13 de outubro de 2010

uma questão de ouvido


Para um estranho, um encontro com um edifício, não importa a sua antiguidade ou o fascínio que os seus traços possam exercer sobre a curiosidade de outros transeuntes, não passará de um tropeção numa muralha de pedras e argamassa a menos que alguém o introduza na história que deu corpo e volume àquela fachada.

Falar de obediência é, sobre muitos aspectos, esbarrar num “edifício” demasiado vistoso para ser ignorado e, no entanto, demasiado antigo para ser lido como algo mais que um obstáculo. No nosso imaginário – político ou religioso –, obediência evoca, sem mais, uma relação de submissão a algo exterior à pessoa que, impondo-se-lhe, a priva da sua própria autonomia e até do uso da consciência crítica. Diante de um monumento assim descrito, que turista ousaria disparar um flash? E se o fizesse, qual seria a legenda desse cenário de holocausto?

Antes de tudo, obediência (a atitude de escuta) tem que ver com atenção. Dar ouvidos. Levar o outro a sério, como quem se apercebe que do lado de lá há alguém ou alguma coisa que nos acena com a possibilidade de uma descoberta. Nenhum cientista o seria se não obedecesse ao que se lhe oferece como pergunta (como é isso possível?); nenhum artista teria cores, sons ou palavras se não se demorasse, com espanto, nos vários mundos que o mundo tem; nenhum apaixonado poderia descobrir o segredo do sorriso daquela a quem ama se não fosse, antes de tudo, um ouvinte embevecido. Esta obediência nasce no deslumbramento: o que temos diante de nós é extraordinário, rindo ou berrando. Aquilo que aproxima o discípulo do seu mestre, algures numas montanhas geladas, não é a resignação à sabedoria do ancião, mas a intuição de que algo na sua brancura vetusta fala de nobreza humana. E isso impressiona. E isso nutre o íntimo desejo de realização, de cumprimento de si.

A visão fascinante desse mundo que habitamos (mas que, de o admirarmos, também nos invade e vive em nós) confunde-se com o nosso próprio sonho de cumprimento. Somos no mundo. A abertura ao mundo, atenta, demorada, apaixonada, obediente, levar-nos-á à escola da construção de nós mesmos. O mundo que apreciamos diz-nos que não nos faremos isoladamente, fechados em nós.

Nesta medida, se a obediência fala de escuta, fá-lo para nos introduzir num diálogo. Afinal, de onde nos vêm as palavras se não as colhermos, se não nos sentarmos com elas à mesa do nosso próprio silêncio e, mastigando-as, as fizermos nossas? As palavras precisam de ser decantadas, ou não serão [nossas], ainda que tenhamos sido nós a soltá-las. A obediência é o berçário das palavras: das que recebemos e, ruminando, fazemos nossas; das que cultivamos em nós e entregamos aos outros. Sem ela o diálogo seria profundamente impessoal: somente uma troca de sons e rabiscos.

A obediência só será humana enquanto nos levar a essa escola de comunicação. E, humanamente falando, nada é tão comunicativo quanto o amor. Dificilmente alguém daria ouvidos a um autómato, por eficaz que fosse nos seus comandos; mas quem recusaria cedê-los a alguém amável, amante e amado? No vocabulário cristão, obedecer e amar estão tão próximos como as unhas distam da pele, porque receber, cuidar e agir em favor do outro – que são o horizonte do amor – são exercícios de obediência, e só poderão ser cumpridos no pleno exercício das nossas faculdades. Quando se ama, ama-se por inteiro, com o corpo todo (pele e ossos; inteligência e criatividade). Obedece-se assim, também. Se amar e obedecer se confundem, e se o amor não obriga mas liberta, então só alguém profundamente livre poderá ser obediente. Porque não se ama por imposição.

6 comentários:

Teresa Sarmento disse...

"Não se ama por imposição"
Que grande é Deus que nos deu a liberdade para O amarmos, sendo tanto mais livres quanto mais obedientes por Amor!

Anónimo disse...

Caro Rui,

Parabéns pelo seu texto.

No entanto
Obdiência - obodire - ob audire
Obdiência - obedire - ob udire
É uma questão para além da etimologia.
E o que faz com o que ouviu?

"Dificilmente alguém daria ouvidos a um autómato,"
Já usou GPS? "Vire à esquerda"...

A questão da obdiência está no passo entre ouvir e fazer nosso o que ouvimos... Percebemos correctamente? verificamos se é verdade? Concordamos?

Um diálogo permite perceber se a mensagem foi recebida correctamente uma vez que o receptor pode ter um modelo diferente de descodificação do sinal enviado pelo emissor. O uso de um dicionário comum é necessário. Os sinais têm de ter o mesmo significado sob pena de erro na comunicação.

Outro passo é a verificação da veracidade da mensagem do emissor.
E esse passo necessita de mais informação para além do emissor, sob pena de se gerar ideias com bases erradas, o famoso "ficar prenho de ouvido". ex: "A Lua é feita de queijo"...

A questão da obdiência está no passo entre ouvir e fazer nosso o que ouvimos... Percebemos correctamente? verificamos se é verdade? Concordamos?

É realmente nosso? Ou é algo que foi incutido de forma tácita, passiva, sem verificação?

Cumprimentos,

Sam disse...

No filme "Reino do céus"
Alguém tenta que os outros obdeçam à frase: "Matar os sarracenos é o caminho do céu"

Rui Miguel Fernandes disse...

Nenhuma coisa se esgota num texto – nem mesmo um livro –, nem o mundo acaba nas suas cinco letras. As palavras, por mais que se expandam, não dizem tudo. As palavras falam de encontros; por isso, os seus silêncios servem-nos de convite a que não nos instalemos na “poesia” dos “nomes” (a nossa obra-prima!), mas que refaçamos o trajecto até ao mundo para o descobrirmos novo e irrepetível e.. real. Essa é a sombra das palavras: o silêncio que fala por dentro de cada letra. Por isso os nomes são também “não-nomes”. O “anonimato” não é uma questão de defeito mas de excesso de realidade.

[Como caso típico encontramos o tema bíblico do nome de Deus: YHWH, “Eu sou (o que é)”. Por vezes, a declaração do anonimato é a forma mais expressiva de anunciar a presença e a disponibilidade para o encontro.]

As interrogações que levanta são absolutamente pertinentes e têm sido discutidas acuradamente ao longo de décadas por uma plêiade crescente de autores. Afinal, conhecemos as coisas? O que significa conhecer? Como conhecemos?

Jamais se ouviu um grito a uma pedra. Nenhum vulcão as fez chorar ao tempo do parto, nem houve qualquer rio que, aleitando-as, gravasse nelas o som do seu próprio nome. O pó não é “pó”. [Lembra-se do “Ceci n’est pas une pipe” de Magritte, certamente.] E, no entanto, o “pó” é a testemunha possível do encontro com uma dedada. O ser humano vive humanamente; a linguagem é uma expressão dessa forma humana de estar no mundo. A construção de nós é, também, uma construção do mundo. O fabrico das imagens, dos sons e dos gestos é o certificado da nossa própria existência, na sua grandeza criativa, mas também na consciência da penumbra que pairará sobre o que faremos. Não teremos acesso às coisas de forma neutra, como se não fosse o nosso corpo a denunciá-las à curiosidade. A pedra só será “pedra” (para lá da grafia) nas mãos de um escultor.
Mas o limite das palavras, se começa em quem as fabrica, prolonga-se na boca dos que a comunicam. Se o significado nasce daquele momento cru em que o ser humano se cruzou com um outro, construindo com sons o memorando desse encontro, a cristalização daquele instante em vocábulos (que as coisas nunca pronunciaram por si) dependeu da experiência de uma comunidade. De algum modo, a palavra é um acontecimento corporativo: desponta num corpo (que a esboça como sinal de espanto face à descoberta de um [corpo] estranho) e é confirmada por um Corpo. O êxodo das palavras (de corpo para Corpo) é atribulado: como ultrapassar esse deserto das coisas – que não falam – e do outro – que as diz a seu modo, com um timbre e uma memória próprios – sem que o silêncio do que fica por dizer as deixe soterradas?

Rui Miguel Fernandes disse...

Inclino-me para a ideia de que, mais, muitíssimo mais do que conteúdos, as palavras carregam historias: a da longa viagem do eu ao outro. E tal só será possível pela confiança. Somos biograficamente diversos, e a linguagem é o nome mais expressivo disso mesmo. Como poderemos, então, comunicar?

A obediência, no seu sentido mais habitual, levanta – legítimas – suspeitas na medida em que assenta numa movediça noção de autoridade. Jamais obedecerei – num sentido propriamente humano – a alguém que se me afigure ameaçador. Enquanto o outro surgir como possível agressor (como no caso da opressão), não poderei ser verdadeiramente obediente – como aquele apaixonado de que falava –, mas serei somente um lacaio.
A comunicação arranca da confiança no outro. As palavras são pontos de encontro, tanto mais profundos quanto mais elas nos levarem ao lugar donde elas mesmas brotaram: o espanto balbuciante que vibrou ao tactearmos a vida. Por isso os melhores diálogos são tão silenciosos – que o digam os amantes, os confidentes, os artistas, os agricultores, … Este silêncio nu será o vocábulo mais gritante da existência.
Só poderei obedecer se houver intimidade para que o outro me invada e se deixe invadir. A obediência cristã não assenta numa eficácia executiva (“faz isto!”), mas na gratuidade de quem quer comunicar, ou seja: receber verdadeiramente o outro na sua casa. Por isso, o problema fundamental da obediência não está na interpretação do código (por mais que isso acrescente ao diálogo) mas na visão sobre o interlocutor. Porque a disponibilidade para receber o outro, essa sim, há-de marcar o modo como lemos o que nos diz.

[Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» (Lc 10,26)]

NOTA: obviamente, nada disto esgota a questão! São apenas pequenos apontamentos. Abraço, e muito obrigado.

Anónimo disse...

Caro Rui,

Posso perguntar porque se limita a um interlocutor?

Pode sempre verificar com outros...

Pergunto também se todas as mensagens de um dado interlocutor merecem a mesma credibilidade...

Tem toda a razão quando diz que a visão do interlocutor interfere na mensagem. Marca e muito como lemos a mensagem...
(de um mentiroso) há fogo!
(de um bombeiro) há fogo!
(de um pirotécnico) há fogo!
...

Cumprimentos,