26 de março de 2010

“Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade”


As leituras deste Domingo de Ramos, o último Domingo do tempo da Quaresma, poderão parecer-nos estranhas, difíceis de compreender, ao contrapor um momento de aclamação e glória a Jesus com a sua Paixão e Morte.
Porque é que Jesus, sabendo o que O espera, tem este desejo de entrar em Jerusalém? Como é possível aclamar alguém como salvador, quando Este vai a caminho da morte? Como é que alguém é visto como um salvador e depois morre? Como é que um salvador não consegue evitar, escapar, a todo o processo que o levará à Cruz?
Vemos aqui um Messias, que afinal não se enquadrou na ideia de Messias que tinham os Apóstolos e o povo que O aclamou – a de um Rei invencível. Se assim fosse, não teria morrido na Cruz. Provavelmente, pelo menos algumas vezes, Jesus também não vai de encontro às características daquele salvador que queremos que nos ajude. Ou melhor, precisamos mesmo que nos ajude. A grande diferença é que naquela altura as pessoas não conheciam Jesus como O Filho de Deus ressuscitado. Hoje vivemos com Jesus Cristo ressuscitado. Mas conhecemo-lO?
Jesus, ao entrar montado num jumentinho, cumpre aquilo que estava descrito no Antigo Testamento, no oráculo de Zacarias: “ Exulta de Alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso; vem humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta.” (Zc 9, 9-10). Isto é, surge como um Messias humilde. Mas talvez a maior humildade não seja a exterior, aquela que muitas vezes é a única que somos capazes de ver. A maior humildade de Jesus é passar no meio de todas aquelas pessoas permitindo-lhes festejar a salvação que Ele de facto veio trazer, mas para a qual é necessário que dê a sua própria vida. Jesus assumiu a condição de servo, fazendo-se semelhante aos homens, e obedeceu à vontade do Pai até à morte na Cruz. É essa entrega à morte pelos outros, por toda a humanidade, a grande humildade que chega “montada” num jumentinho. E, tal é a certeza dessa entrega por cada ser humano, por cada criatura de Deus, tal é o desejo de cumprir a Vontade do Pai que, mesmo quando alguns Lhe dizem: «Mestre, repreende os teus díscipulos.», Jesus responde: «Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras.» Com estas palavras Jesus parece querer dizer que, mesmo que ninguém Lhe ligue, Ele sabe que aquele é o único caminho que poderá trazer a salvação da humanidade, e por isso irá percorrê-lo mesmo que só as pedras O vejam. No Evangelho de Lucas, depois da descrição desta passagem, surge o seguinte relato: “Quando se aproximou, ao ver a cidade, Jesus chorou sobre ela e disse: «Se neste dia também tu tivesses conhecido o que te pode trazer a paz! Mas agora isto está oculto aos teus olhos….»” Jesus sabia que a multidão não se alegrava em vão, mas que de facto ainda não sabia o que iria acontecer.

Hoje, também ouviremos o relato da Paixão de Jesus. Poderemos pensar que não é novidade, que já o sabemos pois já o ouvimos muitas vezes. Mas talvez possamos perguntar se o vivemos, ou melhor, se está de facto “entranhado” na nossa vida. Conseguimos “entrar” nesta cena da vida de Jesus, sabendo que ela existiu por causa de cada um de nós? Conseguimos ver em Jesus crucificado, o Messias esperado?

Em espírito e em verdade
“Contemplemos nesta semana, de forma particular, a paixão de Cristo, antes de celebrarmos, no próximo Domingo, a sua ressurreição. Ela é consequência, inevitável e livremente assumida, da missão que o Pai Lhe confiara: a de salvar o mundo, não pelo sofrimento, mas pelo amor de Deus, levado até ao extremo. A paixão e morte de Jesus resultam de um conflito com esse mundo, que se recusa a acolher a verdade do amor, e revelam a intensidade e a qualidade do amor com que Deus o ama. Jesus anuncia o Reino, denuncia a falsidade das relações humanas, e pretende apenas restaurar o verdadeiro culto que se presta a Deus, em espírito e em verdade. Por isso o rejeitam e condenam à morte.”
Pe. Luís Rocha e Melo, S.J.
in Tu me seduziste eu deixei-me seduzir. Ed. Tenacitas. Coimbra, Maio 2007

Evangelho Lc 19, 28-40
Evangelho Lc 22, 14 – 23, 56