7 de março de 2010


Perante os esmagados pela queda da torre de Siloé.

No outro dia recebi um mail duma rapariga que é religiosa e estava no Haiti aquando do terramoto, onde continua agora ajudando a reconstruir o país. Antes da tragédia era professora num bairro social e conta como na manhã do sismo, ao sair de casa e caminhar pelas ruas…o fedor dos seus alunos saía de debaixo dos escombros…No meio do cansaço, da desesperação, da dúvida de fé…esta religiosa procurava ajuda afectiva e efectiva aos sobreviventes.
Um amigo meu, também jesuíta espanhol, estava no outro dia em Santiago do Chile quando o terramoto aconteceu. Comenta-me num mail que nunca se tinha sentido tão aterrorizado e impotente. Como sabemos, são mais de 720 mortos. Este jesuíta novo está agora como voluntário nas equipas de ajuda organizadas no país. Há que dizer, aliás, que está no Chile a trabalhar num bairro social ao norte do país.
Os cristãos dizemos que estamos em tempo de Quaresma, o que não é um número de semanas nas quais a liturgia e alguns hábitos alimentares e caritativos mudam e se fazem mais austeros e tristes. Não, é um estado existencial de procura do essencial para chegar-mos à celebração da morte de Jesus, e ouvirmos o anúncio (não evidente, mas audível ainda assim) da sua ressurreição.
Neste terceiro domingo deste estado existencial de autenticidade e procura do funda-mental, temos um Evangelho especialmente incómodo (como costuma ser sempre, por outra parte, quando o escutamos), sobretudo após as sucessivas catástrofes naturais desde o começo do ano, que têm atingido (que irónico!!!) aos “preferidos de Deus”, isto é, aos mais pobres da Terra.
Hoje escutamos coisas como estas: “Acreditais que os dezoito homens que a torre de Siloé matou em sua queda eram mais pecadores do que todos os habitantes de Jerusalém? Não, eu vos digo, mas se não vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante.” Este Jesus que temos dulcificado até dar-nos nojo, parece ter palavras duras para aqueles que o questionam e se perguntam que relação pode haver entre o pecado humano, a brutalidade da natureza e do planeta e a bondade de Deus, de modo que aqueles dezoito infelizes foram esmagados pelo edifício ao cair. Mais uma vez temos o eterno problema e obstáculo real para a fé no Deus de Jesus: “Como é que tu, se és tão bom como dizes, permites estas coisas e crias uma realidade tão cruel e absurda?”.
Ora, parece que Jesus no Evangelho não nega que, de facto o esmagamento desses homens seja uma desgraça (nem os mortos do Haiti, nem da Madeira, nem do Chile, nem de…), mas parece que não é a maior. Há uma desgraça ainda maior que viver na insegurança e morrer sob as forças incontroladas da natureza: a desgraça de não empregar bem a vida. Isto é, de não descobrir o importante da existência, e deste modo aprender a relativiza-la como caminho e não meta em si mesma.
Não podemos esquecer que a vida de Jesus, consequente até ao fim, termina duma forma irracional: é pregado a duas madeiras até morrer de asfixia e esvaído em sangue. O pregador do amor pregado por incompreensão e ódio. Quando não é a natureza a terminar connosco, nós mesmos fazemos o esforço.
Porquê estas duras palavras de Jesus? Porque não há tempo que perder, “se não vos converterdes”.
Numa aparente outra ordem de coisas, estamos a passar por uma crise mundial que já vem estruturalmente de longe, embora os efeitos práticos começaram há uns meses. E Jesus poderia dizer-nos exactamente a mesma coisa: “se não vos converterdes”.
Sim, o Evangelho é radical, e por isso é libertador. Olhamos à nossa volta, e vemos que nada é estável, que nada pode (embora nós tenhamos este desejo) dar-nos a segurança e plenitude que procuramos. Esta vida, tão limitada, não faz sentido.
A resposta de Jesus não concorda: esta vida frágil e caduca faz sentido…quando não é o nosso absoluto, quando a relativizamos (nos relativizamos) perante o Criador dela e o seu projecto, que a inclui mas a ultrapassa. Este mundo é bom, porque é projecto de plenitude, não porque seja pleno já. É bom não esquecer que o Cristianismo fala do Reino de Deus e do Céu como realidades que estão a caminho de serem, de modo que este mundo faz sentido como trampolim para o futuro, plenamente bom.
Sim, todos vamos morrer, voluntariamente ou não, mais cedo ou mais tarde, natural-mente ou pela força doutras pessoas ou por acidente. Ninguém vai ficar aqui, provavelmente a nossa espécie animal também não e até é provável que o nosso planeta corra a nossa mesma sorte. Mas isto não tem porque angustiar-nos, nem fazer-nos indiferentes à vida e ao mundo: apenas tem que pôr as coisas no seu lugar correspondente: Deus e a relação dele connosco e nós com Ele e com os outros são os absolutos, mais nada.
Claro, esta forma de ver a vida é radical, e muda perigosamente os nossos critérios vitais. Mas, pode ser libertadora? De facto precisamos de libertação. O Evangelho oferece uma alternativa ao nosso estilo de vida e às nossas prioridades existenciais. É um bom momento de escolha, é momento de conversão: estamos em Quaresma.

O nosso amado mundo é limitado e imperfeito…mas não é um fim em si mesmo, apenas a possibilidade para alguma coisa maior. Jesus oferece uma forma de vida e uma perspectiva não angustiante mas estimulante perante a existência. O amor, isto é a comunhão afectiva e efectiva entre nós e Deus, é a chave. Temos a oportunidade para repensar os nossos objectivos e prioridades nos anos que ainda temos para viver. Estamos em Quaresma, podemos vivê-la a sério. Não esqueçamos, a Quaresma também não é o fim definitivo…é apenas a possibilidade para a Páscoa, então sim, para a plenitude.

Os acontecimentos desde o começo do ano, que põem de manifesto a nossa limitação e a do planeta, as vítimas que não puderam reflectir sobre o que nós hoje aqui lemos, apressam-nos a não evitar as questões duras e irmos até ao fim nas nossas respostas. “Ensina-nos, Senhor, a calcular os nossos anos, para que adquiramos um coração sensato”, um coração quaresmal.

Leituras do dia:
Ex, 3, 1-8ª. 13-15
Salmo 102
1 Cor 10, 1-6. 10-12
Lc 13, 1-9

1 comentário:

macaco do 1ºD disse...

Boa Tarde Estimado,

É um prazer contactá-lo e em primeiro lugar elogiar pelo bom blog que expõe a todos nós, leitores.

Envio este e-amil para anunciar a abertura de um novo blog, o "Macaquinhos no Sótão". http://osmacacosdosotao.blogspot.com/

Um blog pensado há muito, mas que só agora decidi abrir.

Gostaria muito de contar com a sua ajuda na promoção deste blog, colocando o link se possivel.

Como é claro, retribuirei sem piscar os olhos em colocar o seu link na minha página!

Espero uma resposta sua.