6 de junho de 2010

deixando-se fazer pela compaixão

“Não chores”, “Levanta-te”. Estas palavras de Jesus e aquilo que elas pro-vocaram, foram o suficiente para que as pessoas que com Ele estavam reconhecessem que “Deus visitou o Seu povo”. Nestas palavras de Jesus, a primeira dirigida à viúva que perdera o seu filho, a segunda dirigida ao filho ainda morto, podemos encontrar uma palavra de consolação e outra de ânimo.


Consolar, significa fazer-se com o outro na sua solidão, na dor. Dar ânimo trata-se de reavivar um dom que todos temos; dom de recriar e recomeçar todas as coisas com vigor, como se fossem novas. Ora, consolar e animar são ofícios que não se fazem sem um outro, sem a sua dor e sem a promessa que o habita. São igualmente ofícios que não se circunscrevem a um tipo de gestos ou pessoas. É a atitude de quem se faz próximo de uma realidade, de alguém, do próximo: que é já este.



Mas o que fez aqui Jesus assumir este ofício? Parece-me que a resposta se encontra no seguinte versículo: “Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela”. Olhar para os que estão à nossa volta, não se trata de um moralismo. Trata-se de uma atitude que resistimos em ter, porque naturalmente abrir todo o meu coração aos pedidos de um outro é simultaneamente tempo de intimidade e medo. O outro é um abismo onde, a pouco e pouco, as minhas defesas vão-se desatando por si próprias. E isto assusta.


Parece-me que a compaixão é uma atitude que todos de certa forma temos. Mas não basta que ela nos ocorra, como se se limitasse a um bom sentimento de barriga cheia. A diferença que Jesus faz de mim é que, para além da compaixão ocorrer nEle, Ele opta por querer que a compaixão refaça os seus gestos e atitudes. Cristo é realmente humano porque efectiva os laços que o afectam. E assim acontece. Deixa-se levar pela compaixão, e leva a sério aquilo que ressoa no encontro.


Deixarmo-nos levar pela compaixão, deixarmo-nos fazer por ela é sempre um risco. De facto, a compaixão não se trata de uma espécie de feira das oportunidades. É antes de tudo um vínculo que, ocorrendo-nos por vezes sem querer, não dispensa o nosso querer. Querer efectivar esse dom que emerge em nós quando olhamos para o mundo mais elementar e para as suas dores.



Talvez hoje, as palavras que surgiram da compaixão de Jesus: “Não chores” e “Levanta-te”, são imensamente necessárias diante de realidades que todos conhecemos. Consolar e animar são provas de que Deus nos visita ainda hoje. A compaixão, emoldurada pela atenção comprometida, far-nos-á entrar bem dentro deste modo de proceder de Jesus. A própria Igreja alimenta-se desta compaixão, para dentro e para fora de si. Nela se encontram a fidelidade e a justiça. Agora, até que ponto queremos deixar-nos fazer pela compaixão? “A promessa do amor é assim tão grande que justifique o dom de mim mesmo?” (BENTO XVI – Spe Salvi)


5 comentários:

Alexandre disse...

Agora, até que ponto queremos deixar-nos fazer pela compaixão?

Uma excelente pergunta.

Mas que levanta dúvidas.

Por exemplo:

Um aluno que observa um professor que por medo de concorrência ou da liberdade do aluno, não ensina, apenas tenta formatar a mente do aluno de que os temas são muito complicados, que não é possível perceber...

Quando o aluno está quase a conseguir, muda a forma do trabalho, altera os objectivos, muda a linguagem usada.

Qual a forma que toma a compaixão do aluno sobre a opressão do professor?

O que diria Jesus?

Missé sj disse...

Caro Alexandre muito obrigado pela pergunta. Fazem bem estes desafios. De facto, parece-me que a compaixão não se restringe a um acto determinado, mas a um estilo ou modo de ser. O que é que isto quer dizer?

Se nos limitamos a fazer uma casuística corremos o risco de não perceber o que é a compaixão, na medida em que ela não é um critério de acção, mas um modo de ser pessoa. Não se trata de agir COM compaixão, como se se tratasse de uma roupagem que se tira e põe conforme a necessidade. Trata-se de SER compassivo, ser pessoa de compaixão.

Isto implica, no caso que me apresenta, que o aluno veja este facto como uma oportunidade para ele próprio crescer em compaixão aproximando-se da realidade do professor.

Mas tratar-se-á a compaixão de uma atitude de quem se aproxima do outro para lhe "passar a mão sobre o pelo"? Não. Jesus foi um homem de compaixão: quer quando expulsou os vendilhões do templo, quer quando reanimou o filho morto da mulher viúva.

Ou seja, pode ser para o aluno mais conveniente contestar o professor de maneira mais explícita ou conversar calmamente com ele, a fim de o fazer entender que a sua perspectiva também é válida. Mas abrir-se à possibilidade de o outro estar certo é fundamental para que alguém se realize. E isto também é abarcado pela compaixão que recebe o outro.

O que há de fundamental aqui é perceber que o cristianismo não é uma grelha de valores que nos rege a mente e os gestos, mas um estilo a que se vai aderindo. Sobretudo por duas razões: a) era o estilo de Jesus Cristo; b) este estilo de Jesus Cristo move-me a vontade a querer adopta-lo como meu.

Quanto a mim, ainda me falta muito para ser compassivo.

Alexandre disse...

Caro Miguel Pedro,

Muito obrigado pela sua resposta.
Ser compassivo. Uma boa reflexão, muito obrigado.

Cordiais saudações,
Alexandre

Os Coronas disse...

Um grande texto Missé, gostei muito de o ler.


David Pinheiro

Missé sj disse...

Obrigado David. Um abraço amigo.