16 de fevereiro de 2010

FALTA DE TEMPO PARA REZAR?



Os jesuítas acabam de lançar o www.passo-a-rezar.net, uma proposta de oração para quem não vive parado.
Cada dia, são 10 minutos de texto, pistas de oração e música, em formato mp3 para descarregar. Depois, é só levar e rezar no metro, no autocarro, a passear pela rua ou simplesmente sentado à secretária.
Vem descobrir este novo modo de se encontrar com Deus e viver espiritualmente o dia-a-dia!

13 comentários:

Carlos Pires disse...

Admitamos que Deus existe e que é omnisciente, omnipotente e sumamente bom. Porque é que um tal ser estaria interessado em que os crentes rezassem? Porque distinguiria ele as pessoas consoante pensassem n' Ele ou não? Será que também gosta de atenção e simpatia como nós? Rezar não será uma coisa demasiado humana para poder ter algo a ver com Deus (admitindo que existe)?

antonio ary sj disse...

Caríssimo Carlos,

Para os cristãos não é concebível algo "demasiado" humano, pois o máximo do humano é o próprio Deus. Concordo consigo, a oração é algo de profundamente humano, mas por isso mesmo "interessa" a Deus, na medida em que ele se interessa por nós (é isso que significa ser "sumamente bom", tal como nós nos interessamos pelas pessoas de quem gostamos...)

Ludwig Krippahl disse...

Peço desculpa pela pergunta de ignorante, mas rezar não é falar com os deuses? Em que é que ajuda ouvir uma gravação?

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

A oração é um diálogo em profundidade com Deus. Tal como qualquer diálogo profundo requer um ambiente apropriado. No passo-a-rezar este ambiente é criado pelo fundo musical que ajuda a pessoa a serenar. Qualquer diálogo profundo requer alguma preparação que ajude a pessoa a ver o sentido desse diálogo. No passo-a-rezar, esta preparação imediata é feita por umas palavras introdutórias. Há depois o encontro com Deus através da sua Palavra. Hoje, sexta-feira, o texto proposto é do profeta Isaías:

“Acaso é esse o jejum que me agrada, no dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre saco e cinza? Podeis chamar a isto jejum e um dia agradável ao Senhor? O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar. Então invocarás o Senhor e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: ‘Estou aqui’” (Is 58, 5-9)

A oração é um tempo de confronto com esta Palavra. Algumas questões são sugeridas para reflexão. Até que ponto a vida da pessoa está de acordo com esta Palavra? O que poderá fazer para mudar a sua vida?

O texto que é proposto em cada dia é lido nesse dia em todas as missas em todas as igrejas do mundo. Este aspecto comunitário da oração é importante. A pessoa sabe que ao aceitar o passo-a-rezar se coloca em comunhão com milhões de outros cristãos.

Por todas estas razões e mais algumas – muitas pessoas vivem em constante dispersão e correria de manhã à noite sem ter tempo mental para ‘parar’, precisam de apoio e encorajamento para não se isolarem nos desânimos que tantas vezes bate à porta, etc. – o passo-a-rezar foi recebido por muitas pessoas como uma ajuda indispensável para a sua oração.

Um abraço,

Alfredo

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

Obrigado pela explicação, e compreendo que ouvir leituras da Bíblia, a música calma e essa sensação de comunhão seja agradável e ajude as pessoas a lidar com a azáfama do dia-a-dia.

Mas persiste o meu problema com essa ideia do diálogo, mesmo sendo "profundo" como tu dizes. Se eu quiser falar contigo acerca de algo profundo e importante não me parece boa ideia estar, ao mesmo tempo, a ouvir música ou gravações de algo que escreveste em tempos. Se quero dialogar com alguém quero concentrar-me no que estão a dizer-me agora.

Por isso não me parece fazer sentido que se dialogue com um deus ao mesmo tempo que se ouve o padre, música ou se leia a Bíblia. Isso não parece ser a forma ideal de dialogar seja com quem for -- principalmente se é um diálogo profundo e importante.

O que me faz suspeitar que a música, as gravações da leitura e a comunhão com outros que tentam o mesmo diálogo ao mesmo tempo servem servem para criar a sensação de diálogo na ausência do interveniente principal...

A oração é um diálogo ou um monólogo?

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

A oração é um diálogo, mas não exclui alguma reflexão pessoal. O diálogo acontece a um nível pessoal que não é possível prever. Cada pessoa entra nesse diálogo de um modo muito específico quando faz a experiência da presença de Deus. E esse diálogo pode ser acerca de alguma questão referida num texto, ou acerca de uma questão que foi levantada, ou acerca de questões muito pessoais que nada tenham a ver com isso. A um certo momento, tanto a música de fundo como o texto bíblico ou as palavras que levantam questões podem ficar para trás. O encontro pessoal não é previsível na sua totalidade, como acontece com os encontros das pessoas. E mesmo depois dos dez minutos do 'passo-a-rezar' a pessoa pode continuar em oração, seja em simples meditação, seja em diálogo com Deus.

Para os não crentes tudo não passará de um monólogo ou de uma ilusão mental ou afectiva. Para os crentes é uma experiência que tem consequências profundas e duradouras dificilmente atribuíveis a meras ilusões.

Um abraço,

Alfredo

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«Para os não crentes tudo não passará de um monólogo ou de uma ilusão mental ou afectiva. Para os crentes é uma experiência que tem consequências profundas e duradouras dificilmente atribuíveis a meras ilusões.»

Isto parece-me perfeitamente adequado para algo que seja puramente subjectivo. Para umas pessoas o melhor é baunilha, para outros não há nada como chocolate, e fica-se bem por aí.

Mas julgo que subjacente ao propósito da oração está a premissa, mais objectiva, que existe mesmo um deus a ouvi-la. Isso não é coisa que se possa simplesmente dizer ser assim para uns e assado para outros, porque se existe tal deus isso é verdade para todos, e se não existe a premissa não é verdadeira para ninguém.

Por isso a minha dúvida é se, para além do conforto e serenidade que estas gravações possam trazer às pessoas (e não duvido que tenham esse mérito), também servem para facilitar a comunicação do crente com Deus. Mais interessante ainda, como é que se pode saber se têm esse efeito ou não.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

A oração pressupõe a existência de Deus e a fé nesse Deus. Pressupõe também que se acredita que Deus, se é o responsável último por estarmos aqui neste mundo, se interessa por nós. O Deus a quem os cristãos rezam é objectivamente o mesmo, embora deste Deus, como tenho dito noutras ocasiões, não saibamos senão o suficiente para vivermos a relação com ele, não apenas pessoal mas também comunitariamente. O que sabemos dele é o que está na Bíblia, especialmente no Novo Testamento.

Como sabemos que o que experimentamos na oração é efeito da relação real com um Deus que existe de facto? Posso dar-te a minha própria experiência.

A sensação de que Deus existe e me permite ter uma relação pessoal muito profunda com ele, comecei a tê-la pelos meus quinze anos. Aos dezasseis anos, a experiência era tão forte que não duvidei que era esta experiência que eu queria viver permanentemente como padre, centrando a minha vida totalmente em Deus.

Nasci numa família que não me obrigava a ir à missa ao domingo. O meu pai era e é ainda ateu. Com excepção do meu irmão mais velho, que apenas tolerava a minha opção, ninguém na minha família manifestou agrado pela minha escolha. Eu era o único jovem da minha geração a frequentar a Igreja. Fiz muitos amigos nos jovens da minha geração, e ainda hoje gosto de os encontrar. Sempre respeitaram a minha opção. Fui chefe de escuteiros e ainda hoje mantenho uma relação de amizade com os jovens escuteiros do meu tempo.

Passaram entretanto mais de trinta anos, e a experiência não só se mantém como se tem aprofundado. Vivo toda a minha vida a partir da experiência desta relação. Vivo sereno, com a sensação de que nada me falta. E como eu, muitas outras pessoas, leigos, padres, religiosos e religiosas.

Como posso saber que não estou enganado? Que toda a minha vida não tem sido senão uma ilusão? Teoricamente e em abstracto, pode ser que tudo não passe de uma ilusão. Mas na vida concreta, eu tenho vivido numa paz interior muito profunda, que me permite perdoar as ofensas sem grande dificuldade, encarar e resolver serenamente os problemas do dia-a-dia, animar os desanimados, ouvir aqueles a quem ninguém mais tem paciência para escutar, respeitando o ritmo e as opções de vida de cada pessoa. E tudo isto, sentindo a presença de Deus, omnipotente mas também capaz de se colocar ao nível dos seres humanos frágeis e inconstantes, sem os esmagar com o seu poder. Um Deus que é omnisciente mas que não se serve do seu imenso saber para me acusar das minhas fragilidades e incongruências, nem para me julgar ou condenar mas, antes pelo contrário, para me ensinar a viver com sabedoria de modo a ser feliz.

Caro Ludwig, peço desculpa por me ter alongado, mas esta é para mim a melhor forma de 'argumentar'.

Um abraço,

Alfredo

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

Não tens nada que pedir desculpa. Até agradeço, e compreendo bem o que te motiva. A minha história é semelhante. Desde pequeno que me pareceu que o que se contava de deuses, religiões, videntes, astrólogos e afins apenas enganava as pessoas. As férias passadas com os meus avós no Alentejo, em casa de pessoas muito religiosas, mostravam-me como a superstição distorce a vida das pessoas, fazendo-as focar toda a sua existência em algo que é falso ou, no mínimo, infundado.

E isto leva-me a dedicar um aboa parte do meu tempo a avisar as pessoas e a tentar motivá-las para analisarem essas suas premissas de forma mais objectiva.

No fundo, o que te levou ao sacerdócio é análogo ao que me levou ao ensino, à ciência e ao ateísmo.

Mas aqui falamos apenas de motivação. Algo pessoal, subjectivo. Por muito que eu sinta que o teu deus não existe, isso é insuficiente para concluir que não existe de facto.

Isto é válido em geral, para quem acredita em OVNIS, na astrologia, para o Ruy de Carvalho que falou com a falecida mulher. Há muita gente com experiências pessoais fortes, genuínas, sinceras e que mudam profundamente a sua vida mas que nada nos dizem acerca da verdade daquilo que pressupõem.

Agora peço eu desculpa pelo tamanho do comentário, mas queria apenas dizer que a nossa vivência pessoal, por si só, é irrelevante para saber quem tem razão. Não nos diz se há OVNIS, se a astrologia está certa ou errada, se os falecidos falam connosco por intermédio dos médiums. E não nos diz se Deus existe.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

A minha experiência pessoal de Deus não é de facto uma prova objectiva de que Deus existe. Como já disse noutras ocasiões, não creio que haja uma prova objectiva de que Deus existe. Por conseguinte, penso também que as pessoas que passam da não crença à crença, ou da crença à não crença o façam com base em provas objectivas.

A tua experiência de infância no Alentejo colocou-te em contacto com formas de experiência religiosa que não te convenceram e, pelo que dizes, isso foi uma boa coisa. As populações que vivem em países ou regiões predominantemente rurais, dedicando-se a actividades agrícolas, têm muitas vezes um sentimento de dependência de Deus pelo facto de dependerem muito das condições atmosféricas, da qualidade e quantidade das colheitas, etc. Com a passagem destas sociedades agrícolas a sociedades industriais e pós-industriais, este sentimento de dependência desapareceu e ainda bem. As pessoas têm hoje outras dependências, mas também uma independência muito maior pelo melhor nível de vida, educação, etc. Compreendo, por isso, que as pessoas deste nível social não tenham a dependência de Deus dos seus avós, e fiquem chocadas ao ver manifestações religiosas que têm ainda muito a ver com uma sociedade tradicional em que já não vivem. Mas convém que notem que essas manifestações (sem negar a qualidade da intenção das pessoas) já não correspondem à perspectiva cristã do século XXI. E se quiserem criticar o cristianismo hoje têm que o fazer com base em referências de hoje e não de há um século.

A minha experiência religiosa em nada me prejudica, limita, faz sofrer. Antes pelo contrário, tem sido uma fonte de contínua serenidade, amadurecimento humano, felicidade pessoal na abertura constante aos outros. Não creio que a minha situação fosse melhorar se abandonasse esta experiência. Não vejo como poderia ser mais feliz e sereno sem Deus.

As diversas experiências religiosas relatadas pelas pessoas têm que ser avaliadas nos seus contextos. Há pessoas que dizem que falam com os mortos, que têm visões, etc. Vamos ver qual é o contexto de vida dessas pessoas, que bom senso têm ou não, como se relacionam com os outros? Ao longo da história da Igreja Católica tem sido uma constante que algumas pessoas crêem ter visões mas evitam falar delas, e só quando são obrigadas a fazê-lo o fazem. Outras espalham aos quatro ventos que têm visões ao pequeno almoço e ao jantar. Temos que comparar estas pessoas na sua maturidade humana e muitas vezes concluímos facilmente que as primeiras têm, do ponto de vista desta maturidade, maior credibilidade que as segundas. Embora ainda assim não se prove que há algumas visões genuínas, pelo menos vê-se facilmente que há alguns critérios relativamente simples que permitem não meter tudo no mesmo saco. O mesmo no que se refere às experiências religiosas em geral. O facto de muitos crentes serem pessoas maduras, inteligentes, com uma função social significativamente positiva, uma capacidade de solidariedade considerável, etc., não constitui uma prova de que Deus existe, mas mostra que é possível crer em Deus e ser-se ao mesmo tempo inteligente, sensato, tolerante – qualidades que muitas vezes os não crentes, nas suas críticas, negam reconhecer nos crentes, preferindo acentuar a ausência de inteligência, espírito crítico, etc. Ou, quando muito, afirmam que há alguns crentes inteligentes mas que são excepção e só confirmam a regra. Eu conheço muitas pessoas, digamos alguns milhares, que são de facto pessoas maduras, inteligentes, que não vivem com o medo da morte do inferno, etc. Não me parece que sejam meras excepções.

Um abraço,

Alfredo

Mats disse...

Por incrivel que pareça, concordo com certas partes das respostas do Ludwig.

Experiências pessoas são relevantes para quem as sente, e não são evidência para quem não acredita.

Agora, quando alguém que andava na droga, prostituição, furto e tudo o mais, diz que deixou essa vida de pecado graças ao perdão do Senhor Jesus Cristo, isto já fica bem mais relevante, especialmente para os crentes ateus.

Por isso é que vidas em foco com o Senhor são melhor evidência do que "experiências" pessoais.
Toda a gente tem experiências pessoais, mas nem todas tem inicio em Deus. Aliás , muitas delas partem do inimigo de Deus.

Para ser relevante no que toca À eternidade, uma experiência pessoal tem que estar em sintonia com a Bíblia.

alfredo dinis disse...

Caro Mats,

Para um cristão é claro que a sua experiência pessoal tem que estar de acordo com a Bíblia. Nunca disse o contrário.

Saudações,

Alfredo Dinis

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