13 de outubro de 2010

Castidade - uma forma de amar

Entre as perguntas-tipo que se costumam fazer a um padre, um consagrado, ou a uma pessoa que se prepara para tal, estão, quase sempre, aquelas que se prendem com a castidade, o celibato e a sexualidade… Por isso, pareceu-nos importante falar um pouco sobre o que seja o voto da castidade para um jesuíta, sem a pretensão de elaborar aqui qualquer tratado sobre o tema.

Para dissipar desde já alguns preconceitos quanto à questão, convém referir que a castidade não constitui uma negação, nem sequer uma repressão da sexualidade humana. Com efeito, pelo voto de castidade – um dom recebido de Deus – o jesuíta faz uma entrega radical da sua vida a Deus e ao seu serviço. Esta entrega faz-se no contexto de uma relação única com a pessoa de Jesus, e é o amor a esta Pessoa que impele o jesuíta a abdicar de qualquer relação exclusiva com alguém, de um casamento, ou da constituição de família.

Porque é dom, para um jesuíta a castidade não faz qualquer sentido se entendida num plano de mera santificação pessoal. Pelo contrário, este voto possui um carácter essencialmente apostólico, ou seja, é exigido pelas necessidades e pela urgência do Reino. Explico-me: o jesuíta não faz voto de castidade porque assim vai ser mais santinho; mas é a paixão pelo Reino, pela missão, pelo serviço, que implica um tal estado de vida. Desta forma, mais do que continência sexual, a castidade consiste em o consagrado ter encontrado um tesouro (o Reino) pelo qual está disposto a dar tudo (cf. Mt 13, 44).

Nestes termos, o jesuíta há-de viver sempre a castidade no meio de pessoas, em relações de proximidade, profundamente implicado na vida daqueles a quem serve. Viver de tal forma será possível, se o jesuíta vive uma relação profunda e íntima com Jesus, que lhe permite, ao mesmo tempo, estar inteiro, próximo e profundamente disponível para cada homem e mulher a quem serve, sem se apropriar da amizade ou do amor de ninguém. Assim, irá aprendendo a integrar positivamente, e de forma progressiva, a sua afectividade e a capacidade de amar e ser amado.

6 comentários:

Anónimo disse...

"sem se apropriar da amizade ou do amor de ninguém". Então quer isto dizer que no casamente existe uma apropriação da amizade ou do amor de alguém? Porém, a amizade e o amor não estão no âmbito de propriedades ou apropriações, mas sim da criatividade e da relação "entre" o Eu e o Tu. Portanto, no casamento também não existe uma apropriação do amor ou amizade de ninguém, pois isso constituiria a negação desse amor e amizade. Não é?

Anónimo disse...

Para além disso, duas pessoas que vivem o matrimónio também podem estar inteiramente disponíveis na construção do Reino. Penso que não existe incompatibilidade. Aliás, vemos muitos casais que partem mesmo para a missão na ajuda dos mais necessitados...

A única coisa que não entendo racionalmente é a questão da regra disciplinar do celibato "obrigatório" para quem tem a vocação sacerdotal. Porque é que Deus não pode chamar simultaneamente uma pessoa para o sacramento da ordem e para o matrimónio?

José disse...

Celibato é diferente da Castidade.

O Celibato (do latim cælibatus que significa "não casado") na sua definição literal é uma pessoa que se mantém solteira, podendo manter relações sexuais, logo não precisa se manter casto...

Quando se tem um biotério é fácil observar o comportamento dos ratinhos, das nossas "ovelhas"...

Se o ratinho tem apenas um espaço, não pode fazer "casa" e fica manso, de fácil trato...

Se se dá possibilidade ao ratinho de fazer casa, simplesmente com um cartão de um rolo de papel higiénico que terminou, o ratinho fica feliz e toma como seu aquele espaço, constroi família... mas o tratador que tente colocar a mão... a defesa do particular, a defesa da casa, o instinto torna o rato agressivo...

Porquê o Celibato? Não tenho ideia...

Pastor ou ovelha?

joão de brito disse...

Caro anónimo,

A castidade é, no fundo, a disponibilidade para o outro, ou o "tu". Por exemplo: se há uma causa, vamos supor humanitária, que me atrai, ela implica uma deslocação, uma disponibilidade, que no fundo é liberdade na relação com aqueles com quem estou no momento de me deslocar. Se a relação é de apropriação, minha ou de outros sobre mim, não sou livre para me dedicar a essa causa, a esse(s) outro(s).

Assim, "sem se apropriar da amizade ou do amor de ninguém" significa essa liberdade nas relações que faz delas relações de gratuidade e gratidão. Isso vale para cada cristão. Recebe de Jesus simultaneamente o exemplo e o chamamento a viver essa liberdade.

Todo o cristão é, por isso, chamado a viver a castidade, mesmo casado. Por isso, como diz, no casamento também não há-de haver apropriação, mas disponibilidade/dedicação ao "tu".

Para o casado, a disponibilidade é para aquele "tu" (sem que isso entre em conflito com a sua relação com Deus). Para o religioso, a disponibilidade é para Deus ao serviço da humanidade, de cada humanidade com quem se cruza.

Porque o casado também vive a castidade se vê que a castidade não significa repressão da sexualidade. Ela é vivida pelo casal exactamente como dedicação e não como apropriação. O religioso não tem uma relação de parceiro uma vez que a sua vida é consagrada a Deus, enquanto a do casal é consagração mútua entre o homem e a mulher.

Claro que duas pessoas que vivem o matrimónio também participam, na sua disponibilidade, na construção do Reino. Mesmo o tempo que vivem voltados para a família e não para algo exterior é tempo dedicado ao Reino, uma vez que este também aí acontece. Mas aquele que faz votos sente o desejo de se unir a Deus enquanto este trabalha em todas as coisas pela salvação da humanidade. Sente um desejo particular e total como paixão da sua vida por esse trabalho de Deus. Configura-se, assim, como sinal profético do Reino, desse trabalho de Deus no mundo.

Muito se tem pensado acerca do celibato. Se o pensarmos como regra disciplinar é algo mutável. Se o pensarmos como algo próprio da vocação particular do sacerdote, como é no religioso, é algo que permanecerá. As opiniões divergem, mesmo considerando que nem sempre o sacerdócio foi celibatário. A resposta dependerá muito do modo como a Igreja -- que não é uma pessoa, ou um conjunto reduzido de pessoas, mas toda a multidão dos cristãos -- olhar para o sacerdócio e o compreender. Será que Deus pode chamar simultaneamente uma pessoa para o sacramento da ordem e para o matrimónio?

Espero ter contribuído para a sua reflexão.

Os melhores cumprimentos,
João

joão de brito disse...

Caro José,

"Pastor ou ovelha?" Depois do exemplo que dá de ratos num biotério, torna-se uma pergunta interessante.

Se, no seguimento do comentário que publiquei acima deste, o sacerdote se configurar como sinal profético do Reino, do trabalho de Deus no mundo, como se diz do religioso, então a resposta poderá ser "pastor".

Para que faça sentido falar assim é necessário, sem perder de vista as semelhanças, guardar também a diferença entre o que é a vida humana e a de rato num biotério. O peso do instinto é diferente se outro valor se oferecer.


Os melhores cumprimentos,
João

Nuno disse...

Gostei da forma como esta questão foi apresentada.

Acho que a castidade e o respeito por nós próprios são questões a que a nossa sociedade contemporânea não tem dado a devida atenção. E os graves resultados estão à vista.

Agradeço aos que generosamente tomam posição pelo bem.