1 de abril de 2010

Sexta-feira Santa - Paixão e morte do Senhor

Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. “Então ele está perdido?” Perguntou um deles. “Perdeu-se como uma criança?” Disse um outro. “Escondeu-se? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou?” – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco lançou-se para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes digo! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? […]”
F. Nietzsche, A Gaia Ciência (§125)


Atrevo-me a sugerir hoje para reflexão, meditação (oração?) este texto provocador de F. Nietzsche, um marco do pensamento filosófico contemporâneo que dificilmente deixa indiferente. Não pretendo de forma alguma comentá-lo (muitos já o fizeram, melhor, ou pior) mas simplesmente, com ele, ajudar a cair na conta da grandeza daquilo que a Igreja hoje celebra.

Os cristãos acreditam (e alicerçam a sua fé sobre esse “facto”) que em Jesus de Nazaré o Deus Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, assumiu a nossa vida, até às últimas consequências: a morte. De tal modo quis partilhar a nossa existência que se sujeitou a ser rejeitado, maltratado, supliciado. Através da sua morte Jesus não veio fazer a apologia do sofrimento, nem sequer em nome de uma recompensa numa vida futura, mas sim a apologia da humildade e da coerência de quem vive para os outros. A sua missão, revelar o Pai, conduziu-o à Cruz porque na nossa pequenez a verdade causa ferida e o orgulho muitas vezes leva a melhor.

É por fazermos todos a experiência de rejeitar uma verdade (acerca de nós mesmos, do mundo, da nossa vida) difícil de acolher, que todos participamos do gesto daqueles que mataram Deus. Mas, porque ele assume toda a nossa humanidade, com ele podemos esperar que tudo não termine no sepulcro…

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