8 de julho de 2010

Caridade como exigência de sociabilização?

A caridade inclui em si mesma a justiça, o bem comum e a gratuidade. É a gratuidade que faz com que a caridade supere a justiça, que é somente comutativa ou distributiva. Mas não será exagerado afirmar a caridade como “exigência imprescindível … para a construção de uma sociedade segundo a liberdade e a justiça”?[1]

Para respondermos a esta pergunta temos que nos situar primeiramente diante do ser humano tomado como alguém que está sujeito à falha, à ameaça radical do egoísmo. Esta condição humana não significa que a nossa liberdade seja deficiente. Antes, significa que a nossa liberdade é condicionada pela pressão da sua concretização num mundo e situação concretos, onde a culpa existe e ameaça radicalmente o homem.[2]

Diante desta condição antropológica, qual é o papel da caridade? A caridade surge como um mandamento, o que representa uma realidade quase paradoxal diante do entendimento que usualmente se tem das palavras mandamento e caridade. Efectivamente, grande parte das pessoas pensa que o mandamento é para escravizar. [Que chatísse, temos de obedecer a alguém!] Ora, o mandamento existe para esbarrar contra a minha espontaneidade, contra a minha instintividade, contra o meu arco desiderativo, contra a minha natureza em expansão ilimitada. O mandamento interrompe este ser espontâneo, este arco desiderativo, esta expansividade do eu. Interrompe-o e é aí que eu sou livre. Portanto o mandamento não escraviza. O mandamento liberta porque interrompe aquilo que acontece ao cão, ao gato, à arvore e a pedra, que lutam para sobreviver, para não sucumbirem. O mandamento interrompe esta espontaneidade e é obedecendo ao mandamento, respondendo a este mandamento, que me interrompe, que eu encontro a verdadeira liberdade.[3]

Portanto, o visado da caridade é o de olhar com verdade para as estruturas sociais do nosso mundo a fim de esbarrar com tudo aquilo que objectiva esta ameaça radical e expansividade egológica do ser humano. Podemos encontrar uma destas objectivações nos efeitos nocivos do mercado económico. O mercado é ainda hoje apresentado como neutro. Mas na verdade não o é. As implicações humanas de cada investimento, sobretudo num mundo global, são de tal forma grandes que não podemos cair na ingenuidade de tomar o mercado como espaço neutro. A encíclica Caritas in Veritate enuncia algumas dessas objectivações que, provando-nos a não neutralidade do mercado, asseguram-nos que a caridade deve ser tomada como exigência explícita.[4]

A primeira destas objectivações encontra-se no objectivo exclusivo do lucro “sem ter como fim último o bem comum”. Este “arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza”. Algumas distorções do desenvolvimento que vão neste sentido são: a actividade financeira “maioritariamente especulativa”, os fluxos migratórios “com frequência provocados” e sucessivamente mal geridos, e ainda “a exploração desregrada dos recursos da terra”. [5]

A segunda pode encontrar-se ao nível do aumento das desigualdades e das novas formas de pobreza, muitas vezes ofuscadas pelo anúncio do crescimento da riqueza mundial em termos absolutos. Contudo, no âmbito de um desenvolvimento cada vez mais policêntrico, Bento XVI constata que a corrupção está presente tanto nos países ricos como nos pobres; às vezes, grandes empresas transnacionais não respeitam os direitos dos trabalhadores a título de necessidade de deslocação do centro de produção ou de investimento tecnológico. Por outro lado, “as ajudas internacionais foram, muitas vezes, desviadas das suas finalidades, por irresponsabilidades” seja dos doadores seja daqueles que fruem delas. Ao mesmo tempo – denuncia o pontífice – “existem formas excessivas de protecção do conhecimento, por parte dos países ricos, através de uma utilização demasiado rígida do direito de propriedade intelectual, especialmente no campo da saúde”. [6]

Na terceira e última objectivação, Bento XVI volta a sua atenção para a deslocação de produções de baixo custo, por parte dos países ricos. Adverte que “estes processos implicaram a redução das redes de segurança social”, com “grave perigo para os direitos dos trabalhadores”. A isso se acrescenta que “os cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas próprias instituições financeiras internacionais, podem deixar os cidadãos impotentes diante de riscos antigos e novos”. Por outro lado, acontece também de “os governos, por razões de utilidade económica, limitarem as liberdades sindicais”. [7]

Diante da verdade do facto social, onde em três pontos nos é evidenciado o carácter corrosivo e incompleto do desenvolvimento, somos alertados para a necessidade de um mandamento de caridade que esbarre com esta objectivação do mal no mundo. Enquanto ideal, a caridade aponta para o desafio de que o “primeiro capital a preservar e valorizar é o ser humano, a pessoa na sua integridade”.[8]



[1] BENTO XVI – Caritas in Veritate, nº 13.

[2] RAHNER, Karl – Curso Fundamental da Fé, São Paulo: PAULUS, 2008, p. 138.

[3] Toda a secção que se encontra escrita em itálico resulta de notas e apontamentos que tomei da conferência de D. António Couto, em Junho de 2009, com a referência temática da figura de S. Paulo. O título desta conferência era “Evangelho de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, segundo S. Paulo”.

[4] Explícita porque vem opor-se a uma componente do desenvolvimento implícito no ser humano, que é a ameaça radical do mal. Não é explícita por vir de um absolutamente fora do humano. É explícita porque a caridade só pode ser pensada mediante a existência de um outro. A caridade não é um interesse mas antes um alteresse.

[5] BENTO XVI – Caritas in Veritate, nº 21.

[6] Ibidem, nº 22.

[7] Ibidem, nº 25.

[8] Ibidem.

13 comentários:

Anónimo disse...

E que tal:
ensinar a pescar, em vez de dar o peixe?
Dão o peixe para que continue a vir buscar... Se ensinar pode não voltar, os subsídios podem acabar...

Onde está o respeito pela dignidade humana numa sociedade com base na caridade?

Realmente o que está a itálico não está no mesmo nível...

[Que chatísse, temos de obedecer a alguém!] Ora, o mandamento existe para esbarrar contra a minha espontaneidade, contra a minha instintividade, contra o meu arco desiderativo, contra a minha natureza em expansão ilimitada. O mandamento interrompe este ser espontâneo, este arco desiderativo, esta expansividade do eu. Interrompe-o e é aí que eu sou livre.

[Que chatísse, temos de obedecer a alguém!]

A noção de que o chapéu tem de estar sempre na mesma pessoa é artificial.
As condições podem acordadas por todos e não impostas. Excluíndo a aceitação tacita. Aceita ou não.

Imagine uma mesa redonda. Imagine acordar, negociar, e alternar o chapéu para que saiba o que o outro sente quando tem o chapéu e quando não o tem...

A aprendizagem do respeito e de limites é necessário.

Mas respeito não é imposto ou terá o Zé povinho com o seu famoso gesto.

Qual o limite entre caridade e humilhação?

A frase: "Interrompe-o e é aí que eu sou livre." é falsa.
deveria ser: Interrompe-o e é aí que eu percebo o limite da minha liberdade.

Sou livre quando aceito conscientemente e uso o meu livre-arbítrio.

Basta aceitar contribuir para o bem comum para contrariar "o meu arco desiderativo". Não é necessário aceitar um e um só "Presidente" "Imperador" "Deus".

anónimo, para não alimentar o meu ego...

Missé sj disse...

Caro Anónimo, confesso que tive dificuldades em entender o que pretende realmente dizer com o seu comentário. De qualquer das maneiras, destaquei três pontos do que acabou de dizer, a fim de conseguir dar-lhe uma resposta.

A aprendizagem do respeito e de limites é necessário. Mas respeito não é imposto…
Percebe-se aqui que quando falamos de caridade não estamos a falar da mesma coisa. Não a vejo que a caridade se reduza a um respeito quase politicamente correcto. Por outro lado, se os meus pais não me tivessem dito muitas vezes que devo trabalhar, mesmo quando não me apetece, eu faria sempre o que me dava na real gana. Está certo que às vezes é preciso descansar, mas se não fosse este mandamento, eu ficava na minha e asseguro-lhe que ficava a perder.

Qual o limite entre caridade e humilhação?
A humilhação é diminuir o outro, a caridade é promover o outro. Se lhe parecer mais importante tratar somente dos seus interesses e problemas e passar qualquer outro sempre para segundo plano, não está a viver a caridade. No meu ponto de vista, também está a humilhar-se a si mesmo, na medida em que o seu sentido para a vida acaba onde começa: em si próprio. Isto diminui-nos. A caridade nasce de uma opção de responder ao mandamento que me ajuda a reler a realidade para além da minha preocupação.

A frase: "Interrompe-o e é aí que eu sou livre." é falsa.
Quando se diz que a caridade interrompe o eu em expansividade, não se diz que interrompe a vida de alguém. Interrompe aquilo que não nos faz pessoas. Se o único sentido da minha vida é ter dinheiro, saúde e uma vida sexual activa, estou a humilhar-me porque a vida é mais que isso. O mandamento é a única via para nos fazer dar a vida pelos outros quando tendencialmente queremos guarda-la para nós próprios.

Anónimo disse...

Do último texto: "A vida cristã como aprendizagem." vem a frase:

Ora, eu pergunto-me, se os cristãos fossem outros Jesus…o mundo seria diferente?

Deste interessante texto: "Cariadade como exigência de sociabilização" O mandamento interrompe este ser espontâneo, este arco desiderativo, esta expansividade do eu.

Como se analisa a expansividade do eu de Jesus?

Filho de Deus e assume a palavra da verdade," em verdade, em verdade vos digo".

[Que chatísse, temos de obedecer a alguém!]

A quem obedecia Jesus?

Terá a caridade de ser um sentimento altruísta, sincero e genuino, sem ter de obdecer a ninguém?

Quando é que um acto é verdadeiramente altruísta?

Seria uma sociedade melhor, uma sociedade sinceramente altruísta.

A caridade não é um interesse mas antes um alteresse.

Como praticar caridade sem ferir o sentimento dos outros?

Como dar sem humilhar? Sem dizer implicitamente: tu és pequenino e precisas de ajuda, eu sou grande e posso ajudar.

Parabéns.

Missé, sj disse...

De facto, a caridade não é um paternalismo de quem dá porque o outro é um fraquinho que precisa da minha grande ajuda.
A resposta a isto podes encontrar na parábola do bom samaritano. Um doutor da lei pergunta a Jesus quem é o seu próximo, exactamente porque se sente capaz de dar aos mais fracos. E, neste sentido paternalista, pede a Jesus que lhe indique um próximo e detrimento de todos os outros. Do género: "Jesus mandou-me amar aquele e por tanto não vou ajudar este que está ao pé de mim".
Jesus vira este esquema ao contrário e propõe a parábola de um samaritano que se compadece de uma pessoa e, por isso aproxima-se dela. O próximo não é o outro coitadinho, mas sou eu na minha possibilidade de me fazer próximo do outro. Na compaixão perdemo-nos no problema do outro e não somos caridosos porque nos achamos os maiores, mas porque o outro precisa.
Portanto, a caridade não é um paternalismo. É, diante do outro cujo fado me toca, deixar a minha rotina e fazer-me próximo em disponibilidade. Não é com espalhafato de paternalismo, é com proximidade que se faz a caridade.

Anónimo disse...

Muito obrigado pela resposta.

Em parte está respondida. E muito bem respondida.

Mas por outro lado, como se garante que, quem está a ser ajudado não tem esse sentimento de humilhação?

A dúvida também se bate com o direito de se sentir humilhado e indignado com tal situação que o coloca em necessidade de ajuda.

Missé, sj disse...

É de facto uma pergunta muito pertinente. De qualquer maneira, parece-me que o outro pode sempre sentir-se humilhado com o meu agir sem que isso seja por falta de caridade de quem o ajuda. Há a liberdade para se compadecer e ajudar, como também há a liberdade para acolher a ajuda de um outro. Esta liberdade inviolável é talvez o que faz da relação humana um cume de possibilidades e um abismo de riscos a correr.
Dou-lhe só uma sugestão a partir da opinião que tenho. Não me parece muito apropriado dizer que alguém tem o "direito" de sentir isto ou aquilo. Se alguém se sente humilhado, é legítimo sentir-se como tal porque o sentir é algo a que somos passivos. Não é uma questão de direitos, é uma verdade de facto. E isto é importante porque o problema que se põe com o sentir não é o da legitimidade para sentir ódio ou paixão. Pode acontecer que numa situação sinta ódio e noutra paixão, e isto em si não é um mal. O mal ou o bem podem começar depois de fazer a pergunta: e o que é que eu faço com isto que senti? É aqui que entra o tal mandamento da caridade. Neste sentido, o sentir não implica o consentir. O sentir é maravilhoso porque possibilita mundos incríveis de acção e imaginação, mas não tem a última palavra. Neste sentido é que me parece que a caridade reforça a sua importância enquanto mandamento que, não fugindo à liberdade e à responsabilidade, não cai num paternalismo. Para acabar com um exemplo relativo ao sentir, o Bom Samaritano sentiu-se movido a agir porque SENTIU compaixão. Mas o SENTIR compaixão foi uma afectação ainda não efectivada que não o dispensou de ser livre, decidir e responder ao mandamento.
Se calhar fugi um pouco à pergunta, mas foi o que me sugeriu.

Anónimo disse...

De facto não é um direito sentir humilhação.

Mas é legítimo, de acordo.

Artigo 21.º
(Direito de resistência)

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

*Constituição da República Portuguesa (Sétima revisão constitucional)

A caridade no sentido de dar sopa quente quando outros têm bonos de milhões em empresas sem risco...

A inveja não deve ser confundida com injustiça, consequência do erro da sociedade.

A caridade não deve ter por objectivo controlar o direito à resistência perante ofenças aos direitos.

A caridade aplicada de forma social e não apenas individual poderá ter outro alcance, como libertar 52 presos, no lugar de consolar 1 a 1...

concorda?

Missé, sj disse...

Durante estes dias vou estar fora e não conseguirei responder, mas assim que regressar respondo-lhe logo.

Missé sj disse...

“Todos têm o direito a resistir …”, parece-me que sim. Muito embora a minha crítica ao direito de … vai no sentido de que só se pode conceder direito a algo que já aconteceu. O hipotético é sempre um já ocorrido, e neste sentido ter o direito a fazer algo não é tornar algo possível de acontecer, mas tornar legal a ocorrência de algo que não era ainda claro ao entendimento. Em qualquer destas situações há sempre implícita uma passividade do sujeito a um sentir que pode ou não ser consentido. Sentir que devo ficar com bónus de milhões em empresas talvez não seja um sentir que deva ser consentido diante da responsabilidade que a miséria deve suscitar em mim. E o Papa refere-o na encíclica.

Por outro lado, como disseste: “A caridade aplicada de forma social e não apenas individual poderá ter outro alcance, como libertar 52 presos, no lugar de consolar 1 a 1...”. Para isto aconselho-te a leitura do artigo “sócio e próximo” do Paul Ricoeur em História e Verdade. Paul Ricoeur diz que hoje não nos relacionamos somente com aquele de quem nos aproximamos na 1ª pessoa pela ‘via-curta’ das relações pessoais, mas também de todos os outros por meio da ‘via-longa’ das instituições, pela função social. Neste sentido, tanto a minha relação pessoal com alguém vai influenciar a relação de um outro com as instituições e consequentemente com as relações pessoais de outros; tal como as minhas relações institucionais também vão ter implicações na vida concreta das relações pessoais de outros. A caridade é policêntrica, o seu discurso alargado implica o seu discurso ínfimo e vice-versa.

É o que me parece. Respondi ao que perguntavas?

Anónimo disse...

Qual a relação entre caridade e [Que chatísse, temos de obedecer a alguém!]?

Missé, sj disse...

Continua a ser mesmo bom continuarmos esta conversa. Muito obrigado.

Quanto à expressão: "que chatísse, temos de obedecer a alguém" é um pensamento que habitualmente muitos de nós, maioritariamente ocidentais, temos em relação à autoridade. E daí resulta um entendimento demasiado estreito da palavra MANDAMENTO, como dizia no post.
De facto a CARIDADE surge como um MANDAMENTO: "amai-vos como Eu vos amei"; "se queres ser o maior, faz-te servo de todos";... Há uma certa força normativa nestas palavras, mas curiosamente elas libertam-me [e aqui só sei falar na 1ª pessoa] de todos os vícios e estratégias de auto afirmação que habitualmente ferem os outros e consequentemente humilham-me, no sentido em que falei num destes comentários.
Para além disso, a caridade é um mandamento porque respeitar sempre o outro exige uma prática vivencial criativa porque respeitar o outro numa base de mínimos não é ser em caridade, mas fazer o que evita problemas ou viver na mediocridade do meu auto convencimento de que sou bonzinho. E ser bonzinho não é ser caridoso. Ser caridoso implica aquela excessividade própria da relação humana de quem se aproxima na primeira pessoa de um outro e percebe que este pede sempre mais de mim e que eu sou mais humano assim. Assim, caridade tem que ser um mandamento humanizador que me vá transformando progressivamente porque da realidade só vemos um frame de cada vez. Ou seja, não somos pessoas de caridade de um momento para o outro.
Isto relaciona-se com o que eu disse há dias quanto à caridade que se vai tornando cada vez mais policêntrica e quanto ao não paternalismo de uma exigência que não resulta no ser bonzinho, mas no aproximar-se em compaixão. Ou seja, viver com[a]paixão do outro. Isto significa perder-me sua dificuldade e aprender a vestir a sua pele. Porque a liberdade configura-se no momento em que já não vivo preso à minha pele, na tal expansividade do eu que já falámos, mas vivo na pele do outro que, descentrando-me de mim, dá-me a capacidade de ir ou não consentido o que sinto não só em função desse mesmo sentir. Pelo que este mandamento é o que nos faz não sermos máquinas de instintividade.

É o que me parece.

Anónimo disse...

Muito obrigado pela resposta.

Um belo texto honesto e conhecedor da alma humana.

Parabéns.

Missé sj disse...

Muito obrigado! Foi mesmo bom termos esta conversa.

Até (b)logo.