5 de agosto de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo







Equívoco fundamental

O maior drama do ateísmo radical não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir o seu objectivo: erradicar a religião, mesmo que essa erradicação se refira apenas à religião enquanto instituição. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Sétimo equívoco: Os religiosos moderados são os verdadeiros responsáveis pelos fundamentalismos religiosos (Sam Harris e Richard Dawkins)

1. Sam Harris sustenta na sua obra O Fim da Fé uma surprendente tese contra o que chama ‘o mito da moderação religiosa’: que a tolerância religiosa é responsável pelo fundamentalismo religioso de extremistas como Osama Bin-Laden e os seus seguidores. Vejamos a forma surpreendente e contraditória como o autor aparentemente fundamente esta não menos surpreendente e contarditória tese.

2. A interpretação literal é para Harris, como para os fundamentalistas, a única interpretação correcta da Bíblia ou de qualquer livro sagrado. Por conseguinte, são os religiosos moderados que estão errados, ao distinguirem os diversos estilos literários de muitos textos religiosos, e não os fundamentalistas que apenas admitem uma interpretação literal: “É este o problema da ‘moderação’ religiosa: nada a justifica, a não ser a negligência despudorada da palavra divina.”(O Fim da Fé, Ed. Tinta da China, p. 21). Paradoxalmente, Harris o ateu militante, apresenta-se aqui, de mãos dadas com os fundamentalistas cristãos, incluindo os criacionistas, como um zeloso defensor da palavra divina. O autor ignora, porém, os mais elementares princípios da hermenêutica em geral, para já não falar da hermenêutica bíblica em particular. Ele estabeleceu como único princípio de hermenêutica bíblica que são os religiosos fundamentalistas os únicos a fazerem uma leitura correcta dos textos sagrados, sejam eles a Bíblia, o Corão ou quaisquer outros, e este princípio não admite qualquer crítica, embora acuse os crentes em geral de completa ausência de espírito crítico. Harris ignora por completo que o que o que afasta os religiosos moderados de uma interpretação sistematicamente literal dos textos sagrados é precisamente a atitude crítica e informada com que lêem esses textos.

3. O pensamento de Harris baseia-se numa ultrapassada concepção de inspiração divina das escrituras, particularmente no que se refere à Bíblia. Até ao Concílio Vaticano II, realizado há quase meio século, a concepção cristã sobre a inspiração divina da Bíblia era muito semelhante à que ainda vigora entre os muçulmanos: toda e qualquer palavra contida na Bíblia foi ditada directamente por Deus e tem um significado directo, literal, que não pode ser objecto de interpretação humana.

4. O autor confunde os princípios da fé religiosa tal como estão expressos nos livros sagrados das várias religiões com a sua concretização em comportamentos individuais e inicitivas colectivas. Esquece Harris que há hoje muitos muçulmanos moderados que desaprovam incondicionalmente todos os comportamentos fundamentalistas como os dos bombistas suicidas, e isto precisamente porque os princípios religiosos não são compatíveis com todo o género de interpretação e concretização. Por isso mesmo, em nenhuma religião os crentes moderados aprovam toda e qualquer concretização dos princípios religiosos, muito menos os comportamentos violentos. E isto em nome da razão.

5. Mas é precisamente este exercício da razão pelos crentes moderados que Harris não admite. Os moderados, longe de merecerem qualquer louvor, são objecto de crítica por não desejarem senão sobreviver numa cultura em contínua mudança. Referindo-se à interpretação não literalista dos textos sagrados pelos crentes moderados afirma o autor: “As pessoas razoáveis que existem em todas as confissões são obrigadas a fazer uma interpretação livre ou simplesmente ignorar muitos dos seus cânones para conseguirem viver melhor no mundo moderno… A primeira observação a fazer sobre a rejeição de uma leitura textual das escrituras por parte dos moderados é o facto de ela se inspirar não nas escrituras propriamente ditas, mas sim nos desenvolvimentos culturais que tornaram difíceis de aceitar muitas das afirmações de Deus tal como foram originalmente escritas.” (O Fim da Fé, pp. 19-20) Subitamente, porém, Harris faz uma afirmação sobre os moderados profundamente contraditória: “O problema que a moderação religiosa nos coloca a todos é que não admite qualquer crítica à literalidade religiosa.” Ora, é exactamente o contrário que acontece. Os moderados criticam o literalismo hemenêutico enquanto que Harris e os fundamentalistas o defendem acriticamente, Pretendendo exprimir o pensamento dos moderados, Harris continua: “Não podemos dizer que os fundamentalistas estão loucos, já que eles estão apenas a exercer a sua liberdade de culto; não podemos sequer dizer que eles estão enganados em matéria de religião, porque o seu conhecimento científico das escrituras é, regra geral, inigualável.” (O Fim da Fé, p. 23) Ora, esta afirmação, que pretende exprimir a posição dos religiosos moderados é incompreensível e está em contradição com tudo o que Harris afirmou anteriormente. O que os moderados afirmam é exactamente o contrário.

6. Este argumento de Harris é tão contraditório em todos os seus passos que é incompreensível que seja ainda hoje considerado um dos grandes textos do novo ateísmo. Compreende-se que Harris se sinta incomodado pelos chamados moderados religiosos, que com base no uso da razão e numa actualizada visão do mundo não aceitam os literalismos hermenêuticos que levam a todos os fundamentalismos. Mas não é possível levar a sério este como muitos outros dos seus argumentos. Em nome da razão.

7. A mesma tese sustenta Richard Dawkins: “a religião, mesmo quando esbatida e moderada, ajuda a proporcionar o clima de fé emque o extremismo, naturalmente, floresce.” (Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, Casa das Letras, p. 361) E continua: “enquanto aceitarmos o princípio de que a fé religiosa deve ser respeitada pelo simples facto de ser fé religiosa, será difícil negar o respeito à fé de Osama bin Laden e dos bombistas suicidas. A alternativa, tão óbvia que não devia ser preciso insistirmos nela, é abandonar o princípio do respeito automático pela fé religiosa…. Embora em si mesmos não sejam extremistas, os ensinamentos da religião ‘moderada’ são um convite aberto ao extremismo.” (A Desilusão de Deus, p. 365)

8. A posição de Dawkins deverá aplicar-se a todos os domínios da vida social, económica e política nos quais sempre houve e sempre haverá moderados e extremistas. Dever-se-á então afirmar que são precisamente os moderados em política, os democratas que respeitam a existência de diversos partidos políticos, que são os responsáveis pelos ditatoriais? A moderação dos membros de partidos democráticos não implica que estes estejam disponíveis a respeitar, muito menos a encorajar, a constituição de partidos extremistas como são os partidos fascistas e racistas, muito menos a sua subida ao poder. E se algum partido subiu ao poder através de eleições, como, por exemplo, o partido nacional-socialista de Adolfo Hitler, não foi certamente com base no seu programa de extermínio dos judeus que se deu a sua vitória eleitoral. Se analisarmos os exemplos históricos da relação entre extremistas e moderados nos diversos domínuos da vida em sociedade, facilmente constataremos que a posição de Dawkins não tem qualquer fundamento e deve ser claramente recusada. Em nome da razão.

50 comentários:

Anónimo disse...

Um possível equívoco:

"Deus"

Existe?

Existiu?

Existiram?

"Dio benedetto"

Equívocos...

Bento ou Benedetto...

Faraós...

Imperadores...

Reis...

Seriam eles "Deus"?

Calígula...

Akenaton...

"Deus"

"Yeshua" ou "Yahshua"...

Equívocos...

Yahoshua ... "Deus é salvação"

Calígula (Deus em vida) é o novo
Rei de todos os Judeus, quem se submeter será salvo...

Calígula (Deus em vida) é o Deus mais poderoso, omnipotente, omnisciente, omnipresente...

Assim queria "Roma"...

O que é "Roma" ?

Assim quer ser "Roma"...

Equívoco?

Carlos Ricardo Soares disse...

Eu não consideraria como "equívocos" o que me parece serem postulados "dogmáticos" de uma militância ideológica acoplada a uma catadupa de preconceitos e mal-entendidos de quem prescinde de espírito científico ou não tem o privilégio (ou a honra) de o usar. Não existe ateísmo científico. O ateísmo é um capricho ficcional, da ordem do discurso, nem sequer é uma filosofia ou uma ideologia.
Mais importante do que a (in)consistência/(in)validade dos argumentos é a boa-fé de quem os invoca. Se não houver boa-fé, como pode haver conhecimento/credibilidade?

Anónimo disse...

As neurociências vêm demonstrando que "doutrinação", "catequese" e todo o tipo de "repetição" de informação gera uma configuração particular no próprio cérebro...
Portanto, argumentar "contra a religião" é, como se diz na minha terra, mexer num vespeiro! O negócio é super rendoso e cuida para que nenhuma criancinha se safe incólume. Por isto, um "devoto" ou "beato" fará mil acrobacias -- linguísticas e comportamentais -- para "provar a sua tese". E tudo acaba dependendo de sua "platéia". E, nisto, sabemos todos, os religiosos têm uma imensa platéia!
Isto é muito diferente de se estar em um laboratório fazendo experiências. Em maio deste ano chegamos à criação da vida em laboratório...E continuaremos avançando!
E tome sofisticação linguística e apelação devocional para "explicar" mais do mesmo!
Nossa sorte é que hoje é um pouquinho mais difícil queimar a Biblioteca de Alexandria!
Sou imensamente grato ao neo-ateísmo (outra palavrinha com que os neo-teólogos-devotos tentam marginalizar os que atrapalham o negócio...)
É preciso acordar a humanidade deste sonho-pesadelo em que esteve oprimida durante milênios! Esta estória de que existe um pequeno bule girando na órbita do sol...e que se não posso provar que ele não existe é porque ele existe...(B.Russel)
Cá entre nós...estamos em outra era! Este pessoal precisa vir discutir na Universidade e não dentro de Igrejas ou com platéias devocionais. É uma mera questão Política. Enquanto mandavam através da força -- e como !!! --- tudo se resolvia na masmorra; agora que contam com vastíssimos meios de propaganda (vá tentar usar um meio deles para expressar o contraditório, vá pra você receber a porta na cara...)recuam um pouco tentam continuar apenas com o Abuso Infantil (adestrar crianças na fé)e o controle máximo dos meios de comunicação.
Como se diz na gíria: "vá se catá"

Miguel Oliveira Panão disse...

Adicionaria ao post a definição de "fé" ao qual Harris tenta pôr um fim: "crença sem evidência". Penso que esta definição teve já um fim para os Cristãos há muito anos, mas se o "novo ateísmo" não assentasse a sua argumentação nessa definição, teria de enfrentar a dificuldade de criticar aqueles que usam da razão na exploração teológica e científica das implicações da sua fé.

Anónimo disse...

Caro Miguel Panão,

"Fé"

pode ser definida como crença profunda, verdadeira e que pode originar "milagres" médicos, desportivos ou mesmo científicos.

Efeito "placebo", efeito "repetição mental de sucesso". Sem dúvida uma mais valia para o ser humano.

"Fé" não se esgota em "Deus" e nas religiões...

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,
Será para mim mais fácil responder-lhe se se apresentar o seu 'possível equívoco' em forma argumentativa.
Obrigado.

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Carlos Soares,
Obrigado pelo seu comentário. Realmente sem boa fé não se vai a lado nenhum. Por vezes parece-me que ela falta nos 'novos ateus', mas prefiro pensar que em engano.
Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Anónimo (6:23),

Com certeza que não ignora que existem muitos cientistas que passam os seus dias em laboratórios integrando equipas que incluem ateus, crentes, agnósticos, etc. Todos dispõem da mesma evidência empírica, e nenhum deles passa a vida nas igrejas. O que parece contradizer a sua tese.

Como deve saber pela observação dos factos, muitos dos adultos que em crianças receberam educação religiosa são hoje ateus, o que prova que esta educação não é tão castradora como pensa. Também é verdade que conheço algumas pessoas que foram educadas no estrito ateísmo e que são hoje cristãos.

Pode ser mais explícito sobre o que entende acerca da criação da vida em laboratório?

Quanto aos meios de comunicação, deve notar que os livros de autores como Dawkins, Harris, Dennett, etc., não têm qualquer problema em serem publicados por grandes editoras simultaneamente em diversas partes do mundo.

Sou cristão praticante e não sinto a fé como um pesadelo mas como uma libertação dos estreitos limites do ateísmo filosófico e científico.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Miguel Oliveira Panão disse...

Caro Anónimo,

a definição de Fé é sua?
Qual a relação entre fé e efeito placebo?
Por fim, ainda bem que "fé" é algo que não se esgota em Deus ou nas religiões, caso contrário, nem Galileu ou Einstein teriam chegado onde chegaram

Cordiais saudações

Sinais de Deus disse...

Sinais de Deus...

Anónimo disse...

"O maior drama do ateísmo radical não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir o seu objectivo: erradicar a religião, mesmo que essa erradicação se refira apenas à religião enquanto instituição. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião."

O ónus da prova está invertido neste texto.

Não são os "ateus" que se proclamam vigários de Deus. O Vigário de Deus é que tem de demonstrar a veracidade da sua representação sob pena de não ser mais do que um vigarista...

Pessoalmente não me classifico de "ateu" e tão pouco de "agnóstico", Se tiver que usar uma palavra seria mesmo "gnóstico".

Anónimo disse...

"8. A posição de Dawkins deverá aplicar-se a todos os domínios da vida social, económica e política nos quais sempre houve e sempre haverá moderados e extremistas. Dever-se-á então afirmar que são precisamente os moderados em política, os democratas que respeitam a existência de diversos partidos políticos, que são os responsáveis pelos ditatoriais?"

Parece uma extrapolação das conclusões fora do domínio de aplicação do modelo.

"Embora em si mesmos não sejam extremistas, os ensinamentos da religião ‘moderada’ são um convite aberto ao extremismo."

Talvez o próprio autor fosse o melhor para clarificar o equívoco.

Parece que a intenção será:
A religião 'moderada' gera respeito por algo divino. O respeito entre as diferentes religões 'moderadas' gera respeito por algo que não está definido: "Deus". Um extremista ao ser vigário de "Deus" recebe o acolhimento da dúvida por parte de quem ouve, uma vez que não tem certeza do divino. Assim: "os ensinamentos da religião ‘moderada’ são um convite aberto ao extremismo."

Carlos Ricardo Soares disse...

É mais dificultador do que facilitador, em qualquer abordagem da ideia de Deus, a frequente confusão de questões vizinhas, afins ou com alguma conexão, senão lógica, pelo menos, sociológica e psicológica. É o caso de, ao falar de Deus, identificar Deus com religião, sem mais. Religiões há muitas e sempre houve. Depois, nada é mais enganador do que meter "as religiões" todas num saco que não se sabe o que é. Acresce que, dum ponto de vista ideológico, dogmático e anti-científico, como é o dos ateus, não é viável, nem expectável, discutir sobre o que não é ideológico, nem dogmático, nem anti-científico. As coisas são como são e não se discute com alguém que diz que o homem não foi à lua porque ele invoca que a lua é um pinheiro de algodão.
Quanto a ónus, essa figura jurídica do direito processual,nomeadamente probatório, não me parece que venha ao caso e será também enganoso transpor o que é de uma ordem meramente processual e adjectiva para o âmbito de matérias cujo apreço não é, nem deve ser, do foro jurisdicional. Ou seja, quem tem um ónus jurídico de prova de um direito sujeita-se a não o ver reconhecido se a prova não se fizer ou faltar. Isto não tem necessariamente a ver com verdade ou falsidade, com razão ou falta dela. Além disso, o não lograr a vantagem do reconhecimento do direito não implica, ipso facto, o reconhecimento do direito da outra parte. E, em qualquer caso, estamos a lidar com situações de subsunções jurídicas e não de argumentações lógico-dedutivas mais ou menos teoréticas e conceituais. Em princípio, tendo a considerar razoável e desejável que, no plano do conhecimento, quem quer persuadir os outros da sua razão e da sua fé, o faça com argumentos. A obrigação, propriamente dita, de demonstrar, não é maior para quem afirma do que para quem nega. Inclino-me a pensar que quem nega está numa posição eticamente e criticamente mais problemática do que quem afirma, pelo menos enquanto não lograr refutar os argumentos.
E há que ter presente ainda que a refutação dos argumentos, por sua vez, não é senão isso. Ou seja, daí não se segue a falsidade, ou inexistência ou irrealidade da posição refutada. Sempre ficaria a faltar a prova do contrário.
O melhor é enveredar pelo caminho da verdade.

alfredo dinis disse...

Caro Anónimo (7:40),

Obrigado pelo seu comentário. Fez uma tentativa para salvar Dawkins, mas não tenha receio de o criticar. Parece-me que o espírito crítico que muitos não crentes consideram estar apenas do seu lado, se deve aplicar não apenas às opiniões dos crentes mas também às dos próprios não crentes. Não lhe parece?

Os religiosos moderados rejeitam explicitamente comportamentos violentos, e os religiosos violentos como os bombistas islâmicos sabem-no muito bem.

Contrariamente ao que afirmam Dawkins e Harris.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro Carlos,

Obrigado pela sua interessante intervenção. Parece-me muito lúcida e sensata.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro Carlos Ricardo Soares,

"quem tem um ónus jurídico de prova de um direito sujeita-se a não o ver reconhecido se a prova não se fizer ou faltar."

Plenamente de acordo.

Nem Baptizado, nem Matrimónio, nem Esmola, nem Benefício Fiscal, nem pagamento de missas em nome de falecidos...

Tudo o que é feito em nome de "Deus"...

"quem tem um ónus jurídico de prova de um direito sujeita-se a não o ver reconhecido se a prova não se fizer ou faltar."

Plenamente de acordo.

Anónimo disse...

Caro Carlos Ricardo Soares,

"quem tem um ónus jurídico de prova de um direito sujeita-se a não o ver reconhecido se a prova não se fizer ou faltar."

Plenamente de acordo.

Nem direito clerical...
Julgamento em tribunais civis? De acordo.

Tudo o que é feito em nome de "Deus"...

"quem tem um ónus jurídico de prova de um direito sujeita-se a não o ver reconhecido se a prova não se fizer ou faltar."

Plenamente de acordo.

Anónimo disse...

Dos Ateus aos membros do Clero, todos gostavam de ter a benção de Deus. De conhecer o amor de Deus, a justiça divina, a protecção.

As reacções como "O fim da fé" ou "A Desilusão de Deus" são o resultado da realidade. Um mundo onde existe pedofilia, injustiça, impunidade.

A formação de tribos com exercício do seu poder, limitado mas avassalador, é intemporal e muito do que está na bíblia canónica ainda mostra a essa natureza humana intemporal.

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (7:29),

O livro O Fim da Fé limita-se a elencar as desgraças deste mundo, desgraças que todos conhecemos, mas estabelece um nexo de causalidade entre a religião e essas desgraças. O autor negligencia por completo os efeitos positivos das religiões, e poderia ter aproveitado para fazer uma crítica social que fosse além da religião. Parece-lhe que a religião é a causa de todos os males e que nada tem de bom a oferecer à Humanidade?

Se eu seguisse a errada metodologia de Harris poderia dizer mal de tudo e de todos, uma vez que não há ninguém nem nenhuma instituição que tenha atingido a perfeição. Pondo en relevo apenas os aspectos negativos seja do que for, leva a conclusões viciadas à partida. E chamamos a isto o triunfo da razão?

Saudações,

Alfredo Dinis

Xiquinho disse...

Caro Alfredo,

Obrigado por partilhar connosco mais um equívoco do ateísmo. É sempre com alegria que verifico que o Alfredo continua interessado em aperfeiçoar o ateísmo contemporâneo através das suas críticas inteligentes, fundamentadas e objectivas.

Parece-me que das duas hipóteses consideradas no equívoco fundamental, podemos desconsiderar a segunda, uma vez que salvo raríssimas excepções, as críticas do ateísmo são sempre inteligentes, objectivas e fundamentadas. E eu concordo, absolutamente, que nestes casos, essas criticas só podem ser benéficas para a religião.

No entanto, penso que aqui importa distinguir as religiões verdadeiras das falsas. Estou a crer que o benefício só acontece no caso de uma religião ser verdadeira. Pois é fácil de verificar que uma crítica inteligente, objectiva e fundamentada, quando feita a uma religião que é falsa, nunca poderá ser benéfica para ela, na medida em que denuncia aos olhos da população a sua falsidade ideológica.

Ora nós sabemos, que entre as diversas religiões existentes, todas são falsas, com excepção, talvez, do Catolicismo, que tem um peso de sensivelmente, 20% entre a população mundial.

Assim penso que não será abusivo concluir também que:

as críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, pelo menos em 80 % dos casos, não são benéficas para ela.

O que já bastante reconfortante :)

Cumprimentos do Xiquinho

Anónimo disse...

Caro Alfredo Dinis,

A ferocidade encontrada nos livros "O fim da fé" ou "A Desilusão de Deus" são um contra peso para aqueles que se apresentam como sendo "O Bem", "A Verdade" e oferecem "O Paraíso".
Para o rebanho que tenta seguir os ensinamentos, as muitas desilusões e equívocos são fonte de desorientação e revolta.

"Ouve o que eu digo, não olhes para o que faço".

Sempre existiram santanás, ie, adversários, e como se conta... o principal adversário aparece do seio da própria organização: O anjo que se torna santanás.

Ora se a pergunta é: somos anjos ou santanás? A resposta será: Somos um pouco de ambos, depende da perspectiva.

Acrescentaria, que também depende do respeito mútuo, da capacidade de manter bons canais de comunicação, da capacidade de usar uma semiótica comum, para reduzir...

equívocos...

Saudações.

Anónimo disse...

"A interpretação literal é para Harris, como para os fundamentalistas, a única interpretação correcta da Bíblia ou de qualquer livro sagrado."

O que se deve entender por "interpretação literal"?

Uma descrição baseada em factos históricos, escritos segundo a interpretação do autor e re-interpretados por quem traduziu?

Quantas interpretações já foram alteradas por descobertas arqueológicas, que confirmam que há uma base histórica nas passagens da bíblia?

A arca da aliança, qual a interpretação? A religião na Etiópia tem forte relação com a Arca da Aliança...

A arca da aliança pode servir como arma, como descrito na bíblia? Qual a interpretação? Ou terá base histórica?

"interpretação literal" tão literal como a descrição das batalhas entre Espanha e Portugal... Padeira de Aljubarrota...

O que se deve entender por "interpretação literal"?

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

Obrigado pelas suas sempre provocadoras considerações.

Não sei bem o que entende por religião falsa. Os ateus insistem em afirmar que para os cristãos o cristianismo é a única religião verdadeira, sendo todas as demais falsas. Não sei onde leram isto. O cristianismo considera que Deus se manifestou em Jesus Cristo, mas considera igualmente que Deus não se manifestou nem manifesta apenas em Jesus Cristo. Pelo contrário. Deus manifesta-se a toda a Humanidade, e não apenas através das religiões organizadas. Estas, talvez na sua maioria, contêm elementos que correspondem àquilo em que os cristãos acreditam: um Deus criador, que se interessa pelo que criou, que quer a felicidade para todos, que assegura uma existência eterna. Deus, o verdadeiro Deus, tem muitos nomes, e habita a mente e o coração de cada ser humano. Somente as seitas que são criadas expressamente para fazer dinheiro à custa das emoções das pessoas, como são, por exemplo, a IURD e a Igreja da Cientologia, já múltiplas vezes desmascaradas, têm tudo a perder com críticas objectivas e fundamentadas. Mas essas não devem ser consideradas religiões. Uma religião representa sempre a busca honesta do significado fundamental da existência humana numa entidade pessoal que não se identifica com o universo. É por isso que para muitas pessoas o budismo é mais uma filosofia de vida do que uma religião.

Não sei em que se fundamenta para dizer que as críticas ateias são sempre fundamentadas. Quando os ateus seleccionam algumas passagens da Bíblia que mais lhes convêm para apresentar a imagem do Deus cristão como cruel e vingativo, generalizando depois as suas observações a toda a Bíblia, não apenas cometem o erro básico de indevida generalização, - a não ser que ignorem o conteúdo da Bíblia no seu conjunto -, o que também não lhes fica nada bem, como também manifestam o desconhecimento dos princípios gerais mais básicos de hermenêutica. Foi este desconhecimento, que atraíu sobre Saramago um vendaval de críticas quando apresentou a sua obra Caim, e estas críticas não vieram na sua maior parte dos crentes. Basta ler o artigo no Público de Vasco Pulido Valente, que não é conhecido propriamente como um crente.

Quando Hitchens afirma que a religião só faz mal, está também a generalizar algumas manifestações negativas de algumas religiões para todos os aspectos de todas as religiões. Chama a isto crítica fundamentada e inteligente?

Quando os ateus dizem que quem pensa criticamente é ateu, quem não sabe pensar criticamente é crente, acha que isto corresponde à verdade? Acha mesmo que todos os ateus, e só eles, são inteligentes, e todos os crentes, e só lees, são ignorantes?

Um abraço,

Alfredo Dinis

Alysson Flizikowski disse...

O equívoco dos novos Ateus está em pensar que a interpretação da Bíblia só passou a ser "mais racional" com o advento do conhecimento científico. Quando o autor do artigo admite que antes só se admitia a interpretação literal dos textos bíblicos, endossa o argumento ateu de que o que impede o crente de abraçar o dogma como ele "supostamente foi concebido" é o conhecimento científico moderno. Ou seja, a fé do crente moderado seria uma fé concordista com o novel conhecimento, uma espécie de camaleão que se adequa ao que é tido como verdade.
Interpretações bíblicas sempre houveram em todos os tempos. Agostinho, por exemplo, sugeriu que os 6 dias da criação não precisariam ser necessariamente literais. Isso foi no século IV, milênios antes dos conhecimentos modernos de geologia. Portanto, o Cristão Moderado não é um concordista, ele apenas não é dogmático quanto a questões periféricas da fé cristã.

Anónimo disse...

Caro Alysson Flizikowski,

Interessante frase:
" a fé do crente moderado seria uma fé concordista com o novel conhecimento, uma espécie de camaleão que se adequa ao que é tido como verdade."

ele apenas não é dogmático quanto a questões periféricas da fé cristã.

O que é fundamental para a fé cristã?

A proibição do uso do preservativo?

Apenas Homens como cardeais?
Quando é que as Mulheres serão tratadas com igualdade?

Onde é que Cristo refere apenas um baptizado?

Que prova apresentam sobre a representação de "Deus"?

Um vigário de Deus sem prova de representação, é melhor do que um vigarista?

Saudações.

Anónimo disse...

Caro Alfredo Dinis,

"Parece-lhe que a religião é a causa de todos os males e que nada tem de bom a oferecer à Humanidade?"

Nem TUDO nem NADA nem SEMPRE nem NUNCA.

Guerras em nome Deus? Várias.
Males em nome da religião? Excumunhões, crucificações, (Aquele não vai à missa...)

O que tem de bom a oferecer?
A santidade do rebanho. Os milagres no rebanho. Ainda que muitos falsos... só para a esmolinha do santinho e a notoriedade da freguesia...

"Pondo en relevo apenas os aspectos negativos seja do que for, leva a conclusões viciadas à partida. E chamamos a isto o triunfo da razão?"

Plenamente de acordo.
Espirito negativo não é benéfico.
Consegue imaginar educação civil, sem educação religiosa?
Consegue imaginar o paraíso na terra, sem existir o "paraíso" no céu?

Saudações,

Alysson Flizikowski disse...

Esse não é o meu blog, mas respondendo a pergunta feita acima:

"O que é fundamental para a fé cristã? A proibição do uso do preservativo? Apenas Homens como cardeais? Quando é que as Mulheres serão tratadas com igualdade? Onde é que Cristo refere apenas um baptizado?"

R. Nenhuma dessas questões levantadas é fundamental para a fé Cristã. São instrumentos para ela, mas fins em si mesma. O fundamento da fé Cristã é a encarnação de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, sua ressurreição, sendo que tais atos são os marcos de seu evangelho da vinda do Reino de Deus, que conforme diz a escritura, não vem em visível aparência, mas desenvolve-se no interior dos homens, por meio do Espírito Santo, que convence o homem do pecado e do juízo.

Que prova apresentam sobre a representação de "Deus"?

A prova são os sinais e o testemunho, que é a luz brilhando na escuridão (ignorância da verdade, desesperança). Muitas verdades são auto-explicativas e independem de provas empíricas. São as verdades da consciência, que atestam os atos sem testemunha. Imagino que a idéia de representação tenha haver com a de um vigário (Papa). Isso é uma doutrina católica, não endossada por todos os cristãos, como eu. Não que o papa seja um vigarista, existiram papas e papas, uns melhores outros piores, a palavra de Deus é eterna (não confudir com sola scriptura stricto sensu) e o que não está fincado nela (Cristo é a árvore, os cristãos, os ramos) é Anathema, seja o apóstolo, Papa ou qualquer outro.

Alysson Flizikowski disse...

Errata:

mas NÃO SÃO fins em si mesmas.

Anónimo disse...

Nice post and this mail helped me alot in my college assignement. Thank you for your information.

Xiquinho disse...

Caro Alfredo,

Por regra, eu acredito muito mais naquilo que diz o Alfredo do que, o que diz a Igreja, mas desta vez não me parece que tal seja possível: que a Católica é a única que salva, não são nem os cristãos, nem ateus quem afirma, mas sim o catecismo católico: “A única Igreja de Cristo, como sociedade constituída e organizada no mundo, subsiste na Igreja católica, (…). Só por meio dela se pode obter toda a plenitude dos meios de salvação(…).”(162) Ora sendo a Católica, a única que salva, é fácil de concluir que é a única verdadeira. Sendo a única verdadeira, todas as restantes serão falsas, Monsieur de La Palice, não faria melhor.

Já quanto à parte em que disse que as críticas dos ateus são sempre inteligentes, nunca pensei que me fosse levar a sério: basta ler a maior parte das minhas para verificar que isso não é verdade :)

Quanto às críticas dos autores (Harris/Dawkins) julgo que o Alfredo as considera injustas por estar a vê-las numa perspectiva de religião católica. Mas não me parece que fosse nesta religião que os autores estavam a pensar quando as fizeram.

É verdade que hoje em dia a maioria dos católicos, salvo raras excepções, (Olá, Bernardo, uhuh!), podem ser considerados moderados. Sabemos que têm as suas manias, mas nada que se compare com o fanatismo dos islamitas ou mesmo dos evangélicos. Por isso julgo ser que é a estas duas últimas religiões que as críticas se dirigem, sobretudo na questão do literalismo. Eu não vejo como apedrejar mulheres ou acreditar que a terra tem 6 mil anos, possa ser considerado moderado. Repare que, se nas críticas de Harris/Dawkins fizermos o exercício de substituir o termo religião em geral por islamismo/evangélicos, verificamos que passam a fazer muito mais sentido.

Já agora, se me permite a publicidade, deixo um vídeo recente de Harris, não sei se já teve oportunidade de ver, mas sei que se interessa por estes temas e quem sabe, se poderá até servir-lhe de inspiração de mais um equívoco dos ateus:

http://prestonparish.wordpress.com/2010/03/28/sam-harris-science-can-answer-moral-questions/

Renovados cumprimentos

Anónimo disse...

Caro Alysson Flizikowski,

Que mão cheia de nada...

Jogo de palavras, cheias de crenças sobre o que ainda se percebe mal.
O pecado do conto histórico e a ilusão dos sentimentos atribuídos ao sobrenatural.

Mas boa tentativa de resposta.Pena que Harris e Dawkins tornem hilariantes algumas dessas crenças...

Anónimo disse...

"A interpretação literal é para Harris, como para os fundamentalistas, a única interpretação correcta da Bíblia ou de qualquer livro sagrado"

Claro que não. A única interpretação correcta da bíblia é A MINHA.

José Simões

Alysson Flizikowski disse...

É muito fácil rebater a fé Cristã personificada num espantalho, ou seja, é muito fácil rebater a fé cristã sob uma ótica estritamente materialista, reduzindo toda a compreensão da realidade à matéria. Se Deus fosse Matéria, a discussão já teria acabado há tempos, em favor do ateísmo. Contudo, a fé cristã, desde os seus primórdios (Judaismo), professa Deus como um ser transcendente à matéria, espiritual, eterno, necessário, pré-existente a existência (matéria), sendo esta, no caso, contingente. Esse ser "foi concebido" dessa forma há milênios, e a melhor "refutação" a ele que eu já ouvi é que, por sua natureza, não é confirmável nem refutável, fugindo à tangibilidade cientifica. E nisso eu concordo plenamente. Deus não pode ser aferido com se afere qualquer coisa, pois está além. Se tamanha crença fosse nova, poderiamos dizer que a mesma surgiu de forma a se defender de ataques do ateísmo, tal como sugere a forçada figura do monstro do espaguete. Talvez porque o incrível ser "concebido" pela mente humana não tenha sido concebido, mas seja realmente o que se diz dele.

Não é a toa que, há 2000 mil anos atrás, Cristo afirma que as coisas espirituais se discernem espiritualmente. Atacar o reino espiritual com premissas materiais, como faz o ateísmo, é nada mais do que atacar um espantalho. Isso deve ser frustrante para quem quer provar a "inexistência de Deus".

O ateísmo deveria ter sido enterrado quando se descobriu que o universo eterno de Kant na verdade não era eterno, mas possuia um início (Big Bang) e terá um fim. Logo, mais uma vez, Deus se mostra como uma explicação fundamentada, visto que nele não cabe a ridícula pergunta: Quem criou o criador (Dawkins)? O Criador, owra bolas, não foi criado, é eterno, assim como antes se acreditava ser o universo material, mas que hoje sabemos não ser eterno.

Tudo que é material tem um início e um fim, logo, um ser material não poderia ter sido a primeira coisa, visto ser finito. É racional e lógico que a primeira coisa não seja material, mas eterna e dotada de outro atributo (espiritual?). E se admitimos que a primira coisa seja eterna, porque não admitimos que seja Deus, porquê deveria ser uma coisa inanimada, descontituida de vontade e inteligência?

Anónimo disse...

"quando se descobriu que o universo eterno de Kant na verdade não era eterno, mas possuia um início (Big Bang) e terá um fim."

Quem descobriu?

É verdade que a humanidade está a gastar muitos recursos com essa teoria. É um facto. Muitos milhares de milhões de euros em instrumentos gigantescos como o CERN. E como sempre a mão de "Deus" está lá... muito religiosos a conduzir as teorias, nada enviazadas...

Num mundo realmente democrático a maioria deveria decidir o uso desses muitos milhares de milhões de euros...

Mas a partícula de "Deus"...

Anónimo disse...

Ou partimos do pressuposto axiomático de que tudo o que existe deve ser objecto de explicação completa pelas ciências naturais.

Ou partimos de postulados da existência de entidades de outro mundo.

As crenças, a ética, ou experiências subjectivas têm lugar num contexto interpessoal e cultural que vai para além do indivíduo.

A psicologia, neurociências, sociologia, são importantes na formação da consciência bem como o seu desenvovimento cognitivo.

Um ateu no meio de um templo ou um religioso num grupo de ateus. terão eles a mesma percepção dos acontecimentos?

De qualquer forma será sempre importante a noção de verdade, honestidade na descrição da consciência, individual ou colectiva.

De forma consciente, qual a resposta à pergunta:

O que é mais provável:
a explicação pelas ciências naturais.

Ou a existência de entidades de outro mundo?

Embora cada um tente responder, deve existir consciência de que as crenças, a ética, ou experiências subjectivas têm lugar num contexto interpessoal e cultural...

alfredo dinis disse...

Caro Xiquinho,

A passagem que referes afirma a respeito da Igreja Católica que que "Só por meio dela se pode obter toda a plenitude dos meios de salvação." A expressão "toda a plenitude" é significativa, uma vez que permite aceitar que Deus se revelou por meio de outras religiões ainda que de uma forma não plena.

Poderás ler com proveito o texto do Concílio Vaticano II Nostar Aetate onde é tratada especificamente a atitude da Igreja Católica para com as demais religiões. Especificamente acerca do Hinduismo e do Budismo afirma o seguinte:

"A Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens."

Um abraço,

Alfredo

Xiquinho disse...

Caro Alfredo,

De facto a encíclica Nostar Aetate, produzida no âmbito do Vaticano II, demonstra já bastante simpatia com as outras religiões não cristãs, julgo até que terá sido bastante importante para as relações com judeus, uma vez que o anti-semitismo é explicitamente condenado, e bem.

Longe vão já os tempos do saudoso Pio XI, que tinha uma opinião um pouco diferente acerca destas modernices dos ecumenismos que hoje em dia parecem estar tão em voga. Brindava-nos Sua Santidade com esta pescadinha-de-rabo-na-boca, a propósito da unidade da Igreja, na sua encíclica Mortalium Animus:

(…) Esforços semelhantes não têm qualquer direito à aprovação dos católicos, pois baseiam-se nessa opinião errada de que todas as religiões são mais ou menos boas e louváveis, neste sentido de que elas revelam e traduzem todas igualmente - embora de uma maneira diferente - o sentimento natural e inato que nos leva a Deus e nos inclina com respeito diante de seu poder.

Além de se perderem em pleno erro, os participantes dessa opinião repelem com o mesmo golpe a religião verdadeira; eles falsificam sua noção e se dirigem pouco a pouco para o naturalismo e o ateísmo. É perfeitamente evidente que se trata de abandonar inteiramente a religião divinamente revelada e se unir aos partidários e propagandistas de tais doutrinas.


"Nada que já não suspeitássemos há muito tempo”, exclamou a minha Milu, quando lhe li o último parágrafo. “Então, Milu, que ideias são essas…”, apressei-me eu a repreendê-la. “Uma coisa dessas não se diz, nem a brincar!”

Abraço retribuído

Anónimo disse...

Papa Pio XI (em latim: Pius PP. XI)
Papa entre 6 de Fevereiro de 1922 e 10 de Fevereiro de 1939.

Já foi no século passado... é muito tempo...

Anónimo disse...

"For which reason conventions, meetings and addresses are frequently arranged by these persons, at which a large number of listeners are present, and at which all without distinction are invited to join in the discussion, both infidels of every kind, and Christians, even those who have unhappily fallen away from Christ or who with obstinacy and pertinacity deny His divine nature and mission. Certainly such attempts can nowise be approved by Catholics, founded as they are on that false opinion which considers all religions to be more or less good and praiseworthy, since they all in different ways manifest and signify that sense which is inborn in us all, and by which we are led to God and to the obedient acknowledgment of His rule. Not only are those who hold this opinion in error and deceived, but also in distorting the idea of true religion they reject it, and little by little. turn aside to naturalism and atheism, as it is called; from which it clearly follows that one who supports those who hold these theories and attempt to realize them, is altogether abandoning the divinely revealed religion. "

http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19280106_mortalium-animos_en.html

Anónimo disse...

"Conscientia igitur apostolici officii cum moneamur, ut dominicum gregem perniciosis ne sinamus circumveniri fallaciis, vestram, Venerabiles Fratres, in cavendum eiusmodi malum diligentiam advocamus; confidimus enim, per scripta et verba cuiusque vestrum posse facilius et ad populum pertingere et a populo intellegi quae mox principia et rationes proposituri sumus, unde catholici accipiant quid sibi sentiendum agendumve cum res est de inceptis quae eo spectant, ut, quotquot christiani nuncupantur, ii omnes in unum corpus quoquo pacto coalescant.

A Deo, universarum rerum Conditore, idcirco creati sumus ut eum cognosceremus eique serviremus; plenum igitur Auctor noster ius habet, ut sibi a nobis serviatur. Potuit quidem Deus regundo homini unam tantummodo praestituere naturae legem, quam scilicet, creando, in eius animo insculpsit, eiusque ipsius legis ordinaria deinceps providentia temperare incrementa; at vero praecepta ferre maluit, quibus pareremus, et decursu aetatum, scilicet ab humani generis primordiis ad Christi Iesu adventum et praedicationem, hominem ipsemet officia docuit, quae a natura rationis participe sibi Creatori deberentur: « Multifariam multisque modis olim Deus loquens patribus in prophetis, novissime diebus istis locutus est nobis in Filio »"

http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19280106_mortalium-animos_lt.html

alfredo dinis disse...

Caro Anónimo,

Sim, as palavras de Pio XI já são do século passado. O que ele afirma basicamente é que para um católico as diversas religiões não valem todas o mesmo. E isto tem a sua lógica, uma vez que se os católicos não estivessem convencidos de que Deus se manifestou em Jesus Cristo, poderiam escolher qualquer outra religião.

Esta posição não significa que os católicos considerem as outras religiões inteiramente falsas. São duas coisas distintas: uma delas é dizer que todas as religiões têm o mesmo valor; outra é dizer que a religião católica é considerada aquela em que Deus se manifestou, sem que isto signifique negar que Deus se manifeste também, de modos diversos, em outras religiões. Esta foi já a posição dos Padres da Igreja, nos primeiros séculos do cristianismo ao afirmarem que em todas as culturas se encontram "sementes do Verbo", sendo aqui o Verbo o mesmo que Cristo. A Igreja Católica nunca se afastou desta posição, por mais que alguns não crentes o afirmem.

As palavras de Pio XI têm que ser lidas no contexto conturbado e algo confuso da sua época. Foi um período de muita criatividade filosófica e teológica, em que se faziam afirmações de todo o género, algumas das quais inaceitáveis pela Igreja Católica. Há certamente valores no modernismo, mas também muitas propostas que se afastavam do núcleo da fé católica. Este facto permite explicar o tom severo das palavras do Papa.

Entretanto, as coisas mudaram. O Concílio Vaticanbo II representa um ponto de viragem muito importante na compreensão de muitos aspectos da fé. O núcleo da fé permanece o mesmo, mas a afirmação de que há elementos de verdade em outras religiões, para além da católica, por exemplo, é hoje mais clara e pacífica.

Vejo que alguns não crentes preferem repetir insistentemente que as afirmações da fé são por definição inquestionáveis, mas há que ter em conta que a expressão do modo como essas verdades são compreendidas não permanece rigidamente intocada. Ao contrário do que pensam alguns não crentes, há espírito crítico na Igreja Católica, há mudanças de linguagem, de pontos de vista, porque a inteligência e o espírito crítico não estão só do lado do ateísmo, ao contrário do que crêem os não crentes. Por conseguinte, convém que, na sua crítica, os não crentes não se fiquem apenas pelo passado da fé católica mas tenham em conta também o seu presente.

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

"Certainly such attempts can nowise be approved by Catholics, founded as they are on that false opinion which considers all religions to be more or less good and praiseworthy, since they all in different ways manifest and signify that sense which is inborn in us all, and by which we are led to God and to the obedient acknowledgment of His rule. Not only are those who hold this opinion in error and deceived, but also in distorting the idea of true religion they reject it, and little by little."

"Por conseguinte, convém que, na sua crítica, os não crentes não se fiquem apenas pelo passado da fé católica mas tenham em conta também o seu presente."

" a fé do crente moderado seria uma fé concordista com o novel conhecimento, uma espécie de camaleão que se adequa ao que é tido como verdade."

É esta incerteza na tolerância religiosa que é responsável pelo fundamentalismo religioso.
Uma vez que não se ficam apenas pelo passado da fé católica mas têm em conta também o seu presente incerto.

Equívoco?

Cumprimentos.

Anónimo disse...

O que impede de se considerar no futuro que a crise do sub-prime levou a um "contexto conturbado e algo confuso da sua época" levando Bento XVI a palavras de circunstância? Deus não ilumina o caminho?

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,
Deus ilumina o caminho mas não caminha por nós. E o caminho humano, mesmo iluminado com a luz divina, é feito de tudo o que é humano: erros, hesitações, confusões, emoções, interesses, inteligência, boa-vontade, bom senso, etc. Deus espera que sejamos nós a fazer o caminho. Prefiro um Deus assim a um deus que me resolvesse todos os problemas e não me deixasse a tarefa de procurar a verdade por entre as luzes e sombras do caminho.

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

(Com grande sorriso)
Há sempre aqueles que gostam de sofrer...
(em tom de brincadeira)
Sobre religiões verdadeiras e falsas. O filme "5º Elemento" logo nos primeiros minutos mostra cinco representantes de diferentes religiões sentados mas apenas um oferece uma explicação para o que está a acontecer. Nesse sentido haverá uma única religião verdadeira? Ou serão todas falsas?
(em tom sério)
De qualquer forma o extremismo só tem caminho aberto quando financiado. Não tenho provas de que as religiões "moderadas" financiem as religiões "extremistas". No entanto vários países ditos defensores da liberdade financiam o "extremismo" com venda de armamento e financiamento de outros países instáveis. Ex.: 900 Milhões para o Paquistão.
(em tom de provacação)
O que diz o vaticano sobre os 900 Milhões para o Paquistão e apenas 50 Milhões para o Haiti? Qual o caminho da religião?

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

As dádivas de uns países a outros têm sempre escondidos interesses de vária ordem, sobretudo económicos e políticos. Isto poderá ajudar a responder à tua questão.

Saudações,

Alfredo Dinis

Sinais no Mundo... disse...

Obrigado por este espaço...

Anónimo disse...

Assim se faz o percurso da intervenção divina aos "escondidos interesses de vária ordem", bem mundanos...

Anónimo disse...

Deixar de ser baptizado é possível!

O apóstata pode pedir formalmente para ser retirado dos registros da religião em causa deixando assim de ser contabilizado para todos os efeitos legais.

Apostasia (em grego antigo απόστασις [apóstasis], "estar longe de") não se refere a um mero desvio ou um afastamento em relação à sua fé e à prática religiosa. Tem o sentido de um afastamento definitivo e deliberado de alguma coisa, uma renúncia de sua anterior fé ou doutrinação. Pode manifestar-se abertamente ou de modo oculto.

Dependendo de cada religião, um apóstata, afastado do grupo religioso no qual era membro, pode ser vitima de preconceito, intolerância, difamação e calúnia por parte dos demais membros activos. Um caso extremo, é aplicação da pena de morte para apóstatas na religião islâmica em países muçulmanos, como por exemplo, na Arábia Saudita.

Apostasia para efeitos Legais

O apóstata pode pedir formalmente para ser retirado dos registros da religião em causa deixando assim de ser contabilizado para todos os efeitos legais, o que acontecia no caso de religiões cristãs em consequência do acto de baptismo sobre o qual ele não teve (na maioria dos casos) qualquer intervenção consciente. Esta vertente "legal" da apostasia é relevante mesmo em países com separação formal entre o estado e a religião, tendo em conta que muitas decisões políticas em relação às religiões são feitas de acordo com as estatísticas de pessoas registadas e não com o número de pessoas que efectivamente a praticam!

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (11:21),

Sobre a diminuição do número de baptizados, duas notícias, uma boa e outra má.

A boa é que não sofrerá perseguição por parte da Igreja Católica se pedir para deixar de pertencer ao número dos baptizados. Para esta Igreja, a pessoa é livre perante a sua consciência, por muito que os não crentes tendam a negar esta posição.

A má notícia (para si) é que todos os anos há um número considerável de crianças, jovens e adultos em condições de terem consciência do que fazem, que pedem o baptismo, quer à Igreja Católica,quer a outras Igrejas Cristãs.

Por outro lado, o facto de o anónimo e outras pessoas pedirem para deixar de pertencer ao número dos baptizados numa qualquer igreja, seja ela a Católica ou outra, falsifica a muito apregoada tese dos não crentes de que não se deve baptizar as criancinhas uma vez que isso as torna incapazes de renunciar à fé quando forem adultas. O anónimo é um exemplo de como isto é falso.

Saudações,

Alfredo Dinis