7 de fevereiro de 2010

Chamados, convocados, enviados.

“Porque mandas, lançarei as redes”

Temos motivos para ter esperança? E para acreditar em Deus? Parece que Simão tinha, já que de outro modo…não vejo como foi possível que um homem duro como ele era, acostumado às duras condições da vida de pescador, acreditasse na palavra dum homem vindo de Nazaré, onde não há mar.

Simão não só faz o que Jesus diz…mas, segundo o que podemos ler no texto, a sua confiança obtém recompensa: a pesca é muito grande.

“Pescador de homens”

Para a Bíblia, o mar é símbolo de conflitos e de perdição, onde habitam as forças opostas a Deus.
Por isso, tirar os homens do mar não pode senão significar que a missão recebida por Simão, pela autoridade de Jesus, é uma missão de libertação: tirar da perdição, do mal, todos os homens.
É fundamental neste texto que caíamos na conta de que é Jesus quem chama e dá poder e missão a Simão Pedro.
A vocação é uma experiência de relação com Deus, que nos leva a viver duma maneira deter-minada. E, é sempre Ele quem tem a iniciativa, que tem a autoridade. Nós não temos nenhum poder sobre Deus.

“Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador”

É experiência compartilhada por aqueles que alguma vez tiveram consciência de estarem na presença de Deus e sentiram a sua pequenez e pecado. Perante “o Santo”, como Deus é chama-do na Bíblia, isto é, o totalmente diferente, o homem cai na conta do seu limite…e torna-se humil-de. Às vezes, esta experiência é tão intensa que podemos sentir inquietação, e até medo.
As palavras de Jesus são as únicas que podem dar pleno sentido à nossa vivência: “Não tenhas medo, desde hoje serás pescador de homens”. Não tenhas medo: mesmo com distância e respeito a Deus que gera em nós pavor…só o próprio Senhor tem a autoridade, o poder, de nos devolver a paz. Só Cristo situa a relação com Deus com toda a exactidão. Ao olhar como Ele nos olha…reconhecemos quem somos, e quem somos para Deus. O temor servil dá lugar ao amor filial. Aquele é ainda auto-centramento (preocupamo-nos pela nossa segurança), este é já centra-mento em Cristo.

O encontro com Jesus Cristo muda a vida. Se calhar essa é a principal razão pela qual as pes-soas rejeitam as possibilidades de encontro com Ele, porque intuem que, de facto, é incompatível com a comodidade e a preguiça. O que acontece, então, connosco, Igreja europeia?

A humanidade encontra-se à beira de um abismo: basta muito pouco para nele precipitar-se, tal é o seu (nosso) egoísmo e o seu (nosso) gosto pelo poder e a comodidade. Hoje, ser pescador de homens significa participar em todos os empreendimentos que querem livrar o homem dessa per-dição, e que concorrem para arrancar a humanidade do perigo que a ameaça. Uma Igreja jamais poderá fazer crer na sua vocação de pescar homens se seus membros estiverem fora desses movimentos de salvação, ou se se contentarem por intervir ao amanhecer, sem se cansarem durante a noite com todos os homens. A Igreja só pode revelar o amor de Deus partilhando esse amor com os homens.
A Igreja, como comunidade dos chamados por Cristo a serem pescadores de homens, é res-ponsável pelo nosso mundo e pela sua salvação ou perdição. A quem muito foi dado, muito será exigido.
Os cardeais Martini e Tucci colocaram na Internet um site (http://www.vivailconcilio.it) com a intenção de reavivar o espírito e o impulso transformador que o Concílio Vaticano II tinha trazido à Igreja Católica. É significativo este acto, vindo de duas personalidades da máxima autoridade moral no seio da comunidade dos convocados pelo Senhor da História e Salvador da Humanidade e da Criação.
Uma das ideias principais do Concílio é a de que a Igreja é o Povo de Deus, onde os pastores servem, guiam e ajudam os cidadãos desse Povo, que anuncia e constrói o Reino. Desde então, os leigos e leigas são os protagonistas desta História de Libertação que é a vida das sociedades e dos indivíduos transformados pelo encontro com Cristo.
Os anunciadores de Deus, e o estilo de vida que Ele gosta, não são já, fundamentalmente, os padres nem as religiosas, mas os leigos e as leigas. Mas para anunciá-lO, é preciso tê-lO conhe-cido. Para conhecer a Deus é preciso que Ele se revele. E esta revelação é um acto soberana-mente livre, é iniciativa sua, totalmente gratuita. O homem não tem poder sobre Deus, e se o inventa à sua maneira e gosto, não adora o Deus vivo, mas a si mesmo…e perde a esperança.
O Cristianismo é o encontro com o Deus vivo, verdadeiro por que está vivo. Este é Cristo.
Revelação, vocação e missão estão intimamente unidas.
O nosso mundo precisa com urgência de esperança, assim como a Igreja europeia. O evange-lho é claro: só n’Ele devemos pôr à esperança. Só então, seguindo-O, pescaremos homens, res-gataremos vidas.

Leituras do dia.

1ª leitura: Isaías 6,1-2a.3-8
Salmo: nº 137
2ª leitura: I Coríntios 15,1-11
Evangelho: Lucas 4,21-30

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