20 de fevereiro de 2010

Provas & Tentações

Estamos no Primeiro Domingo da Quaresma, este tempo de preparação para a Páscoa do Senhor Jesus, o dia mais importante para os cristãos: dia da Passagem do Senhor para junto do Pai, a vida eterna, o dia da Ressurreição e da promessa de que iremos daqui a essa Plenitude.
A liturgia destes quarenta dias (que começaram na Quarta-feira de cinzas) ajudar-nos-á a preparar os nossos corações para essa grande festa. este tempo é de conversão, de exame de consciência, de cair na conta das dores de Jesus, da Sua morte e do seu sentido: não a salvação da humanidade, mas a salvação de cada um dos homens. jesus morreu por cada um, o Amor do Pai derrama-Se sobre cada Filho.

O Evangelho de hoje fala-nos das três tentações de Jesus, ao fim dos quarenta dias que esteve no deserto. Primeiro, o diabo tenta Jesus a usar o Seu poder enquanto Messias para transformar a pedra em pão e comer. mas Jesus não o faz, pois o alimento físico não é tudo: muito maior é o Amor do Pai. Depois, o diabo quer dar a Jesus poder sobre as coisas, mas Este recusa-o, já que o poder de Deus é muito maior que qualquer poder político. O Reino de Deus não se mede por este mundo. Por fim, o diabo diz a Jesus que se atire do pináculo e mais uma vez Jesus recusa fazer-lhe a vontade. Nunca tentaria o Senhor, pois sabe que o Pai Eterno Lhe dará tudo o que Ele precisa, sem necessidade de ser posto à prova.
Jesus vence o demónio, não Se deixando tentar por ele.

Na nossa vida, muitas vezes confundimos a prova e a tentação. Apesar de poderem ser experiências vividas do mesmo modo, têm origem e resultado diferentes.
A prova ajuda-nos a crescer na relação com Deus e com os outros. Diante das provas, Deus dá-nos a graça de as superar. Depois de superarmos uma prova, impressionamo-nos com os seus frutos, com a alegria que se instala em nós.
A tentação deve ser evitada, pois leva-nos à dor e ao sem sentido. Se cairmos em tentação, peçamos a graça ao Senhor de nos ajudar a sair dessa situação.
Só o coração atento distingue a prova da tentação. Só o puro sabe quando a força é de Deus ou as circunstâncias o tornam estóico. Como for, uma graça é precisa ao homem para que não morra: a humildade de aceitar a mão que o levante quando, ferido , mutilado, apodrecido, não lhe restarem mais forças a não ser o desejo de ser levantado.
Só o miserável, na sua miséria, pode experimentar e ter consciência da misericórdia do Senhor. Só aí pode saber-se perdoado e, sacudindo o pó e lambendo as feridas, entregar-se ao Amor que o salvou da morte eterna.
Serão as suas cicatrizes a lembrança desses tempos, o motor que o move a sair de si para onde que que haja miseráveis, mortos e tentados, para lhes lamber as feridas, sacudir o pó e anunciar o Salvador.

Se o Senhor não precisasse de nós, por que nos salvaria?

O diabo (= o que divide, separa) retirou-se de junto de Jesus, depois de esgotada toda a espécie de tentação.
Aproveitemos este tempo de Quaresma para nos retirarmos até ao nosso deserto, olharmos para a nossa história e vermos como anda a nossa relação com o Senhor. Tenho aproveitado as dificuldades que me aparecem na vida para pedir ajuda a Deus, ultrapassá-las e crescer? Tenho a consciência de que tudo é bom, porque tudo é criado por Deus (Cfr. Gn 1, 31) e que a tentação não está fora, mas dentro de mim? Ou seja, só me deixo tentar naquelas dimensões da minha vida onde ainda não deixo que o Amor de Deus habite plenamente?

E, seguindo a indicação de S. Inácio (EE [139]), pedir o conhecimento da vida verdadeira que me mostra o Senhor e graça para O imitar. Só assim não andarei dividido.


Leituras: Deut 26, 4-10
Salmo 90 (91), 1-2.10-15 (R. 15b)
Rom 10, 8-13
Lc 4, 1-13

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