28 de fevereiro de 2010

Conhecer e ouvir o Verbo. Viver.


Segundo Domingo da Quaresma. Segundo Domingo deste tempo a que chamamos tempo de preparação. Mas preparação de quê? Da Páscoa. Sim, mas não só. É tempo de preparação da vida. E preparação para quê? Para a Páscoa. Sim, mas não só. É tempo de nos prepararmos para a vida. E preparar para a vida para quê? Para vivermos.

Ouvindo do Pai o verbo ouvir: “Este é o meu Filho predilecto. Escutai-O” (Lc. 9, 35), vejamos o que o próprio Verbo, Jesus, nos diz hoje, através do Evangelho de S. Lucas.
Apesar de nos poder parecer um pouco estranha esta passagem do Evangelho, a Transfiguração de Jesus, levando-nos, possivelmente, a pensar num Jesus mágico que de repente começa a brilhar, este é um acontecimento onde Jesus revela já a sua condição de verdadeiro Deus e de verdadeiro Homem.
Recuemos um pouco neste Evangelho de S. Lucas e lembremos Jesus a perguntar aos discípulos: “Quem dizem as multidões que Eu sou?” (Lc. 9, 18). Nessa altura, Pedro responde: “O Messias de Deus” (Lc. 9, 20). É de facto a confirmação desta afirmação que Pedro, Tiago e João, vão ter no monte.
E porquê no monte? Diz-nos o Papa Bento XVI: “Na busca de uma interpretação (desta subida ao monte), depara-se-nos em primeiro lugar o simbolismo geral do monte: o monte como lugar de subida, não apenas de subida exterior, mas também de ascese interior; o monte como um libertar-se do peso da vida diária, como um respirar no ar puro da criação; o monte que oferece o panorama da criação em toda a sua vastidão e beleza; o monte que me dá elevação interior e me permite intuir o Criador. (…) Moisés e Elias puderam receber a revelação de Deus no monte; eles aparecem agora, na transfiguração, a conversar com Aquele que é a revelação de Deus em pessoa” (in Jesus de Nazaré, Lisboa, A Esfera dos livros, 2007, pp383 e 384). O que nos poderá dizer esta conversa de Moisés e Elias com Jesus? O aparecimento de Moisés poderá significar que Jesus será quem nos levará agora pelo caminho da salvação. Jesus deve realizar o novo “Êxodo”, pela sua morte, ressurreição e ascensão. E o de Elias poderá querer relembrar que se esperava a sua volta para preparar a chegada do Messias (Ml. 3, 22-24). Por outro lado, mostra-nos que Jesus não aparece do nada, não está desligado do Deus do Antigo Testamento, do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob.
A Transfiguração é já um anúncio da glória pascal. Por isso, porque este Jesus que se revela aqui é o Jesus Cristo, que morrerá (como Cordeiro será sacrificado também num monte, no monte Calvário) e ressuscitará, os três conversavam “rodeados de glória”.
Mas se, para Pedro, Tiago e João, este anúncio não era ainda claro, o mesmo já não podemos nós dizer. Hoje vivemos com Jesus ressuscitado. Esta glória já se manifestou na totalidade, e continua a manifestar-se em cada dia das nossas vidas.
Um outro aspecto importante é que Jesus se transfigurou enquanto rezava: “Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante.” (Lc. 9, 29). Diz-nos o Papa Bento XVI: “A transfiguração é um acontecimento de oração; torna-se visível o que acontece no diálogo de Jesus com o Pai: a íntima compenetração do seu ser com Deus, que se torna pura Luz.” (in Jesus de Nazaré, Lisboa, A Esfera dos livros, 2007, pp384 e 385). Eis porque Jesus “brilha”. Será que a nossa oração também nos transfigura? Será que a nossa relação com Deus também nos faz estar perante os outros como sendo verdadeiros filhos de Deus?

Esta antecipação da paixão de Jesus ajuda-nos então a preparar para a Páscoa, a ter cada vez mais consciência de quem é este Jesus que morre e que ressuscita por cada um de nós. Mas as ligações feitas a vários aspectos da vida de Jesus podem ajudar-nos a ver que a sua Páscoa não está, nem podia estar, separada de toda a sua vida. De facto, não é esta a única vez em que a revelação de Jesus será feita tendo em conta o Antigo Testamento, recordemos a passagem dos discípulos de Emaús (Lc. 24, 13-35). Também não é a única vez que ouvimos o Pai a dizer “Este é o meu filho”, recordemos o baptismo de Jesus (Lc. 3, 22). E também não é a única vez que ouvimos pedir para fazermos o que Ele nos disser, recordemos o que nos diz Sua Mãe nas Bodas de Caná (Jo. 2, 5).
Por isso, também nós podemos viver esta Páscoa que se aproxima não só como mais um momento, mas como um momento em que recordaremos o que fomos, olharemos para o que somos e prepararemos o que seremos. Prepararemo-nos para a vida que nos é dada.
Jesus diz-nos que, mesmo quando O encontramos, quando nos maravilhamos com Ele, a nossa vida não acaba, não estagna. Antes pelo contrário, ganha uma nova força, um novo sentido, e o principal é talvez o levar essa vida nova aos outros. Temos de continuar a viver. Não caiamos na tentação de “fazer tendas” onde não entra a vida que nos rodeia, e de onde não sai a vida que vamos ganhando.
Então, fazendo o que o Pai nos diz, continuemos a escutar O Verbo encarnado. Que este caminho até à Páscoa seja um caminho de vida e para a vida. É Jesus Quem é “o Caminho, a Verdade e a Vida”.

1 comentário:

Anónimo disse...

Pedro a tua frase "Não caiamos na tentação de “fazer tendas” onde não entra a vida que nos rodeia, e de onde não sai a vida que vamos ganhando." dá que pensar, ai se dá...
Obrigado
Beijinho
Paula MP