10 de outubro de 2010

reconhecendo uma presença que salva

Um dos lugares onde a nossa fé é posta em causa, é diante da realidade quotidiana do sofrimento, qualquer que seja a dimensão em que este se manifesta. Neste domingo, as leituras colocam-nos diante de duas curas. Uma a Naamã, outra a 10 leprosos. Será que a cura física é a salvação que Jesus nos traz? Diante de gente que, sendo boa, não é curada dos seus sofrimentos, poderá dizer-se que Deus faz acepção de pessoas? Creio que não. A salvação é algo de muito mais profundo, como as leituras nos atestam. Os milagres são inseparáveis da salvação, mas surgem como sinais quotidianos que, não tendo de ser espectaculares, se apresentam como lugares de Deus. Momentos em que Deus se faz presente, mostrando o Seu lugar em cada história particular. Portanto, os milagres salvam apenas quando O reconhecemos neles.

É curioso reparar que, no Evangelho, dez pessoas são curadas, mas só a um deles é que Jesus diz: “Salvou-te a tua fé”. Os dez ficaram limpos da lepra, mas apenas um foi salvo. Porque será isto? Terá sido só pelo facto de ele ter ido agradecer a cura a Jesus? Se foi por esta razão, Jesus torna-se um bocado caprichoso, porque apenas salva aqueles que lhe vêm agradecer. Parece que assim, a salvação não é gratuita.

Mas, olhemos atentamente para o texto: “Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus”. Ora, a glória de Deus significa: o peso ou valor de Deus. Dar glória a Deus significa: reconhecer o Seu peso, o Seu toque. Este [leproso] samaritano reconheceu a Deus por detrás daquele toque, ao passo que os demais não O reconheceram. O que salvou este estrangeiro, forasteiro de quem nada se espera, foi que ele reconheceu no gesto curador de Jesus, o toque do próprio Deus, Aquele de quem os outros nove pouco ou nada esperaram. Nesta salvação, mais do que uma cura, há uma identificação forte entre o samaritano e Deus; de ambos pouco se espera e mutuamente se recebem.

Portanto, ser salvo não é passar num exame sobre as boas acções praticadas, que acontecerá num juízo final. Ser salvo é ser atingido pela presença de Deus que, por detrás de tantos momentos, Se oferece constantemente a nós. Todos os dez leprosos receberam a Deus, mas só um foi salvo, aquele que, reconhecendo-O como fonte de vida, se identificou com a Sua Vida. Todos nós recebemos a Deus de inúmeras formas, como o inesperado que partilha o nosso caminho. Cada passo consciente e verdadeiro no nosso caminho é já intimidade com Deus, é já início das mãos do Pai. A nós cabe-nos reconhecê-lO e assim seremos salvos. Não por uma cura milagrosa, nem por uma crença mental, mas porque, reconhecendo-O, tornamo-nos nAquele que recebemos. É isto que nos salva!


Evangelho | Lc 17, 11-19

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