13 de março de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco fundamental:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Quarto equívoco: Só os ateus têm a possibilidade de pensar livremente sem constrangimentos de espécie alguma. Os crentes, ao contrário, têm que se submeter a autoridades, tradições e textos, e não têm liberdade de adoptar atitudes racionais perante as autoridades, os factos e os textos, uma vez que a religião se baseia no dogma e põe de lado a razão.

1. Este é certamente um dos maiores equívocos do ateísmo contemporâneo. Antes de mais, todo o pensamento é culturalmente situado. Os cidadãos de uma determinada época pensam e agem de acordo com os parâmetros culturais dessa época. Isto tem a ver com todas as áreas da vida humana, embora possa afectar mais umas que outras. Os regimes políticos, as concepções artísticas, as teorias científicas, as normas morais e até mesmo as ideias religiosas são sempre situadas. Isto não significa que de uma época para outra, de uma cultura para outra, tudo muda. Também não significa que as ideias e práticas de cada época e cultura não possam ser submetidas a crítica, seja na mesma época por outra cultura, seja em épocas diferentes pela mesma cultura ou por culturas diferentes. Quer os crentes quer os não crentes têm, por conseguinte, constrangimentos dos quais não podem libertar-se. Isto não quer dizer que não possa haver pensamento crítico dentro de uma mesma cultura que coloque em causa elementos dessa mesma cultura que podem ser considerados fundamentais pela maioria dos seus membros.

2. A história das religiões mostra tudo menos uma tradição rigidamente imutável. As cisões são frequentes, pelo menos nos primeiros séculos de uma nova religião. No caso dos cristãos, as grandes cisões deram-se nos séculos XI (ortodoxos) e XVI (protestantes). Os debates nos primeiros séculos do cristianismo tinham a ver com as naturezas humana e divina de Cristo, com a compreensão da unidade das três Pessoas Divinas, com o papel de Maria como Mãe de Jesus, etc. Mais recentemente, têm sido os estudos bíblicos que mais têm sido reformulados, sobretudo desde o século XIX. O diálogo ecuménico entre as várias religiões cristãs tem levado ao confronto construtivo de algumas concepções teológicas. Também o diálogo entre as diversas religiões tem sido possível e proveitoso, o que mostra claramente que as diversas religiões não se excluem mutuamente mas, pelo contrário, se reconhecem próximas umas das outras em muitos aspectos que têm a ver com a construção de um mundo melhor baseado na justiça e na verdade, categorias fundamentais em qualquer religião.


3. A compreensão da doutrina e dos dogmas do cristianismo tem sido reformulada de acordo com a evolução da língua e da cultura, bem como dos conhecimentos que se vão adquirindo através da ciência. A revolução heliocêntrica de Galileu levou a uma reformulação profunda do universo medieval, no qual a Terra estava no centro do universo e Deus, os anjos e os santos se encontravam no ‘empíreo’, o céu situado por detrás das estrelas visíveis a olho nú, que se pensava estarem fixas numa esfera rotativa. A revolução de Darwin levou a uma nova interpretação, não literal, do Génesis quanto ao aparecimento das espécies vivas, especialmente dos seres humanos. A teoria do big bang levou a uma nova reformulação da interpretação do Génesis quanto à criação do mundo por Deus em seis dias. Todas estas mudanças científicas têm sido extremamente benéficas para a religião, certamente para o cristianismo. O universo que, até Galileu, se reduzia a pouco mais que o sistema solar, estende-se agora por distâncias quase infinitas. A duração do acto criador de Deus, passou de seis dias para milhares de milhões de anos, levando à concepção de um acto criador que não terminou mas antes continua no espaço e no tempo. O aparecimento da vida na Terra, particularmente dos seres humanos é relativamente recente na história de todo o universo. O ponto mais importante a ter em conta é que todas estas mudanças nas concepções religiosas provocadas pelo progresso científico não pôs em causa qualquer dos elementos fundamentais da fé cristã. A Bíblia é ainda reveladora da existência de um Deus criador, mas nem todos os textos bíblicos podem ser interpretados de uma forma literal. Isto não corresponde de modo nenhum a uma estratégia de fuga dos cristãos às dificuldades levantadas pelo progresso cultural em geral e científico em particular, mas a uma atitude crítica que está de acordo com os progresso que têm sido feitos no campo da hermenêutica literária, não apenas no que se refere às Bíblia mas também a outros textos, de cariz religioso ou não. O desconhecimento deste facto levou a que recentemente o Prémio Nobel Saramago produzisse algumas declarações sobre a Bíblia que foram imediatamente criticadas não tanto pelos cristãos mas pelos literatos, independentemente da sua fé ou de não terem nenhuma. Muitos não crentes ainda hoje não compreenderam o grave equívoco de Saramago.

4. Por conseguinte, os não crentes ao considerarem-se livres pensadores têm em mente uma concepção de liberdade situada e condicionada que só muito equivocadamente poderão considerar radicalmente diferente da liberdade dos cristãos.

13 comentários:

um retirante em busca de fronteiras disse...

caros companheiros, deixo minhas felicitações pelo blog...abraço fraterno. Rafael Basso

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

Sinto-me um pouco desiludido por continuares a insinuar que o meu ateísmo tem como objectivo principal erradicar a religião dos outros. Porque não é nada disso.

O meu ateísmo impede que me torne religioso, e nisso tem me servido bem. E, como ateu, também quero que não me obriguem a ser religioso. E gostaria que a minha sociedade não favorecesse os religiosos só por serem religiosos. Felizmente, isso também se tem conseguido.

Mas nada tenho contra tu seres religioso, e lamento que penses que eu quero erradicar a tua religião e te recuses a aceitar que não é esse o caso mesmo quando te asseguro disso. Achas mesmo que perco sono por tu ires à missa?

Não fica muito bem insistires como equívoco fundamental do ateísmo algo que os ateus te garantem ser falso... E ainda menos assumir implicitamente que os ateus são todos iguais.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Conheces certamente o Diário Ateísta e o Portal Ateu. Tenho alguma dificuldade em acreditar que as pessoas que mantêm esses sites não estão mesmo desejosas de acabar com a religião. Afinal, se, como diz Hitchens, a religião só faz mal, porque não deverião terminar com ela?

Acresce ainda que eu também não me revejo em muitas das imagens de Deus e da religião que inseres repetidamente no teu site. Estás no teu direito. Embora eu não me reconheça em muito do que dizes quando criticas a religião em geral ou o cristianismo em particular, não me sinto com o direito a que deixes de insistir naquilo que eu considero caricaturas do cristianismo.

Um abraço,

Alfredo

Nuno Gaspar disse...

"Sinto-me um pouco desiludido por continuares a insinuar que o meu ateísmo tem como objectivo principal erradicar a religião dos outros. Porque não é nada disso."

Ludwig,

Pode não ser esse o seu objectivo. Duvido que exista alguém mentalmente equilibrado que leia o seu blogue e os seus autores queridos que não fique com a impressão que é mesmo.

"E, como ateu, também quero que não me obriguem a ser religioso."

Quando alguém o obrigar a ser religioso diga. Queremos saber como se faz.

"Mas nada tenho contra tu seres religioso"

Se não tem porque gasta rios de tinta a escarnecer dos sinais da sua Fé?


"Não fica muito bem insistires como equívoco fundamental do ateísmo algo que os ateus te garantem ser falso... E ainda menos assumir implicitamente que os ateus são todos iguais"

Mau. Numa frase diz que os ateus não são todos iguais e noutra diz o que todos os ateus pensam. Em que ficamos?

Acho muito bem que lamente que quem o lê pense que você e uma série de colegas seus não têm outro objectivo senão acabar com a religião. Se o objectivo é outro deve repensar nas coisas que anda a dizer.

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo Dinis,

«Conheces certamente o Diário Ateísta e o Portal Ateu. Tenho alguma dificuldade em acreditar que as pessoas que mantêm esses sites não estão mesmo desejosas de acabar com a religião. Afinal, se, como diz Hitchens, a religião só faz mal, porque não deverião terminar com ela?»

É como o tabaco. Era bom que as pessoas decidissem deixar de fumar. E é preciso proteger quem não quer fumar, para não levarem à força com o fumo dos outros.

Mas proibir toda a gente de fumar e prender quem fuma, ou medidas repressivas que tais, seria muito pior.

Por isso o objectivo é ir esclarecendo para dar o máximo de possibilidades às pessoas escolherem a melhor opção, mas sem recorrer a métodos coercivos porque, afinal, a opção é delas.

Tu estás a confundir o "fumar faz mal" com o "prendam os fumadores"...

Ludwig Krippahl disse...

Alfredo,

«Acresce ainda que eu também não me revejo em muitas das imagens de Deus e da religião que inseres repetidamente no teu site. Estás no teu direito. Embora eu não me reconheça em muito do que dizes quando criticas a religião em geral ou o cristianismo em particular, não me sinto com o direito a que deixes de insistir naquilo que eu considero caricaturas do cristianismo.»

No meu blog tenho o cuidado, muitas vezes (admito que me escape ocasionalmente) de frisar que critico as religiões (plural) e que não há propriamente a religião (singular), porque da astrologia ao zoroastrismo há um grande contínuo e parafernália de crenças.

Mas tu insistes que o maior drama do ateísmo, singular, do ateísmo todo, é não conseguir acabar com as religiões, como se isso tirasse algum valor ao ateísmo. É como dizer que o cristianismo não serve para nada porque os cristãos não conseguem converter todos os outros ao cristianismo... Não faz muito sentido.

微笑每一天 disse...

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António Parente disse...

Parabéns, Alfredo Dinis. O seu texto está brilhante. Como sempre, aliás.

alfredo dinis disse...

Caro Ludwig,

Tenho sérias dúvidas de que o objectivo do Diário Ateísta e do Portal Ateu seja esclarecer. Habitualmente limitam-se a fazer citações do que lêem nos meios de comunicação, escolhendo cuidadosamente os aspectos negativos relacionados com as religiões. Por outro lado, a linguagem utilizada tende para o tipo de argumentação ad hominem e de nível nem sempre muito elevado. Não sei se os autores desta argumentação e desta linguagem crêem que isso dá força aos seus argumentos e ajuda a esclarecer melhor alguma coisa.

Certamente que os cristãos não estão indiferentes ao aumento do número de pessoas que deixam de se reconhecer na sua fé, sobretudo quando abandonam qualquer fé religiosa. Por outro lado, o facto de a linguagem e o comportamento de alguns cristãos nem sempre ser o que dá a melhor imagem do cristianismo aos não crentes é algo que também nos preocupa. Suponho que os ateus também não estarão indiferentes ao facto de os seus argumentos não convencerem muitos crentes a deixarem o obscurantismo e a irracionalidade da sua fé religiosa. Ou não estão nada indiferentes?

Ludwig, podes crer que muitos cristãos dão a vida, muitas vezes literal e fisicamente, para melhorar este mundo. O mesmo fazem muitos não crentes. Muitas das coisas que os não crentes criticam nas religiões são também criticadas pelos crentes. Não entendo por que razão deverão os não crentes conduzir verdadeiras campanhas anti-religião, quase sempre contra o cristianismo (não consideras as obras e atitudes de Dawkins e Hitchens verdadeiras campanhas?) quando o mundo se vai afundando em sucessivas crises de toda a ordem. Recordo o que já disse noutras ocasiões: O ateu E. Wilson afirma na sua obra A Criação que os crentes e os não crentes devem cooperar entre si para salvar o planeta e deixarem-se de querelas metafísicas. Infelizmente, apesar da autoridade deste cientista, as suas palavras não parecem ter sido ouvidas. Certamente que caíram em saco roto, quer no Diário Ateísta quer no Portal Ateu. O que lamento profundamente.

Um abraço,

Alfredo

thorazine disse...

Boa noite

Alfredo Dinis,
Já tenho lido e ouvido algumas ideias suas e sinceramente fico um pouco confundido, pois acho que deus que defende não se coaduna com a religião católica, que tem como parte integrante uma instituição e um conjunto de ideias, mas sim uma fantasia sua do que é deus. Tenho uma longa tradição católica na família e eu próprio tive uma educação em que considerei-me parte da igreja até quase ao fim da adolescência. Sei que a cultura que se vive actualmente na igreja nunca aceitaria as versões "actualizadas" do deus que apresenta. Quantas pessoas crentes defenderiam que deus não castiga, que deus não pune, que não é preciso ter rituais como rezar e ir à missa...ou até mesmo às partes mais teóricas, como que deus não criou o mundo em 6 dias?

Visto que é uma pessoa que demonstra ter abertura a novos conhecimentos e a outras áreas do saber, provavelmente teve que seleccionar um deus que lhe desse conforto e que, com os conhecimentos que tem, pudesse acreditar.

Ao aceitar o darwinismo, defende que as plavras dos Génesis são uma mera metáfora, um forma de passar os valores, no entanto diz que se sustenta na frase "creio em deus pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra". Como sabe que esta frase também não é uma metáfora? Poderia ser uma metáfora para o "big bang"..afinal o big bang foi o "pai" de todas as explosões e não há nada que meta mais respeito ao homem que uma boa bola de fogo. :) Acho que o que a igreja, como instituição e que é liderada pelo papa, defende é que os crentes têm que aceitar e reger-se pelas ideias católicas (se bem lembro ainda há tempos veio relembrar aos padres que não podem perder o hábito de prégar) e não pela interpretação que cada pessoa faça consoante o que lhe der mais jeito.

Referiu várias vezes que não acredita no deus da igreja católica, mas no entanto várias vezes a defende no seu discurso. Ainda hoje disse que João Paulo II foi o único líder religioso a pedir desculpa pelas atrocidades cometidas.No entanto o próprio João Paulo II a defender o que acreditava também foi parte activa na morte e sofrimento. Como se explica os aumentos exponenciais dos casos HIV nos meses a seguintes a discursos do papa anti-preservativo, principalmente em zonas mais isoladas de África? E os padres que actualmente ainda defendem tais ideias, com o consentimento da igreja provocando a morte directa de terceiros? E por este crime nenhum deles vai ser julgado pela lei dos homens. Porque que eu saiba induzir os outros em erros que podem levar à própria morte é crime

Depois, há a questão monetária. A ostentação de riqueza por parte da igreja católica dá-me arrepios. Para que tanto património? Para quê ter sapatos prada? Para quê tudo banhado a ouro? Para quê tanto castelos e tantas propriedades? Porque não utilizar esse dinheiro para ajudas os outros? sinceramente acho um CRIME ver na minha aldeola as pessoas que trabalharam um vida e que vivem de uma reforma que mal chega para viverem, e pensando que estão a ajudar "algo grande", estão a contribuir para a compra de um mero cáice de 500€.

As missas são sempre o mesmo, não têm a função social que tiveram outrora e estão desactualizadas para poder formar jovens para a vida, com valores que sobrevivam nesta sociedade.

Ou seja, para que serve a religião em si? Para nada. Serviço social, ajudar pobres? Venda-se o património da igreja, financie-se instituições - acho que mais ninguém passava fomeca, pelo menos.

Tem coisas boas, sem dúvida. Mas as más ultrapassam ao pontos.

alfredo dinis disse...

Thorazine,

Obrigado pelo seu comentário.

Nunca defendi que não é necessário rezar nem ir à missa. Defendo o contrário.

Nunca disse que não acredito no Deus da Igreja Católica. Pelo contrário.

Parece-me que acredita que a Igreja Católica não contribui para o desenvolvimento dos povos, o que não é verdade. Pode crer que ainda que o Vaticano vendesse todo o seu património e desse de comer aos pobre com esse dinheiro, passado alguns anos os pobres e famintos continuariam pobres e famintos e o património do Vaticano, que é património mundial, teria desaparecido. Não é assim que se contribui para o desenvolvimento dos povos.

Saudações,

Alfredo Dinis,sj

thorazine disse...

Boa tarde,

Ontem na palestra referiu que não é preciso ir à missa, saber o credo e todas aquelas orações impingidas na catequese e que ninguém sabe muito bem o significado, para se ser cristão. Defendeu que apoiava quem não acreditava num deus vingador, num deus que nos irá julgar na grand finale - que por sinal é o deus defendido pela igreja católica.

Eu acredito que a igreja católica até posso contribuir para a evolução dos povos, da mesma forma que concordo que a guerra promove o desenvolvimento da tecnologia. Simplesmente são vias que o preço a pagar é muito alto.

Obviamente que não era uma mera operação de venda que iria acabar com a fome, mas o que tem a dizer do património do vaticano que se usa da fé para alimentar o seu património?

Deve saber melhor que eu que é uma injustiça pedir esmola a reformados e a quem mais precisa para comprar bens para igreja. Deve saber bem melhor que eu que os padre fariam sim um serviço social muito maior se saíssem das capelas e fossem para a estrada ajudar fisicamente os outros.

E não posso concordar que se possa defender a igreja pelo bem que ela faz, quando ela também provoca dor e morte. Não posso defender alguém que mata só porque também já fez o bem a outro. E actualmente, apesar do vaticano saber que ao promover o não uso do preservativo está a aumentar a proliferação do HIV, que ao se pronunciar contra os homossexuais está a fomentar a discriminação do próximo, etc, etc..continua a fazê-lo.

Cumrpimentos

alfredo dinis disse...

Thorazine,

Eu participo todos os dias na missa, sei e recito o Credo ao Domingo e rezo todos os dias também com as orações que aprendi na catequese. Tudo isto faz parte do cristianismo e da vida do cristão. O que afirmei é que todas estas práticas podem não ter valor nenhum se não têm consequências práticas na vida dos cristãos, e que é preferível uma pessoa que não vai à missa e vive de acordo com os valores do humanismo cristão a uma outra que cumpre externamente todas as prescrições mas depois na sua vida prática vive como se não acreditasse em Deus, isto é, contra os valores do humanismo cristão.

Nada disto é novo. Já o próprio Cristo afirmou:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsámos demónios? e em teu nome não fizemos muitos milagres?
Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.” (Mt 7:21-23)

Por outro lado, nem só de pão vive o homem. As necessidades humanas vão muito além das necessidades de comer. Hoje há um considerável número de instituições e de pessoas que vão habitualmente ter com os sem abrigo, por exemplo, para lhes dar comida e conforto. Há entre estas pessoas e instituições algumas que são católicas.

Mas há outras necessidades que as pessoas têm para além destas e é em relação a essas outras necessidades que os padres podem dar uma ajuda que poucas outras pessoas podem proporcionar.

Saudações,

Alfredo Dinis