11 de abril de 2010

No centro da Noite

E desta fonte nasce uma corrente. E bem sei eu que é forte e omnipotente, Embora seja noite.” Estas palavras de S. João da Cruz podem servir de mote para a leitura do evangelho deste domingo. Muitas vezes somos levados a separar radicalmente os momentos difíceis dos momentos em que a vida se nos apresenta unificada e íntegra. Ora, nestes versos, S. João da Cruz afirma ser possível a nossa vida decorrer unificada de uma fonte misteriosa, da qual se pode beber, mesmo nos momentos mais secos e desencantadores. Mas, como será isto?



Todos nós temos um centro. Um lugar para onde se dirige a nossa atenção e motivação. Neste sentido, os discípulos tinham também um centro que se torna muito claro no evangelho: “fechadas as portas do lugar […] com medo das autoridades judaicas”. O centro eram eles próprios. Daí o medo de que as autoridades, depois de terem morto o seu líder, também os pudessem matar a eles. Talvez o contrário mais abissal do medo seja a paz de coração.


Curiosamente, muitas vezes não damos muita atenção a palavras sobre a paz, porque vamos percebendo que não é por falarmos muito dela, por palavras, que vai despontar em nós. A paz não se conquista, surge inesperadamente quando deitamos tudo a perder por algo autêntico que nos fez sair de nós. Esse algo autêntico é lugar de presença onde Deus se revela e, tal como Jesus, nos tira o medo, pondo o nosso centro fora de nós.


Nas duas vezes em que Jesus aparece aos discípulos, Ele mesmo se põe no centro. Só fora de nós podemos encontrar a paz que, muitas vezes desiludidos, não conseguimos achar em nós. Deus quer-nos com o centro fora de nós, pois este é o movimento do amor, o movimento do próprio Deus que, em Jesus, deixa o Seu próprio centro para amar o que lhe é distinto. E amar é sempre acolher o que nos é distinto. É por isto que a paz cristã exige a luta de quem se quer auto descentrar, e ser como uma torrente que se confia no curso que lhe imprime a fonte que a precede. Mas afinal que significa no concreto esse curso que a fonte nos imprime?


Quando lemos uma palavra do Evangelho, é o Ressuscitado que encontramos. Na Eucaristia, é o dom da sua vida que recebemos. Quando nos reunimos em seu nome, ele está no meio de nós. E há esse caminho surpreendente onde ele vem ao nosso encontro: ele também está presente naqueles que nos são confiados, sobretudo naqueles que são mais pobres do que nós.” (Ir. Alois – prior de Taizé) É no contacto com a Sua Vida, pela palavra e pelos sacramentos, que conheceremos o estilo com o qual Ele próprio continua a tocar e retocar a fragilidade da nossa existência. Creio porém que, tal como Tomé, esta resposta nunca parece bastar para justificar uma vida cristã, onde a mudança se exige constante. Mas onde apoiar a nossa fé de que o Ressuscitado Se revela a nós na palavra e no sacramentos?


O cristianismo não é uma teoria que, consequentemente, apoia os mistérios em provas empíricas. Os mistérios cristãos são também mistérios nossos que Deus vem assumir, mostrando-nos que eles estão grávidos de Vida. Assim sendo, em vez da prova empírica é-nos apresentado o testemunho que solicita a confiança diante do nosso mistério, que se apresenta entrelaçado com a promessa de Deus.


O testemunho de Jesus, o que se põe ao centro como condição de paz verdadeira, consiste em mostrar as chagas. A chaga não é uma prova empírica de que Ele era fora crucificado (isso eles já sabiam). A chaga era o testemunho de que, sendo Ele o mesmo Jesus, o Amor assume e transcende todas as chagas, mortes e denuiões. A morte é sempre penúltima. O testemunho apela a uma confiança, que só se recebe na paz de quem tem o centro fora de si, ao estilo de Deus.


Desta forma, as nossas noites e chagas deixarão de nos surgir como fatalidades da vida que é miserável, mas despontarão como promessa de um face a face com Deus que se vai fazendo cada vez mais pleno diante de cada pessoa e realidade. Promessa de um dom que começa já na consciência e confiança simples nesta mesma maravilha. Até que ponto estamos dispostos a pôr o centro fora de nós, para que tudo isto ocorra?


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