22 de setembro de 2010

A narração bíblica da criação


Israel sempre acreditou em Deus Criador, e esta fé é partilhada com as grandes civilizações do mundo antigo. De facto, mesmo nos momentos de eclipse do monoteísmo, todas as civilizações conheceram sempre o Criador do céu e da terra. Existe uma surpreendente crença comum, mesmo entre civilizações que podiam nunca ter tido qualquer contacto entre si. Nesta crença comum, podemos compreender o profundo e nunca perdido contacto que os seres humanos tiveram com a verdade de Deus. Em Israel, o tema da criação passou por diversas fases. Nunca esteve totalmente ausente, mas não foi sempre igualmente importante. Houve tempos em que Israel estava de tal modo preocupado com os sofrimentos ou as esperanças relacionadas com a sua própria história, tão fixado no aqui e agora, que dificilmente poderia encontrar alguma utilidade em olhar retrospectivamente para a criação; de facto, dificilmente o poderia ter feito. A época em que o tema da criação se tornou dominante ocorreu durante o exílio na Babilónia. Foi então que a narração que lemos atrás – baseada, é claro, em antiquíssimas tradições – assumiu a sua presente forma. Israel tinha perdido a sua terra e o seu templo. De acordo com a mentalidade de então isto era incompreensível, uma vez que isso significava que o Deus de Israel fora vencido – era um Deus cujo povo, cuja terra e cujos adoradores podiam ser-lhe arrebatados. Um Deus que não podia defender os seus adoradores e o seu culto era visto, naquele tempo, como um Deus débil. De facto, não era de modo nenhum Deus; tinha perdido a sua divindade. E por isso, o ter sido expulso da sua própria terra e apagado do mapa, foi para Israel uma prova terrível: terá o nosso Deus sido vencido e a nossa fé esvaziada?

Neste momento, os profetas abriram uma nova página e ensinaram a Israel que só então surgia a verdadeira face de Deus e que ele não estava limitado àquele pedaço de terra. Nunca estivera: tinha prometido aquele pedaço de terra a Abraão antes de ele ali se instalar, e tinha sido capaz de libertar o seu povo do Egipto. Podia fazer ambas as coisas porque não era apenas o Deus de um lugar, ele tinha poder sobre o céu e a terra. Por conseguinte, poderia ter conduzido o seu povo sem fé para uma outra terra com o objectivo de aí se revelar. E assim se compreendeu que o Deus de Israel não era um Deus como os outros deuses, mas sim um Deus que tinha poder sobre todas as terras e povos. E tinha todo este poder porque ele mesmo tinha criado tudo no céu e na terra. Foi no exílio e na aparente derrota de Israel que se verificou um despertar para a consciência do Deus que tem nas suas mãos todos os povos e toda a história, que possui todas as coisas porque ele é o criador de tudo e a fonte de todo o poder.

BENTO XVI, No Princípio Deus Criou o Céu e a Terra, Ed. Principia, 2010.

1 comentário:

Nuno disse...

Bento XVI não deixa de nos surpreender com o seu conhecimento tão vasto e tão atraente!

De facto, são vários os seus livros e muito bem escritos. Ele presta assim um enorme serviço à Igreja e todos ganhamos com isso.