20 de julho de 2010

reconhecimento e tradução


Uma pessoa pela qual tenho uma grande estima contou-me um dia que um velho rabino disse acerca de um seu colega: “anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!” É frequente hoje vermos como a experiência da fé é criticada porque muitas vezes os ritos se apresentam desligados da vida normal, onde Deus é uma Palavra que Se diz na beleza e na discrição. A excessiva actividade separa as COISAS de Deus, do Deus mesmo, e assim as COISAS da vida, da Vida mesma. Mas a que se deve esta separação?


Antes de mais, parece-me que a religação a fazer exige um esforço de tradução. Traduzir Deus como Vida e expressa-lo nas coisas da vida. Coisas da vida que assim se reconhecem como coisas de Deus. Ora, mas que significa traduzir? Tomemos, por exemplo, a palavra: Paz. Paz, Peace, Pace, Shalom… Embora as letras mudem, cada palavra, em diferentes línguas, continua a trazer-nos um significado essencial semelhante. Deste significado, vemos as palavras Paz, Peace, Pace, Shalom, como expressões de um algo não-dito e que todos de certa forma percebemos unanimemente o que é. Uma espécie de linguagem anterior à palavra que, após ser expressa, pode ser traduzida morfologicamente.

Para além deste sentido mais óbvio da tradução, podemos ver outros menos óbvios. Por exemplo a interpretação que Michel Lucarelli faz da Sonata do Luar de Beethoven. Há uma linguagem invisível que é transladada, não mecanicamente, das cordas do piano, para as cordas da guitarra. Porque o virtuosismo não se encontra na pena que escreveu a música, nem na partitura que Lucarelli viu. Que realidade lhes confere essa linguagem eloquente que engrandece as notas agrupadas? O que distingue verdadeiramente essa linguagem, anterior e invisível, das expressões morfológicas, sonoras ou corpóreas?

Parece-me que a resposta se dá ao nível da vontade. A expressão é algo que podemos ou não fazer presente nas nossas conversas e gestos por espontânea vontade. Ao passo que essa linguagem interna, anterior à expressão, é uma realidade matricial. Ou seja, com certa conexão ao poder de gerar filhos que é anterior à de fertilidade voluntária. Uma realidade independente da nossa vontade, com a qual nascemos. Somos passivos a esta Vida que nos habita. Mas o que é que esta Vida tem a ver com a experiência da fé? Este clique de passagem entre a Vida que nos habita e o encontro com Deus parece-me ser uma ousadia, academicamente a-provável. Só o testemunho de outros nos mostra a fecundidade desta passagem. Assim, esta passagem é feita pela experiência do reconhecimento. Reconhecimento sempre anterior à tradução.


Reconhecer é uma atitude passiva. Muitas vezes situamo-nos no dia-a-dia ao nível da expressão; atitude activa e auto afirmativa, de quem se aproxima do mundo apenas com a pretensão de ser objectivo e dar nomes a todas as coisas. Nesse sentido, traduzir algo restringe-se ao acto de mudar friamente uma palavra, segundo o seu equivalente semântico. Podemos ver isto também na Igreja quando a proposta de Jesus nos é apresentada de uma forma muito enfeitada ou excessivamente segura de si, a ponto de perder a sua força num contacto imediato com a vida normal. O que aumenta o fosso entre fé e vida elementar. Ora, o reconhecimento de uma Vida interior e anterior, donde urge a necessidade da expressão, não depende da vontade obcecada de descobrir ou encontrar o que quer que seja. Trata-se de reconhecer essa Vida interior e anterior, que já existia antes da nossa consciência da sua existência; e deparar-me aí com a verdade de mim, que se deixa tocar e se reconhece em pessoas, momentos e palavras.

Esta linguagem anterior que se reconhece como Vida que nos habita, não por nossa vontade mas por vontade “dAquele que nos destinou” à liberdade, é a pedra de toque das palavras exteriorizadas. Do reconhecimento da Vida que nos habita depende o vigor das palavras que exteriorizamos. É por isso que Kierkegaard nos diz que se uma mesma frase é pronunciada ora por um génio ora por um apóstolo, ela chega-nos de formas diferentes. Porque o génio diz por causa de si, porque entendeu e porque quer dizer. O apóstolo diz porque experimentou algo que o obriga a dizer. Ambos expressam-se na mesma morfologia, donde se intui a mesma semântica, mas a linguagem viva que habita essas palavras é diferente.


Hoje, diante da missão da Igreja traduzir a mensagem que lhe É confiada, esta missão não deve ser entendida apenas como urgência de trocar palavras velhas por palavras novas. Deve ser entendida sobretudo como urgência de regressarmos a essa Vida não-dita, que se oferece como sustento do que é dito e feito. Regressar à Palavra, à passividade que permite a acção livre de Deus, a ponto de reconhecermos a Vida que posteriormente devemos traduzir em palavras e gestos, renovados a partir de dentro. Daí virá uma sincera abertura ao estranho, ao sofrimento, à vida do dia-a-dia do mundo…

7 comentários:

Anónimo disse...

Ser vigário de Deus?

Não será muita presunção em se assumir "a tradução", de linguagens e contextos tão diferentes dos actuais?

Uma mulher de saia curtinha cai no chão e rapidamente se levanta.
Diz o francês:" C'est la vie..."
Diz o espanhol, todo contente:
"Yo, también... Yo, también..."

Os vigários foram desafiados a demonstrar a veracidade dessa representação em várias passagens da bíblia.

Que milagres, que provas de representação apresenta a Igreja Católica Apostólica Romana?

Anónimo disse...

O título do blog está mesmo mal dado...o ideal seria mesmo "Companhia dos fanáticos religiosos." OMG...isto não é MESMO filosofia...

Anónimo disse...

“anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!”

Traduzir Deus como Vida e expressa-lo nas coisas da vida.

Este clique de passagem entre a Vida que nos habita e o encontro com Deus parece-me ser uma ousadia,

Hoje, diante da missão da Igreja traduzir a mensagem que lhe É confiada,

Quem confiou?

JOCENDIR CAMARGO disse...

Reconhecer a palavra não basta, há que praticá-la, e creio eu, é o que a igreja tem deixado a desejar...
Um abraço, com meu respeito a teus escritos...

Anónimo disse...

Sem prova de representação séria e real, o vigário não passa de um vigarista...

wholesale Jimmy Handbags disse...

Interesting. I had no need to edit my template's HTML because it was already in the format you suggest.

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Na segunda carta, A.F. Christian fala precisamente de Deus tal como o "literalista" Dawkins o descreve com todos aqueles adjectivos e mais alguns. E pergunta a seguir

«But don't You see the problem here? The very character of the Judeo-Christian god that has given You such a romp with the adjectives actually turns out to be a pretty big problem for the Atheist side. The point everybody's missing is that this particular god is hard to live with - so hard that the Atheist idea of his having been made up just for the supposed "consolation" of it all is just too LOL [Laugh Out Loud]. Even at his best, he's not the sort of supernatural one can easily cuddle up to. (...)
So You see, ths very scariness of this Judeo-Christian god is seriously bad for us - or at least bad for the Atheist claim that he was invented by people to make them feel better. Because if the human purpose that keeps calling Loser [God] into existence is some deep search for comfort (...) I have to tell You this god is seriously not cutting it for me, and not just for me but for a lot of other people as well.