24 de outubro de 2010

O “longe” e o “perto”: medir para lá da métrica

Dois homens entram no templo, procurando naquele espaço um lugar que corresponda à sua geografia interior. Entram; mas de um modo tão diverso que só por coincidência chegam a ocupar a mesma divisão.

Nem sempre avançar significa tornar-se próximo. A história está cheia desse paradoxo topográfico. Tantas vezes pisámos “mundos novos” sem termos abandonado “a terra pátria”; tantas vezes trocamos olhares – como numa sala de espera de um consultório, num elevador, no vão de escadas do prédio – sem que o afecto (ou pelo menos a educação) reaja ao que invade a retina. Avançamos, partilhamos espaços mas permanecemos distantes, possivelmente porque a métrica das relações é diversa. Mas, que naus havemos de queimar para chegarmos deveras às terras que pisamos? O que faremos para que os mundos se toquem?

O zelo empurrou o primeiro homem para a linha da frente; e avançou. Dois passos volvidos, o segundo parou. Ficou exactamente onde estava. Ali ao longe, aquele homem estava profundamente próximo de si, da sua história. A distância exterior, da parede onde estava encostado à que extremava o templo, correspondia à medida interior. O reconhecimento da “verdade de si” e da lonjura face ao próprio sonho – “sou um homem pecador” – abriu espaço para que o Outro se aproximasse e pudesse tocá-lo por inteiro.

Possivelmente viveremos sempre a tensão entre o desejo de ocuparmos o primeiro lugar do esforço, da generosidade, do empenho e da própria vida, e a lucidez de que somos frágeis diante do tanto que queremos e podemos. Mas esse céu por que suspiramos requer o nosso próprio chão. Reconhecer-se (ou assumir a própria história) será, então, o caminho de aproximação entre tempo (a recordação – passado –; a acção – presente –; o desejo – futuro) e espaço (do outro para mim; de mim para o outro; da gratuidade entre ambos).

Nem todo o esforço religioso é sinal de fé, porque só se avança para Deus se nos aproximarmos da nossa própria humanidade. A comunhão será, então, o lugar de coincidência entre “longe” – diferença – e “perto” – encontro.

Lc 18, 9-14

2 comentários:

Anónimo disse...

E mostru-me a cidade santa,[...], que descia do Céu, de junto de Deus[...]Não vi na cidade nenhum templo. Ap 21

Como entram dois homens no templo?

Porque existem "templos" de pedra fria externos ao Senhor, a Deus?

Anónimo disse...

Muito interessante.

Recentemente li um livro que fala sobre:
O que faremos para que os mundos se toquem?

http://www.wook.pt/ficha/a-apokalypsis/a/id/2340158

E com uma perspectiva da cidade santa.

Cumprimentos,