25 de março de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco fundamental:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião. Isto aplica-se de modo particular ao cristianismo.

Quinto equívoco: os não crentes crêem que ao apontar continuamente os episódios negativos da história passada e presente do cristianismo, em particular da história da Igreja Católica, estão a contribuir para que a religião se revele como algo que, segundo os neo-ateus, ‘só faz mal’ e, assim, desapareça da face da Terra. Também neste caso a linguagem dos ateus não constitui um bom argumento contra a religião. Muito menos o facto de uma tal linguagem ser em geral agressiva e grosseira.

1. Os não crentes têm um particular gosto em apontar episódios negativos da história da Igreja Católica, sobretudo os que se referem à Inquisição, ao caso Galileu, e a episódios de violência ligados a querelas sobre questões doutrinais sobretudo nos primeiros séculos do cristianismo. Têm igualmente um gosto particular em apontar episódios de índole (i)moral, sobretudo os que se referem às autoridades da Igreja Católica, no passado como no presente. O equívoco está em pretenderem transformar episódios lamentáveis em argumentos contra a existência de Deus.

2. Os cristãos são seres humanos que aderiram à proposta de vida de Jesus Cristo, tal como é apresentada no seu Evangelho. Esta proposta baseia-se em elevados valores éticos e religiosos com base nos quais os cristãos querem viver a sua vida. Tal como os demais seres humanos, os cristãos são chamados a procurar um equilíbrio entre duas das dimensões fundamentais do ser humano, a razão e a emoção ou, mais concretamente, entre as razões e as emoções. Todos os seres humanos fazem a experiência de como é difícil este equilíbrio, e fazem também a experiência do fracasso em viver estas duas dimensões de forma plenamente madura. Os valores éticos do cristianismo foram incorporados na cultura ocidental e, por conseguinte, todo o comportamento que vai contra tais valores é geralmente condenado, independentemente de quem está envolvido, cristãos ou ateus.

3. A condenação não deve ser porém um fim em si mesmo. As prisões deverão, sendo embora locais de cumprimento da pena, ser também oportunidades de cura de feridas interiores por parte dos condenados, e de um recomeço de vida. Esta é a perspectiva segundo a qual é actualmente considerada a função das prisões. Os não crentes têm apenas palavras de condenação, nunca de reabilitação. O sofrimento das vítimas dos criminosos representa uma ferida para essas mesmas vítimas e para toda a sociedade, incluindo os próprios criminosos, a não ser que estejam dominados por alguma doença mental grave. Todo o apoio e conforto que lhes for dado não será demais. Mas criminoso e vítima são seres humanos e devem ser tratados como tais.

4. Os não crentes preferem ignorar que o nível ético dos cristãos, como da sociedade em geral, tem progredido constantemente. Basta conhecer um pouco de história. Isto não significa que os mesmos cristãos, como os não crentes, não estejam sujeitos a fracassos, hoje e no futuro. Mas a prova de que o progresso moral dos cristãos é visível é a necessidade que os não crentes têm de, denunciando embora factos presentes, ir ao passado buscar exemplos de imoralidades, sem quererem reconhecer que houve um progresso moral significativo nos cristãos até hoje.

5. Os não crentes preferem ignorar o comportamento ético da maioria dos cristãos, muitos dos quais dão a sua vida pela paz e pela justiça, em cenários de guerra, de insegurança e de miséria. Não está aqui em causa o facto de os não crentes poderem ter um semelhante comportamento ético. O que está em causa é que o nível ético dos cristãos não pode objectivamente ser medido pelo comportamento condenável de uma minoria.


6. Esta forma de argumentação dos não crentes deveria também levá-los a denunciar com igual vigor os crimes de agentes políticos e a reclamar o fim de toda a teoria e prática política. Isso não acontece, porém, e todos compreendem a razão por que tal seria absurdo. O mesmo raciocínio se aplica à religião. Não se pode passar sem mais da axiologia à ontologia. Os não crentes preferem porém o equívoco à clareza.

11 comentários:

Miguel Oliveira Panão disse...

É pelo equívoco fundamental que questiono se o ateísmo que habita na blogosfera não será antes "anti-teísmo". Quando se procura aprender alguma coisa sobre o pensamento ateu, por vezes, vale mais a pena ler pensadores Cristãos que o levam a sério. É a minha experiência e temo que seja por mais algum tempo que o desejável ...

Gonçalo disse...

Caro Alfredo,

É interessante que sendo este um texto sobre o erro de generalizar o comportamento de alguns cristãos para a totalidade dos cristãos, acaba por fazer o mesmo aos não-crentes. Com excepção da "Não está aqui em causa o facto de os não crentes poderem ter um semelhante comportamento ético", todas as frases em que usa a expressão não-crentes parecem-me generalizações abusivas.

Cumprimentos

alfredo dinis disse...

Caro Gonçalo,

Refiro-me aos muitos não crentes que exprimem publicamente as suas concepções em livros, artigos, blogues, etc. Não tenho de modo algum a intenção de generalizar, porque sei que não há ima imagem única dos não crentes. Também é verdade que os não crentes que não são objecto da minha crítica não se fazem presentes nos 'locais' a que me refiro. Dir-me-á que não são obrigados a isso. Tem razão. Mas impressiona-me o facto de os não crentes com quem tenho alguns debates são em geral bastante exagerados e generalizadores nas suas críticas aos crentes.

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Miguel,

Quem lê afirmações não vê corações.

Um abraço,

P. Alfredo

Ricardo Alves disse...

Caro Alfredo Dinis,
afirmas que:

«Os não crentes têm um particular gosto em apontar episódios negativos da história da Igreja Católica (...) O equívoco está em pretenderem transformar episódios lamentáveis em argumentos contra a existência de Deus.»

Eu sou ateu e não me revejo nessa caracterização. Não acho que as cruzadas, ou a inquisição, ou a protecção a sacerdotes pedófilos sejam argumentos contra a existência de «Deus». Serão argumentos, isso sim, para evidenciar que as crenças religiosas não tornam as pessoas melhores ou menos susceptíveis a terem comportamentos autoritários, violentos e criminais.

Mas, quando escrevo no Diário Ateísta, de que creio que sejas leitor, tento separar o que é a crítica científica da existência de deuses do que é a crítica da religião e dos actos dos religiosos.

Devo também referir que denuncio crimes de agentes políticos. Muitos. Não o faço é, regra geral, no Diário Ateísta, mas sim noutro blogue onde escrevo.

Finalmente, é um equívoco insistir em que os descrentes pretendem, todos sem excepção, a «erradicação da religião». Haverá ateus totalitários que pretendem o desaparecimento, pelo menos, da prática religiosa. (Há o caso da Albânia de Enver Hoxa.) Mas não conheço, na blogosfera portuguesa e no século 21, nenhuma defesa articulada e sistemática do desaparecimento da religião. E parece-me injusto que digas isso sem apontar, claramente e sem equívocos, quem defende esse desaparecimento e onde.

Saudações,

alfredo dinis disse...

Caro Ricardo,

Agradeço o teu comentário.
Fico deveras perplexo com a tua afirmação de que os ateus não pretendem erradicar a religião. Se Hitchens defende que 'a religião só faz mal', poderá ao mesmo tempo ter uma atitude tolerante para com ela? Não consigo acreditar nisso. O mesmo se diga de Dawkins e Harris, para só citar alguns dos mais conhecidos.

Por outro lado, qual é o objectivo fundamental da Associação Ateísta Portuguesa e do Movimento Ateísta Português, para só citar associações portuguesas, talvez até moderadas em relação a outras que existem em outros países e que certamente conheces melhor do que eu?

Se eu estivesse convencido que a aspirina só faze mal, ficaria incomodado se visse que as farmácias as continuavam a vender. Certamente que denunciaria essa venda até que fosse erradicada a aspirina.

Acredito que haja ateus que não têm atitudes tão radicais como as dos que querem atirar os crentes para a fogueira da condenação. Mas os que se pronunciam sobre as religião parecem apostados em lutar contra ela até que desapareça, uma vez que estão convencidos de que nada há nela que se aproveite. Ou não?

Saudações,

Alfredo Dinis

Ricardo Alves disse...

Caro Alfredo,
há limites que se devem, sempre, colocar à nossa acção. Mesmo quando estamos convencidos de que estamos certos. Eu não tenho, por exemplo, qualquer tipo de dúvidas de que a heroína e a cocaína são perniciosas para a sociedade e, de forma ainda mais grave, para os indivíduos. Mas não estou convencido de que seja benéfico proibir, sempre, o seu consumo. E meter na prisão quem consome, como acontecia há quinze anos atrás, era um erro crasso.

A comparação não lhe agradará certamente. Mas é-me conveniente porque eu, pessoalmente, estou convencido de que haverá sempre toxicodependentes. E também estou convencido de que haverá sempre pessoas religiosas (no sentido de crerem que «existe algo» após a morte). Mas não me parece que a «erradicação» seja o melhor método para lutar com qualquer um destes problemas. A persuasão parece-me muito mais humanista.

Saudações,

alfredo dinis disse...

Caro Ricardo,

A persuasão é sem dúvida humanista, embora se aplique de forma diferenciada. As regras de trânsito têm que ser impostas, não basta a persuasão. E o facto de muitos condutores não respeitarem essas regras não é argumento suficiente para que não sejam impostas.

O exemplo que refere é certamente complexo. Eu preferiria um grande esforço de persuasão com alguma imposição. Por exemplo, impedir que as drogas entrem nas Escolas.

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

E porque não escrever:

O maior drama dos crentes não é a sua impossibilidade de demonstrar a existência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar o ateismo. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas ao ateismo, e nesse caso só pode ser benéfico para ele; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam o ateismo.

Depois de ler o que atrás escrevi compreende-se que a brincar com as palavras não se chega a lado nenhum.

José Simões

jsimoes.wordpress.com disse...

Ora, manipulando um pouco a quinta fica:

os crentes crêem que ao apontar continuamente os episódios negativos da história passada e presente do ateismo, em particular da história do leninismo, estão a contribuir para que a falta de religião se revele como algo que, segundo os neo-crentes, ‘só faz mal’ e, assim, desapareça da face da Terra. Também neste caso a linguagem dos crentes não constitui um bom argumento contra o ateismo. Muito menos o facto de uma tal linguagem ser em geral agressiva e grosseira.

Nâo se lê nada mal, pois não? E eu não podia estar mais de acordo.

José Simões

alfredo dinis disse...

Caro José Simões,

Obrigado pelos seus dois comentários.

Tudo parece não passar de um jogo de palavras, mas, de facto, não +e assim. A crítica inteligente do ateísmo à religião contribui para que esta se liberte de elementos que não lhe são essenciais, ou modifique outros que estejam ultrapassados, por exemplo. Com isto, a religião torna-se cada vez mais autêntica. O ateísmo, pelo contrário, se aceitasse as críticas inteligentes dos crentes acabaria por desaparecer, uma vez que ficaria sem substância.

No que se refere à hipótese de os crentes criticarem episódios negativos da história do ateísmo, não vejo que isso aconteça. A crítica dos crentes ao ateísmo baseia-se na inconsistência dos argumentos dos ateus muito mais do que na sua história. O seu texto acaba, assim, por ser excessivamente forçado.

Saudações,

Alfredo Dinis