1 de fevereiro de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco fundamental:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Equívoco 3:
Os contínuos progressos da ciência têm criado crescentes problemas às religiões e, de facto, tornado cada vez menos justificada a existência de qualquer deus. Por conseguinte, a religião está a desaparecer das sociedades cultural e cientificamente mais desenvolvidas.

1. Esta afirmação parte do errado pressuposto de que os crentes, tomemos o caso dos Cristãos, procuram obter na Bíblia ou em teorias teológicas o conhecimento do universo e a explicação dos fenómenos naturais. Até ao Renascimento, o ambiente cultural em geral, sobretudo na Europa, mas também em países asiáticos com algum desenvolvimento científico como a China, integrava as ciências da natureza, a filosofia e a religião num conjunto coerente de conhecimentos. A ideia de que o universo era um cosmos, um todo ordenado e, por isso mesmo, racionalmente explicável, levou Aristóteles a elaborar uma complexa mas coerente cosmologia. Segundo ela, os corpos celestes eram incorruptíveis, imutáveis e perfeitamente esféricos. Só no espaço entre a lua e terra havia mudança e corrupção. As estrelas estavam fixas numa esfera cristalina, por detrás da qual se situava o primeiro motor ou motor imóvel que explicava o movimento não só da esfera das estrelas fixas, mas também as esferas nas quais estava incrustados os planetas, o Sol e a Lua. Havia nesta concepção muita observação empírica conduzida por astrónomos capazes de calcular os equinócios e os solstícios, os eclipses do sol e da lua, etc. Havia também muita especulação filosófica. Os cristãos medievais adicionaram a esta cosmologia grega a teologia cristã, colocando o empíreo ou seja, a habitação dos anjos e dos santos por detrás da esfera aristotélica das estrelas fixas e imaginando que o inferno estava no interior da Terra. Uma tal cosmologia cristã parecia também estar em pleno acordo com a narração bíblica. Esta perspectiva integradora da filosofia, filosofia e conhecimento empírico era natural. Ela existia também em outras civilizações.

2. Com o Renascimento e o desenvolvimento rápido das ciências físicas e matemáticas, bem como dos instrumentos de observação, especialmente o telescópio, o conhecimento empírico ganhou crescente autonomia em relação à filosofia e à teologia. Galileu não teve apenas problemas com os teólogos mas também com os filósofos. Os problemas que a filosofia aristotélica enfrentava com a nova scientia estão bem ilustrados na obra de Galileu Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo. Dada a estreita relação que se tinha estabelecido entre a filosofia aristotélica e a visão cristã do mundo, era natural que os problemas da primeira arrastassem na sua queda a segunda. Foi a partir daqui que se estabeleceu o equívoco do recuo da religião com o avanço da ciência.

3. Ora, o que aconteceu desde o Renascimento não tem sido o recuo da religião provocado pelo avanço da ciência, mas sim um progressivo esclarecimento, que ainda hoje continua, da natureza da religião. Esta não tem que ser para os crentes a fonte do conhecimento dos fenómenos naturais, de como funcionam as leis da natureza. Tal tarefa pertence à ciência. Esta autonomia de cada uma das áreas do saber só pode ser benéfica tanto para a ciência como para a religião, no sentido de levar a que se esclareça cada vez mais a natureza de cada uma delas.

4. A religião tem sobretudo a ver com a questão do sentido do universo e da vida. Os não crentes afirmam que não há nenhum sentido para além do que nos é dado pelo conhecimento científico. Mas actividades e dimensões da vida humana como a poesia e arte, existem desde os primórdios do que possa conceber como sendo os primeiros seres humanos e continuam a ter um lugar fundamental na cultura contemporânea de todas as sociedades. Nada têm a ver com a ciência nem com o conhecimento científico, mas sim com a dimensão do sentido.

5. Muitos não crentes, sobretudo os que trabalham e pensam na área da ciência, estão convencidos de que a religião continuará a recuar à medida que a ciência avança. Um dia, tudo o que há a explicar estará explicado pela ciência, e a religião desaparecerá completamente. Apontam muitas vezes o exemplo dos países nórdicos, altamente desenvolvidos, e onde a religião parece estar em vias de extinção. Ora, o que os estudos científicos sobre a evolução dos Valores Europeus tem mostrado é que o declínio da religião se dá ao nível da frequência das Igrejas e das doutrinas religiosas tradicionais, mas não ao nível das preocupações individuais sobre o sentido da exist~encia. É que mesmo nos países nórdicos europeus, e em outros países desenvolvidos noutros continentes, as pessoas continuam a interrogar-se sobre o sentido da existência. É por isso que o pode afirmar com fundamento.

6. Para ultrapassar o debate que muitas vezes está dominado pela emoção, quando não mesmo pela ideologia, vale a pena transcrever aqui um extenso texto de Inglehart, principal coordenador do Inquérito aos Valores Europeus e do Inquérito aos Valores Mundiais, que é, a este respeito, muito esclarecedor e cientificamente fundamentado:

“Na sociedade do conhecimento a liberdade depende menos de elementos materiais e mais de ideias e imaginação. Isto dá origem a um clima de criatividade e estímulo intelectuais no qual as preocupações espirituais se tornam novamente mais centrais. Embora a autoridade das igrejas estabelecidas continue a declinar, nos últimos vinte anos os cidadãos das sociedades pós-industriais tornaram-se cada vez mais interessados em dedicar algum tempo a pensar acerca do significado e do objectivo da vida. A caracterização destas preocupações como religiosas ou não depende da definição de religião que se tem, mas é claro que o secularismo materialista da sociedade industrial está a desaparecer. Há uma mudança das formas institucionalmente fixas da religião dogmática para formas individualmente flexíveis de religião espiritual. Mesmo as ideias religiosas de cada pessoa se tornam numa questão de opção, criatividade e auto-expressão.
(…)
Embora as igrejas tradicionais (tal como outras organizações burocráticas, desde os sindicatos aos partidos políticos) continuem a perder membros nas sociedades pós-industriais, não encontramos qualquer evidência de que as preocupações espirituais, tomadas na sua generalidade, estejam a perder terreno. Pelo contrário. Comparando os valores do inquérito de 1981 com os resultados de 1989-91, 1995-97 e 1999-2001, vemos que os cidadãos das sociedades pós-industriais dedicam cada vez mais tempo a pensar no sentido e objectivo da vida do que anteriormente. A religião não desaparece. O que observamos é a transformação das funções da religião, de formas institucionalizadas de uma religiosidade dogmática que dá a cada um códigos de conduta absolutos num mundo inseguro, para preocupações espirituais individualizadas…(Inglehart, R. & Welzel, C., Modernization, Cultural Change and Democracy, Cambridge: Cambridge University Press, 2005, pp. 31-32).

8 comentários:

Joao disse...

"O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus"

Isto é um equivoco. O que o ateismo não pode demosntrar é a inexistencia de Deus a quem lhe chegue uma plausibilidade da sua existencia ao nivel do palpite.

E isso é de facto um drama. Porque podemos mostrar que Deus não existe da mesma maneira que podemos mostrar não existirem unicornios alados.

Estão no mesmo nivel de demonstração de não fazerem parte da realidade.

Para voces essa minima probabilidade ser suficiente para acreditar em DEus é que é preocupante. Para quem acredita só porque quer, por mim tudo bem. Tem esse direito.

MAs dizer que não podemos provar... Que grande equivoco. O drama é outro.

Xiquinho disse...

Ora façam o favor de apreciar bem esta pescadinha-de-rabo-na-boca que garimpei no Diário dos Ateus e não resisto a compartilhar os meus estimados Filósofos da Companhia:

Carta aberta ao Papa para renovar a Igreja: O jesuíta egípcio Henri de Boulad, de rito melquita, de 78 anos de idade, endereçou uma carta aberta ao Papa Bento XVI, que circula na Internet. Confessa que o seu coração sangra ao ver “o abismo em que se está a precipitar a nossa Igreja”.
Manifesta as suas preocupações. Em primeiro lugar, o “constante decréscimo da prática religiosa”. São poucas as pessoas e quase todas da terceira idade que frequentam as igrejas na Europa.

E o coração dos Jesuítas portugueses, como está? Também sangra? Espero que não seja nada grave e que uma visita a um bom cardiologista não resolva :)

Cumprimentos xiquinhais!

alfredo dinis disse...

Caro João,

É das poucas pessoas que afirma que pode provar que Deus não existe. Até Dawkins deixa aberta a hipótese de existir um Deus criador so Universo, embora não acredite nela e afirme que, a existir, Deus seria totalmente diferente do Deus cristão!

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Subscrevo muito do que afirma este Jesuíta. Afinal, pode haver espírito crítico na Igreja Católica. Para mim, como para muitos outros cristãos, esta é uma atitude normal. Para quem pensa que o crente não pode ter espírito crítico, esta posição do Jesuíta pode ser realmente uma coisa rara.

Saudações,

Alfredo Dinis

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

Vai desculpar-me a franqueza, mas quando li a carta do Pe. Boulad, associei imediatamente uma citação a este post: as pessoas afastam-se das igrejas tradicionais, mas mesmo assim continuam a preocupar-se com o sentido da existência? Fraca consolação...

De resto já calculava que concordasse com grande parte (se não mesmo toda) da carta, também por isso não resisti a fazer a piadinha. E quando li a carta pela primeira vez, (porque vale a pena ler pelo menos duas vezes…) até dei comigo a pensar com os meus botões: “Olha que engraçado… Quem diria que o Egipto também tem um Alfredo Dinis…”

E se calhar não é só no Egipto, há mais por esse mundo fora, mas infelizmente não chegam ao nosso conhecimento. Porque será? Afinal, se há tanta gente inteligente e com espírito crítico na Igreja, porque não o exprimem? Será que podem?

O Alfredo dirá que sim, que podem, e a prova que podem está nesta carta. Mas como já deve ter reparado, além de ateu, eu sou um bocadinho cínico. Por isso, até concordo que podem, mas só quando chegam à provecta idade do Pe. Boulad, já não correm o risco de serem desterrados para outras paragens mais inóspitas. Tivesse a carta sido escrita por um padre com a idade do Alfredo ou mais novo, a esta hora, seguramente que já teria passagem de avião marcada para o Império do Meio.

Mas que fascínio este… têm os Jesuítas pela China… :)

Renovados cumprimentos do Xiquinho

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Muito obrigado pelas suas sábias palavras. Devo dizer-lhe que em apraz muito trocar impressões de forma serena seja com quem for, consigo, neste caso. Sempre encarei estas trocas de impressões não como tentativas de convencer quem quer que seja daquilo que digo, mas apenas de informar os meus interlocutores sobre o que penso, aceitando que discordem de mim, e preparando-me para aceitar as suas opiniões divergentes das minhas. Eu cultivo uma humildade intelectual, estando consciente de que há muitas coisas que não sei e das que sei haverá muitas que sei de modo incompleto e imperfeito. Por isso, não me é difícil ler opiniões que contradigam as minhas, desde que, como afirmei várias vezes, tenham algum fundamento objectivo e não se baseiem apenas no chamado argumento ad hominem, isto é, num ataque pessoal e subjectivo não às ideias da pessoa mas sim à pessoa das ideias. Esta é, infelizmente, uma prática muito comum tanto da parte de crentes como de não crentes.

Quanto ao texto do jesuíta que refere, ele talvez seja menos revolucionário do que parece. Todos nós, crentes ou não crentes, reconhecemos que as Igrejas estão a esvaziar-se, tanto as Igrejas comunidades como as igrejas edifícios. E sabemos que isto também sucede em outras religiões, como o budismo japonês, por exemplo. Não é subversivo afirmar que em alguns aspectos a linguagem de muitos padres está desfasada da realidade, que muitas propostas de mudança do Vaticano II ainda estão à espera de serem implementadas, etc. Este reconhecimento tornou-se algo comum entre nós, cristãos.

Talvez este reconhecimento não esteja a produzir ainda as suas consequências no terreno. A Igreja Católica, como qualquer instituição, tem os seus ritmos internos diversificados. Há quem queira ir mais depressa e quem queira ir mais devagar. Como queremos ir juntos, os mais 'adiantados' terão que esperar um pouco pelos mais 'atrasados'. É evidente que isto tem os seus riscos, no sentido de as Igrejas se atrasarem demasiado e depois terem que fazer um esforço maior para se actualizarem.

Quanto à relação dos Jesuítas com a China, ela já vem dos inícios da Companhia de Jesus, e creio que tem sido um género de relações que não nos envergonham nem aos Chineses e que, estou certo, irá intensificar-se nos próximos tempos. Quem sabe se o Xiquinho não irá ser um dos nossos conselheiros!

Um abraço,

Alfredo Dinis

Xiquinho disse...

Caro Alfredo Dinis,

É muita gentileza da sua parte considerar sábias as minhas palavras, mas tal não podia estar mais longe da verdade: de facto, em matéria de filosofias e religiões, eu diria que sou devoto do Sócrates (do antigo, não do nosso… :), toda a minha “sabedoria” resume-se apenas à sua famosa citação: Só sei que nada sei… O que mesmo assim, já não é mau de todo, comparado com muitos que convencidos que sabem muito, quando na realidade sabem muito pouco.

Mas quero que saiba que também tenho muito gosto em trocar impressões consigo, por várias razões: primeiro, porque é muito raro encontrar alguém com a sabedoria do Alfredo (que no seu caso é que é de justiça mencionar), que consiga abordar tantos aspectos do catolicismo com tanta simplicidade e lucidez, depois porque sendo Jesuíta, sinto obviamente um especial carinho, por que são sem dúvida a ordem religiosa mais inteligente e instruída dentro do catolicismo (e também, à semelhança dos ateus, a que desperta mais fúria lá pelos lados de Roma…) e finalmente porque a filosofia foi talvez a primeira disciplina que tive na escola que me despertou verdadeiro interesse em termos de conhecimento. (Mas claro que isto foi antes de ter descoberto outras coisas muitíssimo mais interessantes para excitar o intelecto…) e assim fiquei uma nulidade em termos filosóficos, o que não me impede de apreciar os filósofos.

De resto, também não vejo que conselhos eu pudesse dar aos Jesuítas: teria sim, é muitas perguntas para lhes fazer… chego até a pensar que se o Alfredo tivesse tido o azar de ser meu Professor, eu havia de massacrá-lo tanto com perguntas, que das duas, uma: ou eu me convertia ao catolicismo, ou o Alfredo abandonava o sacerdócio… :)

Renovados cumprimentos e votos de Feliz Ano Novo (Chinês)…

Cromos disse...

Surpreende-me a leviandade com a afirmação: "eu sou ateu...só acredito no que vejo". - Bem...nem sequer acredita nos meios áudio visuais que se propagam por todos os cantos do mundo.
Justifica-se:- acredito porque vejo. Criaram os meios tecnológicos para os decifrarem.
Agora meu amigo ateu, decifre uma dor...vá...não a vê...mas sente-a...e como é dolorosa.