9 de fevereiro de 2010

Resposta a Ludwig Krippahl

O Ludwig Krippahl comentou o meu texto sobre o equívoco fundamental do ateísmo e o terceiro grande equívoco do ateísmo contemporâneo. Publico a seguir a resposta que lhe deixei no seu blog (www.ktreta.blogspot.com).

1.Que o ateísmo em geral, e o ateísmo militante em particular como o de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris, considera a religião só faz mal é uma afirmação objectiva como se depreende dos livros destes autores e de sites ateus como o Diário Ateísta e o Portal Ateu, para só dar alguns exemplos. Se não é o teu objectivo, isso não significa que não seja o de muitos outros que se assumem como ateus.

2.Nunca afirmei que o ateísmo é um polícia das crenças, mas é certamente um juízo das crenças. A afirmação de que todas as crenças religiosas se baseiam no obscurantismo e na irracionalidade não é nem mais nem menos do que um juízo de valor.

3.A liberdade democrática de que gozamos hoje em Portugal não é apenas fruto da luta de ateus. Muitos cristãos se opuseram ao Estado Novo e pagaram um preço elevado por isso.

4.Os ateus também crêem saber o que é bom para si e para os outros, e fazem pressão para que o ateísmo seja divulgado e supere a crença religiosa. Os cristãos são cidadãos como quaisquer outros e têm, como todos os demais cidadãos, concepções sobre a melhor forma de viver a vida. Propõem essas concepções à sociedade. Têm esse direito, como o têm igualmente os cidadãos que não têm crenças religiosas. A isto chama-se democracia. Muitas pessoas consideram que o facto de os cristãos tornarem públicas as suas propostas significa que estão a fazer uma pressão ilegítima sobre a sociedade. Não o considero, como não considero uma pressão ilegítima que os ateus tornem públicas as suas concepções de vida e as proponham à sociedade.

5.O sentido que dás à tua vida vem de ti, certamente, mas não apenas de ti. Nascemos numa dada cultura, temos uma dada educação, aprendemos muitas coisas com muitos outros, mantemos relações com pessoas e instituições, e tudo isso faz parte da nossa vida. É claro que cada um pode e deve ter um espírito crítico e analisar tudo o que lhe dizem, e cada um é responsável pelo sentido que dá à sua vida. Mas a vida de cada um vive-se num contexto, e não vale a pena reclamar uma independência de pensamento que dispense o resto do mundo.

6.Não pretendo dizer ao Ludwig qual é o sentido da sua vida. Se se sente feliz com o sentido que ela tem hoje e crê que nada lhe falta para que esse sentido seja pleno, nada tenho a dizer-lhe e pode crer que o deixo em paz. Mas há pessoas que nunca viram o mar e são muito felizes. Talvez se eu as convidar para ver o mar e lhes explicar o que é o mar me respondam que agradecem muito mas que já são muito felizes sem o mar. Eu não vou certamente perturbar-lhes a paz, mas não posso deixar de pensar que seriam mais felizes se tivessem a oportunidade de ver o mar.

7.A religião tem erros factuais, como a política, a ciência, a economia, etc. Todas as pessoas e todas as instituições cometem erros factuais ao longo da sua história. O problema dos ateus é que se fixam nos erros factuais da religião, ignorando que a religião não tem na sua história apenas erros factuais. Que seria de mim se as pessoas que conhecem os meus erros factuais não vissem em mim nada mais que esses erros?

8.O Ludwig reduz o conhecimento ao conhecimento científico ou a qualquer forma de conhecimento que seja cientificamente justificável. Mas a vida humana não se baseia apenas nessas formas de conhecimento. Considere-se, por exemplo, o seguinte poema:

“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

9.Se o Ludwig considera que este poema não exprime conhecimento, então é uma ilusão semelhante às afirmações religiosas. Mas eu considero que há muito conhecimento na poesia e na arte em geral, um conhecimento que a ciência não tem modo de submeter a prova.

10.A religião não inventa o que quiser. Há em todas as religiões muitos elementos que foram sendo abandonados por não ser possível continuar a mantê-los pelo menos por uma questão de coerência.

11.Os textos bíblicos são uma permanente fonte de equívocos. Os ateus pensam que por serem inspirados foram escritos por Deus caíram do céu quando, na verdade, foram escritos na Terra por seres humanos. Os crentes, pelo menos os cristãos, acreditam que os textos bíblicos foram escritos por seres humanos em linguagem humana exprimindo a compreensão que tinham da sua experiência pessoal e comunitária a partir do pressuposto da existência de Deus. Ao contrário do que afirmam repetidamente os ateus, como Saramago, o Deus da Bíblia não é um Deus carniceiro e vingativo. Não há algo como ‘o’ Deus do Antigo Testamento porque há nele várias imagens de Deus resultantes de diversas tradições culturais. Se é verdade que em algumas dessas tradições é a imagem de Deus juiz que prevalece, noutras é a imagem de um Deus ternurento e maternal. Os ateus cometem, mais uma vez, o erro hermenêutico de ignorarem uma parte da Bíblia, tomando uma sua parte pelo todo. Que a Bíblia é uma obra que é lida com interesse por crentes e não crentes é outra verdade factual que o Ludwig ignora. Tal como Saramago e muitos outros, determinou que a Bíblia é um conjunto de histórias sem sentido e indignas de uma Humanidade liberta, deixando assim por explicar o enigma do interesse de tantos ateus confessos pela leitura habitual da Bíblia.

12.Nunca afirmei que o ateísmo não dá valor à vida. Nunca afirmei que o ateísmo confunde ciência com religião. Uma vez que o ateísmo crê que a religião é uma ilusão, não faria sentido a afirmação de que confunde as duas coisas.

13.Nunca afirmei que o ateísmo é inútil. Afirmei, pelo contrário, que o ateísmo pode ser muito útil à religião quando lhe fizer críticas inteligentes.

14.Os crentes distinguem muito bem o conhecimento baseado no estudo científico da natureza do conhecimento que se exprime através da arte, por exemplo. A expressão artística exprime conhecimento mas não no sentido do conhecimento científico. O artista interroga-se e interroga-nos, levanta questões, põe em causa o que pensamos saber como definitivo e completo, exprime a sua insatisfação perante todo o conhecimento que nos é dado, procura compreender a existência humana por vias que não passam pela ciência. E isto não sucede apenas com os artistas. Sucede com qualquer pessoa, incluindo filósofos e cientistas. O Ludwig poderá continuar a repetir que todas estas pessoas estão equivocadas. Mas de que lado está o equívoco?

2 comentários:

Carlos Esperança disse...

A leitura da Bíblia é recomendada pelos ateus como um dos livros de referência para duvidar de deus.

alfredo dinis disse...

Caro Carlos,

Muitos ateus lêem a Bíblia de uma perspectiva muito duferente da que menciona. Não acredita?

Saudações,

Alfredo Dinis