8 de abril de 2010

Por Um Novo Estilo De Relações | parte três

Em que nos sacia este perdão vivificante? No inferno, lugar de mortos em espera, as pessoas esperam sozinhas, divididas, com relações cortadas. No ícone Jesus surge como elo de união e reconciliação. Motivo de relações justas e plenas.

Sem esquecer a importância de Jesus inaugurar uma passagem nova, da morte para a Vida, como podemos ver pelas portas do inferno, que se encontram partidas, aos pés de Jesus, quero destacar mais este ponto das relações justas que Cristo vem estabelecer.

Adão veste-se de castanho, pois é feito da terra. Eva de vermelho, porque é a mulher que gera a vida. Mas, ao contrário do comum dos ícones, em que Jesus aparece vestido de branco, aqui Ele aparece de vermelho, na medida em que a ressurreição é vida e que n’Ele está presente o fogo do espírito. Curiosamente, Jesus é o único que expressa movimento. Todos os demais estão parados. Se repararmos bem, sobre o ombro esquerdo vemos que se move o tecido da roupa de Cristo. Isto evoca, por um lado: o seu movimento de descida e subida, mas por outro: o movimento relembra que a iniciativa Lhe pertence exclusivamente. (tudo isto pode ser visto na imagem do post anterior, à qual o texto se refere)

Daqui percebemos que Adão e Eva, e neles todos nós, não conseguimos sair por nós próprios da morte que são as vidas solitárias e afastadas umas das outras. Se o egoísmo se vencesse sozinho, não deixaria de ser egoísmo. Somos necessitados. E neste mesmo sentido, vemos que Cristo pega em Adão e Eva pelo punho, isto é: pega-os como quem liberta da escravatura.

O dom que aqui nos é oferecido é uma conversão profunda do nosso querer e sentir. Rejeitar qualquer vontade de poder, qualquer uso do outro para satisfazer um recalcamento, qualquer subjugação do outro para que eu me mantenha na minha acomodação. Todas estas cadeias injustas são assumidas e quebradas por Cristo. Amar o outro por ele mesmo.


No dizer de Zorba, o Grego: life is a trouble. Mesmo depois da ressurreição, a vida não deixa de ser um problema, e a existência continua a não deixar de ser marcada pelos cumes mais altos e pelos abismos mais escuros. Esse Deus que Se continua a comunicar na fragilidade de cada biografia, mostra não querer surgir como um sentido ou uma vontade que nos caberia, com muitíssimo esforço, descobrir.

Apresenta-se como desconhecido de Emaús que, no oculto diz a palavra certa que torna os caminhantes desiludidos em homens encontrados e apostólicos. Novas relações que partem de um estilo completamente novo de viver. Até que ponto estamos dispostos a acolher este estilo?


(inspirado numa conferência dos irmãos de Taizé sobre o ícone da descida aos infernos)

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