14 de abril de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Algumas pessoas que se consideram ateias comunicaram-me que não se identificam com o que eu designo por equívoco fundamental, uma vez que não assumem o seu radicalismo. Reconhecendo a verdade deste facto, modifiquei o enunciado do ‘equívoco fundamental’ para o adaptar apenas aos ateus radicais.

Equívoco fundamental: O maior drama do ateísmo radical não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião. Este equívoco aplica-se sobretudo ao cristianismo.

Sexto equívoco: Os ateus nada têm a opor a que cada um acredite subjectivamente em deus e pratique em privado a sua religião. Opõem-se, porém, a todas as manifestações públicas da religião e à sua interferência na vida social, económica e política.

Este equívoco baseia-se numa equivocada concepção de religião e numa equivocada ideia acerca de quem sabe dizer ao certo o que é a religião. Muitos ateus crêem que são eles que devem dizer como devem ou como não devem viver a sua religião: ela deve ser profundamente individual, privada, subjectiva. E as razões que fundamentam este equívoco são claras. A religião baseia-se no obscurantismo, no irracionalismo, na falta de inteligência, na incapacidade de distinguir Jesus Cristo do Pai Natal, na incapacidade infantil de assumir responsavelmente a vida, no medo da morte, na incapacidade de pensar criticamente, etc. Não é possível tolerar que tudo isto tenha uma expressão pública, uma vez que iria provocar o atraso cultural e civilizacional dos povos. Iria fazer pressão sobre os governantes. Iria impedir o progresso científico, ético e social.

O problema principal deste equívoco é que se baseia numa ideia equivocada de ser humano que concebe como indivíduo fechado em si mesmo, dono das suas ideias e dos seus medos tanto como da sua conta bancária e do seu boletim de voto em eleições. Uma tal concepção de ser humano é bem triste, e conduz ao anonimato e à tristeza sobretudo nas cidades.

Se partirmos do pressuposto de que o ser humano é estruturalmente aberto à relação, não a uma simples relação instrumentalizadora e superficial, mas a uma relação de auto-doação recíproca, já vemos que a experiência interior, seja ela religiosa, ética ou estética entra necessariamente nessa relação de recíproca auto-doação. A experiência religiosa vive-se em comunidade, uma comunidade aberta ao mundo, incluindo os que não têm a fé professada por ela. Além disso, convém notar que a experiência religiosa não se limita às expressões litúrgicas, como a Missa, as procissões, etc. A verdadeira experiência religiosa faz da vida de cada dia, em todos os seus aspectos, uma contínua liturgia, na qual têm lugar actos de amor, de compaixão, de louvor, de sacrifício pela justiça e pela verdade. Pretender ignorar tudo isto e afirmar que a religião só é aceitável quando cada um guarda para si essas idiotas crenças num deus e em espíritos que não existem é, pois, cair num grande equívoco.

22 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

Sobretudo quanto ao «equívoco fundamental», que me parece muito plausível, não consigo compreender a confusão que Deus é para muita gente, embora compreenda, de um ponto de vista pragmático, preocupações de carácter religioso. No entanto, e nisto talvez esteja em discordância, pelo menos aparente, com o texto, os ateus atestam baterias onde não seria de esperar, isto é, em Deus e não pelas razões que seriam logicamente adequadas, mas pelos tais objectivos político-sociais.

alfredo dinis disse...

Caro Carlos,
Obrigado pelo seu comentário.
Creio que estou de acordo consigo num ponto: as críticas dos ateus à religião têm em geral objectivos político-sociais.
Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Nuno Gaspar disse...

Tiro certeiro, Prof. Alfredo!

Anónimo disse...

Professor

O facto de os outros acreditarem em divindades nunca me incomodou. Mesmo decepcionado com as justificações confusas e discursos falaciosos dos crentes que, teimando em não fundamentar as suas crenças, preferem que seja eu a justificar a inexistência desse “algo imaterial” em que crêem considero que, a liberdade de se acreditar, no que quer que seja, é um direito que assiste ao comum dos mortais.

Quanto aos seus equívocos, nos quais não me revejo considero-os, esses sim, meros equívocos, justificações com a pretensão de garantir a validade de uma crença através da desvalorização e descrédito de uma “corrente” que, de forma racional, a vai contrariando. São a tentativa de deixar um espaço aberto à arbitrariedade de pensarmos o que quisermos sem nos darmos ao incómodo de perceber que é uma ilusão pensar que basta apresentar um qualquer argumento a favor do que pensamos que é verdade para termos uma boa justificação cognitiva para isso.

Referindo-me especificamente ao “equívoco fundamental”, estou convencido de que a forma inversa como está escrito será apenas uma imprecisão conveniente. Ou seja, a forma e a frequência como, de fundamento em fundamento, se tem vindo a contrariar preconceitos, obrigando as crenças a recorrer a upgrades constantes para justificarem o seu cada vez mais distante posicionamento é efectivamente um drama. Ter cada vez mais a certeza de que tudo se resume apenas a uma ideia abstracta é preocupante e requer acções de promoção.

Outra imprecisão, que confunde a aparência com a realidade das coisas, tem a ver com a obrigatoriedade, de quem não acredita, em demonstrar a inexistência de superstições. Por que razão não é o crente, responsável pela justificação fundamentada, dessa convicção, que terá germinado na sua própria mente? Qual a dificuldade em assumir tudo como fé?

Quanto ao “radical” as opiniões parecem convergir na identificação do radicalismo, extremismo ou fundamentalismo como algo dispensável. Mas permita-me fazer notar que, e citando-o, “enquanto o ateu radical pretende erradicar a religião”, o religioso radical, as palavras são minhas e fundamentadas em atentados publicamente divulgados, pretende o “extermínio” até mesmo de quem dúvida. Mesmo aqui as diferenças são notórias.

Saudações
Darius

Joao disse...

Saudações cordiais:

Pela minha parte - e enquanto ateu -não me parece que não possa haver demosntrações publicas de religiosidade como rituais ou festas.

Mas querer fazer leis morais ou de direito fundamentando na vontade de deus é asneira.

Estas duas questões pertencem a graus de importancia do acto diferentes.

Criticar que se fundamente actos na vontade de deus é errado, mas nao quer dizer que queira impedir tudo o que é feito por alguem achar que é a vontade de deus.

Por outras palavras, da liberdade de crença não segue a liberdade de agir. Essa liberdade de agir deve ser discutida pelo valor do acto em questão e pode estar certa ou errada independetemetne de se achar que deus o quer ou não.

Será que me fiz perceber?

O texto do Ludwig no Ktreta complementa a minha opinião.

Mas acho que deveria fazer mais uma alteração ao seu texto.

PS: Esta demosntrado que deus não existe da mesma maneira que esta demonstrado não haver elefantes azuis no cais do sodré. Não há espaço para deus neste universo. So se ele não tiver vontade propria e intecionalidade, mas nessa condição tudo é deus. Até eu e o Alfredo. E não vale a pena ter rituais ou rezar ou seja o que for.

Joao disse...

"as críticas dos ateus à religião têm em geral objectivos político-sociais."

Como por exemplo? Estou a leste da questão.

Joao disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joao disse...

"A religião baseia-se no obscurantismo, no irracionalismo"

Aqui é verdade, eu penso isso. Ver intencionalidade na natureza onde ela não está é uma tendencia ancestral. Não é uma conclusão racional.

Ja pedi varias vezes a explicação racional e o resultado é sempre "wishfull thinking", apelos à ignorancia, apelos de autoridade, etc.

Ambos sabemos que não há explicação racional.

Jaime disse...

A negação de "inteligentes, objectivas e fundamentadas" é "não inteligentes, ou não objectivas, ou não fundamentadas", não "nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas". O que me leva a enunciar o seguinte.

Equívoco fundamental dos crentes: má lógica.

Desculpa, não resisti. :-)

Jairo Entrecosto disse...

Alfredo Dinis, concordo consigo, mas penso que a questão poderia ser explicada, sobretudo aos ateus radicais, de forma mais simples:

1.O estado laico tem de ter uma postura neutra em relação à religião.
2.Logo, o estado laico não pode declarar oficialmente a religião como "falsa".
3.Numa perspectiva ateísta, um evento religioso tem tanto valor de "verdade" como uma celebração de uma vitória desportiva; mera questão subjectiva dos participantes.
4. Assim, embora os ateus considerem a religião falsa, não podem pedir ao estado que reconheça oficialmente essa sua posição.
5.Como tal, a questão da expressão pública da religiosidade e a colaboração ou representação do estado em eventos religiosos torna-se um assunto de necessidade prática assim queiram muitos ou poucos usar a sua liberdade para celebrar um evento cultural desse tipo.

O estado não pode reconhecer oficialmente que a religião é fonte de obscurantismo, superstição e retrocesso civilizacional, não pode tomar medidas para laicizar a sociedade, nem está limitado a colaborar e representar-se apenas em eventos culturais e sociais não religiosos, com forte expressão e adesão popular, sob pena de se acabar com o princípio do estado laico e neutro.

Cumprimentos.

alfredo dinis disse...

Caro Darius,

Obrigado pelos seus comentários.

Refere-se ao facto de os crentes se recusarem a fundamentar as suas crenças. Não me parece que isto se aplique a todos os crentes. O que acontece é que cada vez que algum crente apresenta as suas razões para acreditar em Deus essas razões são sistematicamente não apenas recusadas mas ridicularizadas. É o que faz o Darius no seu segundo parágrafo. Falo também por experiência própria, com base nos muitos debates em que tenho participado.

O Darius afirma que os crentes acreditam no que querem, vivem na arbitrariedade, na ilusão. Voltamos à questão da fundamentação. Os crentes iludem-se com as suas justificações, sós não crentes são lúcidos e objectivos, e sabem fundamentar convincentemente as suas posições. Não sei se poderemos dividir a Humanidade em duas metades, a dos não crentes que são inteligentes e apresentam evidências como fundamento da sua posição, e a dos crentes que estão completamente alienadas da realidade. Este maniqueísmo já é antigo, mas não me convence.

Afirma acerca da ciência: “obrigando as crenças a recorrer a upgrades constantes para justificarem o seu cada vez mais distante posicionamento é efectivamente um drama. Ter cada vez mais a certeza de que tudo se resume apenas a uma ideia abstracta é preocupante e requer acções de promoção.” Não entendo esta sua afirmação. A ciência, a economia, a política, o direito, todas as áreas da vida humana procedem a upgrades constantes. Se a religião permanece rigidamente imutável, é acusada de uma relíquia histórica. Se se actualiza de acordo com o progresso cultural dos povos, é acusada de inaceitável upgrade, de um drama. Mas não há qualquer drama na actualização científica, política, económica, pois não? O contrário é que seria dramático. “Tudo se resume a uma ideia abstracta”? A minha religião é bem concreta. Para os não crentes, acredito que vendo a religião a partir de fora, a reduzem a ideais. Mas pode crer que para os crentes a religião é uma questão existencial, de sentido da vida. E nada disto é uma ideia abstracta.

Não peço aos não crentes que justifiquem a sua não crença, simplesmente porque não creio que isso seja possível. Quanto aos crentes, não creio que haja demonstrações da existência de Deus, mas creio que os crentes têm razões para fundamentar a sua fé. Se o Darius não aceita essas razões, isso não significa que os crentes não tenham nenhumas.

Quanto ao ‘religioso radical’, não sei a quem se refere. Considero os criacionistas cristãos crentes fundamentalistas, mas não creio que pretendam eliminar quer os ateus, quer os agnósticos.
Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro João,

Obrigado pelas suas observações.

Estou de acordo consigo em que as questões humanas devem e podem ser resolvidas sem invocar necessariamente a vontade de Deus. Mas note que há muitas pessoas que têm as mesmas posições dos crentes sem que comunguem das suas crenças. Muitos ateus são contra o aborto, por exemplo, mas não recorrem à vontade de Deus para justificar a sua posição. Isto significa que a racionalidade humana, seja crente ou não crente, pode levar os seres humanos a convergir em questões éticas e outras.

O problemas das análises do Ludwig é que são totalmente abstractas. Colocadas no seu contexto histórico, é claro que a crença no Pai Natal é radicalmente diferente da crença em Jesus Cristo. É claro que o Ludwig desvaloriza o contexto histórico cristão. Mas isso já é outra questão. Que os contextos históricos do Pai Natal e de Jesus Cristo nada têm a ver um com o outro é que não pode ser ignorado.

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro João,

Sobre o facto de as críticas dos ateus à religião terem objectivos político-sociais, pense na crítica do socialismo marxista à religião, na crítica da maçonaria à religião, etc.

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro João,

O que seria para si uma prova racional de que existe intencionalidade na natureza?

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Jaime,

Suponho que quer dizer que a negação de uma conjunção é uma disjunção de negações. Sou professor de lógica!

Na linguagem comum, porém, não há qualquer equívoco em afirmar: "pensei que ia fazer hoje um bom negócio e comprar um belo carro, mas afinal enganei-me: não vou fazer nem um bom negócio, nem comprar um belo carro".

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Jairo,

Concordo com a sua posição. A laicidade é entendida de várias maneiras. Os não crentes recorrem a ela para fundamentar a sua guerra à religião, particularmente às suas manifestações públicas. Porque deveria o Estado tolerar diversas manifestações de correntes políticas e não as manifestações das religiões? O Estado não se identifica com nenhum partido político, mas isso não significa que não lhes dê o espaço público a que têm direito.

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Professor

Penso que terei sido mal interpretado porque não disse, ou não pretendi dizer, que os crentes vivem na ilusão. Apenas defini divindades como uma ilusão, uma “ideia abstracta” germinada em cada mente, uma superstição até. Algo a que os crentes se dedicam, confiam e veneram apenas por fé. Não por evidências.
Defino o bem como uma luta constante, um objectivo permanente, o destino essencial do ser humano. Se o crente define isto como “Deus”, a mim não me incomoda, o que me surpreende é a dificuldade em assumi-lo, mesmo como acto de fé.

Também não disse, ou não pretendi dizer, que os crentes vivem na arbitrariedade. Disse é que os “equívocos” mencionados nos seus “textos” são, um espaço aberto à arbitrariedade de se pensar o que se quiser, mesmo tendo em conta a inexistência de verdades fáceis que possamos aceitar como definitivas.
Não me parece existir a intenção de erradicar a religião mas simplesmente vontade em a contrariar, vontade em desacreditar esse sentimento de infalibilidade, baseado em premissas irracionais, arrogante e insultuoso, que a religião teima em valorizar.
Existe a necessidade de divulgar que as nossas convicções devem alicerçar-se naquilo que conhecemos e compreendemos e não em crenças cegas porque, acreditar com base na fé é acreditar sem razões que sustentem qualquer verdade.

Quanto aos upgrades, refiro-me a eles, não como crítica a supostas actualizações, mas como uma das consequências do “confronto” entre crentes e não crentes que, e contrariando a sua opinião, justificam a existência de um hipotético drama para os crentes.

Saudações
Darius

alfredo dinis disse...

Caro Darius,

Afirma:

"não disse, ou não pretendi dizer, que os crentes vivem na ilusão. Apenas defini divindades como uma ilusão, uma “ideia abstracta” germinada em cada mente, uma superstição até. Algo a que os crentes se dedicam, confiam e veneram apenas por fé."

Não entendo este seu texto.


Escreveu:

"os “equívocos” mencionados nos seus “textos” são, um espaço aberto à arbitrariedade de se pensar o que se quiser."

Se os meus textos abrissem a porta à arbitrariedade de se pensar o que se quiser, como se justificariam as constantes discussões entre os próprios crentes?

Escreveu:

"acreditar com base na fé é acreditar sem razões que sustentem qualquer verdade."

É mesmo esta a imagem que tem dos crentes? Acha mesmo que não têm quaisquer razões para acreditar? Ou serão as razões dos crentes que não o convencem? Pode crer que o problema da justificação das teorias, mesmo as científicas, não é uma questão tão simples como lhe parece. Se já leu a obra A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, sabe do que estou a falar.

Pode crer que o drama dos crentes seria a sua incapacidade de actualizarem a sua fé com base no progresso, nomeadamente no progresso científico. Quanto mais conheço acerca do universo e da vida, segundo a ciência, mais conheço acerca da minha fé. Provavelmente não acredita. Mas pode crer que não vivo com nenhum trauma provocado pela ciência. Nem eu nem muitos outros crentes.

Saudações,

Alfredo Dinis

Pedro disse...

Caro Alfredo,

O meu comentário incide sobretudo sobre o que chama de "equívoco fundamental" dos ateus (radicais).

(1) Não sei o que entende por "ateísmo radical". Talvez seja pedir demasiado que o defina, por isso peço-lhe que me apresente uma característica do "ateísmo radical" que o distinga do (usual) ateísmo. A minha definição de "ateísmo" é não acreditar na existência de Deus. Não acreditar, ponto. Não é não acreditar mais ou menos. Agora, se a sua definição de "ateu radical" é "ateu intolerante que detesta toda a gente" então peço-lhe que atribua todo o tal equívoco fundamental dessa pessoa à parte "intolerante que detesta toda a gente" e não à parte "ateu".

(2) Dizer que para um ateu é um drama (mesmo que não o maior) a impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, é o mesmo que dizer que para um crente é um drama a impossibilidade de demonstrar que Deus existe. O Alfredo tem como objectivo provar que Deus existe? Penso que não. Não tenho factos que me indiquem que todo o ateu tenha como seu objectivo provar que Deus não existe. Parece-me que esse não é um drama dos ateus. Mas cada ateu terá os seus dramas. Pode ser que até seja para alguns. Eles não são todos iguais, espero que saiba isso.

(3) Dizer que um ateu tem por objectivo erradicar a religião, é o mesmo que dizer que um crente tem por objectivo erradicar os ateus. O Alfredo, que é crente, diga-me de sua justiça: tem por objectivo erradicar alguma coisa? Tenho a certeza que não.

(4) Críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, ao contrário do que diz, não me parecem benéficas para a religião. Suponha que alguém agora consegue provar que Cristo nunca existiu. Descanse, ninguém vai provar isso. Mas suponha, por instantes. E suponha que é uma prova perfeitamente inequívoca (coisa que não existe, excepto na Matemática). Mas suponha. A religião vai então evoluir a partir daí e criar novos modelos, re-estruturar a Bíblia para que passe a acomodar esse facto de forma a que tudo volte a fazer sentido, agora que confrontada com novas evidências? Não me parece. Há crenças basilares que não podem ser postas em causa. Felizmente para todos os Cristãos, essas crenças basilares dificilmente poderão ser abaladas, porque não obedecem a critérios experimentais de refutabilidade.

alfredo dinis disse...

Caro Pedro,

Obrigado pelos seus comentários.

Considero exemplos de radicalismo ateu o site Diário Ateísta e quantos nele colaboram. O ateísmo radical sabe sem margen para dúvidas nao só que Deus nao existe com também que todos os crentes têm um coeficiente de inteligencia bem abaixo da média. Com estas premissas torna-se difícil, senao mesmo imposible, entrar num diálogo construtivo com estas pessoas. Fico com a sensacao de que se consideram detentoras de toda a verdade, infalivelmente. Porque necessitariam de dialogar com os crentes, a nao ser para os convencer da sua irracionalidade?

É neste sentido que os ateus – refiro-me a estes ateus radicais, prefiro nao dizer ateus fundamentalistas para nao os ofender desnecessariamente – tem um drama sério. O radicalismo e a agressividade com que se exprimem nao constitui um bom argumento de crítica à religiao, ao contrário do que me parecem acreditar. Os cristaos gostariam certamente de mostrar que a sua fé está longe de ser tao irracional e idiota como muitos ateus pensam. Todavía, consideramos que é importante nao apenas que alguem se considere cristao, mas que também viva de acordo com a sua fé. Creio que para Deus, baseando-me nas palabras de Cristo, é importante que cada ser humano viva a sua humanidade tao plenamente quanto possível, e isto exprime-se na qualidade de vida cuotidiana, na capacidade de cada um olhar para além dos seus interesses pessoais e ter em conta também os dos outros; exprime-se também na capacidade de compaixao, na procura da verdade e da justica. Todos este elementos fazem parte de uma fé explícta, mas eles constituem também, de algum modo, uma “fé implícita”. Os cristaos nao estao apenas interesados em que todas as pessoas levantem as maos aos ceus gritando “Senhor! Senhor!” mas que estendam as suas maos para todos os seres humanos e os tratem como irmaos. Neste aspecto, é consolador para os cristaos verificar que muitos nao crentes já vivem assim e colaboram com os crentes em actividades em prol do bem comum. Mas é claro que considero que o cristianismo, enquanto fé num Deus pessoal, alarga em muito os horizontes da auto-compreensao do ser humano e do sentido do universo e da vida.

Quanto a imaginar algumas críticas dos nao crentes que poderiam destruir os fundamentos do cristianismo, nao creio que valha a pena fazer esse exercício. Como o Pedro reconhece, o cristianismo baseia-se em elementos que nao sao falsificáveis pelos métodos empíricos das ciencias, o que nao significa, ao contrário do que muitos pensam, que “qualquer coisa serve”. O cristianismo tem um fundamento histórico. Por outro lado, o espírito crítico no interior do cristianismo tem sido e continua ser uma constante. Note também que há muitos aspectos da vida humana que nao sao falsificáveis empíricamente, como, por exemplo, os que se referem à ética e à estética. Por outro lado, a crítica que desde Darwin tem sido feita a algunas concepcoes do cristianismo tem sido benéficas.

Caro Pedro, concordo consigo em que os ateus nao sao todos iguais. Conheco um bom número deles que nao considera a fé religiosa uma manifestacao de estupidez e falta de inteligencia. Os meus textos sobre os equívocos do ateísmo radical nao se dirigem a esses. Por outro lado, Sam Harris, Richard Dawkins e Christopher Hitchens sao alguns “bons” exemplos de ateus radicais.

Cordiais saudacoes,

Alfredo Dinis

PS- Estou a responder-lhe de um país cujo teclado nao me permite colocar todos os acentos, como já deve ter comprendido!

Jaime disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jaime disse...

Caro Alfredo,

O seu exemplo mostra que a asserção
  (A /\ B) \/ (~A /\ ~B)
é satisfazível, mas não que é uma tautologia.