretensão intelectual... Nem sabe responder as questões que levantei; nem sequer as considera, parece... e com este escotoma, te tornas um crédulo discípulo de Darwin..

2- Sugeres que, ou se é Darwinista, ou Criacionista... Mas e o professor? O professor é católico e é Darwinista. Será que, por isto, ele nao acredita na criação? No caso dele, tem a criação como algo processual. Mas, e a primeira "bactéria mutante", como surgiu? Não sabes que do nada ao ser mais simples há um abismo? Sabes pelo menos que o nada não evolui? Ou o seu "Origem das Espécies" não fala dessas coisas? Fala não, né?

3- Eu poderia crer na evolução e permanecer católico, mas não o faço por motivos racionais, alguns dos quais elenquei já ao longo destes comentários. Mas e você, é livre pra crer no criacionismo? Talvez vc me diga que sim, mas muito provavelmente vc esteja vedado pela sua doutrina provavelmente ateísta. Se és ateu, não sei... aparenta.. Mas como vê, não tenho bola de cristal pra competir com a sua mesa de búzios...

4- Creio no criacionismo, além dos motivos racionais que já falei, também porque a Bíblia e a Igreja dizem. Claro.. Mas convenha comigo: a Fé é mais conveniente no campo da Religião do que no da "ciência", não? Eu sendo um catolico e tendo fé não caio em nenhuma contradição. Mas o senhor, com o seu porte de suposto "sábio", tem fé em Darwin.. E???? Como que fica?
E é fé sim senhor.. Como eu já escrevi em outros posts, a evolução NÃO é demonstrável... Do contrário, envie-me um video com um experimento onde o prove que o macaco, a galinha ou o feijão (diferentes conclusões reais provenientes de diferentes correntes evolucionistas acerca do ancestral do homem) evoluem para o homem... Please...

Enfim, Xiquinho.
Também não lhe quero mal. Você até me divertiu...
Apenas espero que Deus lhe ajude a ver melhor...


Professor, mais uma vez, agradeço...

Pax et Bonum...

Xiquinho disse...

Caro Fábio,

Agradeço a gentileza que teve em avisar que não vai responder ao meu comentário, poupando-me assim o sacrifício que seria, ter que responder ao seu.

Faço votos para que se continue a divertir-se muito pois está em boa idade para isso.

freefun0616 disse...

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José disse...

Sem dúvida que Teilhard de Chardin foi de uma visão que muita celeuma provocou no seu tempo, e que se perpetua.... A História conta o abandono forçado do Instituto Católico de Paris, onde leccionava, e o exílio na China, a proibição de voltar ao ensino no regresso a Paris, o controlo dos seus escritos, suspeitos de conteúdo herético e de um misticismo acatólico. Ou mesmo a dificuldade e ostracismo na obtenção do Imprimatur e do Nihil Obstat, que lhe impunham, sempre que os escritos passavam por uma revisão em Roma, cuja resposta se prolongava, e nunca chegava… E o que se diria da condenação de Pio XII e da Humani Generis, que em grande parte visavam o nosso polémico autor (ele mesmo reconheceu) e a avançada doutrina que proporcionava a um mundo que se surpreendia com as suas afirmações, mas cuja autoridade religiosa preferia silenciar… Apesar disso, os seus escritos circularam e circulam até hoje… Admirado por tantos, muitos filhos de Santo Inácio se enfileiram à sombra dessa bandeira, desconsiderado por outros, teólogos e cientistas, pois dificilmente compreendem entre a sua doutrina uma proposta com alguns desencaixes, em ambos os campos. O cardeal Schonborn, autor de um polémico artigo há não muito tempo no New York Times enquadra-se entre os críticos. Fortes críticos. Mas afinal, não seria este Cardeal encomendado por Bento XVI para um aprofundado estudo sobre o Criacionismo e o Evolucionismo? Ainda hoje, a Igreja parece não desejar encaixar as teorias de Chardin nessa perspectiva. O próprio Santo Padre, felizmente reinante, catalogou a elaboração filosófica e teológica de Teilhard como “insatisfatória”. (Vide Criação e Evolução UCEditora). Isto não impede, e com razão, que tantos Doutores o ensinem na sua Cátedra, nas Universidades Pontifícias e Católicas. Bem hajam!